Desastre aéreo do Grand Canyon

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Desastre aéreo do Grand Canyon
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Conce(p)ção artística do acidente
Sumário
Data 30 de junho de 1956
Causa colisão em pleno ar
Local Estados Unidos Temple Butte, Grand Canyon, Arizona
Coordenadas Gnome-globe.png local do acidente
Mortos 128
Feridos 0
Primeira aeronave
Origem Los Angeles
Destino Chicago
Passageiros 53
Sobreviventes 0
Segunda aeronave
Modelo Estados Unidos Lockheed Constellation
Operador Estados Unidos TWA
Prefixo N6902C Star of the Seine
Origem Los Angeles
Destino Kansas City
Passageiros 64
Sobreviventes 0
Primeiro voo 1952

O desastre aéreo do Grand Canyon foi um grave acidente aéreo ocorrido em 30 de junho de 1956 na zona do Grand Canyon, no Arizona, Estados Unidos.[1] Nessa data, um Douglas DC-7 da United Airlines realizando o voo 718 (entre Los Angeles e Chicago) colidiu em pleno ar sobre o Grand Canyon com um Lockheed Constellation da TWA que realizava o voo 2 (entre Los Angeles e Kansas City). O acidente, que deixaria um saldo de 128 mortos, revelaria graves deficiências no sistema de monitoramento aéreo dos Estados Unidos.

Aeronaves[editar | editar código-fonte]

Lockheed Constellation[editar | editar código-fonte]

Na década de 1930 a Douglas lançaria o modelo DST (futuro DC-3), largando na frente no mercado de aeronaves comerciais. Enquanto isso a Lockheed estudava o projeto de uma aeronave quadrimotor capaz de voar a 430 km/h a uma altitude máxima de 12 mil pés e ter uma raio de 8 mil km , com transporte de 36 passageiros. Assim surgiu o projeto do Lockheed Model 44 Excalibur. Porém antes do primeiro protótipo ser construído, a TWA encomendou o projeto de uma aeronave capaz de realizar voos intercontinentais. A Lockheed abandonou o projeto do Excalibur e desenvolveu outra aeronave, o Constellation. Lançado no início da década de 1940, o Constellation realizou seu primeiro voo em 9 de janeiro de 1943. Com o envolvimento do Estados Unidos na Segunda Guerra, todas as aeronaves comerciais, incluindo o Constellation, foram requisitas pelo exército americano para o transporte de tropas e equipamentos. Assim, o Constellation só iria estrear na aviação comercial ao final do conflito. O Constellation se sagrou líder de sua categoria , de voos de longo alcance, até a chegada da era a jato. Foram fabricados milhares de aeronaves, das mais diversas versões, que voaram em dezenas de companhias aéreas do mundo até o final da década de 1980.[2]

A TWA foi a empresa que lançou o Constellation,tendo operado as 40 primeiras aeronaves construídas. Empregado inicialmente nas rotas internacionais, o Constellation foi remanejado nos anos 1960 para rotas nacionais dentro dos Estados Unidos até a retirada da última aeronave em 1967. A aeronave destruída no acidente foi construída em 1952, tendo recebido o número de construção 4016. Encomendada pela TWA, recebeu o prefixo N6902C e foi batizada pela companhia aérea de Star of the Seine. Até o momento do acidente tinha 10519 horas de voo.[3]

Doulgas DC-7[editar | editar código-fonte]

Durante a década de 1940, a necessidade de realizar voos mais longos obrigou as companhias aéreas dos Estados Unidos a encomendaram projetos de novas aeronaves, capazes de voar da costa leste a oeste do país em voos diretos. A Douglas sairia na frente lançando o Douglas DC-4, com um alcance de 6,839 km. Posteriormente, a Lockheed lançou o Constellation, que tinha um alcance de 8700 km, suficiente para realizar longos voos. Para concorrer com o Constellation, a Douglas lançaria os DC-6 e DC-7. Lançado no final de 1953, o Douglas DC-7 foi adquirido por dezenas de companhias aéreas no mundo. Com a chegada da era do jato, a Douglas abandonaria suas aeronaves de motor a pistão e voltaria seus esforços para o lançamento do DC-8. Assim, muitos DC-7 operaram por menos de 10 anos no transporte de passageiros, sendo convertidos para o transporte de cargas a partir da década de 1960. Foram construídos 338 DC-7 entre 1953 e 1958. Apesar de a grande maioria ter sido retirada de serviço no final dos anos 1970 e meados da década de 1980, ainda existe uma dúzia de DC-7 voando no transporte de cargas no mundo.

