Matias Aires

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Matias Aires ABL logo.svg
Gravura de 1777 representando Matias Aires [1]
Nome completo Mathias Ayres Ramos da Silva de Eça
Escola/Tradição: Barroco
Pessimismo
Iluminismo
Filosofia luso-brasileira
Data de nascimento: 27 de março de 1705
Local: São Paulo, Flag of Kingdom of Brazil.svg Principado do Brasil
Atual República Federativa do Brasil Brasil[nota 1]
Morte 11 de abril de 1768 (63 anos)
Local: Lisboa, Portugal Portugal
Principais interesses: Filosofia, vaidade, humanidade, direito civil, arquitetura, ética, sabedoria, amor, latim, hebraico, francês
Ideias notáveis Reflexões sobre a Vaidade dos Homens
Vaidade como essência radical do homem e do mundo,
Separação entre ordem da natureza e ordem histórica,
As virtudes surgem da vaidade
Vaidades positivas e negativas
Influências: François de La Rochefoucauld,
Salomão,
Jean de La Bruyère,
Vauvenargues,[2]
Blaise Pascal,
Jacques Bossuet[3]
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Matias Aires Ramos da Silva de Eça (na grafia antiga, Mathias Ayres Ramos da Silva d'Eça; São Paulo, 27 de março de 1705Lisboa, 10 de dezembro de 1763)[4][5][6] foi um filósofo e escritor nascido no Brasil Colônia, patrono da cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras.[7][8][9] Irmão de Teresa Margarida da Silva e Orta, considerada a primeira mulher romancista em língua portuguesa. [10][nota 2] Escreveu obras em Francês e Latim e foi também tradutor de clássicos latinos. É considerado por muitos o maior nome da Filosofia de Língua Portuguesa do século XVIII.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Filho de José Ramos da Silva e de sua mulher Catarina de Orta[nota 3], nasceu em São Paulo, na Capitania, em 1705, depois Província e hoje Estado de São Paulo, Brasil.[4][7] Foi Cavaleiro da Ordem de Cristo e Provedor da Casa da Moeda de Lisboa, obtendo e sucedendo neste emprego a seu pai, José Ramos da Silva, por sua morte. Nesta realidade é que surgiu o pai de Matias Aires, José Ramos da Silva, provedor das expedições que encontraram ouro nas Gerais. O escritor Alceu do Amoroso Lima, na introdução ao livro de Matias Aires, faz o seguinte comentário: “A figura de José Ramos da Silva, e a sua ascensão de criado de servir a magnata máximo da fortuna paulista do século XVIII, tornou-se um dos tipos mais representativos do Brasil Colonial.” Bafejado pela sorte, este novo rico, passou a ser um grande mecenas para os Jesuítas de São Paulo, construindo igrejas, mandando vir de Portugal, mestres de obras, santeiros, talhadores e douradores, enfim, dando todo o apoio aos conventos e colégios da Ordem. Foi neste ambiente, que nasceu. Aires foi educado no colégio jesuíta de São Paulo, onde aprendeu a ler e escrever em português e latim, também estudando os clássicos e os rudimentos de religião e filosofia. Quando tinha onze anos, seu pai resolve transferir-se para Lisboa. Como homem prático que era e através dos bons contatos com os jesuítas que desfrutavam de grande prestígio junto a D. João V, foi José Ramos da Silva designado para exercer o cargo de Provedor das Casas de Fundição, uma das mais altas e lucrativas funções do Reino.[13]

Preocupado com a educação dos filhos, ao chegar em Portugal, matriculou as duas meninas no Convento de Odivelas e Matias no tradicional e conceituado Colégio de Santo Antão. Terminado os estudos secundários, ele ingressa na Faculdade de Direito de Coimbra, em 1722, recebendo no ano seguinte o grau de Licenciado em Artes, e foi Bacharel em Filosofia pela Faculdade de Ciências e Mestre em Artes pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Formou-se numa Universidade Francesa em Direito Civil e Canónico.[4][7][14] Fez estudos de Matemática e Ciências Físicas. Conhecia o Hebraico e outras línguas.[4]

