Vicente do Salvador

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Frei Vicente do Salvador, OFM Academia Brasileira de Letras
Nome completo Vicente Rodrigues Palha
Nascimento 1564
Salvador
Morte 1636 (72 anos)
Salvador
Nacionalidade (Brasil colônia)
Cidadania Português (Brasil colônia)
Progenitores Mãe: Messia de Lemos
Pai: João Rodrigues Palha
Ocupação Religioso franciscano
Magnum opus História do Brasil: 1500-1627

Frei Vicente do Salvador, OFM, nascido Vicente Rodrigues Palha (Matuim, Salvador, 1564[1][2]Salvador, 1636) foi um religioso franciscano brasileiro.

Sua vida é pobremente conhecida e sua fama repousa sobre dois escritos, Crônica da Custódia do Brasil, e principalmente a História do Brasil (1627), valiosos relatos históricos e corográficos sobre a vasta colônia portuguesa na América em seus primeiros tempos. Este legado documental, cuja importância a crítica reconhece em consenso, lhe valeu os epítetos de Pai da Historiografia brasileira,[3][4] ou Heródoto brasileiro.[5] Sua vida como religioso também foi relevante, recebendo várias atribuições de responsabilidade e fundando o convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Filho de João Rodrigo Palha e Messia de Lemos, nasceu em Matuim, Salvador, Bahia no ano de 1564.[1] Foi batizado no dia 28 de janeiro de 1567.[3][6] Estudou no colégio dos jesuítas, em Salvador. Estudou Direito e Teologia na Universidade de Coimbra, onde doutorou-se em cânones. Fez uma rápida carreira na Igreja, sendo nomeado num intervalo de poucos anos presbítero secular, cônego da Catedral de Salvador, vigário-geral e governador do bispado da Bahia. Em vista do seu sucesso como administrador, diz seu biógrafo, frei Venâncio Willeke, que causou surpresa e pesar na Bahia a decisão de Vicente de abandonar o clero secular para ingressar numa ordem monástica, a dos franciscanos, tendo recebido o hábito a 27 de janeiro de 1599 e professando a 30 de janeiro de 1600, no convento de Salvador, sendo logo transferido a Pernambuco. Segundo Willeke, Vicente fora desde cedo contagiado pelo ideal da evangelização dos indígenas, mas mantinha um especial interesse pela obra do frei Bartolomeu de las Casas e outros religiosos que defendiam os nativos. Em torno de 1603 foi nomeado para catequizar os silvícolas da Paraíba, devido ao seu conhecimento do idioma nativo e à ordem régia de fundar novas missões na área.[3]

O Convento de Santo Antônio do Rio, fundado pelo frei.

Em 1606 deixou as missões e passou a lecionar Filosofia no convento de Olinda, e no fim do ano o superior o escolheu para fundar o convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro. Vicente e um grupo de outros frades desembarcaram no Rio em janeiro de 1607. O terreno que havia sido doado em 1592 não agradou o superior, frei Leonardo, que o permutou por outro, e antes de partir para o norte encarregou frei Vicente da construção de uma capela e de acomodações provisórias para o grupo. Terminados os trabalhos de fundação, foi requisitado novamente para lecionar Filosofia, mas poucos meses depois foi dispensado.[3]

Os anos seguintes são mal documentados, reaparecendo em 1612, quando foi nomeado guardião do convento de Salvador, dedicando especial atenção aos doentes e idosos.[3] Permaneceu na função até 1614, quando foi eleito custódio da Província de Santo Antônio do Brasil, no capítulo celebrado em Lisboa a 15 de fevereiro de 1614.[7] Sua responsabilidade recaía sobre os oito conventos franciscanos então existentes no Brasil, além de supervisionar trinta missões entre os índios. Seu governo foi marcado pela preocupação de defender os índios dos abusos promovidos pelos portugueses, mas com pouco efeito prático. O insucesso aparentemente foi a causa da entrega das missões franciscanas para o cuidado do clero secular em 1619.[3]

Placa do ossário dos frades menores no convento em Salvador, Bahia, onde está inscrito o ano de 1636 como o da morte de frei Vicente do Salvador.

Entre 1618-1621 provavelmente esteve em Portugal para prestar contas de sua gestão como superior e para estar presente na instalação do Capítulo Provincial de Lisboa de 1619. Consta que nesta viagem teria levado os originais da sua primeira composição, Crônica da Custódia do Brasil, apresentando-a para seus confrades. Crê-se que o interesse despertado entre eles o tenha animado a realizar um relato mais abrangente, dando início à sua famosa História do Brasil. Em 1620 ou 1621 já devia estar de volta ao Brasil, passando a empreender viagens de documentação. Em meados de 1624 caiu prisioneiro dos holandeses, sendo liberado em maio de 1625. A História foi concluída antes de 1527, tendo em sua dedicatória a data de 20 de dezembro. Provavelmente esteve em Lisboa nesta altura, a fim de entregar os originais para impressão, que jamais ocorreria em sua vida.[3][7]