A United Airlines operou 57 DC-7 até 1964, quando as últimas aeronaves foram retiradas de serviço. A aeronave destruída no desastre do Grand Canyon havia sido fabricada em 1955, tendo recebido o número de construção 44288/540.[4] Adquirido pela United Airlines, recebeu o registro N6324C, sendo batizada de Mainliner Vancouver pela companhia aérea. Até ao momento do acidente tinha apenas 5115 horas de voo.[4]

Acidente[editar | editar código-fonte]

Local da queda das aeronaves.

O voo 2 da TWA teria início em Los Angeles às 9h01min (PST) do dia 30 de junho de 1956, com cerca de 31 minutos de atraso. Após a decolagem, o Lockheed Constellation N6902C Star of the Seine, transportando 6 tripulantes e 64 passageiros, rumaria para Kansas City.[4] Após subir para 19 mil pés, o Star of the Seine passaria do controle do aeroporto de Los Angeles, para o centro de monitoramento aéreo de Daggett, California. Durante a passagem para o Colorado, o Star of the Seine rumapra para 059º para o leste, onde deveria ser avistado pelo radiofarol de Trinidad, Colorado. [5] Três minutos após a decolagem do Star of the Seine, o Douglas DC-7 da United Airlines, registro N6324C Mainliner Vancouver, decolaria de Los Angeles com 53 passageiros e 5 tripulantes rumo a Chicago, iniciando o voo 718.[4] Voando por instrumentos, o Mainliner Vancouver atingiria rapidamente 21 mil pés e rumaria para nordeste de Palm Springs, California, onde posteriormente realizaria curva para a esquerda, onde conta(c)taria o radiofarol de Needles, Califórnia, que lhe forneceria as coordenadas para rumar até o radiofarol seguintes, em Durango, Colorado.[5]

Após voarem pelo Colorado, as aeronaves tinham de atravessar a chamada linha do deserto pintada, de 175 milhas de comprimento, compreendida entre Bryce Canyon, Utah até Winslow, Arizona. Essa área não era monitorada pelo ATC, sendo que a posição das aeronaves era estimada pelas tripulações através do rádio. Assim, a segurança de voo nessa área dependia unicamente das tripulações das aeronaves que voavam pela mesma.[5] [6]

As tripulações dos voos TWA 2 e UA 781 previam alcançar a linha do deserto pintada por volta das 10h30min. Durante a travessia dessa região, o comandante do Star of the Seine solicitaria ao ATC uma mudança de altitude para 21 mil pés. O ATC não lhe daria autorização, por conta do tráfego de outra aeronave na região (no caso o Mainliner Vancouver), porém autorizou o Star of the Seine a voar a mil pés do topo das nuvens.[5]

Assim, o Star of the Seine foi subindo gradualmente até chegar aos 21 mil pés, por acompanhar o teto das nuvens que ficava cada vez mais alto conforme a aeronave atravessava a região. Por volta das 10h30 min, um forte estrondo iniciaria a grande tragédia. Voando a 21 mil pés, o Constellation Star of the Seine da TWA teria sua cauda cortada pela asa esquerda do DC-7 Mainliner Vancouver da United. Desgovernadas. As aeronaves cairiam numa região às margens do rio Colorado, matando todos os seus ocupantes carbonizados pelas explosões dos tanques de combustível ocorridas após o impacto com o solo.[5]

O Controle de Tráfego Aéreo só notaria que algo estava errado após as aeronaves não informarem suas posições no período estimado após a passagem da linha do deserto pintada. Anteriormente, radio-operadores da United em San Francisco e Salt Lake City, captariam às 10h30min, uma rápida e ilegível transmissão do voo 718. As autoridades iniciariam serviços de busca e salvamento no início da tarde. [5]

