Amor de Perdição (1979)

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Amor de Perdição
Portugal Portugal
1979 •  cor •  262 min. min 
Realização Manoel de Oliveira
Argumento Manoel de Oliveira
Camilo Castelo Branco (livro)
Elenco António Sequeira Lopes
Cristina Hauser
Elsa Wallenkamp
António J. Costa
Henrique Viana
Maria Dulce
Ruy Furtado
Género drama
Companhia(s) produtora(s) Tobis Portuguesa
Lançamento 25 de Novembro de 1979
Idioma português

Amor de Perdição é um filme português de longa-metragem de Manoel de Oliveira estreado em 1979.

Palavra a palavra, é uma adaptação literal do romance de Camilo Castelo Branco[1], cujo texto é lido na íntegra em voz over (voz sobreposta à imagem) por vários intérpretes. Filme invulgarmente longo, é o terceiro da «tetralogia dos amores frustrados», designação atribuída pelo autor a O Passado e o Presente, Benilde ou a Virgem Mãe, Amor de Perdição e Francisca.

O filme é concebido numa sucessão de «quadros vivos» filmados com a câmara imóvel, em planos fixos, maioritariamente em décors de estúdio, com poucas tomadas de vista em exterior. A composição da imagem é bastante cuidada, em conformidade com tal deliberado artificialismo, por vezes com traços expressionistas.

Estreia em versão televisiva na RTP (1979) numa série de seis episódios de cerca de cinquenta minutos e, em versão de cinema, a 25 de novembro desse mesmo ano, no Cinema Quarteto, em Lisboa.

Nota: o negativo original de 16 mm foi restaurado pela Cinemateca Portuguesa em ampliação para 35 mm, ainda durante a vigência de João Bénard da Costa, então seu director.

Sinopse[editar | editar código-fonte]

Primeiros anos do XIX. Com nascimento em famílias rivais, desfiando seus cânones e tradições, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, que muito se amam, resistem às pressões de quem os contraria: ela fora prometida a um primo, Baltazar Coutinho. Para evitar o casamento, entra num convento. Desesperado, Simão mata Baltazar e vai para à prisão. Fiel aos seus rígidos princípios e furioso com os devaneios do filho que se apaixonara pela filha do seu pior inimigo, o pai de Simão, embora magistrado, nada faz para o ajudar. Embora em clausura, Simão e Teresa mantêm-se em contacto por escrito, graças à conivência de Mariana, jovem e fiel criada que entretanto se deixa levar por intenso e secreto amor por Simão.

Simão é condenado à morte mas indultado e enviado para o exílio. Embarca para a Índia. Antes, despede-se de Teresa que, depois de lhe acenar um derradeiro adeus pelas grades da janela da sua cela, no alto da torre do convento, cai morta nos braços da camareira. Simão morre na viagem e seu cadáver é lançado ao mar. Mariana, que para saciar sua secreta paixão o acompanha na viagem para o desterro, atira-se ao mar, agarra-se a ele e com ele se afunda[2]..

Enquadramento histórico[editar | editar código-fonte]

Ofensas e lisonjas[editar | editar código-fonte]

Amor de Perdição, filmado em película de 16 mm cor, foi um filme produzido em coprodução com a RTP que o estreou em seis episódios de cerca de cinquenta minutos cada. Não estando ainda a RTP equipada para difundir a cor, o filme foi exibido a preto e branco[3]. A versão televisiva é constituída por mais algumas filmagens além das planeadas para a versão de cinema, englobando prólogos aos diferentes episódios[4].

A uns bons vinte anos de distância na história do cinema português, o escândalo causado pela estreia de Amor de Perdição[5] só é comparável ao da Branca de Neve (2000)[6], filme sem imagem de João César Monteiro, ambos produzidos por Paulo Branco[7]. Um e outro têm ainda em comum serem adaptações ao cinema de obras literárias cujos textos são inteiramente debitados em leitura monocórdica. De comum ainda a circunstância de, apesar de ódios viscerais (Ver: O Passado e o Presente), ambos os cineastas partilharem a teoria que os leva a submeter o cinema ao teatro.

