Era Stalin
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A história da União Soviética entre 1927 e 1953, comumente denominada Era Stalin ou Era Stalinista, abrange o período da história soviética compreendido entre o estabelecimento do stalinismo, a vitória na Segunda Guerra Mundial e a morte de Josef Stalin, em 1953. Stalin procurou destruir seus inimigos enquanto transformava a sociedade soviética por meio do planejamento central, particularmente através da coletivização forçada da agricultura e da rápida industrialização pesada. Stalin consolidou seu poder dentro do partido e do Estado e promoveu um amplo culto à personalidade. A polícia secreta soviética e a mobilização em massa do Partido Comunista serviram como os principais instrumentos de Stalin para moldar a sociedade soviética. Os métodos de Stalin para alcançar seus objetivos, que incluíam expurgos partidários, limpezas étnicas, repressão política da população em geral e coletivização forçada, provocaram milhões de mortes: nos campos de trabalho do Gulag[1] e durante a fome.[2][3]
A Segunda Guerra Mundial, conhecida como "a Grande Guerra Patriótica" pelos historiadores soviéticos, devastou grande parte da URSS, e aproximadamente uma em cada três mortes ocorridas na guerra correspondeu a um cidadão soviético. Durante a Segunda Guerra Mundial, os exércitos da União Soviética ocuparam o Leste Europeu, onde estabeleceram ou apoiaram governos fantoches comunistas, formando uma esfera de influência soviética. Em 1949, a Guerra Fria já havia começado entre o Bloco ocidental e o Bloco Oriental soviético, com o Pacto de Varsóvia, criado em 1955, em oposição à OTAN, criada em 1949, na Europa. Depois de 1945, Stalin não participou diretamente de nenhuma guerra e manteve seu governo totalitário até sua morte, em 1953.[4]
Desenvolvimento do Estado soviético
[editar | editar código]Industrialização na prática
[editar | editar código]A mobilização de recursos por meio do planejamento estatal ampliou a base industrial do país. Entre 1928 e 1932, a produção de ferro-gusa, necessária para o desenvolvimento adicional da infraestrutura industrial, aumentou de 3,3 milhões para 6,2 milhões de toneladas por ano. A produção de carvão, um combustível básico das economias modernas e da industrialização stalinista, aumentou de 35,4 milhões para 64 milhões de toneladas, enquanto a produção de minério de ferro cresceu de 5,7 milhões para 19 milhões de toneladas. Vários complexos industriais, como os de Magnitogorsk e Kuznetsk, as fábricas de automóveis de Moscou e Gorky, as fábricas de maquinário pesado dos Montes Urais e de Kramatorsk e as fábricas de tratores de Kharkiv, Stalingrado e Tcheliabinsk, haviam sido construídos ou estavam em construção.[5]
Em termos reais, o padrão de vida dos trabalhadores tendeu a diminuir, em vez de aumentar, durante a industrialização. As leis de Stalin destinadas a "reforçar a disciplina de trabalho" agravaram a situação. Uma alteração de 1932 no código de leis trabalhistas da RSFS da Rússia, por exemplo, permitiu a demissão de trabalhadores que se ausentassem sem justificativa do local de trabalho por apenas um dia. A demissão nessas circunstâncias significava a perda do "direito de utilizar cartões de racionamento e de mercadorias", bem como a "perda do direito de utilizar um apartamento", além da inclusão do trabalhador em uma lista que dificultava uma nova contratação. Em conjunto, essas consequências representavam uma ameaça de morte por inanição.[6] Essas medidas, entretanto, não eram aplicadas integralmente, pois os administradores enfrentavam dificuldades para substituir os trabalhadores. Em contraste, a legislação de 1938, que introduziu as carteiras de trabalho e foi seguida por grandes revisões da legislação trabalhista, foi aplicada. A ausência ou mesmo um atraso de vinte minutos, por exemplo, podia justificar uma demissão; os administradores que deixassem de aplicar essas leis podiam ser processados criminalmente. Posteriormente, o decreto do Presidium do Soviete Supremo de 26 de junho de 1940, "Sobre a transferência para a jornada de trabalho de oito horas, a semana de trabalho de sete dias e a proibição da saída não autorizada de trabalhadores e funcionários das fábricas e escritórios",[7] substituiu as revisões de 1938 por penas criminais obrigatórias para o abandono de um emprego — de dois a quatro meses de prisão — e para atrasos de vinte minutos — seis meses de liberdade condicional e confisco de 25% do salário —, entre outras infrações.
