História da Galiza
A história da Galiza' começa com o nascimento da própria Galiza, que é fixado tradicionalmente por volta do século XIX a.C., quando o Império Romano conseguiu anexar definitivamente os povos galaicos (kallaikoi) segundo o autor grego Estrabão, unificando-os pela primeira vez na história e denominando o seu território como Galécia (terra dos callaeci), e que acabou por derivar no actual nome "Galiza", motivo pelo que é considerada como uma das entidades político-administrativas mais antigas de toda a Europa.
O facto de que no ano 298 d.C. o imperador Diocleciano decidisse elevá-la à categoria de província consular -alongando assim também o seu território- supôs um acrescentamento da sua coesão política ao estar sob o governo de um cônsul romano. A sua definitiva consolidação estatal chegaria no ano 409 d.C. quando o rei suevo Hermerico funda nela o primeiro reino da Galiza, afiançando a existência da Galiza até os nossos dias.
A ocupação humana do território correspondente à actual Galiza, não obstante, é bem mais antiga que a chegada de Roma, existindo testemunhos arqueológicos que certifican o seu povoamento desde o Paleolítico Inferior. Estas populações receberam diversos aportes culturais durante milénios, fazendo parte já na Idade do Bronze da área cultural atlântica que se deu entre as terras mais ocidentais da Europa. No fim da Idade do Ferro estas populações autóctones formavam uma unidade cultural, que os romanos denominaram como galaicos e que supõem o principal substrato da população actual na Galiza.
Do mesmo modo, durante os séculos seguintes Galiza recebeu sucessivos assentamentos de gente, entre os que destacam romanos, suevos e bretões, que não só se integraram na população autóctone senão que também influíram decisivamente na sua vida, como foi o caso da cultura romana que propiciou a formação de uma nova língua autóctone, o galego-português. Até o ano 1833 a Galiza manteve-se coma um reino, no ano 1933 foi reconhecida internacionalmente como "nação" pela Sociedade de Nações e desde 1981 organiza-se jurídica e administrativamente como uma Comunidade Autónoma dentro do Estado Espanhol.
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Paleolítico [editar]
As primeiras provas líticas da presença humana na Galiza remontam há uns 300.000 anos, no Paleolítico Inferior, durante o Pleistoceno Médio. Apareceram restos destes povoadores por todo o litoral, desde Rivadeu até A Guarda. Estes restos são instrumentos líticos, que nos mostram uma indústria Acheulense a base de bifaces, fendedores, triedros... realizados sobre uma base de seixos ou quarço. Conhecem-se duas culturas, o paleolítico inferior arcaico (ou "cultura dos seixos talhados") e o paleolítico inferior clássico ou Acheulense. A técnica é mais simples na primeira delas. As indústrias são simples e o número de tipos reduzido.
Os seres humanos do Paleolítico Inferior viviam em hordas, é dizer, grupos de caçadores-recolectores que praticavam o nomadismo. Alimentavam-se dos frutos que recolhiam e da caça, que praticavam em tribos. Também praticavam a pesca e a recolhida de marisco, quando viviam em zonas nas que podiam fazê-lo.
Já durante o Paleolítico Meio a indústria característica é a musteriense, não homogénea, elaborada pelo homem de neandertal (dos que se documenta a sua presença no noroeste peninsular graças ao achado de um xacemento na Cova Eirós, em Triacastela, com matéria orgânica e ferramentas do Paleolítico médio).
O Paleolítico Superior espalha-se entre os anos 30.000 e 8.000 a.C., época na que encontramos instrumentos tanto de pedra como de óso, realizando-se neste material punhais, arpãos, agulhas etc. Na Galiza encontram-se abundantes sobretudo sob rocha, nos que encontramos uma indústria Aziliense a base de sílex, cristal de rocha, pórfidos cuarcíticos, quarços e cuarcitas mais ocre. As ferramentas mais características são os burís, as tesoiras de dorso rebaixado e as raspadeiras.
Oestrimios [editar]
Uma delas é o megalitismo, que na Europa se desenvolve desde o Neolítico até a Idade do Bronze caracterizando-se pela presença de (megálitos),1 construções realizadas com pedras de grandes dimensões. À luz das datações arqueológicas2 e síntese historiográficas3 até a data, não se recomenda assumir como provado o começo desta nova cultura antes de 4300 a.C. tanto n Galiza como no norte de Portugal, onde se origina o megalitismo atlântico4 ao estender-se por toda a fachada atlântica.5 A cultura do “megalitismo atlântico” vive o seu apogeu peninsular entre 3000 a.C. e 2300 a.C. e manifesta-se de forma homogénea numa área que compreenderia o norte de Portugal, Galiza, Astúrias, Leão e Zamora de maneira que a sua área de implantação seria o precedente da futura Galécia.
