Guerra Civil no Leste da Ucrânia

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Guerra Civil no Leste da Ucrânia
Parte da Crise Ucraniana
Map of the war in Donbass.svg
  Local controlado pela RPD.
  Local controlado pela RPL.
  Localidades onde há disputas.
  Territórios com situação desconhecida.
  Territórios recapturados pelo governo ucraniano.
Data 6 de abril de 2014 – presente
Local Donbass, inclui:
os oblasts Donetsk e Luhansk da Ucrânia
Desfecho Em andamento
  • Insurgentes tomam o controle de partes dos oblasts de Donetsk e Luhansk;[1]
  • Contra-ofensiva das forças governamentais;[2]
  • As forças do governo retomam Mariupol, Sloviansk, Kramatorsk, Druzhkivka, Artemivsk, Sievierodonetsk, Lysychansk entre outras cidades, e recuperam um trecho de 121 quilômetros (75 milhas) da fronteira com a Rússia;
  • Depois de ofensivas, contra-ataques e uma suposta intervenção militar russa (negado por Moscou), o conflito no solo beira o impasse. Então em setembro, o Protocolo de Minsk é assinado, sendo declarado então um cessar-fogo no leste da Ucrânia. Contudo, continuam a ocorrer combates esporádicos;
Combatentes

Donetsk People's Republic flag.png República Popular de Donetsk[3]
Flag of the Lugansk People's Republic (Official).svg República Popular de Lugansk
Organizações paramilitares:

Cidadãos pró-russos armados[5]

 Rússia[6][7]
(negado pelo governo russo)[8]

Ucrânia Governo Ucraniano e milícias pró-governamentais


Apoio:

Principais líderes
Donetsk People's Republic flag.png Aleksandr Zakharchenko
Donetsk People's Republic flag.pngRússia Alexander Borodai
Donetsk People's Republic flag.png Denis Pushilin
Donetsk People's Republic flag.pngRússia Igor Girkin
Donetsk People's Republic flag.png Vladimir Kononov
Donetsk People's Republic flag.png Pavel Gubarev
Donetsk People's Republic flag.png Vladimir Kononov
Flag of the Lugansk People's Republic (Official).svg Igor Plotnitsky
Flag of the Lugansk People's Republic (Official).svg Valery Bolotov
Rússia Vladimir Putin
Rússia Serguei Choigu
Rússia Valeri Gerassimov
Ucrânia Petro Poroshenko
Ucrânia Arseniy Yatsenyuk
Ucrânia Oleksandr Turchynov
Ucrânia Valeriy Heletey
Ucrânia Viktor Muzhenko
Ucrânia Andriy Parubiy
Forças
40 000 – 45 000 combatentes separatistas[31]
(3 000 – 4 000 voluntários russos)[32]

9 000 – 12 000 soldados russos (de acordo com os EUA e a Ucrânia)[33][34]
~ 64 000 - 69 000 militares[35] (mobilizados)
Vítimas
+ 4 044 rebeldes mortos (estimativa)[36]
+ 7 577 combatentes mortos (separatistas e soldados russos, segundo o governo ucraniano)

400–500 militares russos mortos (de acordo com o DoS americano, entre 2014-2015)[37]
3 848 mortos,[38][39] 153 desaparecidos[40] e 11 384 feridos[41]

2 777 civis ucranianos mortos[42]

Total: 10 090 mortos e 23 966 feridos[43]
1 414 798 deslocados internamente; 925 500 fugiram para o exterior[44]

A Guerra Civil no Leste da Ucrânia, igualmente referida como Guerra na Ucrânia, Rebelião pró-russa na Ucrânia ou Guerra em Donbass, é um conflito armado em andamento na região de Donbass na Ucrânia. Desde o início de março de 2014, manifestações de grupos pró-russos e antigoverno ocorreram nos oblasts de Donetsk e Luhansk, que integram a região da Bacia do Rio Donets, na sequência da Revolução Ucraniana de 2014 e do movimento Euromaidan. Esse conflito armado ocorreu em parte do território ucraniano que foi objeto de diversos protestos pró-russos em todo sul e leste da Ucrânia. Trata-se de um conflito armado entre as forças separatistas das autodeclaradas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk e o governo ucraniano.[45][46] Os separatistas são amplamente liderados por cidadãos russos.[47] Os paramilitares voluntários russos são relatados por compor entre 10% [48][49][50] e mais de 50% dos combatentes.[51][52]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