Com base nesses números, o governo soviético declarou que o Plano Quinquenal de Produção Industrial havia sido cumprido em 93,7% em apenas quatro anos, enquanto as partes dedicadas à indústria pesada haviam sido cumpridas em 108%. Em dezembro de 1932, Stalin declarou o plano um sucesso perante o Comitê Central, pois o aumento da produção de carvão e ferro impulsionaria o desenvolvimento futuro.[8]
Durante o Segundo Plano Quinquenal (1933–1937), com base no enorme investimento realizado durante o primeiro plano, a indústria se expandiu com extrema rapidez e quase atingiu as metas estabelecidas. Em 1937, a produção de carvão era de 127 milhões de toneladas, a produção de ferro-gusa chegava a 14,5 milhões de toneladas e a indústria de armamentos havia se desenvolvido muito rapidamente.[9]
Embora tenha produzido um enorme avanço na capacidade industrial, o Primeiro Plano Quinquenal foi extremamente severo para os trabalhadores industriais. As cotas eram difíceis de cumprir, exigindo que os mineiros trabalhassem em jornadas de dezesseis a dezoito horas.[10] O descumprimento das cotas podia resultar em acusações de traição.[11] As condições de trabalho eram precárias e até perigosas. Devido à destinação de recursos para a indústria e à queda da produtividade provocada pela coletivização, ocorreu uma fome. Na construção dos complexos industriais, os detentos dos campos do Gulag eram utilizados como recursos descartáveis. As condições, porém, melhoraram rapidamente durante o segundo plano. Ao longo da década de 1930, a industrialização foi acompanhada por uma rápida expansão da educação técnica e da engenharia, bem como por uma ênfase crescente na produção de munições.[12]
Entre 1922 e 1953, o Estado policial operou com grande intensidade, procurando qualquer pessoa acusada de sabotar o sistema. As estimativas variam consideravelmente. Possivelmente, 3,7 milhões de pessoas foram condenadas por supostos crimes contrarrevolucionários, entre elas 600 mil condenadas à morte, 2,4 milhões enviadas a campos de trabalho e 700 mil condenadas ao exílio. A repressão stalinista atingiu seu auge durante o Grande Expurgo de 1937–1938, que eliminou numerosos administradores e especialistas qualificados e desacelerou consideravelmente a produção industrial em 1937.[13]
Economia
[editar | editar código]Coletivização da agricultura
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Durante a NEP — Nova Política Econômica —, Lenin precisou tolerar a continuidade da agricultura de propriedade privada. Ele decidiu esperar pelo menos vinte anos antes de tentar colocá-la sob o controle do Estado e, enquanto isso, concentrar-se no desenvolvimento industrial. Entretanto, depois da ascensão de Stalin ao poder, o prazo para a coletivização foi reduzido para apenas cinco anos. A demanda por alimentos aumentou, especialmente nas principais regiões produtoras de cereais da URSS, com a aplicação de novos métodos coercitivos. Ao ingressarem nos colcozes — fazendas coletivas —, os camponeses precisavam entregar suas terras e propriedades privadas. A cada colheita, a produção dos colcozes era vendida ao Estado por um preço baixo, determinado pelo próprio Estado. O avanço natural da coletivização, no entanto, era lento, e o plenário de novembro de 1929 do Comitê Central decidiu acelerá-la por meio da força. De qualquer forma, a cultura camponesa russa constituía um baluarte do tradicionalismo que se opunha aos objetivos do Estado soviético.
Diante dos objetivos do Primeiro Plano Quinquenal, o Estado procurou ampliar seu controle político sobre a agricultura para alimentar a população urbana em rápido crescimento e obter uma fonte de divisas estrangeiras por meio do aumento das exportações de cereais. Como havia começado o processo tardiamente, a URSS precisava importar uma quantidade considerável das tecnologias caras necessárias à industrialização pesada.
Em 1936, aproximadamente 90% da agricultura soviética havia sido coletivizada. Em muitos casos, os camponeses se opuseram amargamente ao processo e frequentemente abateram seus animais, em vez de entregá-los às fazendas coletivas, embora o governo desejasse apenas os cereais. Os cúlaques, camponeses considerados prósperos, foram reassentados à força na República Socialista Soviética Cazaque, na Sibéria e no extremo norte da Rússia — uma grande proporção dos cúlaques cumpriu penas em campos de trabalho forçado. Entretanto, praticamente qualquer pessoa que se opusesse à coletivização era classificada como "cúlaque". A política de liquidação dos cúlaques como classe, formulada por Stalin no final de 1929, implicou algumas execuções e um número ainda maior de deportações para assentamentos especiais e, em certos casos, campos de trabalho forçado.[14]
Contrariando as expectativas, a coletivização provocou uma queda catastrófica na produtividade agrícola, que só retornou aos níveis alcançados durante a NEP em 1940. A perturbação associada à coletivização foi particularmente grave na Ucrânia e na Região do Volga, que possuía uma numerosa população ucraniana. Os camponeses abateram seus animais em massa para evitar entregá-los. Somente em 1930, foram mortos 25% dos bovinos, ovinos e caprinos do país, além de um terço de todos os suínos. O número de animais de criação da União Soviética só retornaria aos níveis de 1928 durante a década de 1980. Burocratas governamentais, que haviam recebido uma formação rudimentar sobre técnicas agrícolas, foram enviados ao campo para "ensinar" aos camponeses as novas práticas da agricultura socialista, baseando-se principalmente em ideias teóricas com pouca relação com a realidade. Mesmo depois que o Estado inevitavelmente venceu e conseguiu impor a coletivização, os camponeses fizeram tudo o que podiam para sabotá-la. Cultivaram parcelas muito menores de suas terras e trabalharam consideravelmente menos. A dimensão do Holodomor ucraniano levou muitos estudiosos ucranianos a argumentar que houve uma política deliberada de genocídio contra o povo ucraniano. Outros estudiosos sustentam que o enorme número de mortes foi resultado inevitável de uma operação extremamente mal planejada contra todos os camponeses, que haviam oferecido pouco apoio a Lenin ou Stalin.
Ao final de 1937, quase 99% de todas as terras cultivadas haviam sido incorporadas às fazendas coletivas. O terrível preço pago pelo campesinato ainda não foi determinado com precisão, mas provavelmente até 5 milhões de pessoas morreram em decorrência da perseguição ou da fome durante esses anos. Ucranianos e cazaques sofreram mais do que a maioria dos povos.
— Robert Service, Comrades! A History of World Communism (2007) p. 145

Somente na Ucrânia, estima-se atualmente que 3,5 milhões de pessoas tenham morrido nas fomes.[15][16]
A URSS assumiu o controle da Estônia, da Letônia e da Lituânia em 1940, perdeu esses territórios para a Alemanha em 1941 e os recuperou em 1944. A coletivização de suas fazendas começou em 1948. Por meio do terror, de assassinatos em massa e de deportações, a maior parte do campesinato foi coletivizada até 1952. A produção agrícola caiu drasticamente em todas as demais repúblicas soviéticas.[17]
Industrialização acelerada
[editar | editar código]Durante o período de rápida industrialização e coletivização em massa que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, os índices de emprego soviéticos cresceram exponencialmente. Esperava-se que 3,9 milhões de empregos fossem criados por ano até 1923, mas o número chegou a surpreendentes 6,4 milhões. Em 1937, aumentou novamente para aproximadamente 7,9 milhões. Por fim, em 1940, alcançou 8,3 milhões. Entre 1926 e 1930, a população urbana aumentou em 30 milhões de pessoas. O desemprego havia sido um problema no final do Império Russo e até mesmo durante a NEP, mas deixou de constituir um fator importante depois da implementação do amplo programa de industrialização de Stalin. A intensa mobilização de recursos destinada a industrializar uma sociedade até então agrária criou uma enorme necessidade de mão de obra; o desemprego praticamente caiu a zero. A determinação dos salários pelos planejadores soviéticos também contribuiu para a forte redução do desemprego, enquanto os salários reais caíram 50% entre 1928 e 1940. Com os salários artificialmente reduzidos, o Estado podia empregar muito mais trabalhadores do que seria financeiramente viável em uma economia de mercado. Foram iniciados vários projetos ambiciosos de extração destinados a fornecer matérias-primas tanto para equipamentos militares quanto para bens de consumo.