Em 1630 foi eleito novamente guardião em Salvador, atuando até 1633. Faleceu em 1636.[8][3]

Obra[editar | editar código-fonte]

A Crônica da Custódia do Brasil foi escrita provavelmente a partir de 1612 e terminada em torno de 1617, e deve ter sido levada a Lisboa pouco depois para ser impressa. Seus originais se perderam depois de 1650, mas já haviam sido utilizados pelo frei Manuel da Ilha e por Jorge Cardoso, que transcreveram várias partes da obra respectivamente na Relação e no Agiológio Lusitano. Parte já havia sido transcrita na segunda composição do próprio Vicente do Salvador, História do Brasil. Pelo que sobrevive nessas transcrições, o conteúdo não se limitava, como sugere o título, à história das missões franciscanas, mas se expandia para a narrativa de eventos políticos e da vida dos índios, além de elaborar pequenas biografias do bispo Pedro Fernandes Sardinha e do frei Francisco de São Boaventura. Provavelmente havia também biografias dos custódios de Santo Antônio desde o primeiro, frei Melchior de Santa Catarina, e de missionários e capelães importantes. Esse conteúdo aparece principalmente no capítulo 39 da História do Brasil, e aparentemente todo ele é uma transcrição da Crônica.[3][7]

Frontispício da primeira edição da História do Brasil, 1889.

A História do Brasil, incentivada por Manuel Severim de Faria, a quem foi dedicada, apareceu em 1627. Como já foi dito, parte do conteúdo reproduz trechos da Crônica.[7] A obra é dividida em cinco livros, inicia com a chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral, o descobridor, e narra a primeira organização da colonização, os episódios de seus primeiros governadores, descreve o sistema dos governos-gerais e das capitanias hereditárias, as entradas para o sertão e as guerras contra o gentio, as fortalezas e táticas militares, a invasão holandesa, e outros eventos. Traça ainda um amplo panorama da fisionomia do território, sua flora e fauna, seu clima e sua geografia, seus nativos e seus respectivos usos e costumes, as primeiras povoações portuguesas, os engenhos de açúcar, as lavouras, captando de maneira às vezes poética e lírica, o jeito de falar e de viver nas terras ainda tão novas.[9]

Diz Willeke que a impressão do manuscrito original atrasou e seu autor continuou acrescentando notas. Depois da morte de Vicente, sua posse passou a Severim de Faria, que havia se comprometido a imprimi-lo, mas isso nunca aconteceu. Com ele seguramente o original ficou até 1638, pelo menos, perdendo-se depois, mas sobreviveu em diversas cópias manuscritas, que não são todas iguais. Uma cópia chegou ao Rio de Janeiro em meados do século XIX, sendo publicada pela primeira vez em 1889 em edição de Capistrano de Abreu. O manuscrito usado tinha muitas falhas, e uma edição mais próxima do original só veio à luz após três outras edições.[3]

A seguir, um excerto de sua narrativa, considerada o "primeiro clássico do Brasil":

A Independência econômica do Brasil
Inopem me copia facit, disse o poeta, e disse verdade, porque, onde as coisas são muitas, é forçado que se percam, como acontece ao que vindima a vinha fértil e abundante de fruto, que sempre lhe ficam muitos cachos de rabisco e assim me há sucedido com as coisas de mar e terra do Brasil de que trato. Pelo que me é necessário rabiscar ainda algumas, que farei neste capítulo, que quanto a todas é impossível relatá-las.
Faz no Brasil sal não só em salinas artificiais, mas em outras naturais, como no Cabo Frio e além do Rio Grande, onde se acha coalhado em grandes pedras muito e muito alvas.
Faz-se também muita cal, assim de pedra do mar como da terra, e de cascas de ostras que o gentio antigamente comia e se acham hoje montes delas cobertos de arvoredos, donde se tira e se coze engradada entre madeira com muita facilidade.
Há tucum, que são umas folhas quase de dois palmos de comprido, donde, só com a mão, sem outro artifício, se tira pita rijíssima, e cada folha dá uma estriga.

Legado[editar | editar código-fonte]

Frei Vicente descreve uma época em que o Brasil era uma descoberta recente, e Portugal não sabia exatamente o que fazer com ele, pois os primeiros relatos eram pobres em informação sobre especiarias raras ou metais e pedras preciosas, então o principal interesse daquele reino navegador, expansionista e mercantil, em busca de novas rotas de comércio e novas conquistas territoriais. Com isso, a atenção concentrou-se nos primeiros tempos na exploração do pau-brasil. Mas também Portugal, embora pujante, era um reino pequeno, e havia pouca gente para defender e administrar o vasto território descoberto, povoado por indígenas nem sempre amistosos e ameaçado pelas pretensões de outras potências. Suas descrições de eventos históricos e da paisagem e sua gente (nativos e colonizadores) permanecem como fonte categorizada para o conhecimento dos primórdios do Brasil. Além do valor documental, têm valor literário, empregando um estilo fluente, vivo, que tem a capacidade de cativar o leitor em sua narrativa, que embora traga o pitoresco e o exótico não prescinde da atenção aos fatos. Na opinião de Willeke, em relação a outros cronistas de sua geração, a obra de frei Vicente se destaca pela objetividade e confiabilidade.[3] Mas era também um homem de seu tempo. Na opinião da pesquisadora Mariana Leonardo de Souza, "sua formação religiosa tanto no Brasil, com a educação jesuíta que recebeu, quanto no Reino, foram responsáveis por sua visão de mundo e das ideias de grandeza que tinha em relação à Portugal. A opinião do frade permeia a sua obra tanto quanto sua observação e sua transmissão de relatos que ouvira diretamente de pessoas com quem cruzava ou de informações que lera anteriormente em sua vida a respeito do Brasil português".[10]