A estreia desta versão cinematográfica do romance Amor de Perdição na RTP levou a «reacções explosivas». João César Monteiro é entretanto brindado com o primoroso cognome de Joãozinho das Comédias por um seu rival em boémias e picantes literatices, o célebre mas jamais celebrado Luis Peixoto, em texto citado por um amigo comum, Vítor Silva Tavares, editor da &etc, que publicou escritos do autor da Branca de Neve mas que não hesita em acrescentar ao que dele já ficou dito que «João César Monteiro odeia espectadores. Em compensação, exige cúmplices».[8]

Reagindo, o produtor Paulo Branco salta em defesa de Oliveira, que entretanto granjeava de bom acolhimento por terras de Itália. Em Bolonha, Benilde ou a Virgem Mãe fora bem recebido em 1977. Em 1978, em Roma, «o mais velho realizador do mundo em actividade» era dado a conhecer como um dos maiores cineastas vivos. Produtor, distribuidor e exibidor, Paulo Branco estreia então Amor de Perdição em Paris, na sala que por lá tem, o cinema Action-République[9], e consegue que o jornal Le Monde lhe dê honras de primeira página. Resultado milagroso: «(…) quando o filme se estreou nas salas de Lisboa, em novembro de 1979, muita gente virou de bordo e descobriu na obra os méritos que lhe havia negado no ano anterior»[10].

Literatura e cinema[editar | editar código-fonte]

Verdade se diga, a leitura inteirinha de um dramalhão romântico do séc. XIX num filme de mais de quatro horas é obra. É coisa única na história do cinema mundial, que aqui, coitado dele, é devorado pela literatura. A ousadia é ainda mais radical que a dos monólogos ou dos diálogos teatrais que se ouvem noutros filmes de Manoel de Oliveira desde O Passado e o Presente. Será aliás a partir de 1979 que ele se põe a explicar o porquê deste canibalismo, tema nele recorrente. Eis a teoria: enquanto espectáculo que decorre num determinado espaço cénico (no palco, termo aplicado ao teatro ou no plateau, termo aplicado ao cinema), o teatro, que existe muito antes de o cinema ter surgido, é a sua génese e sua essência. É por isso que muitos filmes dele são teatrais[11][12].

Por motivos óbvios e com argumentos sólidos, há quem veja nessa teoria um sofisma: teatro não é cinema, um filme mudo dispensa a palavra, muitos filmes mudos foram feitos desde que os primeiros talkies se fizeram ouvir[13][14]. Assim se levanta a suspeita de que tal teoria oculta as fragilidades de O Passado e o Presente, suspeita essa que, além disso, explica a facilidade com que, em termos de produção e realização, vários outros filmes foram feitos, filmes que não poderiam ser feitos, nem de perto nem de longe, se fossem concebidos em pura linguagem cinematográfica e não como teatro filmado: saiam bem mais caros, levavam muito mais tempo a fazer. Será ainda tal suspeita mera burrice de casmurros detratores?.

Seja como for, Manoel de Oliveira comete a proeza de filmar cerca de um filme por ano a partir desse glorioso 1979. Com seus hábeis golpes de rins, Paulo Branco muito contribui para isso[15]. Fazia ele a sua vidinha na Cidade da Luz quando, aliciado por António Pedro Vasconcelos, dissidente da conturbada cooperativa Centro Português de Cinema, com ele abriu a V.O. Filmes, empresa produtora do Amor de Perdição. Com esta e com as várias outras empresas que abriu, acabaria por produzir a maior parte dos filmes do «Mestre» e dar a conhecer ao mundo a sua originalidade e o seu génio.

Ficha artística[editar | editar código-fonte]

  • Voz do Delator: Pedro Pinheiro
  • Voz da Providência: Manuela de Melo

Ficha Técnica [4][editar | editar código-fonte]