As fábricas de automóveis de Moscou e Gorky produziam automóveis para a população, apesar de poucos cidadãos soviéticos conseguirem comprar um carro, e a expansão da produção de aço e de outros materiais industriais tornou possível a fabricação de um número maior de veículos. A produção de automóveis e caminhões, por exemplo, atingiu 200 mil unidades em 1931.[18]
Um salário mínimo de 110 a 115 rublos foi estabelecido em 1937; um milhão de trabalhadores recebeu permissão para cultivar hortas em terrenos particulares. Ainda assim, a maioria dos trabalhadores soviéticos vivia em moradias comunitárias e dormitórios superlotados e sofria com a pobreza extrema.[19]
Sociedade
[editar | editar código]Propaganda
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A maioria dos principais dirigentes comunistas das décadas de 1920 e 1930 havia trabalhado como propagandista ou editor antes de 1917 e estava plenamente consciente da importância da propaganda. Assim que assumiram o poder, em 1917, os bolcheviques monopolizaram todos os meios de comunicação e ampliaram consideravelmente seu aparato de propaganda por meio de jornais, revistas e panfletos. O rádio se tornou uma ferramenta poderosa durante a década de 1930.[20] Stalin, por exemplo, havia sido editor do Pravda. Além dos jornais nacionais Pravda e Izvestia, havia numerosas publicações regionais, bem como jornais e revistas em todas as línguas importantes. A uniformidade absoluta de opiniões era a norma durante a era soviética. As máquinas de escrever e as prensas tipográficas foram rigorosamente controladas até o final da década de 1980 para impedir publicações não autorizadas. A circulação ilegal de obras subversivas de ficção e não ficção por meio do samizdat era brutalmente reprimida. As raras exceções à uniformidade total na imprensa oficial indicavam conflitos nos escalões superiores. O projeto da Constituição soviética de 1936 foi um exemplo. O Pravda e o Trud, jornal destinado aos trabalhadores braçais, elogiaram o projeto constitucional. O Izvestia, entretanto, era controlado por Nikolai Bukharin e publicou cartas e reportagens negativas. Bukharin prevaleceu, e a linha partidária foi modificada, passando a atacar opositores "trotskistas" e traidores. O sucesso de Bukharin durou pouco: ele foi preso em 1937, submetido a um julgamento-espetáculo e executado.[21]
Educação
[editar | editar código]Os trabalhadores industriais precisavam ser instruídos para que fossem competitivos; por isso, foi iniciado, paralelamente à industrialização, um programa destinado a ampliar consideravelmente o número de escolas e a qualidade geral da educação. Em 1927, 7,9 milhões de estudantes frequentavam 118.558 escolas. Em 1933, o número havia aumentado para 9,7 milhões de estudantes em 166.275 escolas. Além disso, novecentos departamentos especializados e 566 instituições foram construídos e estavam em pleno funcionamento em 1933. Como consequência, os índices de alfabetização aumentaram consideravelmente, especialmente nas repúblicas da Ásia Central soviética.[22][23]
Mulheres
[editar | editar código]A população soviética também se beneficiou de uma forma de liberalização social. As mulheres deveriam receber a mesma educação que os homens e, pelo menos juridicamente, obtiveram os mesmos direitos que eles no local de trabalho. Embora esses objetivos não tenham sido alcançados na prática, os esforços para atingi-los e a afirmação da igualdade teórica provocaram uma melhoria geral na condição socioeconômica das mulheres.
As mulheres foram recrutadas em grande número como funcionárias das lojas de departamento em expansão. Isso provocou uma "feminização" desses estabelecimentos, pois a proporção de vendedoras aumentou de 45% do total de funcionários de vendas, em 1935, para 62%, em 1938.[24] Esse fenômeno decorreu parcialmente de uma campanha de propaganda iniciada em 1931 que associava a feminilidade à "cultura" e afirmava que a nova mulher soviética também era uma mulher trabalhadora.[24] Além disso, os funcionários das lojas de departamento possuíam baixo prestígio na União Soviética, e muitos homens não desejavam trabalhar como vendedores. Consequentemente, esses empregos passaram a ser ocupados por mulheres da classe trabalhadora com pouca instrução e por mulheres recém-chegadas às cidades provenientes do campo.[24]
Entretanto, as autoridades revogaram diversos direitos durante esse período. O aborto, por exemplo, que havia sido legalizado antes da chegada de Stalin ao poder, foi proibido em 1936,[25] depois de um debate controverso entre os cidadãos.[26] As questões relacionadas às mulheres também foram amplamente ignoradas pelo governo.[27]
Saúde
[editar | editar código]O desenvolvimento stalinista também contribuiu para avanços na assistência médica, que representaram uma enorme melhoria em relação à era imperial. As políticas de Stalin concederam à população soviética acesso à assistência médica gratuita e ao ensino gratuito. Programas de vacinação em larga escala criaram a primeira geração livre do medo do tifo e da cólera. A incidência dessas doenças caiu para níveis mínimos históricos, e os índices de mortalidade infantil foram consideravelmente reduzidos, fazendo com que a expectativa de vida de homens e mulheres aumentasse em mais de vinte anos até meados ou o final da década de 1950.[28]
Juventude
