Vitorino Magalhães Godinho

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Vitorino Magalhães Godinho
Nascimento 9 de junho de 1918
Lisboa, Portugal
Morte 26 de abril de 2011 (92 anos)
Lisboa
Nacionalidade Portuguesa
Influências
Escola/tradição Universidade de Lisboa, Universidade de Paris, Escola dos Annales e Universidade Nova de Lisboa
Principais interesses Filosofia
História
História de Portugal
Sociologia
Economia
Ensino

Vitorino Barbosa de Magalhães Godinho (Lisboa, 9 de Junho de 1918 — Lisboa, 26 de Abril de 2011) foi um professor universitário, historiador e cientista social português, considerado um dos mais notáveis académicos portugueses, sendo um dos nomes da corrente historiográfica que se começou a desenvolver em torno da "Revue des Annales" - Annales d'histoire économique et sociale (em português, Anais de História Econômica e Social), fomentada pelos historiadores franceses Marc Bloch e Lucien Febvre, então da Universidade de Estrasburgo.[1][2][3][4] [5][6]

Era Professor Catedrático Jubilado da Universidade Nova de Lisboa, do Departamento de Sociologia da FCSH, tendo-se doutorado pela Sorbonne, Faculdade de Letras da Universidade de Paris, Paris, França, país onde sedimentou uma parte da sua vida académica e científica. O seu nome académico identifica-se, em grande parte, com a FCSH, da Universidade Nova de Lisboa: o Professor Vitorino Magalhães Godinho foi um dos pioneiros das Ciências Sociais em Portugal e fundador da Sociologia da Nova. O seu espírito crítico, a sua atitude problematizadora, a sua capacidade de elaboração teórica constituíram-se como referência para a construção da instituição, onde existe uma fusão aprofundada entre a Historiografia e a Sociologia. O Professor Vitorino Magalhães Godinho é o académico português que melhor representa essa corrente historiográfica, muito próxima da Sociologia.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Filho de Vitorino Henriques Godinho — oficial do Exército e político republicano — e de D. Maria José Vilhena Barbosa de Magalhães. Conclui os estudos secundários em Lisboa, frequentando os Liceus de Gil Vicente e de Pedro Nunes, licencia-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1940). Professor da Faculdade de Letras de Lisboa (19411944), investigador do Centre National de Recherches Scientifiques (1947–1960), Doutor ès-Lettres pela Faculdade de Letras da Universidade de Paris (1959), professor catedrático do Instituto Superior de Estudos Ultramarinos (19601962), Doutor honoris causa e Professor associado da Faculdade de Letras e Ciências Humanas de Clermont-Ferrand (França), na sua formação exerceram notável influência, entre os portugueses, António Sérgio, Jaime Cortesão, Newton de Macedo, Duarte Leite e a obra de Veiga Simões; entre os estrangeiros destacam-se, Lucien Febvre, Fernand Braudel, Marcel Bataillon, C. E. Labrousse, G. Gurvitch. São consideradas personalidades influentes da sua formação as obras de Henri Pirenne, Marc Bloch, Brunschvicg, Pierre Janet, Jean Piaget, H. Wallon, Goblot, Federico Enriques. V. M. G. procura então contribuir para forjar uma metodologia historico-estruturalista, que tem raízes em Karl Marx e na corrente de pensamento dos Annales, de Bloch e L. Febvre. De resto, uma das personalidades desta corrente, F. Braudel, reconhece no discípulo pontos de convergência incontestáveis: «Tous ces problèmes du destin portugais n'échappent pas à l'impérialisme de notre jeune collaborateur et ami V. M. G. Il les reprend à son compte, les transforme, les éclaire, avec un gout que ses devanciers n'ont presque jamais eu pour les réalités économiques et sociales.» (in Annales: Économies, Sociétés, Civilizations, Abril-Junho, 1949). Professor Catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e coordenador do departamento de Sociologia (19751988). Prix d’Histoire Maritime da Académie de Marine (1970) e Prémio Balzan (1991), sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras e da Royal Academy (Londres). Dirigiu várias colecções, nomeadamente nas Edições Cosmos, e fundou e dirige a Revista de História Económica e Social (1979). Foi ministro da Educação e Cultura dos segundo e terceiro governos provisórios, tendo tomado posse a 18 de Julho de 1974 e apresentado a sua demissão a 30 de Novembro do mesmo ano. Foi também Director da Biblioteca Nacional (1984).

