Atos de violência organizada no Brasil em 2006

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Atos de violência organizada no Brasil em 2006
Em maio de 2006, ônibus foram queimados durante a maior onda de violência já registrada em São Paulo; ações foram atribuídas ao PCC.
Local São Paulo (também nos estados de Espírito Santo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Bahia)[1]
Data 12 a 17 de maio de 2006
Mortes 128[2]
Feridos 59[3]

Iniciada na noite de 12 de maio, a maior onda de atentados contra forças de segurança e alguns alvos civis que se tem notícia na história do Brasil,[carece de fontes?] com origem no estado de São Paulo. No dia 14, o ataque já havia se espalhado por outros estados do Brasil, como Espírito Santo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Bahia (este último sem ligação direta com o PCC)[4].

Os ataques tomaram uma repercussão gigantesca na mídia brasileira, que somados à falta de informações por parte do governo de São Paulo e ao enorme sensacionalismo da imprensa, além de vários boatos infundados, acabaram por causar pânico geral e clima de terrorismo na população, principalmente na segunda-feira. Os atentados foram destaque na mídia internacional durante os dias do ocorrido[5].

O governador do estado de São Paulo, Cláudio Lembo, foi duramente criticado pela imprensa pela demora na resposta, falta de comunicação entre as forças policias, falta de informação à mídia e à população em geral e gerenciamento da crise. Lembo, havia um mês e meio no poder quando a crise eclodiu, acabou virando pivô de discórdia entre o PSDB, do ex-governador e pré-candidato à Presidência da República, Geraldo Alckmin, e o PFL, partido de Lembo e aliado nas eleições do final do ano.

Ataques[editar | editar código-fonte]

Os policiais militares eram os principais alvos dos ataques.

Os ataques ocorreram na cidade de São Paulo, na Grande São Paulo (Guarulhos, Santo André, São Bernardo do Campo, Jandira, Osasco, Mogi das Cruzes e Cotia), no litoral (Guarujá, Praia Grande, Cubatão) e no interior do estado (Avaré, São José dos Campos, Jacareí, Araras, Marília, Campinas, Campo Limpo Paulista, Itapira, Mogi Mirim, Ourinhos, Paulínia, Águas de Lindoia, Piracicaba, Ribeirão Preto, Santa Bárbara d'Oeste, Tupã, Várzea Paulista, Presidente Venceslau e Taubaté).

Os 251 ataques registrados logo no início, incluíram rebeliões em 73 presídios, Centro de Detenção Provisória e 9 cadeias públicas na capital[6], Grande São Paulo, interior e litoral do estado. Na noite do dia 14, 53 unidades tinham presos rebelados simultaneamente. Foram registradas tentativas de resgates de presos.

Noventa ônibus foram queimados (51 em São Paulo e os outros na região do ABC, em Osasco e em Campinas) e na terça-feira dia 16 de maio as coisas ficaram tranquilas mas ainda foi queimado mais um ônibus na tarde da terça feira e na madrugada conflitos com suspeitos[7].

Nos ataques aos departamentos de polícia, corpo de bombeiros, agências bancárias foram utilizadas granadas, bombas caseiras e metralhadoras. Os principais alvos foram policiais militares, mas guardas municipais, famílias de policiais, seguranças privados e civis também foram alvos dos ataques e ameaças. O transporte coletivo teve muitos dos ônibus das frotas esvaziados e incendiados. Nas rebeliões, os presos destruíram as instalações das unidades prisionais, colocaram fogo nos colchões, torturaram outros presos, agentes penitenciários e alguns reféns.

Os ataques do Primeiro Comando da Capital continuaram acontecendo com certa constância no ano de 2006, nas primeira horas do dia 13 de agosto de 2006, aproximadamente a meia noite e meia, um vídeo enviado para a Rede Globo de televisão, gravado em um DVD, foi transmitido, no plantão da emissora, para todo o Brasil. Dois de seus repórteres (O repórter Guilherme Portanova e um auxiliar técnico) haviam sido sequestrados na manhã do dia anterior, um deles (o auxiliar técnico) foi solto, encarregado de entregar um DVD para a Rede Globo. Colocada sob chantagem, a emissora transmitiu o vídeo com teor de manifesto. O outro reporter só seria solto após esta transmissão.

Responsáveis e causas dos ataques[editar | editar código-fonte]

O planejamento e a execução dos movimentos foram parcialmente atribuído à organização criminosa paulista PCC (Primeiro Comando da Capital). O estopim teria sido uma resposta a decisão do governo do estado de São Paulo de isolar líderes da facção com o objetivo de desmontar a articulação da mesma colocando-os em presídios de segurança máxima. No dia 11 de Maio, 765 presos foram transferidos para Presidente Venceslau (a 620 km a oeste de São Paulo).