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O Komsomol, ou Liga da Juventude Comunista, era uma organização juvenil inteiramente nova, concebida por Lenin, que se tornou uma entusiasmada força de mobilização responsável pela organização do comunismo em toda a União Soviética e frequentemente convocada para combater os inimigos tradicionais.[29] O Komsomol desempenhava uma função importante como mecanismo de ensino dos valores do Partido às gerações mais jovens. Também servia como uma reserva móvel de mão de obra e ativismo político, com capacidade de se deslocar em pouco tempo para regiões consideradas prioritárias. Durante a década de 1920, o Kremlin atribuiu ao Komsomol grandes responsabilidades pela promoção da industrialização nas fábricas. Em 1929, 7 mil integrantes do Komsomol construíam a fábrica de tratores de Stalingrado, outros 56 mil construíam fábricas nos Urais e 36 mil haviam sido designados para trabalhar no subsolo das minas de carvão. O objetivo era criar um núcleo enérgico de ativistas bolcheviques que influenciasse seus colegas nas fábricas e nas minas, locais que ocupavam uma posição central na ideologia comunista.[30][31]
Em 1935, o Komsomol adotou políticas meritocráticas de admissão, supostamente indiferentes à classe social. O resultado, entretanto, foi uma redução do número de integrantes oriundos da classe trabalhadora e o predomínio dos jovens mais instruídos. Surgiu uma nova hierarquia social à medida que jovens profissionais e estudantes ingressavam na elite soviética, substituindo os proletários. As políticas de admissão do Komsomol durante a década de 1930 refletiam a natureza mais ampla do stalinismo, combinando a retórica leninista do progresso sem classes com o pragmatismo stalinista, concentrado em recrutar os integrantes mais entusiasmados e qualificados.[32] Sob Stalin, a pena de morte também foi estendida, em 1935, a adolescentes de apenas doze anos.[33][34][35]
Modernidade
[editar | editar código]Em um processo semelhante à modernização dos países ocidentais, as mulheres urbanas durante o governo de Stalin também constituíram a primeira geração de mulheres que pôde dar à luz em hospitais com acesso à assistência pré-natal. A educação foi outra área em que ocorreram melhorias depois do desenvolvimento econômico, também de maneira semelhante à observada em outros países ocidentais. A geração nascida durante o governo de Stalin foi a primeira geração quase universalmente alfabetizada. Alguns engenheiros foram enviados ao exterior para aprender tecnologias industriais, enquanto centenas de engenheiros estrangeiros foram contratados para trabalhar na Rússia. As ligações de transporte também foram melhoradas, com a construção de numerosas ferrovias novas, embora isso tenha sido realizado com trabalho forçado e tenha custado milhares de vidas. Os trabalhadores que superavam suas cotas, os chamados stakhanovistas, recebiam diversos incentivos. Muitos desses trabalhadores, porém, eram deliberadamente preparados para alcançar o sucesso por meio da concessão de ajuda excepcional durante seu trabalho, e suas realizações eram posteriormente utilizadas como propaganda.[36]
Religião
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Os ataques sistemáticos à Igreja Ortodoxa Russa começaram assim que os bolcheviques assumiram o poder, em 1917. Durante a década de 1930, Stalin intensificou sua guerra contra a religião organizada.[37] Quase todas as igrejas e todos os mosteiros foram fechados, e dezenas de milhares de membros do clero foram presos ou executados. Estima-se que entre 5 mil e 10 mil clérigos ortodoxos tenham morrido em execuções ou na prisão entre 1918 e 1929, além de outros 45 mil entre 1930 e 1939.[38] Monges, freiras e outros funcionários religiosos representaram aproximadamente mais 40 mil mortos.[38]
A máquina de propaganda estatal promoveu vigorosamente o ateísmo e denunciou a religião como um produto da sociedade capitalista. Em 1937, o Papa Pio XI condenou os ataques à religião na União Soviética. Em 1940, apenas um pequeno número de igrejas permanecia aberto. As primeiras campanhas antirreligiosas realizadas sob Lenin eram dirigidas principalmente contra a Igreja Ortodoxa Russa, pois ela simbolizava o governo czarista. Durante a década de 1930, entretanto, todas as religiões foram atacadas: denominações cristãs minoritárias, o Islamismo, o Judaísmo e o Budismo. Durante a Segunda Guerra Mundial, as autoridades estatais reduziram a pressão sobre a religião na Rússia e interromperam a perseguição à Igreja. A Igreja Ortodoxa pôde, portanto, ajudar o Exército soviético a defender a Rússia.[39] As religiões das antigas repúblicas soviéticas renasceram e voltaram a florescer depois da dissolução da União Soviética, durante a década de 1990. Como explica Paul Froese:
- Os ateus travaram uma guerra de setenta anos contra a crença religiosa na União Soviética. O Partido Comunista destruiu igrejas, mesquitas e templos; executou dirigentes religiosos; inundou as escolas e os meios de comunicação com propaganda antirreligiosa; e introduziu um sistema de crenças chamado "ateísmo científico", com rituais ateus, proselitistas e uma promessa de salvação terrena. No final, porém, a maioria dos cidadãos soviéticos mais velhos manteve suas crenças religiosas, e uma geração de cidadãos jovem demais para ter vivido no período anterior à União Soviética adquiriu crenças religiosas.[40]
De acordo com estatísticas oficiais de 2012, quase 15% dos russos étnicos se identificavam como ateus e quase 27% afirmavam não possuir filiação religiosa.[41]
Políticas étnicas