Em 1716 seus pais se mudaram para Portugal, e Matias Aires ingressou no Colégio de Santo Antão. Em 1722, estudou nas Faculdades de Leis e de Cânones de Coimbra, onde recebeu o grau de Licenciado em Artes, graduando-se mais tarde na cidade de Baiona, na Galiza. Em 1728, decide ir para Paris, matriculando-se na Sorbonne onde, além de continuar o curso de Direito, estuda ciências naturais, matemática e hebraico, seguindo as grandes linhas de preocupação da época - o empirismo de Locke, o racionalismo de Rousseau e as ciências matemáticas e físicas com nascente prestígio sob a influência de Newton. Foram seus contemporâneos neste período francês, pensadores como Voltaire e Montesquieu. Volta a Portugal em 1733 e continua suas leituras, no isolamento de suas Quintas. Tornou-se notável literato e naturalista e grande amigo do malogrado António José da Silva, o Judeu, que procurou ardentemente salvar da fogueira, o que não conseguiu.[14]

Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra
A Sorbonne Université, em Paris, onde estudou Matias Aires.

Após 1729, partiu em viagem pela Europa, onde se demora até 1733. Dedica-se entáo à aprendizagem de grego e hebraico, que inicia em Baiona, onde tem por anfitrião o infante D. Manuel, e, já em Paris, entrega-se ao estudo das Ciências Exatas, em especial a matemática, a física e a química experimental, cujo conhecimento adquire junto dos mais reputados mestres da época e que continuará a praticar até ao fim da vida'. E é nesta última cidade, onde permanece mais detidamente, que vem a concluir a licenciatura iniciada em Coimbra, obtendo o duplo diploma em Direito Civil e em Direito Canónico.[15]

Retorno a Portugal[editar | editar código-fonte]

Em 1743, com a morte do pai, o substitui nas funções e passa a residir em Lisboa, frequentando, na ocasião, os altos salões da Corte. Adquire para morar, o Palácio do Conde de Alvor, uma monumental residência, conhecida hoje, em Lisboa, como o Solar das Janelas Verdes, onde funciona o grandioso Museu de Arte Antiga. Com a morte de D. João V, sobe ao trono português D. José I , é para este monarca que Matias Aires dedica o seu célebre livro, Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, que tem como sub título, Discursos Morais sobre os efeitos da Vaidade oferecidos a El – Rei Nosso Senhor D. José I. A primeira edição data de 1752.[16] Regressado a Portugal, leva uma vida sumptuosa, em que os bens do pai vão sendo progressivamente delapidados. E, por este motivo, inicia o processo em que mais duradouramente haveria daí para diante de consumir os seus dias: uma pendência contra a irmã, Teresa Margarida, disputando o seu direito à herança. Esta, aliás também uma celebrada escritora (a sua novela de insinuação feminista Aventuras de Diófanes, publicada pela primeira vez em 1752, conheceria diversas reedições ao longo do século XVIII', havia abandonado o Convento e casado contra a vontade do pai, logrando no entanto, através de sucessivos afastamentos e reconciliações com a família, resistir com êxito às várias tentativas de ver os seus direitos esbulhados. Em 1743 morre José Ramos da Silva, tendo adquirido o direito a usar brasão de família. Herdeiro do vínculo, Matias Aires vem a suceder-lhe também no cargo de Provedor da Casa da Moeda. Tenta então uma nova pendência contra a irmã, mas uma vez mais sem sucesso.[17] Com as reformas introduzidas na administração portuguesa pelo Marquês de Pombal, Matias Aires é destituído do cargo e, em 1761, recolhe-se à sua Quinta na Corujeira, vindo a falecer no ano de 1763.[18]

Produção intelectual[editar | editar código-fonte]

Rei Dom João V de Portugal, contemporâneo de Matias. [19]