Há quem aponte, como causa subjacente dos ataques, a corrupção policial.[1]

No dia 12, oito líderes foram levados para a sede do Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado), na zona norte de São Paulo. Entre eles, encontrava-se o líder da facção, Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola. No dia 13, ele foi levado para a penitenciária de Presidente Bernardes (589 km a oeste de São Paulo), considerada uma das mais seguras do país. Lá, ele ficará sob o RDD (Regime Disciplinar Diferenciado).

Como suspeitos de executar os ataques, as dezenas de milhares de presos que receberam visitas no dia 12 ou receberam indulto de Dia das Mães no dia 13.

Reação do governo[editar | editar código-fonte]

Como resposta a estes incidentes, a Polícia Militar de São Paulo cancelou folgas, transmitiu um alerta para todos e prendeu 82 suspeitos. Eles fecharam ruas próximas a departamentos de polícia, e intensificaram o patrulhamento da cidade. Muitas blitze aconteceram na cidade.

Na tarde do dia 13 de maio de 2006 o comandante-geral da PM de São Paulo, Coronel Elizeu Eclair Teixeira Borges, declarou em entrevista à imprensa que "Estamos em guerra contra eles [os criminosos]. Vamos ter mais baixas, mas não vamos recuar" e fez duras críticas à divulgação de boatos que estariam instaurando pânico na população.

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, relatou, em entrevista no Palácio do Planalto, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou para o governador de São Paulo, Cláudio Lembo, para colocar à disposição dele todas as forças federais, inclusive as Forças Armadas. Bastos viajou no dia 15 para São Paulo para um encontro com o governador[8]. No encontro, o governo rejeitou as forças federais, mas disse que as equipes de inteligência federal e do estado já trabalhavam em conjunto. O Governo Federal, por sua vez, anunciou um reforço no patrulhamento das estradas federais paulistas até segunda ordem. A Polícia Militar do Estado de São Paulo agiu rapidamente, resultando no saldo de mais de cem suspeitos mortos.

Suposto acordo[editar | editar código-fonte]

Em 16 de maio de 2006, o jornal Folha de S. Paulo publicou matéria afirmando que o governo de São Paulo teria feito um "acordo" com o PCC visando pôr fim ao conflito. A suspeita baseia-se no fato de que a cúpula do governo paulista articulou um encontro entre a advogada e ex-delegada da Polícia Civil, Iracema Vasciaveo, e Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder da organização criminosa. O governo providenciou um jato da Polícia Militar para transportar Vasciaveo, que foi ao encontro acompanhada pelo comandante da PM da região de Presidente Prudente, Ailton Araújo Brandão, pelo corregedor da Secretaria de Administração Penitenciária, Antônio Ruiz Lopes, e pelo delegado da Polícia Civil, José Luiz Cavalcante. Todas as rebeliões em presídios paulistas encerraram-se na noite seguinte à do encontro. O governo paulista negou veementemente a existência de um acordo. O comandante da PM, Elizeu Eclair, afirmou tratar-se de uma "mera conversa". Já Wilson Morais, presidente da Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar do Estado de São Paulo, utilizou o termo "trégua".[1]

O então secretário da Administração Penitenciária de São Paulo, Nagashi Furukawa, negou o acordo em 2006,[2] Posteriormente, em 2008, afirmou acreditar na existência de um acordo, citando como evidência a "redução radical na ocupação de celas RDD" após a sua gestão. Noticiou-se ainda, conforme artigo publicado pela International Human Rights Clinic da Harvard Law School, que o fim dos ataques da organização criminosa teria sido condicionado à proibição da entrada da Tropa de Choque nos presídios rebelados e à concessão de benefícios aos líderes transferidos, como a ampliação do período de banho de sol, o fim do regime de observação, a autorização de visitas conjugais e a instalação de televisores em celas individuais, e ainda à execução de um desafeto de Marcola. O mesmo artigo julga como suspeitos os fatos de que, posteriormente, Vasciaveo tenha representado um enteado de Marcola em uma investigação promovida pelo Ministério Público contra o investigador Augusto Peña, e de que o coronel Brandão, integrante da comitiva que se encontrou com Marcola nas vésperas do fim dos ataques, tenha subscrito um ofício ao poder judiciário, em julho de 2007, afirmando a existência de problemas técnicos nos aparelhos de gravação de conversas e de restauração de fitas do Centro de Operações da Polícia Militar, que inviabilizaria o resgate de um áudio sobre ordens operacionais transmitidas à PM na ocasião.[1]

Consequências[editar | editar código-fonte]

Mortos* Feridos*
Policiais Militares 23 22
Policiais Civis 6 6
Guarda Municipal 3 8
Agentes Penitenciários 8 1
Civis 4 16
Suspeitos 71 6
Presos 13 ?
Total 128 59
*Até as 16h de 16 de Maio de 2006[9]

Já foram presos 115 suspeitos e 113 armas de fogo já foram apreendidas[10].

