Transtorno de ansiedade social

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Transtorno de Ansiedade Social
Um indivíduo com ansiedade social tem receio da imagem que transmite aos outros.
Sinónimos Fobia Social, Sociofobia
Sintomas Medo ou ansiedade acentuada e excessiva em situações sociais.
Classificação e recursos externos
CID-10 F40.1
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O transtorno de ansiedade social, anteriormente chamado de fobia social ou sociofobia, é um transtorno ansioso descrito no DSM-V, caracterizado por medo ou ansiedade acentuada e excessiva que ocorre consistemente em uma ou mais situações sociais, como interações sociais (uma conversa, por exemplo), numa ação em que possa estar a ser observado (como ao comer ou tomar um café) ou num momento de grande exposição (como ao discursar perante uma plateia).[1][2]

Segundo o Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos da América, aproximadamente 12,1% dos adultos americanos experienciará o Transtorno de Ansiedade Social em algum momento da sua vida, com uma prevalência ligeiramente superior em indivíduos do sexo feminino.[3]

Ao contrário do que é muitas vezes referido, o transtorno de ansiedade social não é uma forma exagerada de timidez. Enquanto que a timidez é um traço de personalidade que gera algum desconforto no convívio social, o transtorno de ansiedade social é uma patologia do foro psiquiátrico caracterizada por um medo muito intenso e desproporcional a ser expostos a situações específicas de convívio social, e com grande prejuízo clínico para o paciente. Um estudo (com base nos anos de 2008 e 2009) mostrou que possivelmente de 5% a 13% dos brasileiros (entre 8 e 22 milhões) sofrem deste transtorno.[4][5] E apenas 1% sabe ou tem conhecimento do problema.[4]

Sintomas[editar | editar código-fonte]

As pessoas afetadas por essa patologia compreendem que os seus medos são excessivos e irracionais. No entanto, experimentam uma enorme ansiedade e apreensão ao confrontarem situações socialmente temidas e tendem a fazer de tudo para evitá-las. Durante as situações temidas, os pacientes têm a sensação de que os outros as estão julgando e temem ser reputados como muito ansiosos, fracos ou estúpidos. Por conta disso, tendem muitas vezes a se isolarem.

De um modo geral, os pacientes com ansiedade social começam a evitar situações sociais que provocam respostas ansiosas desagradáveis, levando uma sensação de alivio acompanhada com sentimentos de culpa por não estar conseguindo enfrentar o problema. Cada conduta de evitação reforça o receio e promove a sua manutenção de tal forma que, se não tratada, a ansiedade social tende a ser crônica e incapacitante. Isso é observado na prática clínica, quando o paciente é estimulado a enfrentar o problema, resultando no agravamento do estado mental e em maior isolamento.

Prevalência[editar | editar código-fonte]

O Transtorno de Ansiedade Social foi o transtorno ansioso mais prevalente nos estudos epidemiológicos feitos nos Estados Unidos da América (EUA) e na Europa. A prevalência teve uma variação de 2% a 12%.[6] Um estudo epidemiológico e de comorbidades entre pacientes com ansiedade social [7] evidenciou sua prevalência ao longo da vida em 5,0%. Já no estudo de Kessler et al. (2005) do National Comorbity Survey (NCS), a prevalência da TAS ao longo de 12 meses foi de 12,1%.[8]

Segundo o DSM-5 (APA, 2013), há uma prevalência no diagnóstico do TAS de aproximadamente 7% na população americana.[9] No Brasil, estudos apontam uma prevalência de 7,8% em uma amostra de adolescentes e de 23,12% em uma população de alunos de ensino fundamental e médio na cidade de Porto Alegre.[10] Em um estudo realizado em uma área de captação próxima ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, se observou uma prevalência de 3,5% para o TAS.[11]

Estudos apontam fatores sociais, estilos de vida e formas de convívio entre as pessoas que podem causar a fobia social. Parece haver um padrão associado a um papel familiar como modelo de resposta às situações sociais: educação autoritária, superprotetora e pais inseguros predispõe a fobia social, mas também há fatores genéticos: o córtex singulado anterior e a amídala cerebral. Gêmeos, particularmente os univitelinos (idênticos), têm maior incidência da doença do que a população em geral.

Parece haver uma associação estatisticamente significativa entre a fobia social e o ambiente familiar: quanto maiores os níveis de proteção e autoritarismo exercidos pelos pais, maiores os índices de fobia social, e, quanto maiores os níveis de carinho e autonomia dada pelo pais, menores são os índices de fobia social. Os pacientes frequentemente são jovens e vivem em grandes cidades, onde o contato social é teoricamente maior. Estudos apontam que esse transtorno tem mais incidência nas mulheres do que aos homens.

Exemplos de situações temidas[editar | editar código-fonte]

As situações sociais temidas e a intensidade da reação para estas situações variam notavelmente de indivíduo para indivíduo. Existem casos de fobia social específica, onde envolve uma única situação ou um grupo restrito de situações relacionadas, ou generalizada, envolvendo diversas situações não específicas. As situações mais comuns em que pessoas acometidas pelo transtorno apresentam reações ansiosas são:

  • Encontrar-se ou/e desenvolver um diálogo com pessoas desconhecidas.
  • Fazer amizades.
  • Flertar ou demonstrar interesses amorosos ou sexuais a alguém que esteja interessado.
  • Falar ou atuar em público ou para um pequeno grupo.
  • Ir a uma entrevista.
  • Comer, beber, escrever, trabalhar, dirigir ou praticar esportes enquanto é observado.
  • Ser fotografado ou filmado.
  • Andar na rua, ser observado e julgado pelas pessoas.
  • Comemorar aniversário, participar de eventos sociais, festas ou ser o centro das atenções.
  • Estar em espaço fechado onde há gente desconhecida.
  • Fazer ou receber chamadas telefônicas.
  • Ir ao médico, dentista, cabeleireiro ou a outros profissionais de necessidade rotineira.

Características[editar | editar código-fonte]

O Transtorno de Ansiedade Social começa a se manifestar na infância e início da adolescência e segue um curso crônico com alta proporção de comorbidades, fazendo com que seja considerado um importante problema de saúde pública. A ansiedade social é frequentemente confundida com excesso de timidez e com traços de personalidade, levando a que muitos sofram a vida inteira sem procurar ajuda médica. Quando o diagnóstico e tratamento não são precoces, há prejuízo clínico para o paciente, podendo levar a situações como pedidos de demissão, afastamento do trabalho, absenteísmo, etc.

As pessoas com ansiedade social são excessivamente preocupadas com o julgamento alheio, com a opinião dos outros a seu respeito, perfeccionistas e determinadas. Com essas características, os portadores costumam ter alto senso de responsabilidade, bom desempenho profissional e avidez pelos desafios enfrentados. A preocupação excessiva com as situações sociais onde estará sob apreciação alheia desperta intensa ansiedade antecipatória.

Os pacientes tendem a pensar que estão a ser observadas de maneira diferente ou que percebem algo nela anormal (como no rosto, comportamento ou aparência), levando a que evitem o contacto visual e andem de cabeça baixa. Mesmo quando têm consciência de que as pessoas não estão a olhar para eles ou a julgá-los, as reações continuam a ocorrer por serem embasadas num medo irracional. Alguns evitam sair de casa, e quando saem ficam ansiosos por voltar. Em situações de exposição social, sentem um grande incômodo psicológico e físico, normalmente desproporcionado da ameaça real. Mesmo quando a exposição social a desconhecidos ocorre dentro de casa (como um convidado de um membro do agregado familiar), verificam-se reações significativas.

Dependendo de como é o movimento de pessoas em sua casa, podem restringir ainda mais sua zona de conforto, passando a ficar a maior parte do dia em seus quartos. É comum que não atendam a porta, o telefone e se tranquem em seus quartos quando há visitas em casa, saindo apenas quando o visitante for embora. O paciente frequentemente "marca" as pessoas que lhe trouxeram mais ansiedade e sofrimento (mesmo que estas não tenham feito nada de errado) e tenta evitar ao máximo seu contato com estas pessoas novamente. Além de evitá-las, tende a rotulá-las através de criticas negativas, racionalizações e antipatizando com elas, quando na realidade a evitação não está tão depositada nas características da pessoa, mas na própria reação fóbica que experimentou no contato com ela, baseado no seu próprio medo irracional.