Os megálitos que mais abundam são os sepulcros funerários, construções formadas geralmente por um túmulo6 em torno de um dólmen7 interior com ou sem corredor a princípio, no qual se depositavam os cadáveres e um enxoval funerário.8 Estes dólmens encontram-se frequentemente agrupados em necrópoles situadas em planícies ou planaltos e proliferam sobretudo na vertente setentrional e ocidental da actual Galiza.
O grande número de dólmens9 induzem a existência de uma população densa e dispersa que, segundo as análises arqueológicas, fazia uso de uma criação de gado primitiva baseada na criação de bois, porcos, cabras e ovelhas e uma agricultura de cereais e leguminosas pouco sofisticada, o que obrigar-lhes-ia a seguir dependentes das técnicas mesolíticas de caça e recolecta. A sociedade megalítica galaica não desenvolveu uma hierarquização social significativa, como demonstram os ascéticos uniformes dos sepulcros ou os enterros colectivos, nos quais abundam mais os utensílios de finalidade produtiva que os objectos de enfeite. Tratava-se de uma “sociedade igualitária, composta de pequenas comunidades, pouco belicosa e assentada de forma dispersa” no território. As suas características mais destacáveis seriam a sua surpreendente habilidade arquitectónica —o que revela uma grande capacidade de organização do grupo—, e sobretudo a sua capacidade de abstracção e transcendência manifestada num profundo sentido religioso, constatável na grande quantidade de sepulcros. As gravuras encontradas nestes sepulcros descrevem uma “mitologia centrada na fecundidade e na morte”, emergindo a figura do celebrante ou mediador entre os deuses e os seres humanos.10
As tecnologias megalíticas começam a desaparecer com a chegada das técnicas metalúrgicas. No entanto a identidade cultural forjada no período megalítico não desaparecerá, pelo contrário continuará transmitindo-se no decorrer do terceiro ao primeiro milénio a.C., como demonstra a existência dos petróglifos, litografias realizadas em pedra granítica ao ar livre.
A homogeneidade técnica e temática desta expressão cultural permite definir a existência de um grupo galaico de arte rupestre caracterizado por uma temática abstracta11 que ocupa a maior parte da superfície, rodeada por elementos de uma temática naturalista, geralmente zoomorfa e antropomorfa junto com elementos como armas, escudos e ídolos-cilindro.12 Ainda que os elementos naturalistas são os que caracterizam e diferenciam a litografia pré-histórica galaica em frente aos seus equivalentes europeus, são os motivos abstractos —em especial labirintos, tramas geométricas e trisqueles— os que consolidar-se-ão na cultura castreja.
Idade do bronze atlântica [editar]
Entre o Megalisimo e o Bronze há uma etapa põe-te denominada Calcolítico, datada entre o 2.000 e o 1.800 a.C., e na que se produz o aparecimento da metalurgia. Incrementou-se a estabilidade dos assentamentos. As cistas (câmaras de pedra mais pequenas, não soterradas e individuais) substituem os dolmens, o que nos fala de uma certa elite social. Aparecem punhais de cobre, cilindros de ouro, machados e as primeiras jóias.
Podemos falar de três períodos cronológicos referidos à fundição do Bronze no noroeste peninsular:
- Fase inicial: ensaios com a metalurgia (1800 - 1200 a.C.)
- Fase média: eclosão do Bronze (1200 - 1000 a.C.)
- Fase final: difusão (1000 - 700 a.C.)
Já no Bronze inicial, encontramos uma conexão intensa com a costa ocidental atlántica. As peças de tiras e os aros têm os seus concomitantes nas terras litorais do ocidente europeu e nas Ilhas Britânicas. Destaca na Galiza o tesouro de Caldas de Reis: a maior acumulação de ouro da prehistoria da Europa Ocidental.
No segundo milénio antes de Cristo já podemos falar de uma cultura galaica plenamente aberta a ocidente com um novo metal: o bronze. Estoques de lingüeta trapezoidal, espadas com empunhaduras de remaste, espadas pistiliformes, machados tubulares e com anéis parecem-nos falar de uma sociedade aristocrática onde o espírito bélico condiciona a vida quotidiana. Salienta o capacete de ouro de Leiro (Rianjo). Galiza aparece plenamente conectada com o intercâmbio atlántico.