Seu valor sociopolítico se ressalta na crítica por vezes compreensiva, por vezes contundente, da precariedade e má organização da empreitada colonizadora. Em certas passagens denuncia a avidez predatória dos portugueses, que exauriam a terra e partiam para além-mar com as suas riquezas, deixando para trás uma devastação. Em parte a essas críticas suas obras acabaram sendo logo abandonadas e esquecidas até meados do século XIX, quando iniciou sua redescoberta. Hoje sua produção é uma referência incontornável no estudo da colonização portuguesa do Brasil.[3]

Capistrano de Abreu, Sílvio Romero, José Veríssimo e outros insignes eruditos o reconheceram como o fundador da historiografia nacional, ganhando o apelido de "Heródoto brasileiro".[3] Sobre frei Vicente e sua obra, escreveu o antropólogo e escritor brasileiro Darcy Ribeiro (1922—1997), em seu livro O Povo Brasileiro:

"O melhor testemunho daqueles tempos se deve a frei Vicente do Salvador, natural da Bahia. Foi o primeiro intelectual assumido como inteligência do povo nascente, capaz de olhar nosso mundo e os mundos dos outros com olhos nossos, solidário com nossa gente, sem dúvidas sobre nossa identidade, e até com a ponta de orgulho que corresponde a uma consciência crítica".[11]

Homenagens póstumas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. «Patronos» 
  2. Fr. Vicente do Salvador (1889). Historia do Brazil (PDF). ".. e darei fim a esta Historia, porque sou de sessenta e tres annos, e he já tempo de tratar só da minha vida, e não das alheias.." - página 261. [S.l.]: Bibliotheca Nacional. 313 páginas. ISBN 9788536217987. Formato PDF, acervo digital da Biblioteca Nacional de Portugal. Consultado em 7 de abril de 2014  Original na Biblioteca Nacional de Portugal
  3. a b c d e f g h i j k l m n Willeke, Venâncio, Frei. "Frei Vicente do Salvador: Pai da História do Brasil". In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1967; 277:99-112
  4. Coutinho, Afrânio; Sousa, J. Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira, volume 2, 2ª ed. Rio de Janeiro. Global, 2001, p. 1432
  5. Lins, Guilherme Gomes da Silveira d'Ávila. "Frei Vicente do Salvador, O.F.M.: um breve ensaio biobibliográfico e historiográfico". In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 2011; 172 (453):147-173
  6. Blake, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario bibliographico brazileiro. Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1883–1902, volume 7, pp. 370-371
  7. a b c d Willeke, Venâncio, Frei. "O estado atual das pesquisas sobre Frei Vicente do Salvador e suas obras". In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1968; 279:165-176
  8. Fr. Vicente do Salvador (1889). Historia do Brazil (PDF). "Entretanto, o autor morreu uns dez annos depois de 1627..." - pág. 8. Rio de Janeiro: Bibliotheca Nacional. 313 páginas. ISBN 9788536217987. Formato PDF, acervo digital da Biblioteca Nacional de Portugal. Consultado em 7 de abril de 2014  Original na Biblioteca Nacional de Portugal
  9. Souza, Mariana Silveira Leonardo de. Espacializando a Historia do Brazil, de frei Vicente do Salvador. Universidade de Brasília, 2016, pp. 14-20
  10. Souza, p. 127
  11. Ribeiro, Darcy. O Povo Brasileiro. Companhia das Letras, 1995, p. 136
  12. Academia Brasileira de Letras. «Sócios Correspondentes e Patronos» 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Biblioteca Nacional (Brasil). «Vicente do Salvador, 1564-ca.1636». Arquivado do original em 24 de abril de 2013 
  • Oliveira, Maria Lêda (2008). A história do Brazil de Frei Vicente do Salvador. história e política no Império português do século XVII. 2. ilustrado. São Paulo: Odebrecht 
  • Souza, Antonio Loureiro de (1949). Bahianos ilustres. 1564-1925. Salvador: Tip. Beneditina. p. 16-17. 222 páginas 
  • Vicente do Salvador, Frei (2008). História do Brazil: 1500-1627. edição revista por Capistrano de Abreu em 1918. Curitiba: Juruá. 356 páginas 

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]