O portador frequentemente tem uma autoimagem negativa (independente da atratividade física), crê que os outros são melhores do que ele, adota uma personalidade muito pensativa a pequenos pormenores e acha que faz tudo mal, mesmo quando é o melhor. Apesar destes sentimentos serem muito característicos, muitos portadores do transtorno não os experimentam conscientemente. Alguns experimentam um sentimento oposto em forma de defesa, se julgando superiores (principalmente em questões intelectuais e/ou morais) em relação a grande maioria das pessoas, apesar dos pensamentos inconscientes pulsantes de inferioridade que eles próprios carregam. Por vezes, o sentimento de inferioridade perante os outros é facilmente notado e consciente para o próprio, demonstrados por pensamentos e falas autoderrotistas. Em outros casos, o paciente dificilmente apresenta alguma demonstração clara de pensamentos de inferioridade, e nunca ou quase nunca demonstra isso em suas falas, normalmente assumindo uma posição de superioridade no plano intelectual, ético, moral, ou em alguns casos financeiro. Nesse último caso, a ideia de sentir-se inferior pode parecer incoerente e inaceitável para o fóbico.

As características que revelam o sentimento de inferioridade (conscientes ou inconscientes) são principalmente as reações de fuga e esquiva, os pensamentos automáticos negativos e os comportamentos autoderrotistas. Por mais que o paciente inconsciente de suas crenças de inferioridade racionalize as explicações para suas características pessoais e para o seu problema, ele apresenta reações automáticas e inconscientes típicas de crenças de inferioridade. É importante ressaltar também que assim como o medo que o paciente sente, estas crenças também são irracionais, e de maneira alguma significam que o indivíduo é realmente inferior aos demais. É uma crença irracional, mas que o portador crê de maneira irracional e inquestionável (esteja consciente ou não). Um dos pontos importantes do tratamento para é conscientizar o doente de suas crenças, conscientizar do valor irracional e infantil delas, e trabalhar uma maneira de enfraquecê-las e substituí-las por crenças mais saudáveis, adultas e condizentes com a realidade.

Nas cidades pequenas o hábito de conversar sobre a vida alheia e o maior contato com pessoas conhecidas pode ser pior para o transtorno, pois implica numa maior exposição e vulnerabilidade ao julgamento. Alguns se sentem melhor com uma mudança para cidades grandes, mas esse sentimento pode ser interpretado como uma fuga do problema, nunca uma solução. Pode até ocorrer um alívio imediato, mas em pouco tempo o transtorno vai novamente tomar forças quando o indivíduo se adaptar a nova cidade e a nova rotina, se tornando o mesmo transtorno de sempre, mas moldado com a nova imposição ambiental.

No geral são tímidos e educados, e estas características podem ser confundidas como uma característica normal e benéfica, principalmente por desconhecidos, e assim serem reforçadas indevidamente. O comportamento tímido e educado foge aos limites saudáveis, e costumam ser assim pela dificuldade que o portador sente em se expor emocionalmente, tomar decisões, exigir seus direitos ou mesmo enfrentar naturalmente as mais diversas interações sociais. Estes comportamentos nem sempre são verdadeiros, mas são utilizados (na maioria das vezes de forma automática) para evitar a exposição, o julgamento e a reprovação alheia. Muitas pessoas acabam tendo uma imagem errônea de que o paciente é extremamente "bonzinho", educado, meigo e tranquilo. De que estas pessoas não sentem aversão, raiva, e outros sentimentos turbulentos.

