Realismo socialista

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Text document with red question mark.svg
Este artigo ou secção contém uma ou mais fontes no fim do texto, mas nenhuma é citada no corpo do artigo, o que compromete a confiabilidade das informações. (desde novembro de 2009)
Por favor, melhore este artigo introduzindo notas de rodapé citando as fontes, inserindo-as no corpo do texto quando necessário.

O realismo socialista foi o estilo artístico oficial da União Soviética entre as décadas de 1930 e 1960, aproximadamente. Foi, na prática, uma política de Estado para a estética em todos os campos de aplicação da forma, desde a Literatura até o Design de produto, incluindo todas as manifestações artísticas e culturais soviéticas (pintura, arquitetura, design, escultura, música, cinema, teatro, etc.).

O Realismo Socialista está diretamente associado ao comunismo ortodoxo e aos regimes de orientação ou inspiração stalinista.

Nos países da antiga União Soviética (notavelmente a Rússia, a Bielorrússia e a Ucrânia), o estilo do realismo socialista é tomado como sinônimo de jdanovismo, a estética oficial assim batizada em referência a Andrei Jdanov, comissário de Stalin responsável pela produção cultural e propaganda.

História do Realismo Socialista[editar | editar código-fonte]

Origens na estética russa[editar | editar código-fonte]

Durante a Revolução Russa, as vanguardas culturais e intelectuais também se debatiam e assumiam seus posicionamentos frentes à luta que estava posta. De um lado, havia a monarquia czarista, sustentada politicamente pela Igreja Ortodoxa e pela aristocracia, que adotavam um padrão estético acadêmico; do outro, um grupo político que propunha uma renovação geral, que trazia consigo uma revolução cultural e estética.

Sendo necessário fazer a propaganda revolucionária, num país com uma população majoritariamente analfabeta ou de baixo nível de escolaridade em 1917 (ver Likbez), aliada a deficiências materiais no campo das gráficas disponíveis, optou-se por cartazes com poucas palavras, poucas cores (basicamente, preto, branco e vermelho), elementos geométricos simples e uma linguagem icônica.

Outra característica exclusiva da cultura russa é o paternalismo muito acentuado de sua população. Desde os primórdios vikings, o monarca do Estado russo era apresentado como “Pai”, com a missão divina de comandar seus milhões de “filhos” (ou “Mãe”, no caso de Catarina, a Grande). O próprio czar Nicolau II, deposto em 1917, era chamado de “paizinho”. Em vez de destruir esse hábito, o regime de Stalin acabou por reforçá-lo e prolongá-lo, ao colocar o líder bolchevique como o novo “Pai” do povo russo.

Jogos Olímpicos de Moscou, 1980[editar | editar código-fonte]

Embora tardiamente, os jogos olímpicos realizados em Moscou em 1980 foram representativos da estética realista-socialista, principalmente em suas cerimônias e no design gráfico aplicado ao evento.

A União Soviética demorou a ter a mesma chance que os nazistas tiveram, 44 anos antes, de exibir seu sistema político-econômico em jogos olímpicos. Porém, os soviéticos prepararam este evento com um design extremamente limpo, prático, totalmente inserido em seu estilo estético.

O ilustrador soviético Victor Tchijikov, famoso por seus desenhos para livros infantis, acabou sendo o criador do ursinho Misha, que emocionou o mundo através de seus movimentos produzidos por um enorme mosaico de coreógrafos carregando placas coloridas, com movimentos perfeitamente sincronizados. Tchijikov levou seis meses para desenhá-lo, entre centenas de variações, e acabou finalizando em dezembro de 1977 o ursinho (que tinha até nome inteiro: Mikhail Potapich Toptygin).

Em 1980, o regime que imperava na União Soviética era o de Leonid Brejnev, alto funcionário eleito secretário-geral 16 anos antes e apontado por muitos como sucessor de Stalin. Se não na política, foi seu sucessor ideal em estética: Brejnev permitiu que a estética oficial continuasse por décadas aquela mesma do Realismo Socialista, que enfatiza a imponência do Poder Soviético – uma estética criada a mando do Partido para substituir o construtivismo caótico dos primeiros revolucionários.

Essa estética foi mostrada em seu melhor exemplo no design de Moscou 1980. A começar pelo símbolo e pelo pôster oficiais, na qual uma enorme torre conceitual em barras (uma figura muito usada pelos soviéticos) ergue, nas alturas, os Aros Olímpicos.

Curiosamente, a URSS só teria chance de participar de mais uma olimpíada. Em 1992, ela já estaria extinta.

Princípios e objetivos[editar | editar código-fonte]

Uma grande meta da propaganda totalitária, na qual foi muitas vezes bem-sucedida, era transmitir ao povo a ideia da onipresença do grande líder. Com a onipresença, a onisciência. E, com esta, a onipotência. Ele estaria presente em todos os lugares, desta forma sabendo de tudo. Sabendo tudo que ocorria no país, teria o poder de tomar todas as providências necessárias. Dessa forma, era preciso temê-lo.