Outra manifestação plástica de enorme interesse são os gravados em pedra denominados petróglifos, que na Galiza têm a singularidade de um maior naturalismo que noutras áreas. Cérvidos, círculos, labirintos, armas, círculos concéntricos, caçoletas conservam uma simbologia misteriosa (cúltica, cósmica, ou transcendente) initeligiveis em alguns dos casos.
Idade do Ferro (séculos VIII a.C. até I d.C.) [editar]
A cultura castreja, ou cultura dos castros, foi um conjunto de manifestações culturais do noroeste da Península Ibérica que durou desde finais da Idade do Bronze (século IX ou VIII a.C.) até o século I d.C. A sua característica mais notável são os povoados amurados conhecidos como castros (do latim castrum, campamento), dos que toma o nome; só recebem o nome de citânias determinados castros portugueses (como, por exemplo, o de Briteiros). A sua área de extensão chega até os rios Navia e Cúa pelo leste e o Douro pelo sul.
Desenvolveu-se durante a Idade do Ferro sobre um forte substrato indígena da etapa final da Idade do Bronze. A esta componente pre-castreja somaram-se-lhe influências culturais centroeuropeas, atlânticas e mediterrâneas. No lento período formativo, que durou até o século V a.C. os castros foram-se estendendo de sul a norte e da costa cara o interior. Esta cultura desenvolveu-se a seguir durante dois séculos e começou a ser influenciada pela cultura romana no século II a.C. e continuou na forma de cultura galaico-romana depois da conquista e até os séculos III ou mesmo o IV d.C.
Os Galaicos [editar]
No fim da Idade do Ferro, as gentes do extremo norte-ocidental da Península Ibérica conformavam já uma unidade cultural homogénea que as diferenciava do resto e que tempo depois seria percebida pelos primeiros autores grecolatinos, que denominaram a este conjunto de povos com o nome de Gallaeci (galaicos), talvez pela aparente semelhança com os já conhecidos Galli (galos) e Gallati (gálatas). Os Gallaeci ou Galaicos foram originariamente um povo indoeuropeu de língua celta, portanto celtas para uns autores, celtizados para outros -sem que exista pleno consenso entre os investigadores- que ocuparam durante séculos aproximadamente o território da actual Galiza e norte de Portugal, limitando ao sul com os lusitanos e ao leste com os astures. São em si os primeiros "galegos", nome actual que deriva de Gallaeci sendo quotidianamente empregado como cultismo para referir-se ao relativo a Galiza ou os galegos, não obstante percebe-se historicamente a cultura galaica como aquela prévia à anexação ao Império Romano.
O modo de habitat dos galaicos estava baseado na ocupação do território especialmente em povoados fortificados que recebem o nome de "castros", podendo variar o seu tamanho desde pequenas aldeias de menos de 1 hectare mais usuais no norte, e de grandes castros de mais de 10 hectares que recebem o nome de oppida ou "citânias", estando estes mais presentes na metade sul do seu poboamento tradicional. Este modo de habitar o território, em castros, foi comum em toda a Europa durante a Idade do Bronze e do Ferro, recebendo no noroeste da Península Ibérica o nome de "cultura dos castros" ou "cultura castreja", que alude a este tipo de manifestação cultural antes da chegada de Roma, contudo os galaicos seguiriam a habitar castros até o século VIII d.C. Só no território da Galiza actual chegam a contar-se mais de dois mil castros, o que revela uma enorme dispersão populacional da Idade do Ferro em toda a Europa, que seria em boa medida a origem da ocupação galega do território herdada até o presente, e caracterizada por pequenas e numerosas populações distantes entre si.
A organização política dos galaicos articulava-se em pequenos estados independentes entre si compostos por um numero variado de castros, encabeçados estes estados pela figura de um rei local que os romanos denominaram princeps como em outras partes da Europa. Cada galaico identificava-se a si mesmo como membro do castro que habitava (segundo a interpretação mais comum do C invertido da epigrafia posterior) assim como do estado/povo ao que pertencia, e que os romanos denominaram populus, entre os que encontramos numerosos nomes como arrotrebi, albioni, celtici supertamarici, lemavi, nemetati, etc., do mesmo modo que até o fim do século XVIII a gente na Galiza se identificava com a freguesia e a comarca.