É muito comum que estas pessoas acabem aproveitando, pedindo favores de maneira indiscriminada, tendo comportamentos indiscretos e inconvenientes, não respeitando seus sentimentos, pois percebem que ele nunca expõe sua desaprovação, seu descontentamento, sua irritação, frequentemente cede aos desejos dos outros e não consegue estabelecer limites nas suas relações. As relações que surgem através disto são extremamente desconfortáveis aos portadores de TAS, que não suportam tal convivência, mas se sentem impotentes em estabelecer limites ou desfazer a relação. Acabam se limitando a se esquivar e fugir o máximo que puderem, e sofrerem em silêncio com o problema.

Geralmente são mais inteligentes (ou possuem mais conhecimento) do que a maioria das pessoas. O isolamento social e a consequente diminuição da atividade mental voltada para o externo (ambiente, sociedade) leva os portadores a uma maior atividade mental voltada para o interno. Com isto, eles acabam se auto-estimulando mais que a maioria das pessoas, o que leva a um desenvolvimento intelectual maior. Este caso é mais notado quando a fobia se desenvolve na infância ou adolescência, em comparado com quando surge durante a vida adulta.

Esta autoestimulação excessiva, e outros fatores importantes que também estão envolvidos, durante estes períodos que o cérebro ainda se encontra numa importante fase de desenvolvimento acaba muitas vezes levando a uma inteligência acima da média quando o indivíduo atinge o início da vida adulta, e também tem grande importância no desenvolvimento intelectual a partir daí. Este fenômeno é mais observado nos dias atuais, onde os fóbicos sociais possui um intenso contato com a internet e consequentemente podem buscar e adquirir informações de uma maneira muito mais rápida e eficiente do que se comparado há uma ou duas décadas atrás.

Relação com a timidez[editar | editar código-fonte]

O TAS é frequentemente confundido com excesso de timidez e traços de personalidade do indivíduo, levando muitos a sofrerem a vida inteira sem saberem que têm transtorno de ansiedade social. A timidez é uma característica da personalidade extremamente comum e normal, que não impede o indivíduo de conquistar o que é necessário ao seu desenvolvimento saudável. O TAS não é comparável à timidez, não sendo correto dizer que trata-se de "uma excessiva timidez". O transtorno de ansiedade social é um transtorno ansioso, caracterizada por um medo irracional de situações sociais, relacionada a reações de luta ou fuga que interfere de forma muito significativa na vida do indivíduo.

Para o paciente, é como se as situações sociais se assemelhassem a um tigre, ou outra ameaça em potencial. São disparadas reações fisiológicas de ansiedade extrema, os músculos dos membros superiores e/ou inferiores são irrigados, a libertação de glicose é aumentada, a frequência respiratória aumenta, o batimento cardíaco se acelera: são todas reações reflexo de enfrentamento, a fim de proteger a própria integridade física. No caso do tigre, é perfeitamente previsível e normal, já que o estímulo (tigre) é extremamente aversivo e perigoso, e a resposta fisiológica deve ocorrer para preservar a integridade física do indivíduo. Já neste transtorno, o indivíduo tem as mesmas reações (variando na intensidade) para se proteger de algo que não lhe traz perigo algum, muito menos risco de morte.

Os estímulos (situações sociais) são interpretados de uma maneira totalmente disfuncional, desadaptativa e prejudicial, através de crenças ilógicas e irracionais, distorções cognitivas, etc. Através destas interpretações errôneas da realidade, o paciente sente sua integridade moral e psicológica (e por vezes, também física) ameaçada por um perigo iminente que não existe, e tem reações automáticas para protegê-la. Por isso, o transtorno de ansiedade socialé muito diferente de timidez. Ela tende a prejudicar bastante a vida dos portadores e deve ser o mais rápido que possível tratada por profissionais capacitados.

Diagnóstico[editar | editar código-fonte]

Os sistemas de diagnóstico e classificação em Psiquiatria atualmente em uso são a Classificação Internacional das Doenças da Organização Mundial da Saúde, 11a edição (CID-11, 2018) e o Manual de Diagnóstico e Classificação dos Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana, 5a edição (DSM-V, 2013).[12] Estes operacionalizaram o diagnóstico de TAS, facilitando seu reconhecimento, confiabilidade e a comunicação entre profissionais.