Estes ataques incentivaram uma rebelião em uma penitenciária no estado do Paraná, e quatro em Mato Grosso do Sul. Também foram registrados motins em duas unidades da Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor), atual Fundação CASA[11].

Durante as rebeliões em presídios, muitos presos aproveitaram a oportunidade para resolver as diferenças.

A polícia e grupos de extermínio realizaram operações de retaliação contra a população civil, que resultaram na morte de mais de 200 civis.[1]

Repercussão[editar | editar código-fonte]

Ameaças[editar | editar código-fonte]

No Estado de São Paulo, o PCC ameaçou atacar vans, ônibus escolares, grandes colégios privados como (Dante Alighieri, Rio Branco, Santo Américo, Santo Ivo, Bandeirantes, FAC e Porto Seguro) e hospitais (Albert Einstein e Panamericano); portanto em muitas instituições de ensino as aulas foram suspensas por causa do medo da violência.

No interior houve ameaças de ataques a estâncias turísticas (Campos do Jordão, Serra Negra, Águas de Lindoia, Itu). Em Marília, Presidente Epitácio, Taubaté e Poá foram confirmadas ameaças a ataques em bancos, hospitais, colégios, estações rodoviárias e delegacias.

Em Mogi das Cruzes, o Fórum Distrital de Brás Cubas, situado num dos bairros mais violentos dessa cidade, chegou a ser metralhado.

Os aeroportos de São Paulo também foram vítimas de ameaças. Empresas aéreas que operam em Congonhas e Guarulhos receberam telefonemas denunciando a existência de bombas. Em Congonhas, após a evacuação do saguão principal, foi feita varredura e nada foi encontrado. Em Guarulhos, nenhuma bomba foi encontrada também[12].

Boatos[editar | editar código-fonte]

A segunda-feira foi marcada por diversos boatos: bomba no Terminal Rodoviário do Tietê, nos Aeroportos de Congonhas e Guarulhos, nos shoppings Villa-Lobos, Market Place, Iguatemi e West Plaza, tiroteio em escola de Higienópolis, toque de recolher às 18h ou 20h, ataques em estações do Metrô, ataques contra prefeituras no interior, ataques contra empresas de telefonia, incêndio em escola e em creche. Nenhum desses boatos era verdade mas causaram pânico e histeria na cidade de São Paulo.

O medo e os boatos fizeram com que a maioria das empresas dispensasse seus funcionários mais cedo, por volta das 16 horas. Isso causou um enorme trânsito em toda a cidade. Por volta das 20 horas, em compensação, a cidade de São Paulo estava praticamente deserta, com a maioria dos moradores trancados em suas casas.

Sensacionalismo[editar | editar código-fonte]

A Corregedoria de Segurança de São Paulo anunciou que pode abrir processo para punir as emissoras de TVs Rede Record, RedeTV! e Rede Bandeirantes, por “práticas jornalísticas abusivas entre os dias 13 até 19 de maio”, dias em que o PCC promoveu 294 ataques na onda de violência do estado de São Paulo, que divulgaram entrevistas e conversas de celulares dos supostos integrantes do PCC, divulgações de algumas informações que logo depois se tornaram falsas. A Rede Record diz ter certeza a veracidade da entrevista; a RedeTV! diz sobre erros de notícias que a afirmação do apresentador foi dada no telejornal e foi corrigido no mesmo dia no mesmo telejornal; a Rede Bandeirantes não quis se pronunciar.

Implicações político-eleitorais[editar | editar código-fonte]

Com vista nas eleições de outubro de 2006, o episódio tem implicações significativas, tanto na condução da crise, quanto na repercussão política a ser usada na disputa pela Presidência da República e pelo governo do estado.

Até abril de 2006, Geraldo Alckmin, pré-candidato à presidência e principal nome da oposição, era o governador do estado de São Paulo. O presidente Lula tem insistido em dizer à imprensa que não utilizaria o episódio para obter ganhos políticos. Mas o governo federal, através de membros do PT no Congresso e o estadual têm se trocado acusações em meio à onda de violência.

Os dois lados têm sido extremamente cautelosos no relacionamento com a imprensa para evitar um debate mais aprofundado sobre quem tem a culpa no ocorrido.

Nas artes[editar | editar código-fonte]

O filme Salve Geral, de 2009,[3] mostra o drama de uma mãe de preso que se envolve com o PCC durante os acontecimentos de maio de 2006.

Referências[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências