Moderno espiritualismo

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Por volta de 1853, quando a canção popular Spirit Rappings (batidas de espíritos) foi publicada, o moderno espiritualismo era alvo de intensa curiosidade. Uma observação atenta permite ver que algumas das pessoas presentes na sessão que aparece na capa da partitura musical parecem estar-se divertindo.

O moderno espiritualismo é um movimento religioso, que teve origem por volta do século XIX em países de língua inglesa e depois se propagou por todo o mundo. A característica marcante deste movimento é a crença em que os espíritos dos mortos podem ser contatados pelos vivos.[1][2] Acredita-se que esses espíritos residem em um plano espiritual diferente dos vivos, sendo que os mais evoluídos deles são capazes de servir de guias para o aperfeiçoamento tanto em assuntos mundanos quanto espirituais. Assim como os termos espiritismo (1857) e espiritualismo não tem o mesmo significado, o moderno espiritualismo também difere destes em sua definição, pois especifica o movimento espiritualista surgido por volta do século XIX. É importante ressaltar, que o espiritualismo refere-se ao oposto do materialismo, ou seja, quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. O vocábulo "espiritualismo", atualmente, é utilizado para denominar uma variedade enorme de religiões, sistemas filosóficos, doutrinas, crenças e seitas. Já o "moderno espiritualismo" especifica o espiritualismo desenvolvido, aproximadamente, a partir de Emanuel Swedenborg ao início do século XX, baseando-se na crença da comunicação dos espíritos com o mundo visível.

Nos Estados Unidos, desde os primórdios de seu aparecimento, o moderno espiritualismo tem sido mais comumente denominado sinônimo de espiritismo, em face da introdução de um caráter científico-filosófico-religioso novo nas ideias já existentes do espiritualismo, contudo algumas ideias fundamentadas pelos "modernos espiritualistas" dos países de língua inglesa distinguem dos ideais espiritas, embora ambos tenham surgido no mesmo século. O moderno espiritualismo desenvolvido nos países de língua inglesa não se baseia na codificação espírita. [nt 1]É bastante conhecida também a divergência entre o que se convencionou chamar de "espiritismo latino" e "espiritismo anglo-saxão" (este último, particularmente, era integrado pelos ingleses e estadunidenses), essa divisão ocorreu por causa do número de pessoas que passaram a utilizar a denominação de "espíritas", ambos apresentavam diferenças em relação a reencarnação.

Contudo, na França, o "espiritismo anglo-saxão" é comumente chamado de — moderno espiritualismo anglo-saxão— (em francês: Spiritualisme Moderne Anglo-Saxon), essa substituição encontra respaldo na realidade, visto que, o espiritismo (em francês: spiritisme) é uma doutrina baseada nas obras codificadas pelo francês Hippolyte León Denizard Rivail, sob o pseudônimo de Allan Kardec.[4] Enquanto que, o moderno espiritualismo, antecedendo o surgimento do Espiritismo, trata-se praticamente das manifestações de entidades incorpóreas que espalharam-se por todo o mundo por volta do século XIX, mas em alguns casos, com identidade própria. Esta foi a causa para o surgimento da designação moderno espiritualismo anglo-saxão. A palavra composta "anglo-saxão" foi adicionada para especificar certas crenças adotadas pelos modernos espiritualistas dos países de língua inglesa.