  • Fotografia: Manuel Costa e Silva
  • Operadores de imagem: Emílio Pinto, Francisco Silva
  • Assistentes de imagem: Carlos Manuel, Octávio Espírito Santo, Carlos Mena
  • Iluminação: Manuel Carlos (chefe), Carlos Afonso, Humberto Alves
  • Electricistas: Emílio Castro, José Mourao
  • Maquinistas: João Silva, Joaquim Amaral
  • Decoração: António Casimiro
  • Assistente de decoração: António Manuel, Rui Alves
  • Aderecista: João Luís
  • Carpinteiro; António Costa
  • Pintor: José Luciano
  • Modelador: Juvenal Rocha
  • Vestuário: Anahory, António Casimiro (figurinos)
  • Assistente de figurinos: Jasmim de Matos
  • Caracterização: Luís de Matos
  • Assistente de caracterização: Isabel Gonçalves
  • Cabeleireiro: Lucinda Maria
  • Cabeleiras: Víctor Manuel
  • Fotografia de cena: Albano Pereira, Carlos Santana
  • Anotação: Olívia Varela/Manolívia, Cristina Martins
  • Director de som: Carlos Alberto Lopes, João Diogo
  • Operador de som: José de Carvalho
  • Assistente de som: Carlos Aljustrel, Mário Rosa
  • Sonoplastia/misturas: Luís Barão
  • Música: João Paes, (Sonata Opus 5) Georg Friedrich Haendel
  • Execução musical: Ricardo Ramalho, Joao Nogueira, Adolf Thorn
  • Coreografia: Margarida de Abreu
  • Montagem: Solveig Nordlund
  • Estúdios: Tobis Portuguesa
  • Exteriores: Viseu, Quinta de S. Miguel, Porto, Coimbra
  • Data rodagem: novembro 1976 a novembro 1977
  • Laboratório de imagem: Tobis Portuguesa, Éclalr (Paris)
  • Laboratório de som: Valentim de Carvalho, Nacional Filmes
  • Formato: 16 mm cor, 2860 metros
  • Duração: 252 minutos
  • Distribuição: V. O. Filmes, Ver Filmes
  • Antestreia: cinema Quarteto, Lisboa
  • Data de antestreia: 24 de novembro 1979
  • Estreia: cinema Quarteto
  • Data da estreia: 25 de novembro 1979

Mostras e festivais[editar | editar código-fonte]

  • 1978 – Retrospectiva em Florença e em Roma, Itália (Amor de Perdição incluido)
  • 1979 – Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz, Prémio Especial do Júri

Notas e referências

  1. Amor(es) de Perdição – artigo de Ricardo Vieira em À Pala de Walsh, 21/10/12, Lisboa
  2. Amor de Perdição em CITI
  3. Amor de Perdição na base de dados Amor de Perdição
  4. a b José de Matos-Cruz, Cais do Olhar, ed. Cinemateca-Portuguesa-Museu do Cinema, 1999
  5. Manoel de Oliveira – Um homem de Fé – artigo de Rodrigues da Silva, 22/02/10 (ver parágrafo “Amor de Perdição e de… salvação”)
  6. Entrevista com João César Monteiro – reportagem da RTP1 na data de estreia do filme - Ver Youtube em (…) watch?v=S9Ot_fnU6xk
  7. Manoel de Oliveira – Um homem de Fé – artigo de Rodrigues da Silva, 22/02/10 (ver parágrafo “Amor de Perdição e de… salvação”)
  8. César Monteiro segundo Luiz Pacheco (comigo a reboque)
  9. Situada no coração da cidade, rue du Temple, a sala de cinema Action-République é durante anos explorada por Paulo Branco, que nela exibe filmes de autor, lançando realizadores de várias origens entre os quais alguns portugueses, como Manoel de Oliveira e João César Monteiro. A sala é frequentada por jovens cinéfilos e a sua programação desperta a atenção dos jornais de Paris. Por volta de 2003, devido a um conjunto de circunstâncias desfavoráveis, Paulo Branco deixa de explorar esse cinema
  10. João Bénard da Costa, Histórias do Cinema, col. Sínteses da Cultura Portuguesa, Europália 91, ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1991
  11. O Estilo de Oliveira – Manoel de Oliveira citado em CITI (base de dados)
  12. Nota sobre «a teatralização do texto por António Preto, no Suplemento da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, pp 18/20, Nº 1317, de 2009
  13. Talking Movies and Changes in the Film Industry
  14. Dialogue and Sound – artigo de Siegfried Kracauer
  15. Ver filmografia de Paulo Branco – em Leopardo Filmes

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]