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Naturalismo

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 Nota: Para outros significados, veja Naturalismo (desambiguação).
Naturalismo

Óleo sobre tela Barco desaparecido de José Júlio de Souza Pinto (c. 1890)
Histórico
Período Final do século XIX
Local de origem  França
Manifesto Le roman expérimental de Émile Zola[1]
Características
Ênfase na observação científica da realidade, detalhamento minucioso da vida cotidiana, determinismo social e biológico, descrição de ambientes e comportamentos humanos de forma objetiva e detalhada.
Relações artísticas
Influenciado por Realismo, naturalismo filosófico, Romantismo Positivismo
Reação a Simbolismo, Decadentismo
Vertentes Pintura realista
Artistas notáveis
Escultura, modelagem e outras artes plásticas tridimensionais Auguste Rodin
Pintura, ilustração e outras artes plásticas bidimensionais Jean-François Millet, Gustave Courbet
Romances, poesias e outras artes escritas Émile Zola, Guy de Maupassant, Aluísio Azevedo, Raul Pompeia
Obras notáveis
Germinal (1885), de Zola
O Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo
A Passagem do gado (1887), de Cristino da Silva
A Volta do mercado (1886), de Silva Porto

O naturalismo é um movimento artístico e literário conhecido por ser a radicalização do realismo, baseando-se na observação fiel da realidade e na experiência, mostrando que o indivíduo é determinado pelo ambiente e pela hereditariedade. A escola esboçou o que se pode declarar como os primeiros passos do pensamento teórico evolucionista de Charles Darwin.

O naturalismo filosófico como forma de conceber o universo constitui um dos pilares da ciência moderna, sendo alvo de considerações também de ordem filosófica.

O Naturalismo surgiu no século XIX, em um período marcado por grandes transformações sociais, científicas e culturais. A Revolução Industrial, o avanço das ciências naturais e a consolidação do positivismo criaram um ambiente propício para novas formas de compreender a realidade. A literatura, que já vinha se afastando do romantismo idealizador, encontrou no Realismo uma maneira mais objetiva de retratar o cotidiano. No entanto, o Naturalismo foi além: inspirado pelas teorias de Charles Darwin, com a evolução das espécies, e de Hippolyte Taine, com o determinismo, passou a considerar o ser humano como resultado de fatores biológicos, sociais e hereditários. Assim, a literatura naturalista aproximava-se da ciência, descrevendo personagens como se fossem objetos de estudo. Essa corrente literária nasceu na França, com destaque para Émile Zola, considerado seu principal teórico e romancista. Em obras como Germinal e Naná, Zola aplicou o método experimental à literatura, retratando com rigor e objetividade as condições de vida das classes populares e os vícios da sociedade burguesa. O movimento logo se espalhou pela Europa e chegou à América, adaptando-se às particularidades locais. No Brasil, floresceu principalmente a partir da década de 1880, quando escritores como Aluísio Azevedo, Raul Pompeia e Adolfo Caminha aplicaram os princípios naturalistas para representar os dilemas sociais do país. O Naturalismo, portanto, consolidou-se como uma estética literária fortemente vinculada à ciência e ao desejo de compreender o homem em sua totalidade.

O Naturalismo se distingue por um conjunto de características que o aproximam da ciência e da objetividade. Sua principal marca é o determinismo, isto é, a ideia de que o comportamento humano não resulta apenas da vontade individual, mas de fatores externos como o meio social, o ambiente e a hereditariedade. Dessa forma, personagens naturalistas frequentemente são descritos como presos a instintos, vícios ou condições de vida que não conseguem controlar. Outro traço central é a animalização do homem, que coloca em evidência o lado instintivo e biológico do ser humano, muitas vezes comparado a animais. Esse recurso reforça a crítica à sociedade e a visão científica da literatura. Além disso, há a descrição minuciosa e detalhista, que busca retratar com rigor ambientes, hábitos e comportamentos. O narrador costuma assumir uma postura objetiva, quase impessoal, como um observador científico. Temas considerados tabus, como prostituição, adultério, violência, alcoolismo e miséria, aparecem com frequência, pois o Naturalismo tinha a intenção de expor as realidades mais cruas e incômodas da sociedade. Outro aspecto importante é a crítica social: ao retratar a desigualdade, os preconceitos e as condições de vida das classes desfavorecidas, a literatura naturalista denunciava injustiças e revelava contradições do sistema. O estilo também privilegia diálogos realistas, construídos de acordo com a linguagem das personagens, reforçando o vínculo entre literatura e vida cotidiana. Por esses motivos, o Naturalismo foi considerado inovador, mas também recebeu críticas por sua abordagem excessivamente “científica” e por tratar de temas tidos como imorais na época.