Segundo Carvalho dos Reis (2019), o pai de Matias, homem ambicioso, foi à Portugal com o objetivo de conquistar a nobilitação: o último degrau da hierarquia da vaidade social. Com este objetivo, no ano de 1716, acomodou-se com tanta pompa quanta a ambição, procurando reconduzir a si os holofotes de Lisboa. Contudo, não encontrou a mesma sorte que no Brasil (Aires: 2005, p.218, apud CARVALHO REIS), pelo contrário, foi recebido com inimizade. O mesmo se terá passado com o filho Matias, igualmente habituado à deferência com que era tratado no Brasil, «agora, era apenas o filho de um dos tais mineiros que o povo da corte invejava mas não estimava nem acatava.». Estas experiências terão ensinado, posteriormente, ao filho que a vaidade própria tende a ofender a alheia dando inicio ao seu interesse e reflexões sobre a Vaidade. [20]

Tais reflexões seriam publicadas em 1752: Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, onde o autor tece suas ponderações a partir do trecho bíblico extraído do Eclesiastes: Vanitas vanitatum et omnia vanitas, ou seja, "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade". Este período de grande produtividade corresponde também a uma fase de maior recolhimento, sem dúvida induzido pelas crescentes dificuldades econômicas mais do que por um genuíno desgosto com a vida em sociedade em Portugal, e ao progressivo adensamento de uma misantropia e de um ceticismo que se revelam inclusive na relação com a obra. Sua linguagem é clara e inspirada em Vauvenargens. Aliás, Reflexões sobre a vaidade dos homens, do primeiro filósofo moralista brasileiro, apresenta inúmeros exemplos, em linguagem clara e fluente, em que os períodos compostos por subordinação raramente assumem estrutura labiríntica, o que parece decorrência da feição sentenciosa da sua frase: muitas orações ou períodos simples de Matias Aires são verdadeiras máximas.[21] Além disso, conforme Prado Coelho, Matias não tinha ao seu dispor palavras como pensador, moralista, pessimista - que hoje servem para o caracterizar. Esse é um problema de língua, do século XVIII.[22]

Seguem as estas, Philosofia rationalis (Filosofia Racional); Via ad campum sophie seu physicae subterranae (O caminho para o campo da sabedoria ou da física subterrânea); Lettres bohémiennes (Cartas boêmias); Discours panégyriques sur la vie de Joseph Ramos da Silva (Discursos Panegíricos sobre José Ramos da Silva); Discurso congratulatório pela felicíssima convalescença e real vida d’el rei D. José; Carta sobre a fortuna; e Problema de Arquitectura Civil, único texto, dentro deste último grupo, que subsistiu até aos dias atuais. Deixou trabalhos sobre as ações de Alexandre e César e traduções de Quinto Curcio e Lucano.[23][24] Aos poucos opta por abandonar a língua materna na redação dos seus escritos, anunciada no prólogo das Reflexões e de facto levada a efeito nas edições subsequentes, utilizando-se de outra grafia, e experienciando principalmente uma profunda descrença relativamente ao mérito intrínseco de suas composições (caracterizadas como meros esboços inconclusos) e o profundo desencanto quanto à sua capacidade para influenciar e agir sobre a realidade. Em 1761, as desinteligências como o Marquês de Pombal conduzem ao seu afastamento do cargo de Provedor, o que se reflete sobre a sua já premente situação econômica. E neste contexto que escreve a um amigo a muito pessimista a Carta sobre a Fortuna, desde 1778 habitualmente incluída nas edições de as Reflexões. Eis un trexo da Carta sobre a Fortuna incluída nas Reflexões a partir de 1778:

Problema de Arquitetura Civil[editar | editar código-fonte]

O Problema de Arquitetura Civil, a saber: Porque os edifícios antigos têm mais duração e resistem mais ao tremor de terra que os modernos? foi publicado postumamente em 1770, pelo filho de Matias: Manuel Ignácio Ramos da Silva Eça, que ficou famoso desde então. Nesse contexto, a irmã de Matias, Teresa Margarida da Silva e Orta que afastara-se do irmão, reataria com ele sua amizade após a morte do marido. Assim, eles moraram juntos em São Francisco de Borja até a morte de Matias, em 1763. Após seu falecimento Teresa e Manuel entraram numa disputa judicial pelos bens de Matias, acumulados também pelas publicações.[25][26]

Possíveis influências[editar | editar código-fonte]