No espiritismo (ou doutrina espírita), conforme definido pela primeira vez por Allan Kardec, inclusive esta palavra trata-se de um neologismo cunhado e codificado por ele com a publicação francesa de O Livro dos Espíritos em 1857, [nt 2] a reencarnação está presente em todas as obras básicas da doutrina espírita.[nt 3]

Enquanto que, para a maior parte dos modernos espiritualistas britânicos do começo do século XX, segundo Arthur Conan Doyle (escritor e médico britânico), a doutrina da reencarnação era tratada com certa indiferença, com poucos a apoiando e uma minoria significativa lhe sendo veementemente a favor, os que contestavam o reencarnacionismo alegavam que tal conceito ainda não havia sido suficientemente demonstrado como real. Conan Doyle foi Presidente de Honra da Federação Espiritualista Internacional, Presidente da Aliança Espírita de Londres e Presidente do Colégio Britânico de Ciências Psíquicas, nos séculos XIX e XX. Usou de toda a sua experiência pessoal e trabalho de pesquisa para redigir esta obra.[10][11][12]

Embora a resistência mantida à época na Inglaterra e nos Estados Unidos contra o princípio reencarnacionista, Arthur Conan Doyle e outros espíritas britânicos e estadunidenses, apesar de serem relativamente poucos, admitiam a reencarnação conforme disposta nas obras básicas espíritas.[nt 4] [nt 5] [nt 6]

Alguns nomes são tidos como os pioneiros do moderno espiritualismo, dos quais é possível citar: John Dee, Jakob Böhme, Emanuel Swedenborg,[15] Franz Mesmer, Justinus Kerner, as Irmãs Fox (Katherine Fox, Leah Fox, Margaret Fox),[16] Emma Hardinge Britten,[17] Andrew Jackson Davis.[18][19]

Origens[editar | editar código-fonte]

O moderno espiritualismo anglo-saxão, que especifica o moderno espiritualismo surgido nos países de língua inglesa, surgiu pela primeira vez nos anos de 1840 no distrito "Burned-Over" de Nova Iorque, onde movimentos religiosos anteriores como o millerismo (Adventistas do Sétimo Dia) e o mormonismo tinham emergido durante o Second Great Awakening (Segundo Grande Despertar). Era um ambiente onde muitas pessoas sentiam que a comunicação direta com Deus ou com os anjos era possível e no qual muitas pessoas se sentiam desconfortáveis com as noções calvinistas de que Deus podia comportar-se de forma áspera — por exemplo, que Deus condenaria crianças não batizadas a uma eternidade no inferno (Carroll 1997).

Swedenborg e Mesmer[editar | editar código-fonte]

Nesse ambiente, os escritos de Emanuel Swedenborg (1688-1772) e os ensinamentos de Franz Mesmer (1734-1815) serviram de exemplo para aqueles que procuravam um conhecimento pessoal direto da vida após a morte (Carroll 1997). Swedenborg, que em estado de transe, se comunicava com os espíritos, descreveu em volumosos escritos a estrutura do mundo espiritual. Duas características da sua visão tiveram particular acolhida pelos primeiros modernos espiritualistas: primeira, a de que não existe apenas um único céu e um único inferno, mas uma série de esferas pelas quais um espírito progride à medida que evolui; segunda, a de que espíritos são os mediadores entre Deus e os homens de modo que o contato humano direto com o divino é feito através dos espíritos dos humanos que se foram.

Pode-se ver a excitação sentida pela assistência quando o Mesmerista induz um transe. Pelo pintor sueco Richard Bergh, 1887.

Mesmer não contribuiu com crenças religiosas, mas com uma técnica, mais tarde conhecida como "hipnotismo", que induziria transes e faria com que aqueles que a ela fossem submetidos relatassem contatos com seres espirituais. Houve muito exibicionismo com o Mesmerismo e praticantes que davam palestra nos Estados Unidos nos meados do século XIX procuravam entreter audiências ao mesmo tempo em que demonstravam um método de contato com o divino.