Os critérios para o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Social segundo a CID-11 são:

  1. Medo ou ansiedade acentuada e excessiva que ocorre consistentemente em uma ou mais situações sociais, como interações sociais (por exemplo, ter uma conversa), fazer algo enquanto se sente observado (por exemplo, comer ou beber na presença de outras pessoas), ou atuar na frente de outras pessoas (por exemplo, fazer um discurso).
  2. O indivíduo está preocupado em agir de uma forma ou apresentar sintomas de ansiedade que serão avaliados negativamente por outras pessoas.
  3. Situações sociais relevantes são evitadas consistentemente ou então suportadas com medo ou ansiedade intensos.
  4. Os sintomas persistem por pelo menos vários meses e são suficientemente graves para resultar em sofrimento significativo ou prejuízo significativo na vida pessoal, familiar, social, educacional, ocupacional ou em outras áreas importantes do funcionamento.[13]

Já os critérios para o diagnóstico de transtorno de ansiedade social segundo o DSM-V são:

  1. Medo ou ansiedade acentuados acerca de uma ou mais situações sociais em que o indivíduo é exposto a possível avaliação por outras pessoas. Exemplos incluem interações sociais (por exemplo, comendo ou bebendo) e situações sociais em que o indivíduo é exposto a possível avaliação por outras pessoas. Exemplos incluem interações sociais (por exemplo, manter uma conversa, encontrar pessoas que não são familiares), ser observado (por exemplo, comendo ou bebendo) e situações de desempenho diante de outros (por exemplo, proferir palestras). Nota: Em crianças, a ansiedade deve ocorrer em contextos que envolvem seus pares, e não apenas em interações com adultos.
  2. O indivíduo teme agir de forma a demonstrar sintomas de ansiedade que serão avaliados negativamente (por exemplo, será humilhante ou constrangedor; provocará a rejeição ou ofenderá outros).
  3. As situações sociais quase sempre provocam medo ou ansiedade. Nota: Em crianças, o medo ou ansiedade pode ser expresso chorando, com ataques de raiva, imobilidade, comportamento de agarrar-se, encolhendo-se ou fracassando em falar em situações sociais.
  4. As situações sociais são evitadas ou suportadas com intenso medo ou ansiedade.
  5. O medo ou ansiedade é desproporcional à ameaça real apresentada pela situação social e o contexto sociocultural.
  6. O medo, ansiedade, ou esquiva é persistente, geralmente durando mais de seis meses.
  7. O medo, ansiedade ou esquiva causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
  8. O medo, ansiedade ou esquiva não é consequência dos efeitos fisiológicos de uma substância (por exemplo droga para fim recreativo, medicamento) ou de outra condição médica.
  9. O medo, ansiedade ou esquiva não é mais bem explicado pelos sintomas de outro transtorno mental, como transtorno de pânico, transtorno dismórfico corporal ou transtorno do espectro autista.
  10. Se outra condição médica (por exemplo doença de Parkinson, obesidade, desfiguração por queimaduras ou ferimentos) está presente, o medo, ansiedade ou esquiva é claramente não relacionado ou é excessivo.[14]

Especificação[editar | editar código-fonte]

O DSM-V também considera o transtorno de ansiedade social do tipo desempenho, em indivíduos que têm preocupações com desempenhos que são geralmente mais prejudiciais em sua vida profissional (por exemplo músicos, dançarinos, artistas, atletas) ou em países que requerem falar em público. Os medos de desempenho também podem se manifestar em contextos de trabalho, escola ou acadêmicos nos quais são necessárias apresentações públicas regulares. Os indivíduos com transtorno de ansiedade social somente desempenho não temem ou evitam situações sociais que não envolvam o desempenho.[15]

Comorbidades[editar | editar código-fonte]

Abuso de álcool e drogas[editar | editar código-fonte]