Obra[editar | editar código-fonte]

Tendo começado os seus estudos pela Filosofia (Razão e História – Introdução a um problema, 1940; Esboço sobre alguns problemas da Lógica, 1943) cedo passou a interessar-se pela História. E de imediato inicia pesquisas sobre a História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa. Duas são as linhas de investigação inicial: um minucioso trabalho erudito sobre as fontes (Documentos para a História da Expansão Portuguesa, 1943–1956) a partir de uma problemática muito ampla (A Expansão Quatrocentista portuguesa, 1944) e uma tentativa de reconstituição das culturas e civilizações antes da chegada dos portugueses (História económica e social da Expansão Portuguesa, 1947; O "Mediterrâneo saariano" e as caravanas do ouro — séculos XI ao século XVI, 1956). Só assim, na conjugação destas duas linhas de trabalho, se conseguirá proceder à construção da história portuguesa e do seu impacte no Mundo nos séculos XV e XVI. Tendo prosseguido os seus trabalhos na École Pratique des Hautes Études em Paris — junto de Lucien Febvre, Fernand Braudel e Ernest Labrousse –, aí apresenta Prix et monnaies au Portugal: 1750–1850 (1955) e L’économie de l’empire portugais — XVème–XVIème siècles (1966), obra esta que foi tese de doutoramento (editada em português, com acrescentos, em 1963–1971, Os descobrimentos e a economia mundial, com edição definitiva em 1983–1984).

Integra a corrente historiográfica que se desenvolve em torno da "Revue des Annales" (Escola dos Annales). Destacou-se pela resistência à ditadura (o que lhe valeu por duas vezes o afastamento da universidade portuguesa) e também pela sua intervenção cívica em democracia, de que resultaram várias publicações: O Socialismo e o futuro da Península (1970), Portugal. A Pátria bloqueada e a responsabilidade da cidadania (1985). Apresentou propostas originais para reforma do sistema educativo português: Um rumo para a educação (1974).

Deve-se-lhe a actualização e a renovação dos estudos de história da expansão portuguesa numa perspectiva mundial. Partindo das reflexões e investigações de Oliveira Martins, Jaime Cortesão e Duarte Leite consegue ir muito mais longe e construir explicações muito enriquecedoras. A economia dos descobrimentos henriquinos (1962) e Os descobrimentos e a economia mundial revelam essa largueza de preocupações, mostrando como se entrelaçam e conjugam aspectos vários das disciplinas das ciências sociais na investigação histórica. Os Descobrimentos são o cadinho onde se forjam um tipo social novo – chamar-lhe-emos o cavaleiro-mercador? –, uma nova constelação social – o senhorio capitalista –, uma reestruturação dos laços político-económicos – o Estado nacional mercantilista-nobiliárquico. Velhas formas e velhas atitudes mentais vestem e enformam actividades jovens, exercendo-se em quadros geográficos dantes insuspeitados para onde se transpõem experiências e rotinas vindas de trás.De cerca de 1409 a cerca de 1475, a expansão portuguesa alterna entre as modalidades e feixes de objectivos vários. A um lado, uma política de conquistas territoriais pela «cruzada» contra o Islame maghrebino; a outro, a metódica devassa do oceano desconhecido para desenvolver os circuitos mercantis, e colonização dos arquipélagos ermos. Crise financeira da nobreza e necessidades de mercados, e escápulas da burguesia.O ouro do mundo negro como alvo dominante, mas também os escravos, as cores tintoriais, o trigo e o açúcar. Políticas ora acerbamente opostas ora em convergência. Forma-se assim um complexo económico-social de configuração geográfica bem desenhada: abrange o Noroeste africano? Marrocos, Saara e Sudão atlânticos, bem como as ilhas dos Açores, Madeira, Cabo Verde, Canárias.

Também no domínio da História de Portugal, moderna e contemporânea, escreveu estudos fundamentais e promoveu investigações que refizeram muitas temáticas: A estrutura da antiga sociedade portuguesa (1971), Mito e mercadoria, utopia e prática de navegar, séculos XIII–XVIII (1990). Igualmente se lhe deve a indicação de novos temas e novos problemas para investigações e dissertações que dirigiu, em especial durante o seu magistério na Universidade Nova de Lisboa.

Das suas lições de rigor erudito, de alargamento metodológico e da problematização das fontes como objecto cultural, de ensaio de quantificação e de cruzamento com as diferentes ciências sociais, de fundamentação teórica e de aplicação de uma visão histórica aos diferentes domínios do saber, de cidadania activa resultou uma notável renovação dos estudos de história em Portugal. Como escreveu numa das suas primeiras obras, "não é possível analisar os problemas da realidade portuguesa contemporânea sem os inserir na trama da evolução do nosso país, quer dizer, sem estudar as condições de formação do mundo em que vivemos, a génese da nossa cultura, da nossa sociedade, da estrutura político-económica de Portugal". Levando longe a sua proposta de que a história deve ser pensada na dialéctica da globalidade e de que a história é uma forma de pensamento, fundamenta uma visão da contemporaneidade muito rica e estimulante.

Vitorino Magalhães Godinho utiliza, com frequência, um tipo de abordagem sociológica da Historiografia, próxima da pura Sociologia, visto que, durante a ditadura de Salazar, publicou vários livros de pura Sociologia, e é considerado, habitualmente, um das referências académicas e científicas mais relevantes do Departamento de Sociologia da FCSH, para além de ter sido o principal académico que configurou a estrutura do Departamento e também da FCSH, onde fez alguns discípulos e influenciou a investigação sociológica de vários docentes do Departamento, como Moisés Espírito Santo e David Justino.