No Brasil, o Naturalismo se desenvolveu em um contexto de transformações políticas e sociais do final do século XIX. A escravidão ainda vigorava, a urbanização começava a se intensificar e debates sobre modernização, ciência e progresso ganhavam força. Nesse cenário, escritores brasileiros encontraram no Naturalismo uma ferramenta para retratar e criticar a realidade nacional. O principal representante foi Aluísio Azevedo, cuja obra O Mulato (1881) é considerada o marco inicial do movimento no país. O romance aborda o preconceito racial e a hipocrisia social, alinhando-se ao espírito naturalista. Sua obra mais famosa, O Cortiço (1890), retrata a vida em um cortiço carioca, com ênfase nas relações coletivas, na degradação social e na influência do meio sobre os indivíduos. Outros nomes importantes foram Raul Pompeia, autor de O Ateneu, que expôs as tensões da vida escolar em um internato, e Adolfo Caminha, que escreveu Bom-Crioulo, romance ousado para a época, pois trata da homossexualidade e do preconceito racial. O Naturalismo brasileiro destacou-se por sua crítica social e pela ousadia em retratar temas considerados polêmicos. Além disso, refletiu a diversidade cultural e étnica do país, trazendo à tona questões como racismo, pobreza e desigualdade. Apesar de críticas recebidas por parte de leitores conservadores, essa literatura contribuiu para renovar o cenário literário nacional e aprofundar a análise da sociedade. Assim, o Naturalismo deixou um legado de realismo crítico e científico, marcado por obras que ainda hoje são objeto de estudo e reflexão.


Literatura

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Os romances naturalistas destacam-se pela abordagem extremamente aberta do sexo e pelo uso da linguagem falada. O resultado é um diálogo vivo e extraordinariamente verdadeiro, que na época foi considerado até chocante de tão inovador. Ao ler uma obra naturalista, tem-se a impressão de se estar a ler uma obra contemporânea, que acabou de ser escrita. Os naturalistas acreditavam que o indivíduo é um mero produto da hereditariedade e o seu comportamento é fruto da educação e do meio em que vive e sobre o qual age.

A perspectiva evolucionista de Charles Darwin inspirava os naturalistas, que acreditavam ser a seleção natural impulsionadora da transformação das espécies.

Assim, predomina nesse tipo de romance o instinto, o fisiológico e o natural, retratando a agressividade, a violência, o erotismo como elementos que compõem a personalidade humana.

Ao lado de Darwin, Hippolyte Taine e Auguste Comte influenciaram de modo definitivo a estética naturalista.

Émile Zola, grande precursor do naturalismo

Os autores naturalistas criavam narradores omniscientes e impassíveis para dar apoio à teoria na qual acreditavam. Exploravam temas como a homossexualidade, o incesto, o desequilíbrio que leva à loucura, criando personagens que eram dominados pelos seus instintos e desejos, pois viam no comportamento do ser humano traços da sua natureza animal.

No Brasil, a prosa naturalista foi influenciada por Aluísio Azevedo com a obra O Mulato, publicado em 1881. Esta marcou o início do Naturalismo brasileiro e a obra O Cortiço, também de sua autoria, marcou essa tendência.

O francês Émile Zola foi o idealizador do naturalismo e o escritor que mais se identificou com ele. O romance experimental (1880) é considerado o manifesto literário do movimento.

No teatro, o naturalismo exerceu mudanças marcantes, com o surgimento do diretor, do cenógrafo e do figurinista. Até então, o próprio ator escolhia suas roupas, um único cenário era usado para diversas montagens, e não estava definida a posição do diretor como coordenador de todas as funções. A iluminação passou a ser mais estudada e adotou-se a sonoplastia. É um radicalismo do Realismo.