Durante um voo na região do Grand Canyon, os irmãos Henry e Hudgin Palen avistariam uma grande coluna de fumaça (que posteriormente seria identificada como os restos do Constellation Star of the Seine), porém julgaram-na como um incêndio causado por um raio, algo comum naquela região. Ao ouvirem no rádio que duas aeronaves estavam desaparecidas na região, retornariam ao local onde tinham avistado a densa coluna de fumaça, descobrindo os destroços das aeronaves. Notificadas, as autoridades iniciariam uma grande operação de retirada dos corpos e dos destroços para perícia. Devido ao violento impacto das aeronaves com o solo, nenhum corpo seria recuperado intacto e poucos restos mortais seriam identificados, obrigando as autoridades a construírem dois grandes túmulos coletivos nos cemitérios de Grand Canyon Pioneer e Citizens Cemetery em Flagstaff, Arizona.[5] [7]

Investigações[editar | editar código-fonte]

Dificultada por conta de o acidente ter ocorrido em local de difícil acesso e sem monitoramento do controle de tráfego aéreo (ATC), a investigação do acidente realizada pelo Civil Aeronautic Board (CAB) não conseguiu chegar à causa exata do acidente.

No entanto, pela posição das aeronaves, foi constatado que ambas as tripulação não conseguiram enxergar-se a tempo de evitar a colisão em pleno ar, sendo que diversos fatores seriam enumerados para tentar explicar a colisão[4] :

  • Nuvens podem ter ocultado parcialmente a visão da tripulação do DC-7 da United, impedindo-lhes de enxergar o Constellation da TWA;
  • Limitações visuais causadas pelo desenho das janelas da cabine do DC-7 da United podem ter ocultado o Constellation da TWA até o momento da colisão;
  • Falta de vigilância possivelmente causada pela grande carga de trabalho na tarefa de pilotar o avião;
  • Realização de voo panorâmico não autorizado sobre a região do Grand Canyon. Durante alguns anos, companhias aéreas que sobrevoavam a região realizavam passagens panorâmicas sobre o Grand Canyon para entreter seus passageiros. Essa prática era temerosa tendo em vista a falta de monitoramento e controle de tráfego aéreo (ATC) nessa região;
  • Falta de informações sobre o tráfego aéreo na região por conta da falta monitoramento e controle de tráfego aéreo (ATC) nessa região;

Consequências[editar | editar código-fonte]

O acidente causou grande comoção nos Estados Unidos. Posteriormente outras duas colisões em pleno ar, ocorridas entre aviões comerciais e jatos militares, pressionariam o governo americano a agir contra a falta de monitoramento dos céus do país.[8] [9]

Pressionado pela imprensa e opinião pública, o presidente Eisenhower investiu US$ 250 milhões na modernização do sistema de monitoramento e controle de tráfego aéreo (ATC) em todo o país. Além disso, foi criada a Federal Aviation Administration (FAA) responsável por administrar e regulamentar a atividade de aviação no país.[10]

Na cultura popular[editar | editar código-fonte]

O desastre aéreo do Grand Canyon foi tema de um dos episódios da série de televisão Mayday- Desastres aéreos.[11]

Referências

  1. United Press (2 de julho de 1956). "Ter-se-iam chocado no ar o Super Constellation e o Douglas DC-7". Jornal do Brasil Ano LXVI, edição 151, página 7. Consult. 4 de maio de 2013. 
  2. "Model 049 Constellation". Lockheed Martin Corporation. 2009. Consult. 9 de maio de 2013. 
  3. "Accident description". Aviation Safety Network. Consult. 9 de maio de 2013. 
  4. a b c d e "Accident description". Aviation Safety Network. Consult. 4 de maio de 2013. 
  5. a b c d e f g United States Civil Aeronautic Board (CAB) (17 de abril de 1957). "Accident Investigation Report" (PDF). Consult. 9 de maio de 2013. 
  6. Marcelo Cesar Bim Junior (2007). "TCAS II – Conceito e operação". Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul- Faculdade de Ciências Aeronáuticas. Consult. 9 de maio de 2013. 
  7. Life Magazine (30 de julho de 1956). "A Tranquil grave for crash dead". Google books. Consult. 9 de maio de 2013. 
  8. "Accident description- Pacoima aircraft accident". Aviation Safety Network. Consult. 9 de maio de 2013. 
  9. "Accident description- United Airlines Flight 736". Aviation Safety Network. Consult. 9 de maio de 2013. 
  10. Leandro Meireles Pinto (16 de julho de 2010). "Acidentes aéreos e falhas alteram tecnologia de aviação". iG. Consult. 9 de maio de 2013. 
  11. National Geographic Channel. "Mortes no Grand Canyon". Consult. 9 de maio de 2013. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]


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