Mesas girantes

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Salão parisiense com as "mesas girantes" (revista "L'Illustration", 1853).

As chamadas mesas girantes, mesas falantes ou dança das mesas é um tipo de sessão espírita, popular no século XIX, em que os participantes se sentam ao redor de uma mesa, colocam as mãos sobre ela e esperam por movimentos. As mesas supostamente serviam como um meio de comunicação com os espíritos; alfabetos também eram colocados sobre as mesas e elas supostamente se inclinavam para a carta adequada, soletrando, assim, palavras e frases. O fenômeno é explicado pelo chamado efeito ideomotor,[1] semelhante ao que acontece com um tabuleiro ouija.[2]

Histórico[editar | editar código-fonte]

Segundo os biógrafos, Allan Kardec foi convidado nos anos 1850 por Fortier, um amigo estudioso das teorias de Mesmer, a verificar, observar e analisar o fenômeno chamado de "mesas girantes, um tipo de sessão espírita popular no século XIX.[3] [4] [5] As primeiras manifestações de mesas girantes observadas por ele aconteceram por meio de mesas se levantando e batendo, com um dos pés, um número determinado de pancadas e respondendo, desse modo, sim ou não, segundo fora convencionado, a uma questão proposta.[3] [6] [7]

Por volta da mesma época Victor Hugo, Gerard de Nerval e Edgar Allan Poe tornam-se pesquisadores e crentes das mesas girantes. Mais notoriamente Hugo, que durante seu exílio em Jersey entre 1851-55 participou de inúmeras sessões de mesas vindo a acreditar que por tal meio entrou em contato com diversos espíritos de falecidos, entre eles o de sua filha Leopoldina.[8] [9] [4] Diante de experiências com as mesas girantes Victor Hugo se tornou espírita e em 1867 clamou que a ciência deveria dar atenção e seriedade para os fenômenos das mesas: "A mesa girante ou falante foi bastante ridicularizada. Falemos claro. Esta zombaria é injustificável. Substituir o exame pelo menosprezo é cômodo, mas pouco científico. Acreditamos que o dever elementar da Ciência é verificar todos os fenômenos, pois a Ciência, se os ignora, não tem o direito de rir deles. Um sábio que ri do possível está bem perto de ser um idiota. Sejamos reverentes diante do possível, cujo limite ninguém conhece, fiquemos atentos e sérios na presença do extra-humano, de onde viemos e para onde caminhamos".[10] [11] [12] [13]

Grandes magnetizadores estudam o fenômeno desde o início. Entre eles encontrava-se: o próprio Sr. Fortier; o Sr. Carlotti; o Sr. Pâtier, que receberia Kardec em casa para experimentos.[14] Neste período, até o mais conhecido dos magnetizadores, Barão du Potet, já havia comentado sobre o assunto em seu livro Traité complet de magnétisme animal (Tratado completo de magnetismo animal), nas nona e décima lições. Uma comissão da Academia Francesa de Ciências cobrava que o químico Michel Eugène Chevreul estudasse cientificamente o fenômeno, mas o seu relatório, apresentado à Academia de Ciências em 1854, não é publicado.[15] Quando a diversão do experimento de física das plataformas giratórias passa e entram em cena as mesas falantes, os cientistas abandonam os experimentos.[16] Enquanto a Igreja condena a prática,[17] outros alegam que o fenômeno está intrinsecamente ligado ao magnetismo animal.[18] [19]

Kardec, analisando esses fenômenos, concluiu que não havia nada de convincente neste método para os céticos, porque se podia acreditar num efeito da eletricidade, cujas propriedades eram pouco conhecidas pela ciência de então. Foram então utilizados métodos para se obter respostas mais desenvolvidas por meio das letras do alfabeto: a mesa batendo um número de vezes corresponderia ao número de ordem de cada letra, chegando, assim, a formular palavras e frases respondendo às perguntas propostas.[20] Kardec concluiu que a precisão das respostas e sua correlação com a pergunta não poderiam ser atribuídas ao acaso. O ser misterioso que assim respondia, quando interrogado sobre sua natureza, declarou que era um espírito ou gênio, deu o seu nome e forneceu diversas informações a seu respeito. Em seguida, o fenômeno começa a diminuir e, se segundo alguns, a tornar-se anedótico.[18] As mesas girantes foram os primeiros fenômenos que influenciaram Kardec a investigar a fundo a mediunidade em geral, e no final dos anos 1850 ele fundou o Espiritismo, doutrina espiritualista fortemente relacionada com a prática e o estudo dos fenômenos mediúnicos.[21]