Alceu Amoroso Lima apontou, em introdução ao livro de Matias Aires (2004), o Les Caractères do moralista francês Jean de la Bruyère (1645-1696) como uma das mais importantes influências no pensamento do filósofo paulista. De fato, algumas noções defendidas por Matias Aires encontram-se presentes nas reflexões ácidas e irônicas do francês. Eles compartilhavam, de modo geral, uma concepção muito semelhante da condição humana, isto é, imersa na dor: "Os homens parecem ter nascido para o infortúnio, a dor e a pobreza" (La Bruyère, 1688, p. 247). Entretanto, essa ideia de uma natureza humana essencialmente dolorida e inevitavelmente miserável era um lugar-comum amplamente difundido na primeira modernidade. Além de citar rapidamente La Bruyère, Amoroso Lima identificou o que no pensamento do filósofo paulista é vaidade com a noção de amor-próprio legada por La Rochefoucauld (1613-1680). O moralista francês conferiu enorme destaque ao amor-próprio como afeto fundamental da condução dos atos humanos. Para ele, o amor-próprio é o que permite o julgamento das coisas do mundo, como para Matias Aires era a vaidade: "Nós somente sentimos nossos bens e nossos males à proporção de nosso amor-próprio" (La Rochefoucauld, 1678, p. 75, trad. nossa). De qualquer forma, isso indica que a felicidade está no gosto pessoal, mais do que nas coisas propriamente ditas, o que ambos os filósofos concordavam a sua maneira.[27]

Rei Dom José I de Portugal a quem Matis Aires dedicou o seu famoso livro Reflexões sobre a vaidade dos homens.[nota 4]

Em alguns aspectos a noção de vaidade de Matias Aires guarda significativas semelhanças com as máximas de La Rochefoucauld (1678) sobre essa paixão da alma. É a vaidade que faz alguém falar e, sobretudo, é o que motiva os elogios nas conversações. E, mais importante, a vaidade, a vergonha e o temperamento fazem o valor do homem e a virtude das mulheres. Ou ainda, muitas supostas virtudes são atos de vaidade. Por exemplo: "O que chamamos de liberalidade é muito frequentemente apenas vaidade de dar, o que amamos mais do que aquilo que damos" (p.;68). Quando a vaidade não inverte as virtudes, ela tem o poder de animá-las. La Rochefoucauld afirma que as paixões mais violentas são perturbadoras, mas a vaidade nos agita sempre. E disparou: "A vaidade nos faz fazer mais coisas contra nosso gosto que a razão" (p.;85).

Haveria, porém, outra hipocrisia menos inocente, aquela de algumas pessoas que aspiram à glória de uma bela e imortal dor. São pessoas que não se cansam das lágrimas, dos lamentos e dos suspiros e que se tornam personagens lúgubres, capazes de persuadir que suas dores não têm fim. Enfim, o que está em jogo nessa dita hipocrisia é o desejo de ser amado, o que também foi posteriormente desenvolvido por Matias Aires a partir da ideia de vaidade.

Embora Matias Aires estivesse mais interessado no pensamento francês do final do século XVII, cabe lembrar que o maior expoente da cultura lusa seiscentista, o padre Antônio Vieira (1608-1696), também discorreu, em várias ocasiões, sobre a vaidade. Mesmo não considerando a vaidade uma paixão pivô, como defenderia o filósofo paulista no século seguinte, Vieira afirmou que ela pode ser responsável pela inconstância das ações humanas e pode fazer com que os homens percam-se de si mesmos. No "Sermão das Exéquias do Conde de Unhão D. Fernão Telles de Menezes", pregado em Santarém, em 1651, o sermonista observou: "Os homens, como somos camaleões da vaidade, mudamos de cor a cada mudança de vento: quantos são os ventos de que nos sustentamos, tantas são as cores de que nos vestimos" (Vieira, 1651, v. XV, p.347). É evidente que ele criticou essa falha moral: "Portai-vos de tal maneira, sendo sempre o mesmo, que vos possam todos louvar, ao menos que vos possam conhecer" (p.347).[28]