Talvez o mais bem conhecido dos que combinaram Swedenborg com Mesmer em síntese particularmente norte-americana tenha sido Andrew Jackson Davis, que intitulou seu sistema de "Filosofia Harmônica". Davis foi um hipnotizador praticante, curador pela fé e clarividente de Poughkeepsie, Nova Iorque. Seu livro de 1847, denominado The Principles of Nature, Her Divine Revelations, and a Voice to Mankind (Os Princípios da Natureza, Suas Revelações Divinas e uma Voz para a Humanidade) [3], ditados em transe a um amigo, acabaram por se tornar o que existe de mais próximo a um trabalho canônico em um movimento espiritualista cujo individualismo extremo excluiu a possibilidade de desenvolvimento de uma visão mundial única e coerente.[20][21]

Ligação ao movimento de reforma norte-americano[editar | editar código-fonte]

Muitos dos primeiros participantes do moderno espiritualismo norte-americano eram quakers radicais e outros envolvidos pelo movimento de reforma de meados do século XIX. Esses reformistas não se sentiam bem com as igrejas estabelecidas porque elas pouco faziam para lutar contra a escravidão e menos ainda para aumentar os direitos das mulheres. As mulheres eram particularmente atraídas ao movimento porque ele dava a elas papéis importantes como médiuns. Na verdade, o moderno espiritualismo ofereceu um dos primeiros foros onde as mulheres norte-americanas puderam dirigir-se a audiências públicas mistas.[21]

Manifestações físicas e fraude[editar | editar código-fonte]

Os modernos espiritualistas norte-americanos costumam considerar o dia 31 de março de 1849 como o início do seu movimento. Naquela data, Kate e Margaret Fox, de Hydesville, Nova Iorque, relataram que tinham feito contato com o espírito de um mascate assassinado. O que fez disso um evento extraordinário foi que o espírito se comunicava por pancadas audíveis em vez de simplesmente aparecer a uma pessoa em transe. A evidência dos sentidos dizia fundo aos norte-americanos práticos e as irmãs Fox tornaram-se uma sensação. As demonstrações de mediunidade mostraram ser um negócio lucrativo e logo se tornaram formas populares de entretenimento e catarse espiritual. As irmãs Fox acabaram fazendo disso sua fonte de renda e outros seguiram seu exemplo.[20][21]

Nos anos seguintes, o exibicionismo tornou-se uma parte cada vez mais importante do moderno espiritualismo e a evidência visível, audível e tangível de espíritos cresceu à medida que os médiuns competiam por audiências pagas. A fraude tornou-se certamente disseminada, como comissões de investigação independentes demonstraram, mais notadamente o relatório da comissão Sybert [4], talvez o caso mais conhecido de fraude, envolvendo os Irmãos Davenport.

Entretanto, hoje sabe-se que muitos que declararam serem fraudes os acontecimentos ditos "inconcebíveis" na época tinham receio de serem encarados, publicamente, como transviados ou loucos, caso relatassem concordância com os fatos, o que fez com que muitos homens ilustres negarem os acontecidos realizados, muitas vezes, em sua frente. Poucos eram suficientemente corajosos para dizer à sociedade que, de duas uma: ou não sabiam como explicar tais fenômenos (o que mancharia a figura sábia e inatingível dos ilustres da época) ou que tais fatos eram verdadeiros, e que mereceriam respeito e maiores investigações sérias, e não preconceituosas.

No entanto, a despeito da "fraude" generalizada, o apelo do moderno espiritualismo era forte. Antes de tudo, o movimento atraia a simpatia dos que sofriam pela morte de uma pessoa amada: o ressurgimento do interesse pelo moderno espiritualismo durante e após a Primeira Guerra Mundial foi uma resposta direta ao número maciço de mortos e feridos (Doyle 1926). Entretanto o movimento também atraia a simpatia dos reformistas, que descobriram que os espíritos apoiavam "casos da moda" tais como a igualdade de direitos (Braude 2001).

