Língua mirandesa

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Língua mirandesa (Lhéngua mirandesa)
Falado em: Portugal
Região: concelhos de Miranda do Douro, Vimioso, Bragança e Mogadouro
Total de falantes: 15000
Família: Indo-europeia
 Itálica
  Românica
   Ítalo-ocidental
    Ocidental
     Galo-ibérica
      Ibero-românica
       Ibero-ocidental
        Asturo-leonês
         Língua mirandesa
Regulado por: Anstituto de la Lhéngua Mirandesa
Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: mwl
ISO 639-3: mwl
Placa de identificação de arruamento, em Genísio, com o nome da rua em mirandês e em português
Placa de informação, na Sé de Miranda, com o texto em mirandês

A língua mirandesa é um idioma pertencente ao grupo asturo-leonês, com estatuto de segunda língua oficial em Portugal, reconhecida oficialmente e assim protegida. É falada por menos de quinze mil pessoas no concelho de Miranda do Douro e nas freguesias de Angueira, Vilar Seco e Caçarelhos, no concelho de Vimioso, num espaço de 484 km², estendendo-se a sua influência por outras freguesias dos concelhos de Vimioso, Mogadouro, Macedo de Cavaleiros e Bragança.

O mirandês tem três subdialetos (central ou normal, setentrional ou raiano, meridional ou sendinês); os seus falantes são em maior parte bilíngues ou trilíngues, pois falam o mirandês e o português, e por vezes o castelhano.

Os textos recolhidos em mirandês mostram a envolvência de traços fonéticos, sintácticos ou vocabulares das diferentes línguas; o português é mais cantado pelos mirandeses, porque é considerado língua culta, fidalga, importante.

Escrita[editar | editar código-fonte]

Tendo a língua mirandesa uma forte tradição oral, passando de pais para filhos ao longo dos tempos, só em 1882, por José Leite de Vasconcelos, filólogo, arqueólogo e etnógrafo português, começou a ser investigada e fixada em escrita. Ele abre a História literária mirandesa publicando, na obra Flores Mirandesas, poesias suas e de Camões, e contos, histórias, lendas, fábulas, provérbios, adivinhas, cantigas de amor, de humor, de devoção, etc., das aldeias de Miranda; escreveu ainda o ensaio "O Dialecto Mirandês", com o qual ganhou um prémio da Sociedade das Línguas Românicas de Montpellier (França), e os Studos de Filologie Mirandesa, volumes I e II, 1901.

Entre outros, seguiram os passos de José Leite de Vasconcelos, estando agora a escrita a florescer:

  • Manuel Sardinha (tradutor de poesias de Antero de Quental)
  • Bernardo Fernandes Monteiro (tradutor dos quatro Evangelhos, quase totalmente inéditos, tendo Trindade Coelho publicado excertos nos jornal "O Repórter", em 1896, e Gonçalves Viana outros na "Revista de Educação e Ensino" com texto por ele revisto; escreveu ainda textos vários em prosa no jornal "O Mirandez")
  • António Maria Mourinho (autor dos livros: Nossa Alma e Nossa Terra, poesia, 1961, Scoba Frolida An agosto/Lhiênda de Nôssa Senhora de l Monte de Dues Eigreijas, 1979; Ditos Dezideiros, 1995)
  • Manuel Preto (Bersos Mirandeses, 1993)
  • Moisés Pires (Pequeinho Bocabulário Mirandês-Pertuês, 2004)

Em 2008 foi estabelecida uma convenção ortográfica, patrocinada pela Câmara Municipal de Miranda do Douro e levada a cabo por um grupo de entendidos e linguistas, com vista estabelecer regras claras para escrever, ler e ensinar o mirandês bem como estabelecer uma escrita o mais unitária possível e consagrar o mirandês como língua oficial de Portugal.

Medidas de defesa[editar | editar código-fonte]

O mirandês é ameaçado actualmente pelo desenvolvimento, a vida moderna, a televisão, e as pressões do português e do castelhano. Em sua defesa, foram tomadas as medidas:

  • ensino em mirandês, como opção, nas escolas do ensino básico do concelho de Miranda do Douro, desde 1986/1987, por autorização ministerial de 9 de Setembro de 1985.
  • publicação de livros sobre e em mirandês, pela Câmara Municipal de Miranda do Douro.
  • realização anual de um festival da canção e de um concurso literário, pela Câmara Municipal.
  • uso do mirandês em festas e celebrações da cidade e, ocasionalmente, nos meios de comunicação social.
  • publicação de dois volumes da série de banda desenhada Asterix.
  • tradução de todas as placas toponímicas da cidade de Miranda do Douro, efectuada em 2006 pela Câmara Municipal.
  • estudo por centros de investigação portugueses como o centro de linguística da Universidade de Lisboa com o projecto "Atlas Linguístico de Portugal", e a Universidade de Coimbra, com o "Inquérito Linguístico Bolêo".
  • criação de uma Wikipédia em mirandês, a Biquipédia.
  • disponibilização de sítios em mirandês, entre eles Photoblog e WordPress em mirandês.

Fonologia[editar | editar código-fonte]

Algumas diferenças fonológicas em relação ao português são:

  • palatização da consoante inicial L: língua = lhéngua
  • manutenção das consoantes l e n em posição intervocálica: lua = lhuna, mau = malo
  • palatização das consoantes duplas ll/nn/mn: castelo = castielho, ano = anho, dano = danho
  • ditongação da vogal breve e em posição tónica: Ferro = fierro etc

Texto amostra[editar | editar código-fonte]

Segue-se um texto amostra em língua mirandesa publicado no jornal Público, a 24 de Julho de 2007. Para comparação, apresentam-se as traduções do texto para leonês, asturiano, português e castelhano.

Mirandês: Leonês: Asturiano: Português: Castelhano:

Muitas lhénguas ténen proua de ls sous pergaminos antigos, de la lhiteratura screbida hai cientos d'anhos i de scritores hai muito afamados, hoije bandeiras dessas lhénguas. Mas outras hai que nun puoden tener proua de nada desso, cumo ye l causo de la lhéngua mirandesa.

Muitas llinguas tien arguyu de los sous pergaminos antigos, de la lliteratura escrita hai cientos d'años y d'escritores enforma famosos; guei bandeiras d'eisas llinguas. Peru hai outras que nun pueden tenere arguyu de nada d'eisu, comu ye'l casu de la llingua mirandesa.

Munches llingües tienen arguyu de los sos pergaminos antiguos, de la lliteratura escrito hai cientos d'años y d'escritores perfamosos, anguaño banderes d'eses llingües. Pero hai otres que nun puen tener arguyu de nada d'eso, como ye el casu de la llingua mirandesa.

Muitas línguas têm orgulho dos seus pergaminhos antigos, da literatura escrita há centenas de anos e de escritores muito famosos, hoje bandeiras dessas línguas. Mas há outras que não podem ter orgulho de nada disso, como é o caso da língua mirandesa.

Muchos idiomas tienen orgullo de sus antiguos pergaminos, de literatura escrita hace cientos de años y de escritores muy famosos, hoy banderas de esas lenguas. Pero hay otras que no pueden tener orgullo de nada de eso, como es el caso de la lengua mirandesa.

Referências[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Língua mirandesa
Portal A Wikipédia possui o portal: