Diacronia
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A Lingüística diacrónica, ao propor uma visão diacrónica estuda não as relações entre os termos coexistentes de um estado de língua (como acontece na sincronia), mas entre termos sucessivos que se substituem uns aos outros ao longo do tempo.
É a linguística tendo como alicerce e viés de leitura a história dos termos.
[editar] Definição do termo
"A Lingüística diacrônica estuda, não mais as relações entre os termos coexistentes de um estado de língua, mas entre termos sucessivos que se substituem uns aos outros no tempo ".
É com o parágrafo acima que o tópico “Diacronia” se inicia no “Curso de Lingüística Geral”, obra que ainda hoje é referência para grande parte dos estudos lingüísticos, mesmo sendo datada do início do século passado. Outra definição parecida para os estudos diacrônicos é a de Carlos Alberto Faraco, que define diacronia como “o estudo da história das línguas”.
"Se estudamos as mudanças da língua no tempo (comparando, por exemplo, o português do século XIII com o do século XVI e com o do século XX), estamos fazendo um estudo diacrônico” (Faraco, 1998, p. 129) .
Apesar de ambas definições serem semelhantes, as pesquisas na área da lingüística diacrônica não possuem a homogeneidade que teoricamente deveriam possuir, como por exemplo os aspectos conflitantes em duas análises sobre o problema da relação dos termos pecu e pecúnia. Esses termos aparecem em três grandes dialetos: no indo-iraniano, no germânico e no itálico , e são alvos de estudos cujas conclusões não são convergentes. Os textos são:
- Capítulos 3 e 4 do “Vocabulário das Instituições Indo-Européias”, de Émile Benveniste.
- “Ensaio de Semântica”, de Michel Bréal.
[editar] Análise
Émile Benveniste critica o raciocínio utilizado pelos comparatistas, do qual compartilha Michel Bréal. O método comparatista, segundo Faraco (op. cit., pp. 84-85), tem como ponto de partida a publicação em 1808 de um texto de autoria de Fridrich Schlegel sobre a língua e a sabedoria dos hindus. Nele o autor estabelece a tese de parentesco (principalmente entre as estruturas gramaticais) entre o sânscrito, o latim, o grego, o germânico e o persa. Mas foi somente com Bopp que esse parentesco foi empiricamente revelado, e o método comparatista efetivamente criado. Foi ainda através deste mesmo método que os lingüistas ditos comparatistas, gramáticos e neogramáticos fizeram a reconstituição hipotética de várias línguas, entre elas o Indo-Europeu. Essa abordagem comparatista propõe que o termo pecúnia, no latim, designava então a riqueza em gado; pecu designava gado e peculium, a parte do gado deixada aos escravos. Num processo entendido pelos etimologistas como “ampliação de sentido”, o termo pecunia passou então a designar toda espécie de riqueza. Michel Bréal diz que esse processo é um lento deslocamento de sentido, sendo necessária para sua observação uma profunda análise histórica e, apesar de julgá-lo como um fenômeno de ocorrência “normal”, sua presença deveria ocorrer em povos cuja vida e pensamento são “intensos e ativos ”. Benveniste não chega a citar a análise elaborada por Bréal (para contrapor um exemplo, ele prefere o nome de Meillet), nem mesmo duvida da relação formal entre os três termos em discussão (pecu, pecunia e peculium), ele apenas aponta um outro viés na forma de entendê-la. A análise proposta por Emile Benveniste situa-se dentro do paradigma estruturalista. O Estruturalismo, segundo Faraco, pode ser definido como:
"Um conjunto de diferentes elaborações teóricas, que compartilham uma concepção imanentista da linguagem verbal (isto é, a linguagem assumida como um objeto autônomo, definido por relações puramente lingüísticas, internas), concepção essa cujas coordenadas básicas encontram suas origens próximas no trabalho de Saussure, no início do século XX" (Faraco op. cit., p. 98).
O estruturalismo foi permeando várias outras ciências e seu método foi dando vários frutos. Um dos maiores expoentes do estruturalismo foi, sem dúvida, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss. O método estruturalista consiste em se desmontar o objeto recortado e remontá-lo visando-se entender suas relação internas, as leis ou regras que regem sua constituição e o seu funcionamento. Assim sendo, temos na lingüística as grandes dicotomias saussurianas, que servem, antes de tudo, para delimitar corretamente o objeto e abordá-lo sob essa perspectiva, desmontando-o entre essas dicotomias e posteriormente montando-o mais uma vez. Fazendo uso desse cabedal conceitual, Émile Benveniste analisa separadamente os termos que derivaram de pecu, apresentando primeiramente o termo pecunia, e em seguida uma análise do termo peculium:
- Pecunia: Benveniste afirma que se o derivado pecunia significa exclusivamente fortuna, dinheiro; é porque o termo de base pecu se remete somente a um valor econômico, e significa “posse móvel”. Somente desta forma é que pecúnia adquire um sentido constate na história. O autor a diz ainda que a errônea interpretação desses termos deve-se às noções inexatas que foram transpostas pelos primeiros latinos e posteriormente à “ingênua tradução” de pecunia para “riqueza em gado”, feita pelos modernos.
- Peculium: A análise de Benveniste para o termo peculium é análoga à anterior, contudo, este termo encontra-se mais distante de pecu do que o termo pecunia. Sabe-se que esse termo designa a posse concedida aos escravos. Essa noção de posse designada pelo termo está restrita a bens móveis; dinheiro e carneiros de maneira geral. Benveniste diz ainda que “não nos (referindo-se aos lingüistas) cabe indagar por que peculium se remete às economias do escravo e pecúnia à fortuna do senhor; este é um problema da história das instituições, e não da forma lingüística”. O autor deixa bem claro aqui o seu recorte do objeto, retirando de seus estudos o que se refere à história das instituições, restringindo aos estudos lingüísticos.
Enquanto Michel Bréal aponta uma profunda importância para a história das instituições nos estudos da lingüística diacrônica, Benveniste aponta o caminho contrário. A posição de Bréal já é explicitada logo na introdução do capítulo XI de seu “Ensaio de Semântica”, quando ele diz:
“Causas da ampliação de sentido. Os fatos de ampliação de sentido são igualmente informações para história. Eles são uma conseqüência do progresso do pensamento”.
Já em relação ao Benveniste, sua forma de análise diacrônica salienta-se quando o autor conclui que pecu significa “posse móvel pessoal” e que, “se essa posse seja representada pelo gado, seria um outro dado, que diz respeito à estrutura social e às formas de produção. Desta forma pecu designaria inicialmente a posse móvel. Esse, por razões que não cabem à lingüística serem estudadas, é freqüentemente aplicado à posse de gado; e posteriormente à espécie de gado predominante, o carneiro”.
[editar] Bibliografia
- BENVENISTE, Émile – O Vocabulário das Instituições Indo-Européias Vol. I, São Paulo, Editora da Unicamp, 1995.
- BRÉAL, Michel – Ensaio de Semântica, São Paulo, Editora pontes, 1992.
- FARACO, Carlos A. – Lingüística Histórica, uma introdução ao estudo da história das línguas, São Paulo, Editora Ática.
- SAUSSURE, Ferdinand de – Curso de Lingüística Geral, São Paulo, Editora Cultrix.