O movimento também despertou a simpatia daqueles que tinham um orientação materialista e tinham rejeitado religiões. O influente socialista Robert Owen abraçou o moderno espiritualismo após suas experiências em encontros espiritualistas de sua época. Muitos cientistas que se preocuparam em investigar os fenômenos moderno-espiritualistas também acabaram por se converter ao moderno espiritualismo anglo-saxão (este último, especifica o moderno espiritualismo desenvolvido nos países de língua inglesa) ou ao espiritismo (doutrina codificada e sistematizada pelo pedagogo francês Allan Kardec), entre eles o físico e químico William Crookes, o biologista evolucionista Alfred Russel Wallace (1823-1913) e o médico e escritor Arthur Conan Doyle (1859-1930)[5] (Doyle 1926).

Espalhado, mas desorganizado[editar | editar código-fonte]

O movimento espalhou-se rapidamente pelo mundo apesar de somente no Reino Unido ter-se tornado tão espalhado como nos Estados Unidos.[22] Na Grã-Bretanha, por volta de 1853, convites para o chá entre os prósperos e os da moda freqüentemente incluíam as "mesas girantes", um tipo de sessão no qual os espíritos se comunicavam com as pessoas sentadas à volta de uma mesa balançando-a ou girando-a..[20][21]

Os modernos espiritualistas norte-americanos se encontravam em casas particulares para sessões de efeitos físicos, em auditórios para palestras psicofônicas e em acampamentos de veraneio onde milhares compareciam para convenções estaduais ou nacionais. O movimento era extremamente individualista, onde cada espiritualista adepto do movimento confiava em suas próprias experiências e leituras para discernir a natureza do após-vida. Portanto, a organização demorou a aparecer e quando ocorreu foi resistida por médiuns (de efeitos físicos) e palestrantes psicofônicos. A maioria dos modernos espiritualistas norte-americanos satisfaziam-se em frequentar igrejas cristãs e as igrejas unitaristas e universalistas continham muitos espiritualistas. Quando o movimento começou a desaparecer, em parte devido às fraudes expostas e em parte devido ao apelo de movimentos religiosos similares como a Ciência Cristã, a Igreja Espiritualista foi organizada e esta igreja pode alegar ser o principal vestígio do movimento que ainda existe hoje em solo norte-americano.[20][21]

O espiritismo[editar | editar código-fonte]

Esta fotografia de Chicago no ano de 1906 mostra um grupo de senhoras de classe média encontrando-se para discutir o moderno espiritualismo. O movimento foi primeiramente um fenômeno de classe média e alta e foi particularmente popular entre as mulheres.
Ver artigo principal: Espiritismo

O pedagogo francês Hypolite Léon Denizard Rivail (1804-1869), que adotou o pseudônimo Allan Kardec, destacou-se por empreender a primeira tentativa de sistematização das práticas moderno-espiritualistas em um sistema filosófico consistente. As suas obras sobre o assunto, escritas nos últimos quinze anos de sua vida, tornaram-se a base teórica de um movimento conhecido como espiritismo (ou doutrina Espírita), espalhado, principalmente, pelos países latinos. No Brasil, as ideias de Kardec possuem hoje milhões de seguidores.[carece de fontes?] A doutrina espírita evoluiu de forma muito diversa do moderno espiritualismo norte-americano e inglês.

Outros médiuns e crentes proeminentes anglofônicos[editar | editar código-fonte]

Amy Post e Isaac Post eram Hicksite Quakers de Rochester, Nova Iorque. Antigos conhecidos da família Fox, eles levaram as irmãs Fox para a sua casa no final da primavera de 1848. Como Quakers radicais, fazendo campanha pela abolição e pelos direitos iguais para as mulheres, eles ajudaram a colocar uma etiqueta de reforma no movimento (Braude 2001).

Achsa W. Sprague nasceu em 17 de novembro de 1827, em Plymouth Notch, Vermont. Aos 20 anos ela ficou doente com febre reumática e creditou sua recuperação à intervenção dos espíritos. Uma palestrante psicofônica muito popular, ela viajou pelos Estados Unidos até a sua morte em 1861. Como a maioria dos espiritualistas do seu tempo, Sprague era abolicionista e defensora dos direitos das mulheres (Braude 2001).

Cora L. V. Scott (1840-1923) foi a palestrante psicofônica mais popular que houve antes da Guerra Civil norte-americana. Jovem e bonita, seu aparecimento no palco fascinava os homens. A incongruência entre seu elevado discurso e seu jeito de menina dava crédito à noção de que os espíritos falavam por ela. Cora casou-se quatro vezes e, a cada vez, adotou o sobrenome do marido. Durante o seu período de maior atividade ela era conhecida como Cora Hatch (Braude 2001).

Crenças características[editar | editar código-fonte]

Os modernos espiritualistas acreditam na possibilidade de comunicação com os espíritos. Uma crença secundária é que os espíritos estão de certa forma mais próximos de Deus que os humanos vivos e que os espíritos são capazes de crescimento e perfeição. A vida após a morte não é, portanto, um lugar estático mas um onde os espíritos continuam a evoluir. As duas crenças, a de que o contato com espíritos é possível e a de que os espíritos são mais adiantados que os humanos, levam a uma terceira, a de que os espíritos podem prover informação útil sobre assuntos morais e éticos, assim como sobre a natureza de Deus e a vida após a morte. Assim, muitos modernos espiritualistas falarão com seus guias espirituais, espíritos específicos frequentemente contactados para orientação mundana e espiritual.

Comparações com outras crenças[editar | editar código-fonte]

O moderno espiritualismo anglo-saxão, que especifica o movimento espiritualista (moderno espiritualismo) desenvolvido nos países de língua inglesa com aspecto e identidade própria, emergiu num ambiente cristão e tem muitas características em comum com o cristianismo: um sistema moral essencialmente cristão, uma crença percebida no Deus judaico-cristão, panenteísmo místico e práticas litúrgicas como serviços dominicais e canto de hinos. A razão principal para essas semelhanças é que os modernos espiritualistas anglo-saxões acreditam que alguns espíritos são "atrasados" ou brincalhões e se deliciam desviando os humanos do rumo. Assim sendo, desde Swedenborg, os crentes são aconselhados a hesitarem antes de seguir a orientação dos espíritos e geralmente desenvolveram suas crenças dentro de uma estrutura cristã.

No entanto, em pontos significativos, o cristianismo e o moderno espiritualismo anglo-saxão são bem diferentes. Os modernos espiritualistas, em geral, não acreditam que as ações desta vida levem ao destino eterno de cada alma seja no céu ou no inferno. Em vez disso, eles veem a vida após a morte como contendo muitas esferas arranjadas hierarquicamente, através das quais cada espírito pode ter sucesso em progredir. Os modernos espiritualistas também divergem dos cristãos quanto ao fato de a bíblia judaico-cristã não ser a fonte primária de seu conhecimento sobre Deus e a vida após a morte e sim os contatos pessoais que eles têm com os espíritos.

Os modernos espiritualistas sofreram feroz oposição dos líderes cristãos. Aqui um panfleto de 1865 associa o "moderno espiritualismo" à "bruxaria" e culpa essa crença por induzir a Guerra Civil. O panfleto adiciona uma correta associação entre o moderno espiritualismo e o abolicionismo.

Outras religiões além do cristianismo influenciaram o moderno espiritualismo anglo-saxão. As crenças animistas, com uma tradição de xamanismo, são obviamente similares e, nas primeiras décadas do moderno espiritualismo anglo-saxão, muitos médiuns alegaram ter feito contato com guias indígenas americanos em uma aparente confirmação dessas semelhanças. Ao contrário dos animistas, no entanto, os modernos espiritualistas, em geral, tendem a falar apenas com os espíritos de humanos mortos e não compartilham a crença nos espíritos de árvores, fontes e outras características da natureza.

O hinduísmo, apesar de ser um sistema de crenças extremamente heterogêneo, geralmente compartilha com o moderno espiritualismo a crença na separação da alma do corpo após a morte e na continuação da sua existência. No entanto, os hindus diferem dos modernos espiritualistas anglo-saxões quanto ao fato de crerem geralmente na reencarnação, geralmente sustentando que todas as características da personalidade de uma pessoa se extinguem com a morte. Os modernos espiritualistas anglo-saxões, entretanto, sustentam que o espírito mantém a personalidade que ele tinha durante a sua (única) existência.

O espiritismo, ramo do espiritualismo desenvolvido por Allan Kardec e predominante na maioria dos países latinos, sempre enfatizou a reencarnação. De acordo com Arthur Conan Doyle, a maior parte dos modernos espiritualistas britânicos do começo do século vinte eram indiferentes à doutrina de reencarnação, com poucos a apoiando e uma minoria significativa lhe sendo veementemente a favor, os que contestavam o reencarnacionismo alegavam que tal conceito ainda não havia sido suficientemente demonstrado como real. Assim, de acordo com Conan Doyle, foi a tendência empírica do moderno espiritualismo anglofônico —seu esforço por desenvolver visões religiosas a partir da real observação dos fenômenos— que evitou que muitos espiritualistas daquele período adotassem a reencarnação (Doyle 1926: volume 2, 171-181). Segundo se pode concluir, no entanto, pela leitura das obras básicas do espiritismo —a chamada Codificação Espírita— a afirmação de Conan Doyle não encontra respaldo na realidade, posto que toda a doutrina espírita foi escrita a partir de informações obtidas com os espíritos e como fruto da observação e do estudo dos fenômenos espíritas. Embora tenha nascido na Escócia, consequentemente, sendo de cidadania britânica, a intenção de Conan Doyle não foi contestar a reencarnação, pois mantinha sua convicção a favor, mas demonstrar as dificuldades que os modernos espiritualistas anglo-saxões, especialmente ingleses e estadunidenses, encontravam em aceitar tal ideia. A propósito dos motivos da não adoção do princípio da reencarnação por muitos moderno-espiritualistas estadunidenses, Kardec escreveu um artigo na edição de maio de 1884 da sua Revista Espírita, intitulado "A Escola Espírita Americana".

O moderno espiritualismo anglo-saxão também difere de muitos movimentos ocultistas, como a Hermetic Order of the Golden Dawn (Ordem Hermética do Amanhecer Dourado) ou os clãs wiccans contemporâneos, cujos adeptos não se contactariam com espíritos para obterem "poderes mágicos" (com a única exceção de obter-se o poder de cura). Madame Blavatsky (1831-1891), da Sociedade Teosófica, por exemplo, somente praticava mediunidade de modo a contactar espíritos poderosos capazes de conferir conhecimento esotérico. Aparentemente, Blavatski não acreditava que tais espíritos fossem humanos mortos e de fato tinha crenças na reencarnação bastante diferentes das que tinha a maior parte dos modernos espiritualistas.[21]

Desenvolvimentos após os anos de 1920[editar | editar código-fonte]

Já pelo final do século XIX, o moderno espiritualismo tinha-se tornado cada vez mais sincrético, um desenvolvimento natural em um movimento sem autoridade ou dogma central.[21] Na sua forma mais sincrética, o espiritualismo não é facilmente distinguível do igualmente sincrético movimento da Nova Era e, assim como o movimento da Nova Era, baseia-se fortemente no xamanismo e adota a ideia da reencarnação. No entanto, a forma da prática "moderno espiritualista" permanece quase a mesma que há 100 anos, centrada em um médium e seus clientes, com o médium sentado a sós ou em sessão. Talvez a maior diferença seja a importância crescente da Igreja Espiritualista como uma rede ligando médiuns e crentes. O moderno espiritualismo organizado hoje parece-se muito mais com uma religião tendo descartado o exibicionismo, particularmente os elementos semelhantes aos da arte de prestigiação. Existe assim muito mais ênfase à mediunidade "mental" e evita-se quase completamente a mediunidade miraculosa de "materialização" que tanto fascinava os primeiros crentes como Arthur Conan Doyle.[23]