De acordo com a Encyclopaedia Britannica (edição brasileira),

O maior teórico do realismo socialista foi o húngaro György Lukács, para quem o realismo não se limita à descrição do que existe, mas se estende à participação ativa do artista na representação das novas formas da realidade. Essa doutrina foi implementada na União Soviética por Andrei Jdanov. Em pintura, destacou-se entre os soviéticos Aleksandr Gherassimov. Os retratos de intrépidos trabalhadores produzidos dentro da linha do realismo socialista, no entanto, deixam transparecer um positivismo heróico, mas a ambição realista perde-se na idealização de uma organização social perfeita. Grande número de artistas soviéticos, partidários de uma sociedade de justiça social mas cerceados em sua liberdade essencial de criar, abandonaram o realismo socialista, deixaram a União Soviética e se integraram aos movimentos artísticos do Ocidente.¹

Influências[editar | editar código-fonte]

Além da União Soviética, o Realismo Socialista também foi adotado e aplicado em outros países sob regimes de inspiração stalinista (comunista ortodoxa), como a República Popular da China, a Coreia do Norte, o Vietnã, o Laos, o Camboja, a Alemanha Oriental e diversos países do Leste Europeu. De todos esses países, o que mais desenvolveu e ainda continua desenvolvendo a estética do realismo socialista foi a Coreia do Norte tanto na propaganda de estado, mas principalmente no urbanismo e na arquitetura.

Na América Latina — principalmente em Cuba, na Nicarágua e em movimentos revolucionários de esquerda —, tentou-se seguir este estilo, ou pelo menos seus princípios, aplicando-os na confecção de produtos de agitprop (muitas vezes clandestinos) ou arte revolucionária, como destacadamente no design de cartazes. Entretanto, a adaptação das ideias ao tipo de estética multicolorida, artesanal e naïf da arte latino-americana resultou em obras que, esteticamente, têm pouco ou nada em comum com o Realismo Socialista original soviético.

Hoje, a estética realista-socialista é reproduzida em produtos de memorabilia ou merchandising nostálgico soviético (e de outros países ex-socialistas), como em broches (bottons), camisetas, bonés, miniaturas e outras mercadorias.

Críticas[editar | editar código-fonte]

De forma geral, o estilo do Realismo Socialista é desprezado pelos artistas das vanguardas ocidentais, como uma orientação doutrinária e artificial da liberdade de criação. Entre eles, notavelmente, estava Pablo Picasso, que, ao mesmo tempo em que bajulava o regime soviético, contribuía em sua produção artística pessoal para o combate à estética stalinista. O holandês Piet Mondrian também escreveu artigos em que atacava o doutrinamento da arte soviética, antes da Segunda Guerra Mundial. Outro ferrenho adversário do Realismo Socialista foi o crítico de arte estadunidense Clement Greenberg.

É fundamental citar, entre os críticos do realismo socialista, o francês André Breton que, juntamente com o revolucionário russo Leon Trotsky, lançou o Manifesto por uma Arte Revolucionária Independente.

Artistas[editar | editar código-fonte]

No primeiro grupo encontramos os artistas que compreenderam as intenções da estética totalitária.

Obras[editar | editar código-fonte]

A cidade de Moscou, capital da Rússia, abriga provavelmente até hoje a maior concentração de obras exemplares do Realismo Socialista. A arquitetura da Universidade de Moscou, a estátua de Félix Dzerjinsky (já derrubada) e o Monumento a Gagárin, entre outros, são ícones deste estilo. A estátua da Mãe Pátria, em Volgogrado, é outro exemplo notável da estética stalinista.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Commons
O Commons possui multimídias sobre Realismo socialista

Referências bibliográficas[editar | editar código-fonte]

  • ARVIDSSON, Claes & BLOMQUIST, Lars Erik (orgs.). Symbols of Power: The Aesthetics of Political Legitimation in the Soviet Union and Eastern Europe. Estocolmo, 1987.
  • BOWLT, John E.. "The Virtues of Soviet Realism" in: Art in America. 60 Nov-Dec 1972 págs.100-107.
  • BOWN, Matthew Cullerne. Art under Stalin. Oxford: 1991.
  • BOWN, Matthew Cullerne. Socialist Realist Painting, New Haven: 1999.
  • BOWN, Matthew Cullerne & ELLIOTT, David (orgs.). Soviet Socialist Realist Painting 1930s-1960s. Oxford: 1992.
  • BOWN, Matthew Cullerne & TAYLOR, Brandon (orgs.). Art of the Soviets - Painting, Sculpture and Architecture in a One-Party State, 1917-1992. Manchester: 1993.
  • BREWSTER, Ben. "The Soviet State, the Communist Party and the Arts: 1917-1936", in: Red Letters, no 3 1976 [SLC].
  • GOLOMSTOCK, Igor. Totalitarian Art in the Soviet Union, the Third Reich, Fascist Italy and the People’s Republic of China. Londres: 1990.
  • GROYS, Boris. Gesamtkunstwerk Stalin, Die gespaltene Kultur in der Sowjetunion. München & Wien, 1988. [The Total Art of Stalinism - Avant-Garde, Aesthetic Dictatorship, and Beyond. Princeton: NJ 1992]
  • GYÖRGY, Peter & TURAI, Hedvig (orgs.). Art and Society in the Age of Stalin. Budapeste: 1992.
  • SALLES, Evandro. Gráfica Utópica: Arte Gráfica Russa 1904-1942. Rio de Janeiro: CCBB, 2002 (catálogo da exposição).
  • SEMENOFF-TIAN-CHANSKY, Irène. Le Pinceau, La Faucille et Le Marteau: les peintres et le pouvoir en Union Soviétique de 1953 à 1989. Paris, 1993.

Notas[editar | editar código-fonte]

¹ Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.[1]