Marques de Oliveira, Portão no Campo (1901)
Marques de Oliveira, Portão no Campo (1901)

Na pintura, um exemplo naturalista é o famoso quadro de Vincent van Gogh, Os Comedores de Batata (1885).

Naturalismo em Portugal

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Em Portugal o Naturalismo é introduzido por Marques de Oliveira e Silva Porto, na década de 70 do século XIX, quando regressam de Paris, após uma estadia como Bolseiros do Estado. As bolsas de estudo na capital francesa eram prémios muito disputados, mas atribuídos apenas aos melhores estudantes das academias de Lisboa e Porto, com o objetivo de manter atualizada a arte nacional.

O contacto com os artistas de Barbizon naturalistas, realistas e impressionistas, bem como a animada atmosfera artística parisiense, permitiram abrir novas perspectivas para desenvolver uma abordagem diferente da pintura portuguesa.

A lista de artistas é grande. Além de Silva Porto e Marques de Oliveira devem ser destacados muitos outros. Assim são de referir os seguintes pintores: José Malhoa, Simão da Veiga, Henrique Pousão, Columbano, Sousa Pinto, António Ramalho, João Vaz, Carlos Reis, O Rei D. Carlos (ou D. Carlos de Bragança), Luciano Freire, Alfredo Keil, Artur Loureiro e outros.

Também existem algumas pintoras, entre as quais se destacam Aurélia de Sousa e sua irmã Sofia Martins de Souza.Também fizeram experiências naturalistas pintores seguindo outros estilos como o eclético Veloso Salgado e o simbolista António Carneiro.

Naturalismo no Brasil

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Horácio de Carvalho, autor naturalista

No Brasil, as primeiras obras naturalistas foram publicadas em 1880, sendo influenciadas pela leitura de Émile Zola.

O primeiro romance é O Mulato (1881) do maranhense Aluísio Azevedo, o escritor que melhor representa a corrente literária do naturalismo brasileiro. Além dessa obra, foi o responsável pela criação de um dos maiores marcos da literatura brasileira: O Cortiço.

A recepção crítica da teoria naturalista de Zola fez-se em Portugal por intermédio de autores como Júlio Lourenço Pinto (1842-1907), José António dos Reis Dâmaso (1850-1895), António José da Silva Pinto (1848-1911), Alexandre da Conceição (1842-1889), Francisco Teixeira de Queirós (1848-1919), autor das séries Comédia do Campo e Comédia Burguesa, e o mais destacado deles, Abel Botelho, (1854-1917), criador da série Patologia Social, ou Carlos Malheiro Dias (1875-1941) tentariam a aplicação do Naturalismo ao conto e ao romance.

Pela primeira vez, a literatura pôs em primeiro plano o pobre, o homossexual, negros e os mulatos discriminados.

Alguns representantes do Brasil foram Aluísio Azevedo, Horácio de Carvalho, Inglês de Sousa, Júlio Ribeiro, Emília Bandeira de Melo, Adolfo Caminha, Pápi Júnior, Rodolfo Teófilo, Carneiro Vilela, Faria Neves Sobrinho, Manoel Arão entre vários outros. O naturalismo seria altamente produtivo no Brasil ao longo das últimas décadas do século XIX, com a publicação de obras retratando a diversidade da realidade brasileira sob essa ótica.[2]

Bibliografia

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  • GUINSBURG, J.; FARIA, João Roberto (orgs.). O Naturalismo. São Paulo: Perspectiva, 2020.
  1. Zola, Emile (1902). Le roman expérimental. The Centre for 19th Century French Studies - University of Toronto. [S.l.]: Paris : Charpentier. Consultado em 23 de outubro de 2025 
  2. Maia, Mateus de Novaes; Santos, Claudete Daflon dos (29 de dezembro de 2023). «Bocas tortas: naturalismo sertanejo e literatura das secas no Brasil». Terra Roxa e Outras Terras: Revista de Estudos Literários (2): 90–102. ISSN 1678-2054. doi:10.5433/1678-2054.2023vol43n2p90. Consultado em 26 de agosto de 2025