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As autoridades da União Soviética promoveram sistematicamente a consciência nacional dos povos indígenas e estabeleceram para eles formas institucionais características de uma nação moderna.[42] Na Ásia Central, a libertação das mulheres foi abordada de maneira tão revolucionária quanto o ataque à religião. Em 1927, começou a campanha contra a paranja, ou véu, conhecida como "Hujum" — "assalto". A campanha, entretanto, provocou uma enorme reação contrária, e a paranja só desapareceu durante a década de 1950.[43][44]
Em 1937, como parte do Grande Expurgo, foram realizadas "operações nacionais" repressivas. Os integrantes das minorias consideradas "ocidentais" tornaram-se alvos por causa de suas possíveis ligações com países hostis à URSS e do temor de que demonstrassem deslealdade no caso de uma invasão.[42]
Grande Expurgo
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À medida que esse processo se desenvolvia, Stalin consolidou um poder quase absoluto ao destruir a oposição em potencial. Entre 1936 e 1938, aproximadamente 750 mil cidadãos soviéticos foram executados, e mais de um milhão de outros foram condenados a longas penas em campos de trabalho sob condições severas. O Grande Terror de Stalin devastou as fileiras de diretores de fábricas e engenheiros e eliminou a maior parte dos oficiais superiores do Exército.[45] O pretexto foi o assassinato de Serguei Kirov, em 1934, que muitos suspeitam ter sido planejado por Stalin, embora não existam provas disso.[46] Quase todos os antigos bolcheviques do período anterior a 1918 foram expurgados. Trótski foi expulso do partido em 1927, exilado para o Cazaquistão em 1928, expulso da União Soviética em 1929 e assassinado em 1940. Stalin utilizou os expurgos para destruir política e fisicamente seus outros rivais formais — e antigos aliados —, acusando Grigori Zinoviev e Lev Kamenev de estarem por trás do assassinato de Kirov e de planejarem derrubá-lo. Por fim, as pessoas detidas eram torturadas e obrigadas a confessar que eram espiãs e sabotadoras, sendo rapidamente condenadas e executadas.[47]
Diversos julgamentos públicos foram realizados em Moscou para servirem de modelo aos julgamentos que os tribunais locais deveriam conduzir em outras partes do país. Houve quatro julgamentos principais entre 1936 e 1938: o primeiro foi o Julgamento dos Dezesseis, em dezembro de 1936; em seguida, ocorreu o Julgamento dos Dezessete, em janeiro de 1937; depois, o julgamento de generais do Exército Vermelho, incluindo o marechal Mikhail Tukhatchevski, em junho de 1937; e, finalmente, o Julgamento dos Vinte e Um, que incluía Nikolai Bukharin, em março de 1938. Durante esses julgamentos, os réus normalmente confessavam a prática de sabotagem, espionagem e contrarrevolução, além de conspirações com a Alemanha e o Japão para invadir e dividir a União Soviética. Os julgamentos iniciais de 1935 e 1936 foram conduzidos pelo OGPU, sob a direção de Guenrikh Iagoda. Posteriormente, os próprios responsáveis pelas acusações foram julgados e executados. A polícia secreta foi renomeada como NKVD, e seu controle foi entregue a Nikolai Yezhov, conhecido como o "Anão Sangrento".[48]
O "Grande Expurgo" atravessou a União Soviética em 1937. O período era amplamente conhecido como "Yezhovschina", ou "Reinado de Yezhov". O ritmo das prisões foi assombroso. Somente nas Forças Armadas, 34 mil oficiais foram expurgados, incluindo muitos dos que ocupavam as patentes mais elevadas.[49] Todo o Politburo e a maior parte do Comitê Central foram expurgados, juntamente com comunistas estrangeiros que viviam na União Soviética e numerosos intelectuais, burocratas e administradores de fábricas. O número total de pessoas encarceradas ou executadas durante a Yezhovschina foi de aproximadamente dois milhões.[50] Em 1938, os expurgos em massa começaram a prejudicar a infraestrutura do país, e Stalin passou a reduzi-los. Yezhov foi gradualmente afastado do poder. Em 1939, perdeu todas as suas atribuições e, posteriormente, foi julgado e executado em 1940. Seu sucessor na chefia da NKVD, entre 1938 e 1945, foi Lavrenti Beria, um georgiano próximo de Stalin. As prisões e execuções continuaram até 1952, embora nunca mais tenha ocorrido algo na mesma escala da Yezhovschina.
Durante esse período, tornaram-se comuns as prisões em massa, a tortura e o encarceramento ou a execução sem julgamento de qualquer pessoa que a polícia secreta suspeitasse de se opor ao regime de Stalin. Segundo os próprios números da NKVD, 681.692 pessoas foram fuziladas somente entre 1937 e 1938, e centenas de milhares de presos políticos foram transportados para os campos de trabalho do Gulag.[51]
O terror em massa e os expurgos eram pouco conhecidos no exterior, e alguns intelectuais ocidentais e simpatizantes continuaram acreditando que os soviéticos haviam criado uma alternativa bem-sucedida ao mundo capitalista. Em 1936, o país adotou sua primeira constituição formal, que concedia liberdade de expressão, religião e reunião apenas no papel. Os estudiosos estimam que o número total de mortos no Grande Expurgo, entre 1936 e 1938, incluindo as mortes atribuídas às condições carcerárias, tenha sido de aproximadamente 700 mil a 1,2 milhão.[52][53][54][55][56]
Em março de 1939, foi realizado em Moscou o 18º Congresso do Partido Comunista. A maioria dos delegados presentes no 17º Congresso, em 1934, já havia desaparecido. Stalin foi intensamente elogiado por Litvinov, enquanto as democracias ocidentais foram criticadas por não adotarem os princípios da "segurança coletiva" contra a Alemanha Nazista.