A Bacia do Donets (em ucraniano: Донбас; em russo: Донба́сс; também chamada de Donbass) é composto pelos oblasts de Donetsk e Lugansk, com uma população pré-guerra de aproximadamente 4,5 milhões. Segundo um censo de 2001, sua composição étnica era de aproximadamente 57% dessa população de origem ucraniana, 38% eram etnicamente russos e outros 4,3% eram de outras origens. Contudo, 72% da população afirmava ter o russo como língua nativa, em contraste com 26% da população que tinha o ucraniano como língua mãe.[53]

Até o século XVIII, a região era controlada pelo Canato da Crimeia, quando foi tomada pelo Império Russo. Os russos chamaram a região de Новоро́ссия ("Novorossiya", ou "Nova Rússia"). No século XIX, com a revolução industrial, a região se tornou importante para o império devido a sua produção de carvão.[54] A população na região sempre foi etnicamente diversa, com um censo 1897 reportou que mais da metade dos habitantes de Donets eram ucranianos, enquanto russos eram 28%. Outras minorias incluíam gregos, alemães, judeus e tártaros.[55]

No decorrer de boa parte do século XX, a Ucrânia se tornou uma República soviética. Durante o regime de Josef Stalin, a região passou por um processo de "russificação".[56] Os ucranianos foram duramente afetados pelas políticas de Stalin, como o Holodomor, que matou mais de 2,5 milhões de pessoas.[57] A russificação se expandiu, com as escolas ensinando primordialmente o russo, além da repressão cultural da Ucrânia. Russos étnicos começaram a chegar em peso no leste do país e ao fim da década de 1950, eles já eram 2,5 milhões. Já no final dos anos 80, o percentual de russos vivendo em Donets já havia chegado a 45% da população.[58]

Com a dissolução da União Soviética em 1991, boa parte da população do leste da Ucrânia eram favoráveis a relações mais próximas com a Rússia. Já o resto do país, principalmente nas áreas mais a oeste, defendiam uma maior integração com o Ocidente. Em 1993, greves de mineiros pediam a redução do poder do governo federal e mais autonomia para a região de Donets.[58] Apesar da maioria da população do leste favorecer a federalização, o governo favoreceu uma política de centralização do poder e estado unitário, assim Donets não ganhou qualquer autonomia.[58] No período de 2004-05 ocorreu a chamada Revolução Laranja, com a população do oeste da Ucrânia protestando contra primeiro-ministro Víktor Yanukóvytch. A população de Donets apoiou Yanukóvytch (que era nativo da região). Aproveitando a situação de caos político da nação, o povo de Donets começou a pedir por um referendo popular para tentar estabelecer uma República autônoma no leste ou até mesmo uma secessão completa da Ucrânia. Nenhuma das ideias foi a diante. Em 2006, contudo, Yanukóvytch voltou ao cenário político e seu partido passou a ser um dos maiores no Parlamento. Em 2010, ele foi eleito presidente em um apertado pleito. Neste mesmo ano, seu governo passou uma controversa lei de línguas, permitindo a região de Donets a adotar o russo como língua semi-oficial, usando na administração pública e até em cortes.[59]

Então, entre novembro de 2013 e fevereiro de 2014, manifestações tomaram conta da capital ucraniana de Kiev. Os protestos se espalharam e ganharam força, ficando a ser conhecidos como Euromaidan. Uma das principais queixas era a política cada vez mais amigável de Yanukóvytch com Vladimir Putin, o presidente russo. A população etnicamente ucraniana (77%, no geral), especialmente no oeste, preferia uma maior aproximação com a União Europeia. A 22 de fevereiro de 2014, Viktor Yanukovych renuncia e foge para Moscou. Um governo de transição assume e busca se distanciar da Rússia e buscar melhores relações com o Ocidente, especialmente para aliviar a crise econômica que atravessava a nação. No meio deste caos, outra região ucraniana onde a maioria da população é de origem russa, a Crimeia, pediu para se separar da Ucrânia. Protestos russofílicos começaram e uma crise se instaurou. A Rússia respondeu desembarcando tropas na região e, com apoio da classe política local, formalmente anexou a Crimeia (via referendo, embora este foi duramente questionado dentro e fora da Ucrânia).[60]

Tentando algo similar ao que aconteceu na Crimeia, onde o governo central em Kiev foi fraco em responder, a população de origem russa no leste do país começou a protestar em massa pedindo a secessão das regiões de Donets da Ucrânia. Manifestantes pró-Rússia tomaram prédios públicos e começaram a controlar ruas e bairros inteiros em Donetsk e Lugansk, onde os protestos foram mais intensos.[61]

Em Donetsk, o povo de maioria russa começou a pedir por mais autonomia e por um governo regional que atendesse as necessidades do povo. Como as exigências dos manifestantes foram ignoradas, a liderança do movimento pró-Rússia se reuniu e em 7 de abril de 2014 proclamaram a criação da República Popular de Donetsk.[62] Vinte dias depois, foi a vez de Lugansk declarar sua independência e proclamar a República na sua região.[63]