Integração no Império Romano (19 a.C. - 409) [editar]
Conquista da Galécia e transformações económicas [editar]
Os interesses de Roma no Noroeste da antiga Hispania supuseram o começo dos conflitos armados entre Roma e os galaicos no fim do século I a.C. Ainda que o general Décimo Junio Bruto logrou controlar efemeramente os povos galaicos mais meridionais na sua campanha do ano 137 a.C., não foi até o fim das Guerras Cantábricas (29 a. C.-19 a. C.) quando galaicos, astures e cantabros foram definitivamente anexanados a Roma.
Além da guerra, o Império Romano valeu-se de tratados de paz (chamados pactos de hospitalidade) com os diferentes povos galaicos, o que na prática favoreceram a sua integração -sem derramamento de sangue- no Império. Conquistado o território e as suas gentes -bem pela guerra ou bem por tratados-, o Império romano assegurou seu controlo militar como era costume com numerosos campamentos onde se albergavam legiãos ou cohortes tais como os de Aquis Querquennis, A Ciadelha (Sobrado dos Monxes) ou o próprio Lugo.
Entre os anos 284 e 305, o imperador Diocleciano acometeu a reorganização administrativa do Império. Na Península Ibérica criaram-se duas novas províncias (Galécia e Cartaginense) a partir das já existentes: Baetica, Tarraconensis e Lusitania. Assim, a nova província baixo o nome de Galécia ocupou o extremo nor-ocidental da Península Ibérica que anteriormente pertenceu à Tarraconensis, e esteve formada pelos territórios da região de Asturia e da própria Galécia. É destacável que entre todas estas capitais de convento (Lugo, Braga, Astorga) era a cidade de Bracara Augusta a que exercia de capital provincial de toda a Galécia, organizada administrativamente em três conventos jurídicos. Esta província do noroeste hispânico foi, pela sua importância militar, uma província imperial, não senatorial, controlada por uma forte legião na actual Leão e com campamentos como o de Aquis Querquernis (mansão na via Nova), Ciadelha ou a própria cidade de Lugo.
O Império Romano estendeu sobre a Galécia a sua rede viária, conectando as principais populações, portos e vilas (villae) com quatro grandes vias: a Via XVII, a Via Nova ou Via XVIII, a Via XIX e a Via XX. Junto à vias, o Iimpério Romano também construiu pontes (como as do Bibei, Ourense), canalizações, mas também faros (como a Torre de Hércules), portos, grandes muralhas como a de (Lugo), assim como outras instalações que favoreciam a exploração económica do território conquistado e a sua integração no resto o Império.
Antiguidade tardia (409-711) [editar]
A monarquia sueva (409-585) [editar]
No início do século V, o Império Romano do Ocidente experimentou uma grande instabilidade militar, econômica e política. Desde o centro da Europa (especialmente o território da atual Alemanha), numerosos povos germânicos - suevos, saxões, francos, alanos e outros, começaram atacar os postos fronteiriços romanos no rio Rhin, irrompendo finalmente no Império em 31 de Dezembro do ano 406 e assentando-se no seu interior pelas armas, mas também graças a pactos pacíficos.
Por volta do ano 409, dirigidos pelo seu rei Hermerico, grande parte dos suevos (estima-se que sobre 40.000 pessoas) chegaram à província romana da Galécia, onde possivelmente assentaram-se graças a um pacto com Roma, decidindo estabelecer a sua capital na cidade de Bracara Augusta (Braga, Portugal). Este pacto chamado foedus permitia aos suevos governar a província da Galécia como um reino próprio (Galliciense Regnum) enquanto que estes aceitassem o imperador romano como o seu superior. O historiador galaico Idácio de Chaves narrava então que os suevos foram bem recebidos pela população galaico-romana, pois aliviaram os impostos.
Após a morte de Hermerico, o seu filho Réquila (438-448) assumiu o trono e dirigiu expedições de saque, anexando o norte da província romana da Lusitania, integrando-se suevos e galaico-romanos. Isto põe de manifesto a plena independência com respeito ao Império.
Réquila foi sucedido por Requiário (448-456), quem adoptou o catolicismo no ano 449, manifestação pioneira de uma nascente concepção do governo apoiada na Igreja católica. Também foi Requiário o primeiro rei europeu em cunhar moeda própria, a qual fazia referência ao carácter galaico do Reino. Roma enviou um exército integrado por visigodos e no ano 456 teve lugar a batalha do rio Órbigo, que enfrentou romanos e visigodos contra suevos, com a derrota destes últimos e que teve como consequência o assassinato de Requiário.