Interpretações dos expurgos
[editar | editar código]Duas grandes linhas de interpretação surgiram entre os historiadores. Uma delas sustenta que os expurgos refletiam as ambições de Stalin, sua paranoia e seu impulso interior para ampliar o próprio poder e eliminar possíveis rivais. Os historiadores revisionistas explicam os expurgos por meio da teoria de que facções rivais exploraram a paranoia de Stalin e utilizaram o terror para fortalecer suas próprias posições. Peter Whitewood examina o primeiro expurgo, dirigido contra o Exército, e apresenta uma terceira interpretação: Stalin e os demais dirigentes superiores, por presumirem que estavam sempre cercados de inimigos, preocupavam-se constantemente com a vulnerabilidade e a lealdade do Exército Vermelho. Não se tratava de um pretexto: Stalin realmente acreditava nisso. "Stalin atacou o Exército Vermelho porque interpretou de maneira gravemente equivocada uma séria ameaça à segurança"; assim, "Stalin parece ter acreditado genuinamente que inimigos apoiados por potências estrangeiras haviam se infiltrado nas fileiras e conseguido organizar uma conspiração no próprio centro do Exército Vermelho". O expurgo atingiu profundamente as Forças Armadas entre junho de 1937 e novembro de 1938, eliminando 35 mil pessoas, muitas das quais foram executadas. A experiência adquirida na realização do expurgo facilitou a purgação de outros elementos fundamentais da estrutura política soviética.[57][58] Os historiadores frequentemente apontam os transtornos causados pelos expurgos como um dos fatores responsáveis pelo desempenho militar desastroso da União Soviética durante a invasão alemã.[59]
Relações exteriores, 1927–1939
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O governo soviético havia confiscado empresas privadas pertencentes a estrangeiros durante a criação da República Socialista Federativa Soviética da Rússia e da União Soviética. Os investidores estrangeiros não receberam nenhuma compensação monetária ou material. A União Soviética também se recusou a pagar as dívidas da era czarista aos credores estrangeiros. O jovem Estado soviético era considerado um pária em razão de seu objetivo declarado de apoiar a derrubada dos governos capitalistas. Ele patrocinou revoltas de trabalhadores destinadas a derrubar diversos Estados capitalistas europeus, mas todas fracassaram. Lenin reverteu os experimentos radicais e restaurou uma forma de capitalismo por meio da NEP. A Comintern recebeu ordens para interromper a organização de revoltas. A partir de 1921, Lenin passou a buscar comércio, empréstimos e reconhecimento internacional. Um após outro, os Estados estrangeiros reabriram relações comerciais e reconheceram o governo soviético. Os Estados Unidos foram a última grande potência a reconhecer a União Soviética, em 1933. Em 1934, o governo francês propôs uma aliança e liderou trinta governos no convite para que a União Soviética ingressasse na Sociedade das Nações. A União Soviética havia alcançado legitimidade internacional, mas foi expulsa em dezembro de 1939 por sua agressão contra a Finlândia.[60][61]
Em 1928, Stalin promoveu uma política de esquerda baseada em sua crença de que uma grande crise do capitalismo era iminente. Diversos partidos comunistas europeus receberam ordens para não formar coalizões e, em vez disso, denunciar os socialistas moderados como socialfascistas. Militantes foram enviados aos sindicatos para retirar o controle dos socialistas — medida que os sindicatos britânicos nunca perdoaram. Em 1930, os stalinistas começaram a sugerir o valor de alianças com outros partidos e, em 1934, surgiu a ideia da formação de uma frente popular. O agente da Comintern Willi Münzenberg foi particularmente eficaz na mobilização de intelectuais e grupos pacifistas e contrários à guerra para que aderissem à coalizão antinazista.[62] Os comunistas formariam coalizões com qualquer partido para combater o fascismo. Para os stalinistas, a Frente Popular era apenas um recurso conveniente; para os direitistas, entretanto, representava a forma desejável de transição para o socialismo.[63]
As relações franco-soviéticas eram inicialmente hostis porque a União Soviética se opunha oficialmente ao acordo de paz de 1919 que encerrou a Primeira Guerra Mundial e que era vigorosamente defendido pela França. Enquanto a União Soviética estava interessada em conquistar territórios no Leste Europeu, a França estava determinada a proteger os novos Estados da região. A política externa de Adolf Hitler, entretanto, concentrava-se na conquista em massa de territórios da Europa Central, do Leste Europeu e da Rússia para atender aos interesses alemães. Quando Hitler abandonou a Conferência para o Desarmamento em Genebra, em 1933, a ameaça tornou-se evidente. O ministro das Relações Exteriores soviético, Maxim Litvinov, reverteu a política soviética em relação aos acordos de paz de Paris, provocando uma aproximação franco-soviética. Em maio de 1935, a União Soviética concluiu pactos de assistência mútua com a França e a Tchecoslováquia. Stalin ordenou que a Comintern formasse uma frente popular com partidos de esquerda e de centro contra as forças do fascismo. O pacto, contudo, foi enfraquecido pela forte hostilidade ideológica contra a União Soviética e a nova frente da Comintern na França, pela recusa da Polônia em permitir que o Exército Vermelho atravessasse seu território, pela estratégia militar defensiva francesa e pelo contínuo interesse soviético em restabelecer as relações com a Alemanha Nazista.
A União Soviética forneceu auxílio militar à facção republicana da Segunda República Espanhola durante a Guerra Civil Espanhola, incluindo munições e soldados, e ajudou militantes da extrema esquerda a viajarem à Espanha como voluntários. O governo espanhol entregou o tesouro estatal à União Soviética. Unidades soviéticas eliminaram sistematicamente apoiadores anarquistas do governo espanhol. O apoio de Moscou ao governo conferiu aos republicanos uma imagem comunista aos olhos dos antibolcheviques na Grã-Bretanha e na França, enfraquecendo os apelos por uma intervenção anglo-francesa na guerra.[64]
A Alemanha Nazista promulgou o Pacto Anticomintern com o Japão Imperial e a Itália Fascista, além de diversos Estados da Europa Central e do Leste Europeu, como a Hungria, ostensivamente para reprimir as atividades comunistas, mas, na realidade, para formar uma aliança contra a União Soviética.[65]
Segunda Guerra Mundial
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Stalin articulou o Pacto Molotov-Ribbentrop, um pacto de não agressão com a Alemanha Nazista, em 23 de agosto, juntamente com o Acordo Comercial Germano-Soviético, destinado a estabelecer relações econômicas. Um anexo secreto ao pacto atribuiu a Polônia Oriental, a Letônia, a Estônia, a Bessarábia e a Finlândia à União Soviética, enquanto a Polônia Ocidental e a Lituânia foram atribuídas à Alemanha Nazista. Isso refletia o desejo soviético de obter ganhos territoriais.