De qualquer forma, o tema do vanitas (extraído do Eclesiastes: Vanitas vanitatum et omnia vanitas) estava muito presente no discurso católico contrarreformado do século XVII. Afinal, de que vale tanta vaidade se a própria vida é uma sucessão de mortes. Nesse mesmo sermão, Vieira (1651) avisou: "A adolescência é morte da puerícia; porque acabamos de ser meninos: a juventude é morte da adolescência; porque acabamos de ser moços: a idade varonil é morte da juventude; porque acabamos de ser mancebos: e assim vamos morrendo a todas as edades (v. XV, p. 348). Para Matias Aires, a vaidade modela a visão dos objetos e faz triste ou alegre. Para Vieira, em consonância com a tradição aristotélica-tomista, são as várias paixões que dão o colorido à percepção das coisas.[29]

Morte[editar | editar código-fonte]

Inocêncio Francisco da Silva informa no seu dicionário que "Quanto à data de seu óbito é por ora ignorada, sabendo-se contudo que já era falecido no ano de 1770, em decorrência de uma crise de apoplexia, corroborando a data de 10 de dezembro de 1763, a partir de documentação comprobatória.[30] Deixou dois filhos ilegítimos José e Manuel Inácio.[23]

Legado e homenagens[editar | editar código-fonte]

"O maior filósofo de língua portuguesa do século 18, o século de Kant, era Matias Aires. Quem já ouviu falar nele aqui, na universidade? Somente um estudante levantou a mão. Eu disse: vocês estão vendo... O maior pensador de língua portuguesa do século 18 era brasileiro e paulista e vocês todos já ouviram falar em Kant e falar em Matias Aires só aquele companheiro ali. Eu virei pra ele e disse: me diga uma coisa, você leu algum livro de Matias Aires ou ouviu falar dele numa aula? Ele disse: Não senhor, é que eu moro numa rua que tem o nome dele!... A gente ri, mas o que tá por trás disso é uma coisa ruim demais. Ele além de pensador era um escritor extraordinário."[31]

Ariano Suassuna[32][33]

O dramaturgo, romancista, poeta, advogado e membro da Academia Brasileira de Letras, Ariano Suassuna referia-se à Matias Aires como o maior filósofo do século XVIII em língua portuguesa, afirmando que o seu ostraciosmo revelava a negligência dos intelectuais brasileiros em relação a cultura brasileira.[nota 5] Mário de Andrade também citou Matias Aires no O Aleijadinho e Álvares de Azevedo como um dos autores que foi colher ideias nos jardins europeus.[34]

António Pedro Mesquita, professor doutor pela Universidade de Lisboa, escreveu Homem, Sociedade e Comunidade Política – O Pensamento Filosófico de Matias Aires (1705-1763), apontando para a importância do filósofo e analisando sua produção intelectual.[35]

Mesquita faz um levantamento das análises precedentes em relação à obra de Matias Aires, e relaciona três maneiras distintas de possíveis leituras: uma maneira biográfica, uma maneira ideológica, e uma maneira filosófica. A maneira biográfica deriva o pensamento da biografia do autor. Tal procedimento, segundo Mesquita, resultaria incompleto sempre, uma vez que, o que se apreende de uma análise que prime por confrontar a vida e a obra de Matias Aires iria verificar que há, entre ambas, uma profunda contradição. Assim, a leitura biográfica não conseguiria explicar o fosso existente entre aquilo que Matias Aires escreve e as escolhas que Matias Aires faz em sua vida particular. Outra maneira de ler as “Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens” seria de acordo com o que Antônio Pedro Mesquita chama uma “leitura ideológica” do texto; porém, esse modo de abordagem não é considerado o mais adequado em relação à produção airesiana por derivar somente do momento histórico os conteúdos da obra. Por fim, é possível ler Matias Aires a partir da perspectiva de uma leitura filosófica: Matias Aires constrói uma teoria do que é o humano, elabora uma reflexão acerca daquilo que constitui o princípio fundamental da natureza humana. Nesse sentido, apenas uma leitura filosófica seria capaz de compreender os argumentos filosóficos expostos na obra, bem como os objetivos do autor ao elaborar sua teoria.