Perdendo o controle da situação, ainda em abril, o governo em Kiev reagiu, e ordenou que suas forças armadas lançassem operações "anti-terrorismo" no leste, visando reverter o processo de independência em Donets.[64][65] Mesmo assim, a situação continuava a se deteriorar com milícias pró-Rússia fortemente armadas tomando controle de várias cidades e edifícios públicos. O governo ucraniano passou a acusar a Rússia de instigar os separatistas e até arma-los. Várias unidades do exército da Ucrânia baseadas em Donets ou se renderam ou espontaneamente mudaram de lado e passaram a apoiar os rebeldes.[66] O leste do país caminhava então para uma guerra civil aberta.

Referendo e governo popular[editar | editar código-fonte]

Referendos em Donetsk e Lugansk de 2014

Com boa parte do leste da Ucrânia ocupada por milícias separatistas pró-Rússia, um refendo foi convocado, apesar da intensificação dos combates com o governo ucraniano lançando suas tropas em ofensivas contra Donets. A 11 de maio de 2014, após as apurações do referendo, são autoproclamadas formalmente Repúblicas Populares de Lugansk e Donetsk, com os federalistas e pró-russos se declarando independentes do atual governo de Kiev: "Pela primeira vez formaremos um Governo verdadeiramente popular e posteriormente formaremos nossas Forças Armadas e os corpos da ordem" e "a vitória do referendo não representa a saída imediata da Ucrânia nem a união com outros Estados" declarou o líder Denis Pushilin. O referendo do dia 11 de maio foi marcado por hostilidades no sudeste ucraniano entre civis e as forças militares de Kiev.[67] As potências Ocidentais condenaram a organização do referendo. Em 24 de maio foi anunciada a fusão de Donetsk e Lugansk formando a Novorossiya (a Nova Rússia), tendo também uma discussão sobre incluir outras regiões, incluindo um projeto de Frente Popular para combater as políticas de Kiev.[68][69]

Guerra[editar | editar código-fonte]

Movimentos iniciais[editar | editar código-fonte]

Em 13 de abril, as autoridades de Kiev lançaram uma operação especial no leste do país, com a participação das Forças Armadas.[70][71] Segundo o presidente deposto Viktor Yanukovich, isso deixava a Ucrânia a "beira de uma guerra civil".[72]

Em 17 de abril, foi celebrada uma reunião em Genebra, na Suíça, entre os ministros das Relações Exteriores da Ucrânia, da União Europeia, dos Estados Unidos e da Rússia, sendo aprovado um documento com medidas para pôr fim ao conflito, que seriam monitoradas pelos observadores da OSCE.[73][74][75] As revisões à Constituição da Ucrânia também foram acordadas.[76][77] No entanto, tal não foi aceito pelas milícias pró-russas.[78]

Intensificação dos combates[editar | editar código-fonte]

Em 1 de maio, até 16 cidades e vilas do leste ucraniano estavam parcialmente ou totalmente em mãos de grupos armados pró-russos,[79] no dia seguinte a Ucrânia reconheceria publicamente que a situação nos oblats de Donetsk e de Lugansk estavam fora de seu controle.[80] No dia 2 de maio, as autoridades de Kiev lançaram uma nova operação especial com a participação das Forças Armadas em Sloviansk.[81]

Em maio se intensifica confrontos armados entre federalistas e as forças civis e militares do atual governo de Kiev.

Confrontos em Kramatorsk deixaram civis mortos, enquanto em Slaviansk rebeldes derrubam dois helicópteros ucranianos e acusaram Kiev pelas baixas em suas fileiras.[82][83] Em Odessa um confronto envolvendo ultranacionalistas (Setor Direito) contra manifestantes russos resultou no incêndio do prédio dos sindicatos de Odessa causando a morte de 43 russos que ficaram encurralados pelos ultranacionalistas dentro do prédio.[84] Em resposta, os federalistas ocuparam um prédio de um oligarca ucraniano em Donetsk[85] e conseguiram libertar ativistas presos em quartel-general da polícia em Odessa.[86]

Em 9 de maio, nas comemorações do dia da vitória, após um revisionismo histórico que provocou indignação em Kherson,[87] as forças de Kiev lançaram operações em Mariupol provocando mortes e dia de luto na cidade rebelde que resistiu à ofensiva.[88] Após resultados do dia 11 de maio os confrontos continuaram em Kramatorsk resultando em baixas nas forças armadas de Kiev.[89] Enquanto o campo de batalha se concentra em Slaviansk e Kramatorsk e nas propostas de troca de reféns e da retirada de tropas de Kiev,[90] os líderes federalistas anunciaram as nacionalizações das empresas dos oligarcas que apoiam Kiev e atuam contra a revolta.[91][92] Anteriormente Slaviansk tinha anunciado tal medida contra "homens de negócios com as mãos sujas, declarou o prefeito federalista." [93]

Eleição presidencial e escalada da violência[editar | editar código-fonte]

No final de maio, após o magnata Petro Poroshenko ser eleito presidente da Ucrânia prometendo de se reunir com Putin e de combater os insurgentes do leste, as hostilidades continuaram em Slaviansk deixando civis mortos,[94][95] em Donetsk os rebeldes pró-russos intensificaram o conflito tentando ocupar o aeroporto, ao enviarem dezenas de insurgentes armados com lançadores de granadas e fuzis automáticos para impedir uma futura visita do presidente a região mineradora de Donbass a qual consideram ilegal. O exército ucraniano anunciou o início de uma "operação antiterrorista" com helicópteros de combate para retomar o controle do aeroporto tomado por rebeldes pró-Rússia durante a manhã.[96][97][98] O ataque inicial com paraquedistas e jatos contra pró-russos em aeroporto deixou dezenas de baixas nas forças rebeldes e terminou no controle do aeroporto por forças ucranianas.[99] Enquanto Slaviansk começa a evacuar moradores, principalmente crianças, um general ucraniano morreu em helicóptero militar abatido pelos rebeldes em meio a intenso tiroteio na região.[100][101]

Entre abril e maio, quando a ofensiva do governo ucraniano contra o leste do país se intensificou, mais de 200 pessoas morreram nos combates.[102]

Ofensivas separatistas[editar | editar código-fonte]

No começo de junho, os rebeldes laçam uma mega-ofensiva em Lugansk e a força aérea ucraniana responde com ataques aéreos contra alvos rebeldes provocando vitimas civis, desde o fim das eleições presidenciais, Kiev procura sufocar a insurgência através do seu poderio militar encontrando forte resistência em Slaviansk, entretanto, retomam o controle da cidade portuária de Mariupol.[103][104][105][106]

Destruição em Donbass.

Já no começo de julho, as forças ucranianas controlam Kramatorsk e finalmente tomam a cidade Slaviansk dos rebeldes que teriam recuado para Donetsk onde houve uma manifestação pró-russa. Enquanto Lugansk continuava sendo bombardeada por Kiev nos confrontos causando vítimas e destruição.[107][108][109] Em 17 de julho de 2014, um Boeing 777-200ER foi derrubado na região de Donetsk sem deixar sobreviventes, o incidente com o voo Malaysia Airlines 17 continua sendo investigado. A derrubada do avião foi atribuída a grupos separatistas, armados com o sistema de lançamento de mísseis Buk, de fabricação russa.[110]

Em 23 de julho, o Comité internacional da Cruz Vermelha reconheceu que os combates no Leste da Ucrânia constituíam uma situação de guerra civil.[111]

Ofensivas do governo ucraniano[editar | editar código-fonte]

Entre julho e agosto, o governo ucraniano lançou várias ofensivas contra o leste do país, visando reconquistar Donetsk e Lugansk.[112][113] Os combates então se intensificaram, matando mais 1 100 pessoas entre abril e julho.[114] As operações iniciais foram bem sucedidas e os rebeldes separatistas recuaram em diversas frentes, enquanto o exército ucraniano fazia progressos, conquistando várias cidades. Perante essa situação, o líder insurgente, Igor Girkin, exigiu mais ajuda russa e até teria pedido uma intervenção militar direto em seu favor. O presidente russo, Vladimir Putin, que segundo informações de inteligência europeias e americanas, já estaria armando os rebeldes, não respondeu diretamente.[115][116] Por sua vez, a Rússia acusou as potências ocidentais de "terem dois pesos e duas medidas" ao suspenderem as restrições para a venda de equipamentos e de tecnologia militar à Ucrânia, as restrições que foram estabelecidas em 20 de fevereiro quando o Conselho Europeu, ou seja, "quando o presidente Víktor Yanukóvytch estava no poder."[117] Nesse meio tempo, o líder rebelde, Pavel Gubarev, garantia que suas forças se sairiam vitóriosas em Donbass.[118] A crise humanitária na região também se acentuava. Em agosto, dados confirmados pela Acnur, estimava cerca de 730 mil refugiados do conflito na Rússia.[119][120] Enquanto o governo de Kiev continuava ganhando terreno no leste, as potências ocidentais anunciaram mais uma rodada de sanções econômicas contra a Rússia devido ao seu envolvimento no conflito.[121]

Em meados de agosto, a ofensiva ucraniana a leste prosseguia a todo o vapor enquanto os rebeldes recuavam.[122] Vários importantes redutos rebeldes na região de Donbass foram atacados. As cidades de Donetsk e Lugansk, considerados os principais focos da rebelião separatista, já estariam cercadas por tropas leais a Kiev.[123][124] Enquanto isso, cerca de 45 000 soldados russos se aproximavam da fronteira ucraniana, com o apoio de equipamento pesado incluindo tanques de guerra, sistemas de mísseis, aviões de combate e helicópteros, segundo um porta-voz militar ucraniano. A OTAN expressou preocupações afirmando que era alta a probabilidade de a Rússia invadir a Ucrânia, com o propósito de impedir o colapso dos rebeldes no leste do país. O governo russo negou que a movimentação seja agressiva e disse que enviaria uma coluna com ajuda humanitária para a população daquela localidade.[125] Enquanto isso, as cidades de Pervomaisk, Kalynove e Komyshuvakha, no oeste de Luhansk Oblast, próximo de Popasna, foram tomadas por forças ucranianas após violentos combates.[126] Durante todo esse período, o cerco e bombardeio de Donetsk prosseguiam.[127] Nesse meio tempo, Igor Girkin renunciou ao posto de líder dos rebeldes na região.[128] Ele foi substituído pelo comandante Vladimir Kononov.[129]

A 14 de agosto, foi então reportado que uma coluna de blindados russos havia penetrado no território ucraniano, na região de Izvaryne, controlada pelos insurgentes.[130] A veracidade da informação teria sido confirmada pela OTAN.[131] O presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, afirmou que os militares do país abriram fogo contra o comboio russo, destruindo vários dos seus veículos.[132] A autenticidade do ocorrido não foi confirmada, mas seria a primeira vez que tropas ucranianas e russas se enfrentaram no conflito.[133] A Rússia negou as informações e classificou as acusações como "fantasiosas".[134] Frente a esses retrocessos, o primeiro-ministro da auto proclamada República Popular de Donetsk, Alexander Zakharchenko, afirmou que os rebeldes estariam recebendo reforços que incluíam cerca de 150 veículos blindados, incluindo 30 tanques, que teriam sido abandonados pelo exército ucraniano, e ainda 1 200 combatentes que teriam sido treinados na Rússia. A Ucrânia, em resposta, teria pedido mais ajuda militar da OTAN e da União Europeia.[135][136][137]

Enquanto a ofensiva governamental contra os separatistas em Donetsk e Lugansk avançava, foi reportado que blindados russos atravessaram a fronteira ucraniana em Mariupol, num território em disputa entre rebeldes separatistas e tropas leais a Kiev. Segundo o Conselho de Defesa da Ucrânia, os veículos inimigos teriam sido repelidos e recuaram após uma curta, porém violenta luta.[138] Em um outro incidente, um grupo de paraquedistas da Rússia teria sido capturado por soldados ucranianos no seu lado da fronteira. Essas ações receberam críticas da comunidade internacional e levantou suspeitas de uma possível intervenção militar russa no leste da Ucrânia. Uma fonte do ministério russo da Defesa confirmou a detenção destes combatentes do país, mas afirmou que estes haviam entrado em território ucraniano por engano. Já Sergey Lavrov, ministro das relações exteriores de Moscou, disse que não tinha conhecimento de tais eventos e afirmou que tudo isso é uma campanha de desinformação do governo ucraniano.[139][140] No meio tempo, os rebeldes lançaram uma contra-ofensiva em larga escala para tentar deter o avanço das forças governamentais na região de Donbass.[141] Os separatistas firmaram posições nas estradas entre Donetsk e Novoazovsk, onde várias localidades próximas a este município, perto do mar de Azov, teriam caído nas mãos dos guerrilheiros. Eles também tomaram rapidamente vários vilarejos na cidade de Starobesheve e se apossaram de muitos equipamentos militares abandonados. Cidadãos locais afirmaram que soldados com sotaques russos e sem insígnias ajudaram os insurgentes na luta.[142]

Um prédio queimando em Shahtersk, na região de Donetsk, após combates entre separatistas e forças do governo ucraniano, em agosto de 2014.

Impasse e contra-ataques rebeldes[editar | editar código-fonte]

As contra-ofensivas separatistas no leste coincidiram com aumento nas denúncias de que a Rússia estaria intervindo militarmente na Ucrânia. Militares ucranianos afirmaram que capturaram dezenas de soldados russos que estavam do lado dos rebeldes. Apesar do governo de Vladimir Putin, em Moscou, continuar a negar qualquer tipo de invasão, o primeiro-ministro da autoproclamada República Popular de Donetsk, Alexander Zajarchenko, afirmou que muitos soldados russos haviam se unido aos separatistas. Segundo ele, esses combatentes "preferiram não passar as férias na praia, e sim ao lado de seus irmãos lutando pela liberdade de Dobnbass". A OTAN afirmou que haviam pelo menos 1 000 soldados da Rússia no país. Porém, o ministério das relações exteriores russo voltou a afirmar que eles "não tem interesse em fragmentar a Ucrânia".[143] Enquanto isso, no fim de agosto, em Snizhnye, uma cidade em disputa no leste ucraniano, uma coluna de soldados russos teria sido atacado por mísseis BM-21 Grad e pelo menos 100 pessoas teriam morrido. Apesar de nenhuma dessas informações pudesse ter sido verificada como verdadeiras ou não, líderes de nações ocidentais, como a França e os Estados Unidos, condenaram a suposta invasão russa. Enquanto isso, os combates se intensificavam por toda a região oriental da Ucrânia.[144][145]

No fim de agosto e começo de setembro, as contra-ofensivas rebeldes pareciam ir bem. Apesar da Guarda Nacional do governo ter retomado a cidade de Komsomolske, em Donetsk Oblast, no resto do país as forças leais a Kiev ou retrocediam ou empancavam. Militares afirmaram que tropas russas, incluindo tanques de guerra, estariam ajudando os separatistas, algo que o Kremlin continuava a negar até então.[146] Em Luhansk, onde as tropas ucranianas pareciam estar fazendo progressos, foram surpreendidos com vigorosas investidas dos insurgentes. A 1 de setembro, o aeroporto da cidade foi reconquistado pelos rebeldes. Novamente, a presença de combatentes da Rússia foi apontada por observadores e por oficiais governistas da Ucrânia.[147]

Nos primeiros dias de setembro, os combates também se intensificavam na importante região sudeste da Ucrânia. Em Mariupol, tiroteios e bombardeios de artilharia assolavam a área, enquanto forças separatistas tentavam ocupar esta cidade. Militares ucranianos teriam contra-atacado e conseguido manter suas posições, mas o barulho de explosões ainda eram ouvidos por toda a região.[148]

Cessar-fogo[editar | editar código-fonte]

Insurgentes separatistas marchando em Donetsk.

No dia 5 de setembro, representantes dos governos russo e ucraniano, reunidos em Minsk, iniciaram a negociação para um acordo de cessar-fogo no leste do país. Na sexta feita, representantes da Ucrânia e dos rebeldes pró-russos assinaram, em Minsk, um acordo para o cessar-fogo, mediado pela Rússia e da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa.[149] Quase três mil pessoas já tinham morrido na guerra até então, com outras um milhão fugindo de suas casas.[150] Nos dois dias seguintes, apesar de uma redução dos confrontos, as duas partes se acusavam de violações isoladas do acordo.[151][152] Combates continuaram a ser reportados no leste da nação. Nos arredores de Mariupol, tiros e bombas eram ouvidas enquanto os rebeldes esporadicamente tentavam avançar. Nesse meio tempo, o aeroporto de Donetsk, que estava em mãos dos separatistas, foi bombardeado pela artilharia do governo ucraniano.[153] Enquanto isso, o presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, afirmou que pelo menos 70% dos soldados russos que estavam no seu país já haviam se retirado, apesar do governo da Rússia não reconhecer que tinha qualquer tropa na região.[154]

Com a interrupção das hostilidades, teve início o processo de troca de prisioneiros.[155][156] Como parte das negociações também incluía planos de anistia aos combatentes envolvidos e ainda garantia "status especiais" para o leste da Ucrânia, incluindo algum nível de autonomia, especialmente para as regiões de Donetsk e Lugansk.[157] Ao fim de setembro, militares ucranianos e rebeldes separatistas começaram a retirar as peças de artilharia das proximidades das linhas de frentes, com o intuito de criar uma zona desmilitarizada.[158]

Destruição em Lugansk, no leste ucraniano.

No dia 28 de setembro, cerca de 3 mil manifestantes pró-Ucrânia derrubaram, em Kharkiv, a maior estátua referente ao líder revolucionário que criou a União Soviética, Vladimir Lenin. E ainda no dia 28, algumas explosões puderam ser ouvidas no centro de Donetsk, segundo a prefeitura local.[159]

Eleições separatistas e continuidade dos combates[editar | editar código-fonte]

No dia 2 de novembro de 2014, foram realizadas eleições nas regiões separatistas. Alexander Zakharchenko e Igor Plotnitsky foram vitoriosos, respectivamente na República Popular de Donetsk e na República Popular de Lugansk. O Ministério das Relações Exteriores da Federação da Rússia declarou que tais eleições foram, de um modo geral, muito bem organizadas, destacou o elevado índice de comparecimento do eleitorado, e sustentou que os representantes eleitos obtiveram mandato para a solução de tarefas práticas de restabelecimento da vida normal nas regiões.[160][161][162] Por outro lado, o governo de Kiev, a União Europeia e os Estados Unidos disseram que o pleito careceria de legalidade e seria contrários aos termos do cessar fogo negociado em Minsk.[163][164]

Tanques de guerra e soldados do exército ucraniano no leste do país.

A luta em Donbass continuou, mesmo com o cessar-fogo e mesmo após as eleições em territórios separatistas. Uma equipe da OSCE foi então enviada para supervisionar a situação. De acordo com os monitores do grupo, tropas e veículos blindados continuavam a se movimentar nas regiões controladas pelos rebeldes.[165] Em novembro, o general Philip Breedlove afirmou que mais tropas russas e equipamentos militares estavam entrando na Ucrânia, em violação do Protocolo de Minsk.[166] O ministério da defesa ucraniano afirmou que a movimentação era uma preparação dos rebeldes separatistas para atacar.[167] Representantes do governo russo negaram tais informações.[166]

De acordo com um relatório, no começo de dezembro de 2014, mais de 1 000 pessoas já haviam morrido em combates desde a assinatura do Protocolo de Minsk, firmado em setembro, que tentava encerrar as hostilidades. Ambos os lados foram acusados de não respeitarem o cessar-fogo naquele momento.[168]

Em meados de janeiro de 2015, o governo ucraniano conseguiu recuperar boa parte do aeroporto de Donetsk.[169] Os rebeldes contra atacaram e o exército nacional revidou, resultando em pesados bombardeios e combates em áreas residenciais, causando muitas perdas civis.[169] No dia 21 de janeiro, o presidente Petro Poroshenko acusou a Rússia de enviar 9 000 soldados e equipamentos para o leste do país, instigando mais violência na região, enquanto os militantes separatistas renovavam suas ofensivas.[170][171] Segundo a imprensa britânica, em um desses ataques os rebeldes conseguiram retomar de assalto o aeroporto internacional de Donetsk.[172]

As ruínas do aeroporto internacional de Donetsk, abalado por semanas de intensos combates entre os rebeldes separatistas e militares do governo ucraniano.

A vitória no aeroporto permitiu que os rebeldes renovassem suas ofensivas no leste de forma mais eficiência, atacando tropas ucranianas por toda a região de Donetsk e Luhansk, conquistando alguns progressos.[173] Com a maré da guerra voltando ao seu favor, os separatistas lançaram mais uma ofensiva ao redor de Mariupol, onde violentos combates foram reportados, ameaçando enterrar de vez o Protocolo de Minks e o cessar-fogo.[174]

Desde setembro de 2015, contudo, os combates reduziram vertiginosamente de intensidade, chegando a parar completamente em várias regiões. Acordos informais entre autoridades locais e separatistas fizeram parar os engajamentos e operações militares, por ambos os lados, em várias localidades, enquanto ajuda internacional tentava amenizar a crise humanitária na região. Especialistas afirmam que a guerra entrou numa nova fase chamada de "conflito congelado".[175]

Novas negociações e tentativas de cessar-fogo aconteceram por 2016. Apesar disso, o final deste ano viu um crescimento da violência em várias áreas, enquanto outras regiões testemunharam de fato uma redição nas hostilidades. Contudo, combates entre separatistas e militares ucranianos começaram a ser reportados com mais frequência, ameaçando qualquer acordo de cessar-fogo. Nesse meio tempo, embargos econômicos e dificuldades de infraestrutura agravara ma crise humanitária no leste da Ucrânia.[176]

Envolvimento externo[editar | editar código-fonte]

O diretor da CIA, a agência de inteligência dos EUA, John Brennan, visitou no 12 e 13 de abril 2014 a capital da Ucrânia, Kiev, para se reunir secretamente com os atuais dirigentes da Ucrânia e os responsáveis dos e Serviços de Segurança da Ucrânia.[177][178][179]

Segundo os jornais alemães Der Spiegel, Frankfurter Allgemeine Zeitung e Die Zeit a noticia que 400 mercenários dos EUA, empregados da empresa Greystone Limited (filial de Academi, antiga Blackwater USA), estariam colaborando nas operações do exército e da polícia de Kiev em operações contra guerrilheiros no leste da Ucrânia, nada mais do que uma "tentativa sensacionalista para criar histeria" por "Bloggers irresponsáveis e jornalistas on-line". A noticia tinha sido divulgada no Bild am Sonntag, o qual citou que o serviço secreto alemão Bundesnachrichtendienst, informou em 29 de abril de 2014 a Chancelaria Federal da Alemanha de Angela Merkel do evento.[180][181] O vice-presidente da empresa de segurança dos EUA negou as informações que mercenários da Academi estejam na Ucrânia.[182]

No começo de maio 2014, de acordo com o tabloide alemão Bild, a CIA e o FBI mantinham dezenas de agentes em Kiev para aconselhar o governo ucraniano, além de combater o crime organizado no país, sendo suas supostas atividades limitadas à capital.[183]

Em 14 de maio foi anunciada a nomeação de Hunter Biden, filho do vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, para comandar a Burisma, a maior empresa privada da área de Gás e Petróleo da Ucrânia. A companhia mantém um portfólio com permissões para desenvolver jazigos nas bacias do Dniepre-Donets, os Cárpatos e de Azov-Kuban.[184][185][186][187][188]

Soldados russos em uma base militar ucraniana na Crimeia, durante a anexação desta pela Federação Russa. Apesar de usarem uniformes e armas russas, as bandeiras e insígnias dos seus trajes foram removidas para evitar identificações.

O Príncipe Carlos da Inglaterra comparou o comportamento de Putin na Ucrânia ao de Hitler. Tal comparação é provável que seja vista como uma crítica do Ocidente por não confrontar Putin sobre a sua anexação de Crimeia. A anexação foi a primeira de uma grande potência na Europa desde 1956, depois da anexação pela Alemanha Ocidental do Protectorado de Sarre. Alguns observadores compararam a crise na Ucrânia, com a invasão de Hitler na Checoslováquia, onde havia uma população alemã significatica no território dos Sudetas.[189][190]

No dia 23 de maio, o presidente russo, Vladimir Putin, declarou que a crise na Ucrânia se converteu em uma verdadeira guerra civil.[191]

Em 27 de maio, o líder regional da Chechênia confirmou que alguns chechenos podem ter ido à Ucrânia por conta própria para lutar ao lado de rebeldes pró-Rússia.[192][193]

Segundo o Departamento de Estado americano, o governo russo apoia militarmente e financeiramente os rebeldes separatistas, com ajuda principalmente no formato de equipamentos, treino, logística e até com combatentes.[6]

Desde 2015, denúncias de envolvimento militar russo no conflito na Ucrânia se tornaram mais frequentes. Equipamentos (como armas e veículos) e soldados de etnia russa com uniformes militares russos foram vistos por toda o leste ucraniano. Órgãos de inteligência de Kiev também reportaram que agentes russos estavam diretamente envolvidos na articulação dos protestos separatistas do leste. Jornalistas estrangeiros que tentavam se aproximar de áreas controladas pelos rebeldes pró-Rússia eram frequentemente ameaçados e muitos eram até presos.[194] A Rússia, contudo, nega envolvimento direto no conflito na nação vizinha. Contudo, eles reconheceram que cidadãos de seu país estavam de fato lutando ao lado dos separatistas, mas sem consentimento do governo de Moscou.[195]

Um relatório da ONU liberado em junho de 2015 indicou que há evidências que apontam para uma presença militar russa em massa no leste da Ucrânia, lutando ao lado dos separatistas.[196] Foi reportado que soldados do exército russo intervieram em embates em território ucraniano, como na batalha de Debaltseve onde os rebeldes estavam quase sendo derrotados mas foram salvos por reforços vindos do leste. Estas tropas (que evidências apontam que sejam russas) vieram com armamento pesado e artilharia, equipamentos dos quais os separatistas não detém em seu arsenal. Os Estados Unidos acusaram os russos de envolvimento militar direto no conflito e afirmam que o governo de Vladimir Putin quer desestabilizar a Ucrânia.[197][198]

Caráter do conflito[editar | editar código-fonte]

A OTAN considera o conflito uma guerra contra soldados irregulares russos[199] e outros consideram que é uma guerra por procuração.[200][201][202] O Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o árbitro do direito humanitário internacional para as Nações Unidas, descrevem os acontecimentos na região de Donbass como um "conflito armado não internacional".[203][204] Algumas agências de notícias, como a Agência de Informação e Telegrafia da Rússia e a Reuters, interpretaram esta declaração no sentido de que a Ucrânia estava em um estado de "guerra civil".[205][206]

O presidente da Verkhovna Rada e ex-presidente interino ucraniano Oleksandr Turchynov considera o conflito uma guerra direta com a Rússia.[207]

Galeria[editar | editar código-fonte]

Referências

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Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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