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Cego

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Cego
Cego
Os triunfos de honra
Sobre
Local de origem Alemanha, região de Baden
Nome(s) alternativo(s) Baden Tarock, Cego-Tarock, Caeco, Ceco, Zeco, Zego, Zigo
Habilidades requeridas tática, estratégia
Tipo Jogo de vazas e de triunfo
Nº de jogadores 4 (variações para 2–5)
N° de cartas 51 ou 54
Baralho próprio
Sentido de jogo anti-horário
Ranking das cartas Triunfos: Louco, 21-1

Naipes pretos: R D C V 10 9 8 7
Naipes vermelhos: R D C V 1 2 3 4

Tempo de jogo 30 min.
Influência da sorte moderada
Jogo(s) relacionado(s)
Tapp-Tarock • Königrufen • Zwanzigerrufen

Cego (do alemão Cego, que significa "cego") é um jogo de cartas tradicional da região de Baden, no sul da Alemanha. É uma forma local do tarock alemão, jogado com um baralho próprio de 54 cartas conhecido como baralho de Cego (Cegoblatt).

O jogo permanece popular em diversas partes da Floresta Negra (Schwarzwald) e em Baden, onde é considerado parte integrante da cultura regional. O nome Cego vem do fato de que, na forma básica do jogo, o jogador principal joga inicialmente "às cegas" — utilizando um monte de cartas viradas para baixo, que só pode revelar após vencer o leilão.

O Cego é um jogo complexo e estratégico, geralmente disputado por quatro jogadores, embora existam versões para dois, três ou cinco participantes. Seu estilo é semelhante a outros jogos de triunfo europeus, como o Tapp Tarock austríaco ou o Troccas suíço, mas o Cego desenvolveu-se de forma independente, preservando regras antigas que remontam ao início do século XIX.

O Cego mantém o propósito original dos baralhos de triunfo: é um jogo recreativo, sem conotações místicas. Fora da Europa continental, esses mesmos baralhos passaram a ser associados a práticas esótéricas como cartomancia e adivinhação conhecidas como tarot (ou tarô), embora sua origem e função primária sejam lúdicas.

História e desenvolvimento

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O Cego surgiu na primeira metade do século XIX e está fortemente ligado à história social e militar do Grão-Ducado de Baden. O jogo teria se espalhado entre soldados bávaros e austríacos que serviram nas Guerras Napoleônicas, durante as quais tiveram contato com versões francesas e italianas dos jogos de triunfo. Ao retornarem, trouxeram o hábito de jogar triunfo para Baden, onde o jogo se adaptou ao gosto local e passou a ser conhecido como Cego.

As primeiras menções escritas ao Cego datam da década de 1830, quando o jogo já era descrito como um passatempo popular entre camponeses e artesãos. Ele prosperou especialmente nas regiões montanhosas e rurais da Floresta Negra, onde outras formas de entretenimento eram escassas.

Diferente de muitos outros jogos de cartas europeus, o Cego não desapareceu com o avanço da industrialização. Pelo contrário, sobreviveu como um símbolo de identidade regional. Muitos habitantes de Baden o consideram parte de seu patrimônio cultural, e ainda hoje há torneios, clubes e campeonatos dedicados ao jogo.

Em 1985 foi fundada a Federação Alemã de Cego (Deutscher Cego-Verband), com o objetivo de preservar e padronizar as regras do jogo. A federação organiza campeonatos anuais e publica versões atualizadas do manual oficial. O Cego também atrai o interesse de estudiosos da história dos jogos, sendo reconhecido como uma das últimas formas vivas de triunfo tradicional ainda praticadas regularmente.

O baralho

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O baralho de Cego (Cegoblatt) é um baralho especial de triunfo composto por 54 cartas. Ele é semelhante aos baralhos de triunfo usados em jogos austríacos e suíços, mas apresenta características próprias que o diferenciam de qualquer outro conjunto de cartas ainda em uso.