Segundo Athayde de Tristão, [36] o culto à ciência foi levado à Portugal por Matias Aires e por ele comunicado à sua irmã. Completamente embebido de cartesianismo, e mais do que isso, penetrado pelo naturalismo científico que o século XVII legara ao século XVIII, Matias Aires ia ser, em Portugal, o patriarca do cientificismo. Seria reconhecido como um dos grandes humanistas do século XVIII, comparado à Montaigne e La Rochefoucauld. Também, por seus escritos, é considerado um dos que abriram caminho aos estudos e ao cientificismo em Portugal.

O filósofo Miguel Real baseia sua tese sobre felicidade em Matias Aires. Para Real, em Nova Teoria da Felicidade, Matias criou uma nova ética explorando antropologicamente qualidades individuais do ser humano. Segundo o autor, a ideia matiana concebe dois níveis de felicidade: [i] a falsa e ilusória, a dos povos e das gentes, feita de poder, riqueza e fama - três colunas da exacerbação da vaidade própria; assim realizar a vaidade seria cumprir a felicidade; e [ii] a verdadeira, a dos pensadores, consistindo uma aproximação incessante à verdade, exigindo o desmascaramento da vaidade individual e social, findando no estado interior de serenidade de quem sabe que tudo é vaidade.[37]

  • No Bairro Consolação, São Paulo, Brasil uma rua foi nomeada em sua homenagem: a Rua Matias Aires começa na Rua Frei Caneca, corta a Rua Augusta e termina na Rua da Consolação. Na esquina da Rua Matias Aires com a Rua Frei Caneca, está o Edifício Aliança que morou o cantor e compositor Raul Seixas.[38]
  • A Escola Estadual Mathias Aires, na Vila Pereira Cerca em São Paulo, homenageia o filósofo.[39][40]
  • Na Rua Matias Aires, na Consolação, São Paulo existe também o Condomínio Edifício Mathias Ayres.[41]
  • Em Agualva, Portugal, a Escola Secundária Matias Aires (ESMA) homenageia o filósofo.[42]

Olivenkranz.png Academia Brasileira de Letras[editar | editar código-fonte]

Matias Aires é o patrôno da Cadeira de número 6 da ABL, que seria sucedida por Guerra Junqueiro em 1898.[43] Também é o patrôno da cadeira de número 3 da Academia Paulista de Letras, cujo fundador é Luís Pereira Barreto, sendo considerado pela instituição o primeiro filósofo brasileiro. [44]

Cronologia[editar | editar código-fonte]

  • 1705 - Nascimento de Matias Aires em São Paulo, no dia 27 de março.
  • 1716 - O pai de Matias, José Ramos da Silva, assume o posto de provedor da Casa da Moeda de Lisboa.
    • Matias ingressa no colégio de Santo Antão.
  • 1722 - Inicia os estudos na Faculdades de Direito de Coimbra.
    • Dá continuidade ao curso interrompido de Direito Civil Canónico e conclui na cidade de Baiona, na Galícia.
  • 1726 É condenado a quatro anos de degredo em Castro Marim no Algarve por ter golpeado a língua de uma escrava.
  • 1728 - Vai à Paris, matricula-se na Sorbonne Université, continua os estudos em ciências naturais, matemática e hebraico.
    • Nessa viagem, estadia com o Infante D. Manuel Bartolomeo, irmão do rei D. João V.
    • Escreve obras em francês e latim que hoje encontram-se perdidas.
  • 1729 - Parte em viagem pela Europa até 1733.
  • 1743 - Substitui o pai como provedor da Casa da Moeda, após sua morte, e passa a residir em Lisboa, Portugal.
    • Adquire para morar, o Palácio do Conde de Alvor: o Solar das Janelas Verdes.
  • 1750 - Morre Dom João V de Portugal.
  • 1752 - Publica Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens ou Discursos Morais Sobre os Efeitos a Vaidade. [45]
  • 1761 - Publica a segunda edição de Reflexões sobre a Vaidade dos Homens.
  • 1763 - Morre, em 10 de dezembro, Matias Aires.
  • 1770 - Publicação póstuma de Problemas de arquitetura civil.

Curiosidades[editar | editar código-fonte]

Capa do livro: Matias Aires (sócio-correspondente) da cadeira 6. Vol.52 da Série Essencial (Ed.ABL, 61págs), apresentando Dom João V como Matias.

O nome de Matias Aires sofre uma assinalável variação ao longo da vida, desde o inicial "Matias Aires Joseph da Silva" com que integra a Academia dos Aplicados ou o "Matias Aires Rapnos da Silva" que figura no requerimento do hábito de Cristo até ao que consta no testamento: "Matias Aires Ramos da Silva e Eça"; aquele com que assina as suas obras.[46][47][48]

Outro fato curioso é que a figura do rei Dom João V de Portugal tem sua imagem confundida com a de Matias. Em 2012, a Imprensa Oficial de São Paulo,[49] publicou uma coleção chamada Coleção Série Essencial, propondo oferecer informações básicas sobre cada um dos ocupantes das 40 cadeiras da Academia Brasileira de Letras ao longo da História, bem como sobre os patronos da instituição. Cada livro (de bolso) apresentou a biografia de um autor e o retrato ou desenho do mesmo na capa. A edição de Matias (ISBN 9788540100725 de 68 páginas)[50] exibiu o retrato do rei Dom João V de Portugal, supondo ser Matias Aires. O equivoco provavelmente ocorreu pela internet ter vinculado a fotografia do rei português ao texto Sobre a vaidade dos homens. Todos os livros sobre Matias (da Coleção Série Essencial dos patronos da ABL) foram retirados de circulação e estão fora do mercado livreiro. Outro equivoco como este ocorreu com a Enciclopédia Brittanica, apresentando no site oficial o retrato rascunhado de João de Barros Luiz Legrane no verbete de Matias Aires.[51] Neste caso é provável que o erro tenha sido devido a semelhança entre ambos, com exceção de Matias ser representado com uma barba mais longa e com a cabeça raspada.

Obras[editar | editar código-fonte]

Obras traduzidas[editar | editar código-fonte]

Obras perdidas[editar | editar código-fonte]

  • (la) Aires, Matias. Philosophia racionalis et via ad Campum Sophiae, physicae subterraneae — manuscrito in-4.°. (em latim): [s.n.]
  • (fr) Aires, Matias (1759). Lettres Bohémiennes, Amsterdão. (em francês): [s.n.]
  • (fr) Discours panégyrique sur la vie et les actions de Joseph Ramos da Silva — não foi impresso. (em francês): [s.n.]
  • Aires, Matias. Discurso congratulatório pela felicíssima convalescença e real vida de el-rei D. José I, nosso senhor, etc. Lisboa, na o f. de Miguel Rodrigues. 1759. 4.° de 10 folhas. [s.n.] Não traz o nome do autor.[54]


Ver também[editar | editar código-fonte]