No entanto, a orientação empírica do moderno espiritualismo tem muitos adeptos hoje em dia que evitam o rótulo de "moderno espiritualismo", preferindo o termo survivalism ("Sobrevivencialismo"). Os "Survivalists" abstém-se de religião, e baseiam sua crença na vida após a morte em fenômenos susceptíveis a pelo menos uma rudimentar investigação científica, como mediunidade, experiências de quase-morte, experiências fora-do-corpo, experiências de voz eletrônica e pesquisas sobre reencarnação. Muitos survivalists vêm a si mesmos como os herdeiros intelectuais do movimento espiritualista surgido por volta de 1840.[24]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Codificação espírita é o conjunto de cinco obras publicadas por Allan Kardec, que constituem o elo fundamental da Doutrina Espírita.[3]
  2. Para informações sobre outros significados atribuídos ao termo "espiritismo", veja Espiritismo (termo)
  3. Além de "O Livro dos Espítitos", Alan Kardec publicou também "O livro dos Médiuns" (1861), "O Evangelho Segundo o Espiritismo" (1864), "O Céu e o Inferno" (1865) e "A Gênese" (1868). O conjunto desses livros compõe a codificação espírita.[5][6][7][8][9]
  4. A propósito dos motivos da não adoção do princípio da reencarnação por vários espiritualistas estadunidenses, Allan Kardec escreveu um artigo na edição de maio de 1884 da sua Revista Espírita, intitulado "A Escola Espírita Americana".
  5. A Reencarnação está presente em O Livro dos Espíritos, primeiro livro da Codificação Espírita; Capítulo 4 -Pluralidade das existências- Da parte segunda -Mundo espírita ou dos espíritos. A Reencarnação está presente em O Evangelho Segundo o Espiritismo, terceiro livro da Codificação Espírita; Capítulo 4 -Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo-A Reencarnação faz parte dos preceitos básicos do espiritismo, é tanto que vários conceitos da doutrina espírita ficariam contraditórios sem ele.[13]
  6. O túmulo de Allan Kardec, em Paris, contém a inscrição que resume o pensamento espírita a respeito do assunto: “Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei.[14]

Referências

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • BRANDON, Ruth. The Spiritualists: The Passion for the Occult in the Nineteenth and Twentieth Centuries. New York: Alfred A. Knopf, Inc., 1983.
  • BRAUDE, Ann. Radical Spirits: Spiritualism and Women's Rights in Nineteenth-Century America. Bloomington: Indiana University Press, 2001. ISBN 0253215021.
  • BRITTEN, Emma Hardinge. Nineteenth Century Miracles: Spirits and their Work in Every Country of the Earth. New York: William Britten, 1884.
  • BROWN, Slater. The Heyday of Spiritualism. New York: Hawthorn Books, 1970.
  • BUESCHER, John B. The Other Side of Salvation: Spiritualism and the Nineteenth-Century Religious Experience. Boston: Skinner House Books, 2003. ISBN 1-55896-448-7.
  • CARROLL, Bret E. Spiritualism in Antebellum America. Bloomington: Indiana University Press, 1997. ISBN 0253333156.
  • DOYLE, Arthur Conan. The History of Spiritualism. New York: G.H. Doran, Co., 1926. Volume 1 Volume 2. ISBN 1410102432. (Vide Nota).
  • GUTHRIE, John J. Jr.; Phillip Charles Lucas, and Gary Monroe (editors). Cassadaga: the South's Oldest Spiritualist Community. Gainesville (FL): University Press of Florida, 2000. ISBN 0813017432.
  • WEISBERG, Barbara. Talking to the Dead. San Francisco: Harper, 2004.
  • WICKER, Christine. Lily Dale: the True Story of the Town that talks to the Dead. San Francisco: Harper, 2003.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]