Sobre ele, diz David Justino:

Hoje tive a honra inestimável de colaborar na apresentação do último livro de Vitorino Magalhães Godinho. Partilhei essa responsabilidade com o General Loureiro dos Santos e com o Sr. Presidente da Assembleia da República. Vitorino Henriques Godinho – Pátria e República (Edição da AR-D. Quixote) é a mais importante obra publicada sobre a história da I República portuguesa. Trata-se de uma biografia exemplar que combina a narrativa de grande erudição e rigor com uma visão profunda dos problemas da sociedade portuguesa.
O biografado, pai do autor, participou enquanto oficial de infantaria na Revolução de 5 de Outubro (uma descrição magistral!), foi deputado à Constituinte e ao Parlamento, participou na preparação do Corpo Expedicionário Português e integrou-o na sua 2.ª Divisão que combateu em La Lys. Posteriormente foi Adido Militar em Paris, Ministro dos Negócios Estrangeiros e Ministro do Interior, tendo mais tarde assumido a Direcção-geral de Estatística do Ministério da Fazenda de onde foi saneado por Salazar.
Através deste percurso, Vitorino Magalhães Godinho escreve não só a biografia, mas faz uma nova história da República.
Do melhor que tenho lido.
Com 87 anos, VM Godinho deixa um legado científico, cultural e cívico, a um País que pouco lhe deu e muito lhe recusou. O seu querer, a sua paixão pelo ofício de historiador e pela sua Pátria, ainda podem aumentar esse legado. Aqueles que, como eu, tiveram o raro privilégio de partilhar os últimos 30 anos do seu trabalho, sabem o valor inestimável desse contributo.

Mário Soares refere-o "um cidadão exemplar. Um homem probo, de uma inteireza de carácter excepcional e de uma honestidade moral e intelectual invulgar. Tem uma obra que o classifica entre os maiores historiadores portugueses. A par de um Herculano, de um Oliveira Martins, de um Damião Peres, de um Paulo Merêa, ou de um Jaime Cortesão. Na juventude dos seus noventa anos, não pára de trabalhar. Tem ainda muito para fazer, como sempre, ao serviço de Portugal." O Professor Vitorino Magalhães Godinho é uma figura maior da investigação mundial sobre a Economia dos Descobrimentos. Não admira, por isso, que os seus textos mais significativos possuam uma pertinência e uma lucidez que atraem os estudiosos e quantos desejem, com seriedade e rigor, conhecer as condições económicas e sociais que marcaram a História mundial da primeira Globalização.

Encontra-se colaboração da sua autoria no semanário Mundo Literário [7] (1946-1948).

Contra o Acordo Ortográfico[editar | editar código-fonte]

É um dos signatários da Petição em Defesa da Língua Portuguesa contra o Acordo Ortográfico que decorre em Portugal.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Alguma bibliografia científica[editar | editar código-fonte]

  • Documentos sobre a expansão portuguesa, 3 vols, 1943,1945,1956
  • A crise da História e as suas novas directrizes, 1947
  • Prix et monnaies au Portugal (1750-1850), 1955
  • A economia dos descobrimentos Henriquinos, 1962
  • Portugal and her empire 1648-1720, na New Cambridge Modern History, vols V e VI, 1961 e 1970
  • Introdução às Ciências Sociais, 1964
  • L´économie de l´empire Portugais aux XVe-XVIe siècles (1958), 1969
  • Os descobrimentos e a economia mundial, 2 vols, 1963-1970 (2ª ed. correcta e ampliada, 4 vols, 1982-1983)
  • Ensaios de História de Portugal, 1967 (2ª ed. ampliada, 1978)
  • A estrutura da antiga sociedade portuguesa, 1971
  • Humanismo científico e reflexão filosófica: ensaios, 1971
  • Les finances de l´État Portugais des Indes Orientales (1516-1636), 1982 (1958)
  • Mito e mercadoria, utopia e prática de navegar (séculos XIII-XVIII), 1990
  • Le devisement du monde: de la pluralité des espaces à l´espace global de l´humanité (XVe-XVIe siècles), 2000
  • Portugal: a emergência de uma Nação, 2004

Alguma bibliografia sobre problemas do mundo actual[editar | editar código-fonte]

  • Identité culturelle et humanisme universalisant, 1982
  • Les sciences humaines et la mutation du monde: réflexions inactuelles, 1998

Alguma bibliografia sobre educação e investigação científica[editar | editar código-fonte]

  • Um rumo para a educação, 1974
  • A educação num Portugal em mudança[8] 1975
  • As Ciências Humanas: ensino superior e investigação científica,1981
  • Problemas da institucionalização e desenvolvimento das Ciências Sociais e Humanas em Portugal, 1989

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências


Precedido por
Rubem Andresen Leitão
Lorbeerkranz.png Sócio correspondente da ABL - cadeira 17
1976 — atualidade
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