Notas

  1. Atualmente, Matias Aires tornou-se objeto de vaidade nacionalista, ensejando uma polêmica sobre sua nacionalidade. Há uma polêmica de se considerar Matias um brasileiro ou um português, e talvez um luso-brasileiro ou um brasilo-português. Os brasileiros louvam-no como o primeiro filósofo brasileiro, desde a sua consagração como patrono da Cadeira de número 6 da ABL, que seria sucedida por Guerra Junqueiro em 1898. Também foi o patrono da cadeira de número 3 da Academia Paulista de Letras, sendo considerado pela instituição o primeiro filósofo brasileiro. O argumento brasileiro é de que, embora tenha trabalhado como provedor da Casa da Moeda e estudado em Portugal (na Universidade de Coimbra), também morou e estudou na Galícia e na França, em Sorbone e na Espanha, tornando-se fluente nestes idiomas, bem como no Latim, e nem por isso se tornou francês e espanhol. Seu pai veio para o Brasil aos 12 anos tendo embarcado no navio Bom Jesus de Vila Nova e Nossa Senhora da Conceição, que então navega intensamente entre o Brasil e Portugal em comércio. Mais tarde, casou-se com Catarina de Orta, embora de ascendência portuguesa por parte dos pais, era de família ilustre de São Paulo e descendente de índios por parte dos avós maternos, o que torna Matias Aires também descendente de indígenas nativos do Brasil. Além disso, sua tese sobre a vaidade provém da sua marginalidade quanto aos círculos lusitanos, tendo recusado a língua materna e ter influências filosóficas, claramente, francófonas – o que o alinharia ao barroco e iluminismo francês, refutando a ideia de Matias ser radicado pelo ambiente português. Além disso, não permaneceu em Portugal, mas viajou pela Europa, tendo ficado em terras lusitanas à trabalho em parte de sua vida. Defende-se também que, ao contrário dos judeus que garantem o Jus Sanguinis (do latim “direito de sangue”), nos países lusófonos, os indivíduos têm direito por meio de sua ascendência, mas concebem-se cidadãos por Jus Solis (do latim “direito de solo”). Isso define e dá ao indivíduo o direito a nacionalidade do lugar onde nasceu. Além disso, a mãe de Matias: Catarina, era brasileira de família ilustre paulistana. Por outro lado, os portugueses chamam-no de o filósofo português e consideram a discussão anacrónica, justificando que seu pai e sua família eram portugueses, tendo Matias radicado-se e residido em Portugal por um bom tempo e atrelando-se ao fato de que o Brasil ainda não era uma unidade federativa autônoma. Defendem que São Paulo, no século XVIII, pertencia politicamente à Portugal. Ademais, apesar de muito criticar Portugal e Lisboa do seu tempo, escolheu viver na metrópole portuguesa e procurou afirmar-se; tendo já o pai retornado com o mesmo propósito (de nobilitação). Nesta polêmica há dois consensos: Matias foi um paulista e um lusófono.
  2. Os nomes de Matias Aires Ramos da Silva de Eça (doravante Matias Aires) e Teresa Margarida da Silva e Orta (dorav. Teresa Margarida) ainda produzem certa surpresa mesmo ao estudioso dos departamentos de Humanidades luso-brasileiros. Fora do que se é imputado enquanto cânone literário e filosófico, pouca atenção se tem dado aos autores considerados como o primeiro filósofo e a primeira romancista nascidos em terras do Brasil. E, apesar da proximidade familiar, Matias Aires e Teresa Margarida tiveram uma relação conflituosa durante a maior parte da vida, produzindo obras autônomas e particulares. Referente à Teresa Margarida, será correlacionada a confluência de sua obra com aspectos da modernidade, centralizados aos ideais sociais das Luzes e suas representações, mais precisamente na exposição de uma narrativa dissimuladora dos ideais de liberdade individual, política e de gênero.[11]
  3. A mãe de Matias Aires: Catarina de Orta, era bisneta de Rafael de Oliveira, considerado o fundador de Jundiaí.[12]
  4. Segundo Violeta Crespo, Matias, assim como o pai, entregou-se a incansáveis esforços para reconquistar a velha estima e reputação que gozava no Brasil. Conseguiu aumentar a influência junto do rei, sendo nomeado representante do Senado de São Paulo, comprou caro o ‘hábito de Cristo’ e também o reputado cargo de provedor da Casa da Moeda, mas não sem suportar várias contrariedades, e ofensas à vaidade. A sua origem humilde foi o principal embargo para a sua maior ambição, a nobilitação.
  5. Embora no Brasil as pesquisas sobre o autor encontrem-se paralisadas; a Universidade Nova de Lisboa promoveu, pelo seu Centro de História da Cultura, em colaboração com o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, estudos para o curso livre de filosofia luso-brasileira.
  6. Matias dedica o livro Reflexões sobre a vaidade dos homens para agradar o recém monarca Dom José I.

Referências

  1. [http://memoria.bn.br/pdf/066559/per066559_1949_00013.pdf Gravura de Matias. Nota-se a intenção de ressaltar a intelectualidade na representação através do uso dos símbolos: a estante de livros, a pena, a lâmpada iluminando o ambiente ao fundo e o caráter de efemeridade da existência e da vaidade (simbolizado pela caveira) em contrapartida à durabilidade do saber representado pela sabedoria das letras. ]
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