Após a derrota contra os visigodos, o reino suevo dividiu-se e foi governado simultaneamente pelos reis Frantano e Aguiulfo. Esta situação durou desde 456 até 457, ano no qual Maldras (457-459) reunificou o reino, mas uma conspiração romano-visigoda acabou com sua vida. Apesar de que a conspiração não conseguiu os seus autênticos propósitos -a eliminação do reino-, o reino suevo viu-se novamente dividido entre dois reis: Frumario (459-463) e Remismundo (filho de Maldras) (459-469) quem reunificou novamente o reino do seu pai no 463 e que se viu obrigado a adotar o arianismo no 465 devido à influência visigoda.
A época escura finalizou com o reinado de Carriarico (550-559) que se converteu novamente ao catolicismo no 550, facto que significava a ruptura com os visigodos. Este, foi sucedido por Teodomiro (559-570) (não se confunda com Teodomiro, rei dos ostrogodos) durante o reinado do qual celebrou-se o Primeiro Concílio de Braga (561), instituindo-se esta assembleia como órgão assessor do rei. Destaca neste período a figura de Martinho de Dume pela sua participação à organização territorial (parroquiale suevorum) e à legitimação cristã de um governo estável sobre uma população plenamente integrada e fusionada.
Teodomiro foi sucedido por Miro (570-583). Durante o seu reinado celebrou-se o Segundo Concilio de Braga (572), consolidando-se o seu contributo à governação e estabelecimento da justiça. Aproximadamente no 577 iniciou-se a guerra civil visigoda na que interveio o rei Miro, quem no 583 organizou uma campanha de apoio a Hispalis (Sevilha) que fracassou. Durante o regresso desta expedição o rei morreu e no reino suevo começaram a produzir-se muitas lutas internas. Eborico (583-584) foi destronado por Andeca(584-585) que errou na sua tentativa por evitar a invasão visigoda dirigida por Leovigildo que se fez efetiva finalmente no 585.
Chegada dos bretões e fundação da diocese de Britonia [editar]
A situação política da ilha de Grã-Bretanha (Britania) entre os séculos IV e VII, mudou completamente com o abandono da ilha por parte de Roma e o constante estabelecimento de tribos anglosaxoas -procedentes do norte da Alemanha e Dinamarca- na parte oriental de Britannia. As constantes agressões e hostigamentos dos jutos e anglo-saxões contra os nativos -bretões- propiciaram que parte da população emigre via marítima a pontos próximos da costa atlántica, dirigindo-se maiormente às costas da Armórica (que devido a isto acabaram por tomar o nome actual de Bretanha) e menormente ao norte da antiga Galécia.
Desconhece-se a causa do deslocamento de alguns contingentes bretões para costa norte da Galiza e a acolhida do seu assentamento pelos galaico-suevos, alguns autores põem de manifesto um possível pacto militar, ou singelamente uma aceitação com condições desconhecidas actualmente. Organizados num importante território, introduziram a sua original organização religioso-cristã algo diferente e fundaram um bispado próprio que aparece citado no Parrochiale Suevum ou Divisio Teodomiri, um documento que mostra a organização eclesiástica do reino da Galiza em época da monarquia sueva datado entre 572 e 573. A sua integração religiosa foi total, assistindo o seu representante -Maeloc- ao Segundo Concílio de Braga no ano 572.
O território da antiga diocese dos bretões -Britonia- ocupou principalmente a faixa costeira da Marinha Luguesa até a comarca da Terra Chá, chegando a sua influência até as costas da comarca do Eu-Navia pelo leste, e de Ferrol pelo oeste. A sua antiga sede, conhecida com o nome de Mosteiro Máximo foi identificada por alguns autores com a Basílica medieval de São Martinho de Mondonhedo, onde se encontram restos do séculos V-VI d.C. Mudando de sede e nome em várias ocasiões, a actual diocese galega de Mondonhedo é a sua sucessora histórica.
O assentamento desta onda de emigrantes bretões e a criação de uma diocese religiosa própria supõe o segundo maior assentamento de um povo estrangeiro em terras galegas, depois dos suevos.
A monarquia visigótica (585-711) [editar]
No ano 585, o rei visigodo Leovigildo fez-se com o controlo do reino da Galiza, aproveitando uma disputa interna no reino e derrotando ao último monarca suevo, Andeca. Deste modo, o território da então Galécia passou a fazer parte dos domínios dos reis visigodos, que trás serem expulsos da Gália pelos francos se limitavam a Hispania e a Septimania desde o ano 507.
Aceitados pelas elites galaico-suevas, os novos monarcas visigodos, que apesar de terem sua corte em Toledo, assumiam o controlo político de três antigos reinos: Hispania, Septimania e Galécia. Desta maneira, nos concilios religiosos como o realizado em Toledo no ano 589 estavam presentes episcoporum totius Hispaniae, Galliae et Gallaetiae é dizer, "bispos de toda Hispania, Gália e Galécia", esta concepção tripartita encontra ao longo do governo visigodo desde o ano 585, diferenciando mediante diversas fórmulas as três entidades visigodas nos documentos como: fines Spanie, Gallie, Gallecie ou Spaniae et Galliae vel Gallitiae, entre outras. Destaca neste contexto a figura de Frutuoso de Braga, bispo galaico de ascendencia visigoda, famoso pelas numerosas fundações levadas a cabo por ele em todo o ocidente peninsular, quase sempre em lugares agachados nas montanhas e mesmo ilhas, destacando sua austeridade.
O facto de que a Galécia seguisse a possuir um status especial dentro da monarquia visigoda propiciou que o rei Égica cedesse ao seu filho Vitiza o governo da Galiza (antigo reino dos suevos) desde o 698 até o 702, quando morrido o seu pai assumiu o governo de Hispania e Septimania. Trás a sua morte de Vitiza, um sector aristocrático visigodo impediu a subida ao trono do seu filho Axila, impondo pela força a Rodrigo, o que supôs um irresoluble conflito civil entre os seus partidários e os dos filhos de Vitiza. Foi no ano 711 quando os inimigos de Rodrigo lograram que um exército muçulmano cruzasse o estreito de Gibraltar e presentasse batalha a Rodrigo em Guadalete, onde este foi derrotado, facto que marca o fim do governo visigodo em Hispania, e que terá uma transcendencia histórica total para as duas restantes entidades políticas: Galécia e Septimania.
No ano 715 Abd al-Aziz ibn Musa tomou por esposa à viúva de Rodrigo, de nome Egilona intitulada reginam Spanie, confirmando a continuidade dinástica, transferida assim legitimamente ao gobernador muçulmano. Deste modo, com a conquista de toda Spania pelos muçulmanos, além das suas fronteiras, os emires cordobeses seriam conhecidos com o título de rex Spanie. A partir desse momento começou uma nova concepção geográfica, pois "Espanha" vai ser o nome com o que se designe ao território muçulmano, e Galiza ao território cristão. Assim o historiador Al-Maqqari deixa claro a extensão do domínio muçulmano ao referir-se a conquista de começos do século VIII:
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Procedentes de Escandinávia -em especial desde Noruega, Suécia e Dinamarca, vikings e normandos devastaram e invadiram durante séculos as costas europeias, preferentemente as atlânticas -como as galegas-, chegando também ao Mediterrâneo oriental. Tradicionalmente consideram-se quatro os períodos de incursões ou vagadas escandinavas que afectaram ao reino da Galiza durante a Idade Media; a primeira, arredor do ano 844, a segunda (858-861), a terça(966-971) e a quarta -e derradeira- (1008-1038).
A primeira vagada na Galiza registou-se o 1 de Agosto do ano 844, em pleno reinado de Ramiro I. Procedentes de uma extraordinária rompida de saque por terras frisas, francas, bretonas e cantábricas, atacaram o norte da Galiza, instalando-se temporariamente nos arredor do Farum Bregatium (Corunha), desde onde levaram a cabo numerosos assaltos como o que sofreu o mosteiro de São Martinho de Juvia. A intervenção dos exércitos de Ramiro I, comandados pelo duque Argimiro conseguiu expulsá-los de terras galegas mermando a frota viking que pouco depois tomava rumo a Al-Andalus.
A segunda incursão escandinava teve por objecto as rias baixas galegas entre os anos 858 e 861. Nesta ocasião, vindos desde os seus assentamentos na Irlanda, penetraram na ria de Arousa com cem naves, acampando nas imediações de Iria Flavia (Padrón). Desde os seus postos, arrasaram Iria Flavia e sitiaram a própria Compostela até a chegada do exército do conde Pedro, que arrasou mas de uma trintena de dracars, obrigando-os a fugir.