Estudos[editar | editar código-fonte]

Em 1853 Michael Faraday[22] publicou os resultados de experimentos científicos simples que ele realizou para testar as causas do fenômeno das mesas girantes. Participaram dos experimentos pessoas honradas, que moviam as mesas facilmente, que acreditavam na factualidade do fenômeno e que desejavam participar da confirmação científica de uma força desconhecida.[22]

Dentre os cientistas que estudaram as mesas girantes, Michael Faraday[23] se destaca pela experiência científica que publicou em 1853.[22] Seus resultados mostraram que os movimentos das mesas eram causados pelo efeito ideomotor e descartaram as explicações paranormais do fenômeno.

Faraday menciona o estudo de William Benjamin Carpenter, descobridor do efeito ideomotor em 1852.[24] Usando folhas de papel ajustadas à mesa girante com colas que permitiam o movimento dessas folhas, Faraday demonstrou empiricamente que os participantes moviam a mesa de forma inconsciente, pois as folhas eram empurradas pelas mãos dos participantes antes das mesas se moverem.[22] Faraday depois testou um braço mecânico que registrava os movimentos da mesa antes destes se tornarem observáveis. Quando os participantes observavam esse registro de seus movimentos involuntários toda a movimentação das mesas cessava.[22]

James Randi afirma que o efeito ideomotor também acontece quando pessoas manuseiam um tabuleiro ouija, segundo ele pelo fato de que operadores com a visão obstruída não são capazes de produzir mensagens inteligíveis.[25] Ray Hyman publicou um estudo explicando como as pessoas são enganadas pelo efeito ideomotor.[26]

No entanto, Alfred Russel Wallace, cientista que propôs a Teoria da Evolução junto com Charles Darwin, acreditava que os experimentos de Faraday com as mesas girantes não haviam sido insuficientes havidos para explicar o fenômeno. Ele participou de várias sessões das mesas girantes e observou que "há um poder obscuro revelado pelos corpos das pessoas, quando se coloca as mãos sobre uma mesa e nos conectamos através dela".[27] [28] Outros cientistas, juntamente com o próprio Wallace, desacreditaram Faraday quanto à sua conclusão sobre as mesas girantes. Dentre eles encontramos: o engenheiro elétrico Gabriel Delanne,[29] o físico-químico Sir William Crookes,[30] o físico e escritor Oliver Lodge,[31] o professor de filosofia da ciência na Universidade de Turim Ernesto Bozzano,[32] os astrônomos Camille Flammarion e Friedrich Zöllner,[33] o criminologista Cesare Lombroso, [34] o contador, escritor e magistrado Arthur Findlay,[35] dentre outros.