A comorbidade entre dependência de álcool e outras drogas ilícitas tem um impacto relevante no diagnóstico e no prognóstico de pacientes com TAS. Um estudo apontou o abuso ou dependência alcoólica nestes pacientes com taxas avaliadas em 8-10% no homem e 3-5% na mulher, e que, entre os distúrbios ansiosos, a ansiedade social era aquele que apresentava a frequência mais elevada de alcoólicos.[16] Em um estudo brasileiro, a prevalência de TAS em uma amostra de alcoolistas foi de 24,6%. O TAS precedeu a dependência de álcool em 90,2% e somente 20,3% dos alcoolistas estavam medicados para TAS.[17] A presença do TAS está associada a uma maior probabilidade de dependência de álcool e de maconha. A análise de risco proporcional de Cox encontrou 1,56 vezes mais chances de desenvolver dependência de álcool, além de 1,94 vezes mais chances de desenvolver dependência de maconha.[18]

Além disso, o TAS, geralmente, precede o abuso e a dependência do álcool e outras substâncias ilícitas. Entre pacientes com TAS e comorbidade com abuso ou dependência de álcool, 87,5% apresentavam o diagnóstico de TAS antes ou concomitante ao início da dependência ou abuso. De forma semelhante, o diagnóstico de TAS precede ou ocorre concomitantemente ao abuso e à dependência de maconha, sedativos e tabaco, com taxas, respetivamente de 80%; 71,4% e 64,7%.[19]

Outros transtornos psiquiátricos[editar | editar código-fonte]

Kessler et al., em conformidade com o National Comorbidity Survey (NCS), mencionam que a ampla maioria dos pacientes com transtorno de ansiedade social sofre de outros quadros psiquiátricos: cerca de 80% dos pacientes apresentam alguma comorbidade. As mais comumente observadas são outros transtornos de ansiedade, depressão e transtornos por uso de substância.[20] Um estudo apontou elevadas taxas de comorbidade em TAS, sendo os transtornos comórbidos, de um modo geral, secundários do ponto de vista cronológico.[21] Os transtornos de ansiedade mais comumente encontrados são: transtorno de ansiedade generalizada, fobia específica e transtorno do pânico com agorafobia. Apesar da presença de comorbidades frequentemente estarem associadas à gravidade do quadro, os resultados dos estudos a respeito da piora na sintomatologia do TAS ainda são variáveis.[22]

Atualmente, sabe-se que a depressão é uma comorbidade comum dos transtornos de ansiedade,[23] [24] coocorrendo frequentemente com o TAS. Síndromes depressivas ocorrem com frequências que variam de 17 a 70% entre os pacientes com ansiedade social.[21] Dentre as consequências da comorbidade destacam-se seu impacto sobre a eficácia do tratamento, o aumento do risco de cronicidade e a piora do desempenho social.[25]

Enfrentamento[editar | editar código-fonte]

Um dos grandes problemas desta patologia, é que os pacientes reconhecem que os seus medos e ansiedades são exagerados e irracionais, têm consciência de que seus sentimentos são inadequados e não correspondem à realidade, mas são incapazes de lidar com a situação. O consciente e o bom senso não são suficientes para superar a ansiedade, sendo esta patologia de caráter orgânico/cognitivo e fora do alcance de uma decisão racional do paciente.

Essa intensa batalha mental traz um grande desgaste emocional para o doente. A situação é ainda mais agravada quando outras pessoas confrontam sua falta de atitude. Isso é observado na prática clínica quando o fóbico é estimulado a enfrentar prontamente o problema, e que resulta na piora do estado mental, se isolando ainda mais após a experiência. Experiências confrontantes resultam, na totalidade, em esgotamento físico e mental do indivíduo. Com isso, os portadores de fobia social tendem a se esquivar e fugir cada vez mais de exposições sociais.

Porém, essa atitude aumenta cada vez mais a intensidade da fobia, pois o alívio experimentado após se livrar dessas situações acaba reforço os comportamentos envolvidos no isolamento social. A melhor estratégia de enfrentamento direto das situações é aquela em que se confronta gradualmente as situações temidas, sempre partindo da situação que provoca menor desconforto para a de maior. Além das técnicas de enfrentamento, devem ser trabalhadas outras técnicas antes e depois de enfrentar as situações, e por isso o enfrentamento deve ser sempre orientado por um psicólogo adequado à esse tipo de problema.