Pouco mais de cem anos depois -no ano 966-, uma nova frota de vikings dinamarqueses encabeçada pelo nobre Gunderedo, penetrou de novo pela ria de Arousa na que se conhece como terça vagada viking. Dirigidos a saquear Compostela, o bispo Sisnando II saiu ao seu encontro com um grande exército episcopal, livrando o 29 de Março do ano 968 a conhecida como "batalha de Fornelos", onde o próprio bispo perdeu a vida de um frechazo e o seu exército foi derrotado. Dispersadas as tropas de Gunderedo pelo interior da Galiza (Lugo, Mondoñedo e o Courel), estas foram finalmente rejeitadas por um exército galego ao mando do conde Gonçalo Sanches e do bispo Rosendo de Celanova no ano 971.
Não obstante, foi o intervalo entre 1008 e 1038 quando se sucederam os ataques vikings mais violentos nas costas da Galiza. Depois de devastar Braga no ano 1008, chegava às terras de Tui, uma inxente frota norueguesa ao mando do rei Olavo II da Noruega. Apesar da defesa levada a cabo pelas tropas do duque galego Mendo Gonçalves, estas foram aniquiladas -também o próprio duque- pelos atacantes vikings que assolaram a cidade de Tui e raptaram o seu bispo Afonso. No ano 1028 uma nova frota escandinava entrou pela ria de Arousa, liderada pelo nobre Ulf, mais tarde alcunhado "o Galego". Longe de ser um mero ataque de saque, as tropas de Ulf serviram como mercenários a aristocratas galegos, permanecendo dez anos no reino da Galiza até a sua expulsão.
O fim da monarquia galego-leonesa (1230) [editar]
O facto de que no ano 1230 o rei castelhano Fernando III de Castela se apoderasse dos reinos da Galiza e Leão após a morte do seu rei, Afonso IX, marcou um dos acontecimentos políticos mais decisivos em toda a história da Galiza.
Em realidade o conflito remonta-se anos atrás, com os dois matrimónios do rei Afonso IX da Galiza e Leão; o primeiro, com a princesa portuguesa Teresa Sanches (1191) -do que nasceram três filhos; Fernando, Dulce e Sancha- e o segundo, com a princesa castelhana Berengária (1197) -do que nasceu entre outros Fernando III de Castela-. A morte inesperada do herdeiro e futuro rei da Galiza e Leão; Fernando, irmão de Dulce e Sancha, e a coroação de Fernando IIII como rei de Castela, impulsionada pela sua mãe Berengária e os nobres castelhanos em contra da vontade de Afonso IX, abriu uma funda disputa sobre quem devia ser o novo herdeiro da Galiza e Leão.
Já no seu leito de morte em Sarria, o rei Afonso IX selou um testamento de herança onde se plasmaba a sua última vontade; as suas filhas, Dulce e Sancha seriam as rainhas legítimas da Galiza e Leão trás a sua morte, protegendo deste modo a independência política destes reinos e impedindo sobretudo que caíssem nas mãos do seu filho, o rei castelhano Fernando III. Longe de acatar este testamento, e seguindo com a sua política expansionista, Fernando III reclamou os reinos da Galiza e Leão para si, ameaçando com tomar pela força numa guerra aberta. Se bem a nobreza galega e asturiana estava disposta a defender com as armas o cumprimento do testamento real e a proclamação de Dulce e Sancha como rainhas, a aristocracia de Leão (junto os bispos de Lugo, Oviedo e Mondoñedo), mais achegada geográfica e culturalmente a Castela, apoiou maioritariamente as pretensões do rei castelhano, inclinando a balança cara Fernando. A sombra de uma guerra civil e o iminente conflito armado contra Leão e Castela forçaram um pacto diplomático entre as viúvas de Afonso IX, motivo pelo que o rei castelhano se apoderava do trono em mudança de não invadir a Galiza nem Leão e pagar uma renda anual a Dulce e Sancha em conceito de compensação pela privação dos seus direitos reais.
Galiza (também Leão) perdeu desde este momento uma casa real própria que garantisse a sua soberania e unisse sua nobreza; em contra partida , convertiu-se num reino periférico, governado desde e por Castela e cujas cidades foram perdendo poder em detrimento das cidades castelhanas. Tal situação levou aos nobres galegos a alçarem-se em numerosas ocasião contra Castela, proclamando um novo rei, e mesmo coroando a Fernando I de Portugal, e ao inglês João de Gante, como soberanos legítimos da Galiza.