Apesar da controvérsia, a posição da comunidade científica permanece a mesma. A movimentação das mesas é explicada pelo efeito ideomotor, semelhante ao que também ocorre com o tabuleiro ouija, onde os participantes movimentam os marcadores de maneira involuntária. Devido à simplicidade dos procedimentos e materiais utilizados, esses experimentos podem ser repetidos facilmente.[1]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b Encyclopædia BritannicaTable-turning (1911). Visitado em 10 de fevereiro de 2015. ""some simple apparatus which conclusively demonstrated that the movements were due to unconscious muscular action""
  2. Projeto Ockham: Explicando o fenômeno - O efeito ideomotor. Visitado em 23 de fevereiro de 2015.
  3. a b WANTUIL, Zêus, THIESEN, Francisco. Allan Kardec – o Educador e o Codificador. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004
  4. a b SOUTO MAIOR, Marcel. Kardec - A Biografia (1ª edição). São Paulo: Ed. Record, 2013
  5. John Mutigny, Victor Hugo e espiritualismo, Nathan, 1981, 126 pp. ( ISBN 2092994026 )
  6. CVDEE - Centro Virtual de Divulgação e Estudo do Espiritismo. Doutrina Espirita - Texto extraído da FEB
  7. CUCHET, William , Vozes do túmulo. Gira, espiritismo e da sociedade no século XIX, ed. du Seuil, 2012, 458 p.
  8. Maria do Carmo M. Schneider. Victor Hugo: a face oculta de um gênio. Anais do XIII Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada. Página visitada em 01/07/2014.
  9. Jean De Mutigny. Victor Hugo et Le Spiritisme. Paris: Nathan, 1981.
  10. Pierre Assouline. Même le guéridon de Victor Hugo vote Mélenchon. Le Monde (online); 05/04/2012. Página visitada em 01/07/2014.
  11. Abib, D.. CULTURA ESPÍRITA NO BRASIL/ SPIRITIST CULTURE IN BRASIL. Brazilian Cultural Studies, América do Norte, 224 07 2013. p. 113.
  12. MALGRAS, J. Les Pionniers du Spiritisme en France: Documents pour la formation d'un livre d'Or des Sciences Psychiques. Paris: (s.n.), 1906.
  13. SOUTO MAIOR, Marcel. Kardec - A Biografia (1ª edição). São Paulo: Ed. Record, 2013.
  14. Allan Kardec. O que é o espiritismo. [S.l.]: FEB. 14 - 16 p.
  15. CHEVREUL, Michel Eugène Chevreul, "De la baguette divinatoire, du pendule dit explorateur et des tables tournantes, au point de vue de I'histoire, de la critique et de la methode experimental". Paris: Mallet-Bachelier, 1854; Aparis, 2008, 364 pp. ( ISBN 2356074759 )
  16. Cuchet Guillaume, "As grandes plataformas giratórias de moda" História, No. 377, 2012, p. 80
  17. BAUTAIN, Louis (em francês) "Avis aux chretiens sur les tables tournantes et parlantes", Abbe Louis Eugene Marie Bautain (pseud. Un Ecclesiastique), Paris: Devarenne, 1853, 24 p.
  18. a b (em inglês) Gale Enciclopédia do Ocultismo e Parapsicologia Link aqui
  19. Guia HEU. As Mesas Girantes na França guiaheu.com. Visitado em 2015/06/02.
  20. BOUCHET, Christian, o Espiritismo, BA-BA coleção, Pardes, Puiseaux, 2004, página 107.
  21. Tiago Cordeiro. Allan Kardec e o espiritismo, uma religião bem brasileira (14/10/2014). Aventuras na História - Guia do Estudante. Página visitada em 18/11/2014.
  22. a b c d e Faraday, Michael. (1853). "Experimental Investigation of Table-Moving". Journal of the Franklin Institute 56 (5): 328-33. DOI:10.1016/S0016-0032(38)92173-8 (Finally, I beg to direct attention to the discourse delivered by Dr. Carpenter at the Royal Institution on the 12th of March, 1852, entitled 'On the influence of Suggestion in modifying and directing Muscular Movement, independently of Volition':-which, especially in the latter part, should be considered in reference to table moving by all who are interested in the subject.). Visitado em 06/08/2014.
  23. FARADAY Michael, "Pesquisa Experimental em plataformas giratórias", artigo em Ilustração de 02 de julho de 1853
  24. William Benjamin Carpenter. (1852). "On the influence of suggestion in modifying and directing muscular movement, independently of volition" (em inglês). Proceedings of the Royal Institution of Great Britain 1: 147-153. ISSN 1430-6972. Visitado em 20 de fevereiro de 2015.
  25. James Randi (1995-2007). "Ouija board". (em inglês) An Encyclopedia of Claims, Frauds, and Hoaxes of the Occult and Supernatural. James Randi Educational Foundation. Consultado em 20 de fevereiro de 2015. “Teste simples desmascara espíritos do tabuleiro ouija” 
  26. Ray Hyman (2006). How People Are Fooled by Ideomotor Action (em inglês) Quackwatch. Visitado em 20 de fevereiro de 2015.
  27. Alfred Russel Wallace 1823-1913 (em inglês) SurvivalAfterDeath.info. Visitado em 20 de fevereiro de 2015. "there is an unknown power developed from the bodies of a number of persons placed in connection by sitting round a table with all their hands upon it"
  28. Wallace, Alfred Russel. Miracles and Modern Spiritualism. London: George Redway, 1896 (rev. edn of 1874 original)
  29. Delanne, Gabriel. O fenômeno espírita. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2006. Página visitada em 20 de fevereiro de 2015.
  30. Crookes, William, "Fatos Espíritas", FEB, 159p. Visitado em 19/02/2015
  31. Lodge, Oliver " Raymond Or Life And Death” Visitado em 19/02/2015
  32. Bozzano, Ernesto, "Fenômenos de Transporte" Visitado em 19/02/2015
  33. Zöllner, Johan Carl Friedrich,[ http://www.aeradoespirito.net/Livros3/JohanCarlFriedrichZollnerProvasCientificasdaSobrevivencia.pdf "Provas Científicas da Sobrevivência"]] Visitado em 19/02/2015
  34. Espíritas Clássicos Visitado em 19/02/2015
  35. Findlay, Arthur, "No Limiar do Etéreo", FEB, 2002