Tratamento[editar | editar código-fonte]

O tratamento de um fóbico social de primeira escolha é a terapia cognitivo-comportamental. O uso de fármacos, como os ansiolíticos benzodiazepínicos, buspirona e antidepressivos podem ser bons coadjuvantes da terapia, porém não devem ser utilizados isoladamente, pois apenas mascaram as reações desagradáveis do transtorno, tendo a recidiva da fobia quando são tirados. O sucesso do tratamento depende de muitos fatores, como a aceitação do paciente ao tratamento psicoterapêutico, a relação entre terapeuta e paciente, o ambiente social e familiar em que o paciente está inserido, entre outros.

Terapia[editar | editar código-fonte]

Dentro da Psicologia, as abordagens terapêuticas mais indicadas para o tratamento da fobial social são as terapias comportamentais, a terapia cognitiva e a híbrida terapia cognitivo-comportamental. Outras abordagens terapêuticas, como por exemplo a psicanálise, são menos indicadas. O modelo terapêutico com a maior quantidade de estudos e comprovação científica para o transtorno é a terapia cognitivo-comportamental.[26][27][28] Dentro desta abordagem terapêutica, destaca-se uma vertente que se mostra bastante eficaz para o tratamento da fobia social, chamada terapia do esquema, que tem como principal objetivo o chamado "enfraquecimento dos esquemas disfuncionais".[29] Segue alguns dos aspectos trabalhados na terapia cognitivo-comportamental, mais especificamente na terapia focada no esquema:[30][31][32]