Florescimento e esplendecimento cultural (Séculos XIII-XIV) [editar]
Esta é a etapa de maior esplendor da literatura galego-portuguesa. O galego-português converte-se na língua por excelencia da lírica em toda a Península Ibérica, excepto em Catalunha (poesia trobadoresca). Propriamente devemos falar de lírica galego-portuguesa, estando em apogeu nos séculos XIII e primeira metade do XIV, quando o galego-português atinge o rango de língua internacional, já que está presente tanto em autores não só galegos e portugueses, senão também em castelhanos, occitanos, aragoneses, sicilianos, etc. coma em cortes reais e aristocráticas (Santiago, Toledo, Coimbra, Lisboa...)
As Cantigas de Santa Maria, composições feitas em louvor da Virgem Maria, são a amostra da vertente religiosa desta lírica galego-portuguesa e constituem o corpus de poesia mariana medieval mais relevante de toda a Península. Foram compostas na corte de Afonso X o Sábio, quem se encarregou da direcção e, em ocasião, da própria elaboração. Exemplificam o prestígio atingido pelo idioma galego-português como língua literária no fim do século XIII.
Em comparação com a lírica, a prosa literária medieval em galego-português é escassa e tardia. É preciso ter em conta que os centros culturais da época eram os mosteiros e escolas monacais, nos que imperaba o uso do latim eclesiástico. Ainda assim, a partir de fins do XIII, e mais significativamente nos séculos XIV-XV, os temas de maior difusão na Europa medieval recolhem-se em língua galego-portuguesa. Amostra são os relatos do ciclo bretão arredor da figura do rei Artur, os textos referentes à história e destruição de Troia, como a História Troiana e a Crónica Troiana; e os Miragres de Santiago, conjunto de relatos que contam desde a destruição de Jerusalém até a milagrosa intervenção do Apóstolo em diferentes situações. Incluem-se alguns textos dentro da prosa, que são traduções ou traslações de outras línguas com elaboração própria: Crónica Geral Galega, General Estoria, Crónica Galega de 1404 e Crónica de Santa María de Iria.
Referências
- ↑ Basicamente de três tipos: os círculos líticos ou cromeleques, os menires e os dólmens
- ↑ Entre outras Cronologia e periodização do fenómeno megalítico em Galiza e norte de Portugal à luz das datações por carbono 14 (Alonso Matthias e Belo Diéguez).
- ↑ Entre outras The Megalithic tombs of Western Iberia: Reflections on their origins, chronology and geographical distribution. Copenhague, 1999.
- ↑ Também a partir de 3000 a.C., começa uma segunda fase, denominada “megalitismo oriental (ou mediterrâneo)”, pela presença de tholoi, ao estender-se desde o norte de Portugal ao sudeste peninsular aparecendo cidades fortificadas a partir de 2600 a.C. (Castro de Vila Nova de São Pedro e Los Millares).
- ↑ chegando à Bretanha francesa em torno de 3800 a.C., atingindo a Irlanda e o sul da península escandinava a partir de 3500 a.C. até que se consolida em torno de 3000 a.C..
- ↑ Capa de terra e pedras, de 10 a 30 metros de diâmetro semelhante a um montículo.
- ↑ Construções ortostáticas.
- ↑ A maior parte destes sepulcros foram espoliados no século XIX pelo fidalgo Vázquez de Orxás, que obteve permissão do governo para procurar tesouros nas tumbas dos gentis galigrecos.
- ↑ Registados mais de 10.000, calcula-se que pôde ser mais de 20000.
- ↑ Entre outros: Die Megalithkultur in Galicien (Walter de Gruyter, Berlim – Nova York, 1990), História de Galiza (R. Villares, 2004), e Elements symbolico-funéraires dans lhe Mégalithisme galicien. (Révue Archéologique de l'Ouest, Rennes, 1992).
- ↑ Formas geométricas como círculos simples ou concêntricos, espirais, labirintos, cruzes de braços curvos e rectos, trisqueles. Alguns destes motivos geométricos aparecem na iconografia de culturas situadas em pontos tão afastados como a Ásia e América.
- ↑ Corpus Petroglyphorum Gallaeciae (1935, Ramón Sobrinho Buhigas).
- ↑ Al-Maccari, Histori, ed. Gayangos, 2002, v. I, p.291.