O baralho é dividido em duas partes principais:

  • **22 trunfos** (Trümpfe), numerados de 1 a 21, mais o Louco (Der Narr).
  • **32 cartas de naipes**, divididas nos quatro naipes tradicionais: espadas, copas, paus e ouros.

Cada naipe contém oito cartas: rei, rainha, cavaleiro (ou cavalo), valete, dez, nove, oito e sete. Diferentemente dos baralhos de triunfo franceses, o baralho de Cego **não possui cartas de 1 a 6**.

As cartas são alongadas e estreitas, medindo aproximadamente 52 × 113 mm, e tradicionalmente são ilustradas com figuras coloridas de estilo bávaro. O verso é padronizado, geralmente em azul ou vermelho, sem variações decorativas entre as cartas.

O conjunto é fabricado principalmente por empresas alemãs especializadas, como a F.X. Schmid e a ASS Altenburger, que mantêm o mesmo modelo clássico desde o século XIX. Ainda hoje, o baralho é vendido em papelarias e lojas de jogos da Floresta Negra e da região de Baden.

Os triunfos são as cartas mais poderosas do baralho e têm valores hierárquicos que vão do I ao XXI, além do Louco. Diferente de outros jogos de triunfo, os triunfos no Cego possuem **figuras completas e numerais romanos grandes**, permitindo fácil identificação mesmo em leques de cartas abertos.

O Louco (Narr) é uma carta especial, equivalente ao Excuse do tarot francês. Ele pode ser jogado em qualquer rodada e, dependendo das regras locais, pode permitir que o jogador recupere uma carta perdida ou simplesmente não participe daquela vaza.

Os triunfos mais altos — especialmente o XXI, o XX e o I — são de grande importância estratégica. Eles determinam a força das mãos durante o leilão e nas fases decisivas do jogo.

Os quatro naipes do baralho de Cego seguem o padrão tradicional alemão adaptado do triunfo francês:

  • Espadas (Schwert)
  • Copas (Herz)
  • Paus (Stäbe)
  • Ouros (Münzen)

Cada naipe contém:

  • Rei (König)
  • Dama (Dame)
  • Cavaleiro (Reiter ou Ritter)
  • Valete (Bube)
  • Dez
  • Nove
  • Oito
  • Sete

A hierarquia das cartas dentro de cada naipe é, do mais forte ao mais fraco: Rei – Dama – Cavaleiro – Valete – Dez – Nove – Oito – Sete.

Valor das cartas

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Cada carta tem um valor em pontos que é usado para calcular a pontuação das vazas ao final de cada partida. Os valores são os seguintes:

Tipo de carta Valor em pontos
Rei 5
Dama 4
Cavaleiro 3
Valete 2
Outras cartas 1

Os triunfos seguem a mesma lógica de pontuação: os triunfos I, XXI e o Louco têm valor de cinco pontos cada, sendo conhecidos como as cartas honras (Honneurs).

O total de pontos no baralho é de 70, e a contagem final depende de quantas vazas e honras cada jogador conquistou durante a rodada.

Nomes e valores das cartas

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O sistema de valores no Cego combina elementos herdados de jogos de triunfo mais antigos com convenções locais desenvolvidas na região de Baden. As cartas recebem nomes e pontuações distintas conforme sua importância durante o jogo.

Cartas de figura

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As quatro cartas de figura (ou "honras de naipe") mantêm os valores típicos de outros jogos de tarô. São elas:

Carta Nome em alemão Valor em pontos
Rei König 5
Dama Dame 4
Cavaleiro Reiter ou Ritter 3
Valete Bube 2

Os triunfos constituem uma hierarquia à parte e são numerados de I a XXI, além do Louco (Der Narr). Entre eles, três cartas são consideradas as maiores honras do jogo, chamadas de Stiess:

Carta Nome Valor Observação
Triunfo I Der Kleine Mann (O Pequeno Homem) 5 Um dos triunfos mais importantes, usado em muitas combinações de jogo.
Triunfo XXI Der Grosse Mann (O Grande Homem) 5 O triunfo mais alto do baralho.
Louco Der Narr 5 Pode ser jogado em qualquer rodada; não vence nem perde, mas mantém o valor do jogador.