  • Tornar o fóbico consciente da irracionalidade do seu medo, caso ainda não tenha esta consciência.
  • Identificar os chamados "esquemas iniciais desadaptativos" (ou "esquemas disfuncionais"), núcleos formados na psiqué durante a infância e adolescência, geradores e perpetuadores das reações fóbicas e de padrões comportamentais auto-derrotistas encontrados no fóbico social.
  • Identificar, se possível, as situações geradoras dos esquemas disfuncionais.
  • Estabelecer uma boa relação terapêutica, onde o paciente se sinta confiante e à vontade para se expor e buscar pela solução de seus problemas, e também ter algumas necessidades emocionais que não foram atendidas na infância supridas pelo terapeuta.
  • Identificar os chamados "pensamentos automáticos negativos" gerados pelo esquema, que passam despercebido para o fóbico mas influenciam fortemente suas reações e comportamentos. Por exemplo, um pensamento automático negativo muito comum para quem sofre de fobia social é o "eu sou fraco", ou "eu sou inferior". Apesar de alguns fóbicos sociais terem consciência destes pensamentos auto-derrotistas, a maioria deles são influenciados num plano fora da consciência por esses pensamentos.
  • Alertar ao paciente sobre a existência e funcionamento destes esquemas, explicando a ele os mecanismos inconscientes (círculos viciosos) que estes esquemas se utilizam para se auto-preservarem e se fortalecerem, como por exemplo através dos pensamentos automáticos negativos, distorções cognitivas, desencadeamento de reações fisiológicas desagradáveis e comportamentos auto-derrotistas.
  • Trabalhar com o paciente o desenvolvimento de uma percepção mais realista do mundo e de si mesmo. Os portadores de ansiedade social tem a percepção sobre diversas situações desfiguradas através do mecanismo da "distorção cognitiva" do esquema. Estas distorções fazem ele perceber determinados aspectos de uma situação de uma maneira muito exagerada e outros de uma forma negligenciada.
  • Corrigir determinadas crenças e distorções que se tornaram hábitos de pensar nas situações sociais, como a auto exigência de um comportamento perfeito em todas as situações sociais e querer sempre a aprovação de todos.
  • Fazer o paciente ter uma capacidade melhor de observar a maneira de como as outras agem e percebem o mundo, sem a interferência de sua auto-centralização e de suas distorções cognitivas. Os fóbicos sociais tendem a observar demasiadamente o comportamento das pessoas ao seu redor, porém de uma maneira intrínseca e não extrínseca, ou seja, de forma auto centralizada. Com isso acabam tendo percepções falhas da realidade, que não se baseiam verdadeiramente no que as pessoas estão pensando, mas sim como ele próprio pensa de si mesmo e dos outros, criando assim interpretações negativas da realidade.
  • Pedir ao paciente que liste pontos positivos e pontos negativos da sua vida, sua personalidade e suas capacidades. Os fóbicos sociais tendem a listar muitos pontos negativos de si e ter dificuldade em enxergar os pontos positivos, acreditando que eles não existem, são muito poucos ou são insignificantes, quando na realidade existem muitos pontos positivos que ele negligencia. Cabe ao terapeuta promover essa percepção real dos pontos benéficos e maléficos do paciente.
  • Aprender a relaxar para diminuir sua ansiedade, primeiramente longe de situações sociais, depois em momentos precedentes a exposições sociais, e quando mais capacitados, na própria situação. Alguns exemplos interessantes de treinos de relaxamento são o treinamento autógeno de J. H. Schultz e o relaxamento muscular progressivo de E. Jacobson.
  • Enfrentar as situações temidas, sempre gradualmente, iniciando com situações que provocam menor ansiedade e ir avançando para outras de maior ansiedade à medida que for superando as anteriores. Alguns psicólogos utilizam esta técnica na presença do paciente, o acompanhando durante estas situações. Os comportamentos do paciente que reforçam o isolamento social e mantém a fobia (comportamentos envolvidos na fuga e na esquiva) vão sendo gradualmente interrompidos e modificados para comportamentos de enfrentamento.
  • Aprender técnicas de assertividade, de expressão social, posicionamento e auto-afirmação.
  • Orientar o paciente a manter em suas vidas tudo o que foi aprendido, pois os esquemas disfuncionais, depois de criados, jamais deixam de existir. Por isso a terapia de "enfraquecimento dos esquemas". Todas as técnicas utilizadas servem para enfraquecer ao máximo possível o esquema, fazendo ele agir de uma forma bastante branda. Isto significa que o fóbico ainda poderá experimentar reações desagradáveis perante a determinadas situações sociais, principalmente àquelas que eram mais temidas, mas estas reações serão muito baixas e não o incapacitarão, como antes acontecia. Isso significa que a fobia social nunca acabará. Ter consciência disso é fundamental para o fóbico não se descuidar e consequentemente fortalecer novamente sua fobia. A reação natural do esquema é de se auto fortalecer e por isso o fóbico tem que aprender a sempre lidar com ele utilizando do que aprendeu na terapia, pois caso haja descuido, ele pode novamente cair nos mecanismos de perpetuação do esquema e fortalecer o transtorno novamente através de um circulo vicioso.

A terapia deve ser feita com um psicólogo da cognitivo-comportamental. Pode ser empregado também um tratamento medicamentoso orientado por um psiquiatra como auxiliar da terapia, mas é importante salientar que estes medicamentos não tratam a fobia, mas apenas mascaram as manifestações ansiosas decorrentes do transtorno e por isso nunca devem ser utilizados isoladamente ou como primeira escolha de tratamento.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Associação Americana de Psiquiatria (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. [S.l.: s.n.] pp. 202–204 
  2. «ICD-11 - Mortality and Morbidity Statistics». icd.who.int. Consultado em 20 de janeiro de 2021 
  3. «NIMH » Social Anxiety Disorder». www.nimh.nih.gov. Consultado em 21 de janeiro de 2021 
  4. a b Transtorno de ansiedade social atinge 13% dos brasileiros (2 de julho de 2008).
  5. Milhões de brasileiros sofrem “fobia social” (18 de março de 2009).
  6. Wittchen, H.-U.; Fehm, L. (Setembro de 2003). «Epidemiology and natural course of social fears and social phobia». Acta Psychiatrica Scandinavica. 108 (s417): 4–18. ISSN 0001-690X. doi:10.1034/j.1600-0447.108.s417.1.x. Consultado em 11 de agosto de 2020 
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Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • NAVEGANTE, Henriques Joaquim, A fobia como elemento principal de incapacidade escolar. 2ª Edição, 2013, Angola.