Socialismo fabiano

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O Socialismo Fabiano, ou Fabianismo, é um movimento político-social britânico nascido no fim do século XIX, encabeçado pela Sociedade Fabiana. Esta associação foi fundada em Londres no dia 4 de janeiro de 1884, e propunha, como finalidade institucional, a elevação da classe operária para tornar-la apta a assumir o controle dos meios de produção.[1]

Objetivo[editar | editar código-fonte]

O Socialismo Fabiano era caracterizado pelo pragmatismo, rejeitava as idéias utópicas. Não consistia em um movimento revolucionário, mas tinha como escopo a progressão, em um sentido socialista das instituições já existentes.

O Fabianismo era a favor de uma alternativa à propriedade dos meios de produção para por um fim à desordem econômica e aos abusos provocados pelo capitalismo. Defenderam, também, saúde pública e ensino gratuito para todos os cidadãos, assim como a normatização detalhada das condições de trabalho visando atenuar o abuso do emprego de mão-de-obra de crianças e o exacerbado número de acidentes de trabalho. Os primeiros folhetos da Sociedade Fabiana [2] defendiam os princípios da justiça social como a introdução de um salário mínimo, em 1906, a criação de um sistema de saúde universal em 1911.

Sociedade Fabiana[editar | editar código-fonte]

Blue plaque em 17 Osnaburgh St, onde a sociedade foi criada em 1884.

A Sociedade Fabiana é uma agremiação política socialista que se opõem à luta de classes, sendo fundada em Londres no dia 4 de janeiro de 1884,[1]

Recebeu esse nome por valer-se de uma tática gradual e temporizada que lembrava, sob alguns aspectos, a política de Quinto Fábio Máximo, o Cunctator (“o que adia”, em latim), que na sua luta contra Aníbal e os seus cartagineses na Segunda Guerra Púnica adotou uma estratégia bélica de espera e de lento atrito em uma guerra de desgaste.[3] [4] [5] .

O Socialismo Fabiano acredita na gradual evolução da sociedade, através de reformas incipientes e de forma "evolucionista", que portem gradualmente ao socialismo, diferenciando-se do marxismo que prega uma passagem revolucionária ao socialismo.[6] [7] Era inspirada nas ideias de Stuart Mill e sustentava que o bem-estar da maioria exigia o intervencionismo da máquina estatal.

Dentre suas bases teóricas destaca-se "Fabian Essays in Socialism" editada por Bernard Shaw em 1889[8] [9] .

Entre os proeminentes membros da Sociedade Fabiana estão os escritores George Bernard Shaw, Leonard Woolf e sua esposa Virginia Woolf, a anarquista Charlotte Wilson, a feminista Emmeline Pankhurst, o sexólogo Havelock Ellis, os escritores H. G. Wells, George Bernard Shaw[8] e Bertrand Russell[8] , o militante Edward Carpenter, a escritora Annie Besant, o físico Oliver Joseph Lodge, o político Ramsay MacDonald e o escritor Salama Moussa.

No núcleo da Sociedade Fabiana eram Sidney Webb e sua esposa Beatriz Webb. Juntos, eles escreveram numerosos estudos[10] da Grã-Bretanha industrial, incluindo alternativas de economia cooperativa que se aplicavam a posse de capitais, bem como terra.

A Sociedade Fabiana foi componente essencial na criação do Partido Trabalhista, fundado em 1906, e que em 1922 tornou-se a segunda maior força política no Reino Unido, ultrapassando os liberais. O ligação entre a Sociedade Fabiana e o Partido Trabalhista manteve-se por toda a primeira metade do século XX. Em tal período, a maior parte dos indivíduos nomeados ministros do Trabalho eram ou tinham sido membros da Sociedade Fabiana.

Segunda geração Fabiana[editar | editar código-fonte]

O Símbolo do Socialismo Fabiano, representando sua meta de expansão gradual do socialismo.[6]

No período entre as duas Guerras Mundiais, a "segunda geração" Fabiana, inclui os escritores RH Tawney, GDH Cole e Harold Laski. Foi nessa época que muitos dos futuros líderes do Terceiro Mundo foram expostos ao pensamento do socialismo Fabiano, principalmente Jawaharlal Nehru da Índia, que posteriormente adotaria a política econômica da Índia seguindo as linhas do socialismo Fabiano. Após a independência da Grã-Bretanha, as idéias Fabianas de Nehru direcionaram a Índia para uma economia, em que o Estado operava e controlava os meios de produção, em particular os principais setores da industria pesada, como a Metalurgia, telecomunicações, transporte, geração de energia, mineração e desenvolvimento imobiliário. A atividade privada, direitos de propriedade e empreendedorismo foram desencorajados ou reguladas através de autorizações, a nacionalização da atividade econômica e os altos impostos foram incentivados, o racionamento, o controle das escolhas individuais foram consideradas por Nehru como um meio para implementar a versão do socialismo da Sociedade Fabiana.[11] [12] [13] Além de Nehru, vários líderes pré-independência na Índia colonial, como Annie Besant - mentor de Nehru e, posteriormente, a presidente do Congresso Nacional Indiano -. eram membros da Sociedade Fabiana.[14]

Obafemi Awolowo, que mais tarde tornou-se o primeiro-ministro da extinta Região Oeste da Nigéria foi também membro da sociedade no final da década de 1940. Foi à ideologia do Socialismo Fabiano que Awolowo utilizou na Região Oeste, mas foi impedido de usá-la em nível nacional na Nigéria. É pouco conhecido que o fundador do Paquistão, Muhammad Ali Jinnah, era um ativo membro da Sociedade Fabiana em 1930. Lee Kuan Yew, o primeiro primeiro-ministro de Cingapura, afirmou em suas memórias que sua filosofia política inicial foi fortemente influenciado pelo socialismo Fabiano. Entanto, mais tarde ele modificou seus pontos de vista, considerando o idealismo do socialismo como impraticável.[15] Em 1993, Lee disse:

Eles [Sociedade Fabiana] estavam querendo criar uma sociedade mais justa para os trabalhadores britânicos -. O início de um estado de bem-estar, moradia mais barata, medicamentos e tratamento dentário gratuitos, espetáculos livres e subsídios de desemprego generosos. Claro que, para os estudantes vindo das colônias, como Cingapura e Malásia, era uma grande atração como alternativa ao comunismo. Nós não vimos, até a década de 1970, que era o início dos grandes problemas que colaboraram para o declínio inevitável da economia britânica.
Lee Kuan Yew entrevistado por Lianhe Zaobao[15]

No Oriente Médio, as teorias do movimento intelectual da Sociedade Fabiana inglesa do início do século XX inspirou a versão Baathisma. A adaptação no Oriente Médio do Socialismo Fabiano levou o Estado a controlar as grande indústrias, transportes, bancos, comércio interno e externo. O estado iria dirigir o curso do desenvolvimento econômico, com o objetivo final de proporcionar um padrão mínimo de vida para todos.[16] Michel Aflaq, amplamente considerado como o fundador do movimento Baathismo, era um socialista Fabiano. As idéias de Aflaq, com aqueles de Salah al-Din al-Bitar e Zaki al-Arsuzi, tornam-se realidade no mundo árabe, na forma de regimes ditatoriais no Iraque e na Síria.[17] Salamah Mūsā do Egito, outro campeão proeminente do socialismo árabe, era um ativo aderente da Sociedade Fabiana, e era membro desde 1909.[18]

Entre muitos acadêmicos atuais seguidores do socialismo Fabiano são o cientista político Bernard Crick, os economistas Thomas Balogh e Nicholas Kaldor e o sociólogo Peter Townsend.

Declinio[editar | editar código-fonte]

O declínio da Sociedade Fabiana começou em meados dos anos 30, motivado por uma série de fatores que incluem as diversas posições ideológicas concernente à experiência da URSS, e a perda da influência no Partido Trabalhista, suplantada por indivíduos provenientes do sindicalismo e da classe operária. Também influenciou tal declínio a adesão de muito de seus militantes à União Britânica de Fascistas de Oswald Mosley (também ex-membro da Sociedade Fabiana). Todavia, a Sociedade Fabiana continua sua atividade ainda hoje, ainda que hoje não seja tão renomada quanto na primeira metade do século XX.

Na realidade a Sociedade Fabiana alega ter conseguido materializar a maior parte dos seus objetivos, posto que muitas das reformas por ela proposta foram realizadas durante e depois da Grande Depressão. O emergir do Welfare state se deve muito aos esforços e ao trabalho intelectual da Sociedade Fabiana.

Na Itália, Benito Mussolini tomou, em parte, como modelo o Socialismo Fabiano para o seu governo, assim sobre o Socialismo Fabiano desenvolveu-se o projeto fascista de socialização da economia elaborado por Nicola Bombacci.[carece de fontes?]

Socialismo Fabiano hoje[editar | editar código-fonte]

Atualmente a Sociedade Fabiana está passando por um período de renascimento, com um aumento significativo de adesões desde 1997. No parlamento Britânico, na primeira década do século XXI, houve mais membros do Partido Trabalhista associados à Sociedade Fabiana que deputados conservadores, liberais e liberais-democratas somados.[19]

A Sociedade está filiada ao Partido Trabalhista como um sociedade socialista. Nos últimos anos o grupo Young Fabian, fundado em 1960, tornou-se um importante networking de organização e discussão ativista para jovens com menos de 31, e colaborou na eleição de 1994 de Tony Blair como líder do Partido Trabalhista. Hoje também existe a rede web feminina, Fabian Women's Network, e grupos escoceses e galeses da Sociedade Fabiana.

Crítica[editar | editar código-fonte]

Leon Trotsky pensava que o Socialismo Fabiano fosse uma tentativa subreptícia de salvar o capitalismo da fúria da classe operária. A esse respeito disse que “em toda a história do movimento trabalhista britânico houve pressão por parte da burguesia contra o proletariado através do uso de radicais, intelectuais, salas e igrejas socialistas, e owenistas, que repudiam a luta de classe, defendendo os princípios de solidariedade social, pregando a colaboração com a burguesia, se aproveitam, e enfraquecem politicamente o miserável proletariado.[20]

Referências

  1. a b Edward R. Pease, A History of the Fabian Society - The Origins of English Socialism New York: E.P. Dutton & Co., 1916. ISBN 978-1934941324 (ed. de Agosto de 2008)
  2. A lista completa dos folhetos é disponível no site Fabian Society Online Archive
  3. Paolo Viola, Storia Moderna e contemporanea, L'Ottocento, Piccola biblioteca Einaudi, Torino, 2000, pag 264: "...ritenevano che contro lo sfruttamento bisognasse prendere tempo, come aveva fatto Quinto Fabio Massimo "il temporeggiatore" contro i nemci dell'antica Roma, e per questo chiamarono la loro organizzazione Fabian Society"
  4. Sociedade Fabiana, acesso em 12 de janeiro de 2013
  5. <a href="http://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/s/sociedade_fabiana.htm" rel="nofollow" class="external text" style="color: rgb(102, 51, 102); background-image: url(data:image/png;base64,iVBORw0KGgoAAAANSUhEUgAAAAoAAAAKCAYAAACNMs+9AAAAVElEQVR42n3PgQkAIAhEUXdqJ3dqJ3e6IoTPUSQcgj4EQ5IlUiLE0Jil3PECXhcHGBhZ8kg4hwxAu3MZeCGeyFnAXp4hqNQPnt7QL0nADpD6wHccLvnAKksq8iiaAAAAAElFTkSuQmCC); background-color: rgb(255, 255, 255); padding-right: 13px; font-size: 12px; line-height: 17.265625px; background-position: 100% 50%; background-repeat: no-repeat no-repeat;">Sociedade Fabiana</a>, acesso em 12 de janeiro de 2013
  6. a b George Thomson (1 March 1976). THE TINDEMANS REPORT AND THE EUROPEAN FUTURE.
  7. Margaret Cole. 'The Story of Fabian Socialism'. [S.l.]: Stanford University Press, 1961. ISBN 978-0804700917
  8. a b c Hoje na História: 1884 - É fundada no Reino Unido a Sociedade Fabiana, acesso em 12 de janeiro de 2013
  9. <a href="http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/18934/hoje+na+historia+1884+-+e+fundada+no+reino+unido+a+sociedade+fabiana.shtml" rel="nofollow" class="external text" style="color: rgb(102, 51, 102); background-image: url(data:image/png;base64,iVBORw0KGgoAAAANSUhEUgAAAAoAAAAKCAYAAACNMs+9AAAAVElEQVR42n3PgQkAIAhEUXdqJ3dqJ3e6IoTPUSQcgj4EQ5IlUiLE0Jil3PECXhcHGBhZ8kg4hwxAu3MZeCGeyFnAXp4hqNQPnt7QL0nADpD6wHccLvnAKksq8iiaAAAAAElFTkSuQmCC); background-color: rgb(255, 255, 255); padding-right: 13px; font-size: 12px; line-height: 17.265625px; background-position: 100% 50%; background-repeat: no-repeat no-repeat;">Hoje na História: 1884 - É fundada no Reino Unido a Sociedade Fabiana</a>, acesso em 12 de janeiro de 2013
  10. Ver The Webbs on the Web bibliography
  11. Padma Desai and Jagdish Bhagwati. (1975). "Socialism and Indian economic policy". World Development 3 (4\date=abril 1975): 213–221. DOI:10.1016/0305-750X(75)90063-7.
  12. B.K. Nehru. (SPRING 1990). "Socialism at crossroads". India International Centre Quarterly 17 (1): 1–12.
  13. Arvind Virmani (outubro 2005). Policy Regimes, Growth and Poverty in India: Lessons of Government Failure and Entrepreneurial Success. Indian Council for Research on International Economic Relations, New Delhi.
  14. (1975) "From Radicalism to Socialism: Men and Ideas in the Formation of Fabian Socialist Doctrines, 1881–1889". History: Reviews of New Books 3 (10). DOI:10.1080/03612759.1975.9945148.
  15. a b Michael Barr. (March 2000). "Lee Kuan Yew's Fabian Phase". Australian Journal of Politics & History 46 (1): 110–126. DOI:10.1111/1467-8497.00088.
  16. Amatzia Baram. (Spring, 2003). "Broken Promises". Wilson Quarterly. Woodrow Wilson International Center for Scholars.
  17. L. M. Kenny. (Winter, 1963/1964)). "The Goal of Arab Unification". International Journal 19 (1): 50–61. DOI:10.2307/40198692.
  18. Kamel S. Abu Jaber. ((Spring, 1966)). "Salāmah Mūsā: Precursor of Arab Socialism". Middle East Journal 20 (2): 196–206.
  19. Fabian pensatori: 120 anni di progressiva pensiero .- Fabian Society pubblicazioni (2004) ISBN 0-7163-0612-3
  20. Scritti sulla Gran Bretagna, volume 2, New Park, Londra 1974, pag 48

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

PENCH, Lucio - Il socialismo fabiano: un collettivismo non marxista. Nápoles: ESI, 1988

Ligações externas[editar | editar código-fonte]