Valor total e contagem de pontos

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A soma dos valores de todas as cartas do baralho é de 70 pontos. O método de contagem padrão é:

Conjunto de três cartas Cálculo Pontos atribuídos
3 cartas de figura ou triunfos altos soma − 2 variável
3 cartas comuns soma − 2 variável
Restos de 1 ou 2 cartas soma − 1 variável

Regras do jogo

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O Cego é normalmente jogado por quatro participantes, utilizando o baralho de 54 cartas descrito anteriormente. Também existem variações para dois, três e cinco jogadores, mas a versão de quatro é considerada a forma padrão e oficial.

Distribuição das cartas

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Cada jogador recebe 11 cartas; duas são colocadas viradas para baixo no centro, formando o Cego (Blinde).

O leilão (Reizen)

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O leilão determina quem será o jogador principal (Alleinspieler), que enfrentará os outros três adversários (a mesa) sozinho.

Tipo de jogo Descrição Grau de dificuldade
Cego O jogador compra as duas cartas viradas e descarta duas de sua escolha. Baixo
Solo O jogador joga sem comprar o Cego. Médio
Uno O jogador joga com apenas uma carta revelada da mão. Alto
Grande O jogador joga sem ver o Cego e dobra a pontuação. Muito alto
Ultimo Objetivo: vencer a última vaza. Especial

O jogador à direita do distribuidor inicia a primeira vaza. Deve-se seguir o naipe jogado, usar triunfo se não houver, e jogar qualquer carta se não possuir nem um nem outro. A vaza é vencida pelo triunfo mais alto, ou, na ausência de triunfos, pela carta mais alta do naipe pedido.

Pontuação

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  • Total de pontos no baralho: 70
  • Declarante vence se atingir:
    • 36 pontos (Cego)
    • 40 pontos (Solo)
    • 50 pontos (Grande)

Bonificações e penalidades

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Situação Bonificação
Vencer todas as vazas Durchmarsch (+50 pontos)
Perder todas as vazas Schwarz (−50 pontos)
Ganhar com todas as três cartas Stiess +20 pontos
Perder as três cartas Stiess −20 pontos

Variações regionais e modernas

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O jogo apresenta numerosas variações locais, especialmente na região da Floresta Negra.

Variações regionais

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  • Cego de Triberg – formato tradicional com pontuação simples.
  • Cego de Furtwangen – adiciona bônus e penalidades por triunfos altos.
  • Cego de Lahr – versão para dois jogadores.
  • Cego de Villingen-Schwenningen – versão urbana moderna com regra de retorno de triunfos.

Cego competitivo

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A Federação Alemã de Cego (Deutscher Cego-Verband) padronizou as regras e organiza torneios sob o Regulamento de Baden.

Cego contemporâneo

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O jogo vive um renascimento cultural. Há clubes, torneios e versões digitais, e o vocabulário tradicional é estudado academicamente.

Difusão cultural

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Em 2010, o governo de Baden-Württemberg incluiu o Cego na lista de bens culturais imateriais (Immaterielles Kulturerbe) do estado.

Ver também

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Referências

Bibliografia

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  • KÖNIG, Wolfgang. Cego – Das badische Tarockspiel. Freiburg: Deutscher Cego-Verband, 2015.
  • McLEOD, John. Tarot Games of Central Europe. *International Playing-Card Society Journal*, Vol. 28, nº 3, 2000.
  • HÜBNER, Franz. Geschichte und Regeln des Cego-Spiels. Karlsruhe: Badischer Heimatverlag, 1989.
  • BIEDERMANN, Ernst. Cego: Ein Kulturgut aus Baden. Offenburg: Schwarzwälder Verlag, 2012.
  • DEUTSCHER CEGO-VERBAND. Offizielle Spielregeln des Cego. 6. Auflage. Villingen-Schwenningen, 2020.

Ligações externas

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