Depois do pacto com Hitler, Stalin anexou, entre 1939 e 1940, metade da Polônia, os três países bálticos, a Bucovina do Norte e a Bessarábia, pertencentes à Romênia. Segundo Louis Fischer, esses territórios deixaram de funcionar como zonas-tampão que separavam a União Soviética das áreas alemãs. Em vez disso, facilitaram o rápido avanço de Hitler até os portões de Moscou.[66]
A propaganda também era considerada um importante instrumento das relações exteriores. Exposições internacionais, a distribuição de meios de comunicação, como filmes — por exemplo, Alexander Nevsky —, e convites para que personalidades estrangeiras proeminentes visitassem a União Soviética eram utilizados como métodos para ampliar a influência internacional e incentivar simpatizantes e pacifistas a formarem frentes populares.[67]
Início da Segunda Guerra Mundial
[editar | editar código]A Alemanha invadiu a Polônia em 1º de setembro; a União Soviética fez o mesmo em 17 de setembro. Os soviéticos reprimiram a oposição por meio da execução e da prisão de milhares de pessoas. Entre 1939 e 1941, deportaram para a Sibéria, em quatro ondas, grupos étnicos considerados suspeitos. As estimativas variam, e algumas ultrapassam 1,5 milhão de pessoas.[68]
Após a divisão da Polônia com a Alemanha, Stalin apresentou exigências territoriais à Finlândia, alegando necessidades de segurança relacionadas à proteção de Leningrado. Depois que os finlandeses rejeitaram as exigências, os soviéticos invadiram a Finlândia em 30 de novembro de 1939, dando início à Guerra de Inverno, com o objetivo de anexar o país à União Soviética.[69] Embora superasse numericamente as forças finlandesas em mais de 2,5 para 1, a guerra mostrou-se constrangedoramente difícil para o Exército Vermelho, que não estava equipado para enfrentar o inverno e carecia de comandantes competentes desde o expurgo do alto-comando soviético. Os finlandeses resistiram intensamente e receberam algum apoio e uma considerável demonstração de solidariedade dos Aliados. Em 29 de janeiro de 1940, os soviéticos extinguiram seu governo fantoche, a República Democrática da Finlândia, que pretendiam instalar em Helsinque, e informaram ao governo finlandês que a União Soviética estava disposta a negociar a paz.[70] O Tratado de Paz de Moscou foi assinado em 12 de março de 1940, e a guerra terminou no dia seguinte. Nos termos do tratado, a Finlândia cedeu o Istmo da Carélia e alguns territórios menores.[71] Londres, Washington e, sobretudo, Berlim concluíram que o fraco desempenho do Exército soviético demonstrava que ele era incapaz de defender a União Soviética de uma invasão alemã.[72][73]
Em 1940, a União Soviética ocupou e anexou ilegalmente a Lituânia, a Letônia e a Estônia. Em 14 de junho de 1941, a União Soviética realizou as primeiras deportações em massa da Lituânia, da Letônia e da Estônia.
Em 26 de junho de 1940, o governo soviético enviou um ultimato ao ministro romeno em Moscou, exigindo que o Reino da Romênia cedesse imediatamente a Bessarábia e a Bucovina do Norte. A Itália e a Alemanha, que necessitavam de uma Romênia estável e de acesso aos campos petrolíferos do país, pressionaram o rei Carlos II a aceitar as exigências. Sob coação e sem perspectiva de receber auxílio da França ou do Reino Unido, Carlos cedeu. Em 28 de junho, as tropas soviéticas atravessaram o Dniestre e ocuparam a Bessarábia, a Bucovina do Norte e a região de Herța.[74]
Grande Guerra Patriótica
[editar | editar código]Em 22 de junho de 1941, Adolf Hitler rompeu abruptamente o pacto de não agressão e, por meio da Operação Barbarossa, invadiu a União Soviética. Stalin não havia feito preparativos. A inteligência soviética foi enganada pela desinformação alemã, e a invasão surpreendeu as forças militares soviéticas despreparadas. Em termos mais amplos, Stalin esperava uma invasão, mas não que ela ocorresse tão cedo.[75] O Exército havia sido devastado pelos expurgos e precisava de tempo para recuperar sua competência. Por essa razão, não houve mobilização, e o Exército soviético encontrava-se taticamente despreparado no momento da invasão. As primeiras semanas da guerra foram desastrosas, com centenas de milhares de homens mortos, feridos ou capturados. Divisões inteiras se desintegraram diante do ataque alemão. Os prisioneiros de guerra soviéticos mantidos nos campos alemães foram submetidos a condições extremamente severas, e apenas um décimo deles sobreviveu. Em comparação, um terço dos prisioneiros de guerra alemães sobreviveu aos campos soviéticos.[76][77][78][79][80][81]
As tropas alemãs chegaram aos arredores de Moscou em dezembro de 1941, mas não conseguiram capturar a cidade devido à firme defesa e aos contra-ataques soviéticos. Na Batalha de Stalingrado, entre 1942 e 1943, o Exército Vermelho impôs uma derrota esmagadora ao Exército alemão. Devido à relutância do Japão em abrir uma segunda frente na Manchúria, os soviéticos puderam transferir dezenas de divisões do Exército Vermelho do leste da Rússia. Essas unidades foram fundamentais para mudar o curso da guerra, pois a maior parte de seu corpo de oficiais havia escapado dos expurgos de Stalin. As forças soviéticas logo iniciaram grandes contra-ataques ao longo de toda a linha alemã. Em 1944, os alemães haviam sido expulsos da União Soviética até as margens do rio Vístula, imediatamente a leste da Prússia. Com o marechal soviético Gueorgui Júkov atacando a partir da Prússia e o marechal Ivan Konev dividindo a Alemanha pelo sul, o destino da Alemanha Nazista estava selado. Em 2 de maio de 1945, as últimas tropas alemãs em Berlim se renderam às forças soviéticas.

Desenvolvimentos durante a guerra
[editar | editar código]Do final de 1944 até 1949, grandes áreas do leste da Alemanha permaneceram sob ocupação da União Soviética. Em 2 de maio de 1945, Berlim foi tomada, enquanto mais de quinze milhões de alemães foram removidos do leste da Alemanha — posteriormente denominado Territórios Recuperados da República Popular da Polônia — e transferidos para a Alemanha central, posteriormente chamada de República Democrática Alemã, e para a Alemanha ocidental, posteriormente chamada de República Federal da Alemanha.
Uma atmosfera de emergência patriótica tomou conta da União Soviética durante a guerra, e a perseguição à Igreja Ortodoxa Russa foi interrompida. A Igreja passou a ter permissão para atuar com um grau considerável de liberdade, desde que não se envolvesse na política. Em 1944, foi composto um novo hino nacional soviético, que substituiu A Internacional, utilizada como hino nacional desde 1918. Essas mudanças foram realizadas porque se acreditava que a população reagiria melhor a uma luta por seu país do que por uma ideologia política.
A União Soviética suportou a maior parte do impacto da Segunda Guerra Mundial, pois os países ocidentais não abriram uma segunda frente terrestre na Europa até a invasão da Itália e a Batalha da Normandia. Aproximadamente 26,6 milhões de soviéticos, entre eles 18 milhões de civis, foram mortos durante a guerra. Em muitas cidades conquistadas pelos nazistas, os civis foram reunidos à força e queimados ou fuzilados. O Exército soviético em retirada recebeu ordens para adotar uma política de "terra arrasada", pela qual as tropas deveriam destruir a infraestrutura civil e os suprimentos de alimentos para impedir que fossem utilizados pelas forças da Alemanha Nazista.
A declaração original de Stalin, feita em março de 1946, de que sete milhões de pessoas haviam morrido na guerra foi revisada em 1956 por Nikita Khrushchov para o número arredondado de vinte milhões. No final da década de 1980, demógrafos do Comitê Estatal de Estatística — Goskomstat — reexaminaram os dados por meio de métodos demográficos e chegaram a uma estimativa de 26 a 27 milhões. Diversas outras estimativas também foram apresentadas.[82] Nas estimativas mais detalhadas, aproximadamente dois terços das mortes foram de civis. Entretanto, a distribuição das perdas da guerra por nacionalidade é menos conhecida. Um estudo baseado em evidências indiretas do censo populacional de 1959 concluiu que, embora os principais grupos eslavos tenham sofrido as maiores perdas humanas em números absolutos, as maiores perdas proporcionais à população foram registradas entre nacionalidades minoritárias, principalmente da Rússia europeia. Homens desses grupos foram mobilizados para a frente de batalha em "batalhões de nacionalidade" e aparentemente sofreram perdas desproporcionais.[83]
Após a guerra, a União Soviética ocupou e dominou o Leste Europeu, estabelecendo uma esfera de influência soviética em conformidade com a ideologia soviética.
Stalin estava determinado a punir os povos que considerava terem colaborado com a Alemanha durante a guerra e a enfrentar o problema do nacionalismo, que poderia provocar a desintegração da União Soviética. Milhões de poloneses, letões, georgianos, ucranianos e integrantes de outras minorias étnicas foram deportados para campos do Gulag na Sibéria. Anteriormente, após a anexação da Polônia Oriental em 1939, milhares de oficiais do Exército polonês, incluindo reservistas, haviam sido executados na primavera de 1940, no episódio que ficou conhecido como Massacre de Katyn. Além disso, em 1941, 1943 e 1944, nacionalidades inteiras foram deportadas para a Sibéria, o Cazaquistão e a Ásia Central, entre elas os Alemães do Volga, os Chechenos, os Inguxes, os Balcares, os Tártaros da Crimeia e os Turcos mesquécios. Embora esses grupos tenham sido posteriormente "reabilitados" politicamente, alguns nunca recuperaram suas antigas regiões autônomas.[84][85][86][87]

Ao mesmo tempo, em um famoso brinde do Dia da Vitória, realizado em maio de 1945, Stalin exaltou o papel do povo russo na derrota dos fascistas.
Gostaria de erguer um brinde à saúde de nosso povo soviético e, acima de tudo, do povo russo. Bebo, acima de tudo, à saúde do povo russo, porque, nesta guerra, ele conquistou o reconhecimento geral como a principal força da União Soviética entre todas as nacionalidades de nosso país... E essa confiança do povo russo no governo soviético foi a força decisiva que garantiu a vitória histórica sobre o inimigo da humanidade — sobre o fascismo...[88]
A Segunda Guerra Mundial provocou uma enorme destruição da infraestrutura e das populações em toda a Eurásia, do oceano Atlântico ao oceano Pacífico, e quase nenhum país permaneceu incólume. A União Soviética foi especialmente devastada devido à destruição em massa da base industrial que havia construído durante a década de 1930. O país também enfrentou uma grande fome entre 1946 e 1948, causada pela devastação da guerra, que provocou entre 1 e 1,5 milhão de mortes, além de perdas populacionais secundárias decorrentes da redução da fertilidade.[a] Entretanto, a União Soviética recuperou sua capacidade produtiva, superou os níveis anteriores à guerra e, ao final do conflito, tornou-se o país com o mais poderoso Exército terrestre da história e com a maior capacidade de produção militar.
Guerra e desenvolvimento industrial-militar stalinista
[editar | editar código]Embora a União Soviética tenha recebido auxílio e armamentos dos Estados Unidos por meio do programa Lend-Lease, a produção soviética de materiais de guerra foi superior à da Alemanha Nazista devido ao rápido crescimento da produção industrial soviética durante o período entre as guerras. Os suprimentos adicionais fornecidos pelo Lend-Lease corresponderam a aproximadamente 10% a 12% da produção industrial da própria União Soviética. O Segundo Plano Quinquenal elevou a produção de aço para 18 milhões de toneladas e a de carvão para 128 milhões de toneladas. Antes de ser interrompido, o Terceiro Plano Quinquenal produziu pelo menos 19 milhões de toneladas de aço e 150 milhões de toneladas de carvão.[90]
A produção industrial da União Soviética sustentou uma indústria de armamentos que abasteceu o Exército e o ajudou a resistir à ofensiva militar nazista. Segundo Robert L. Hutchings, "dificilmente se pode duvidar de que, caso a industrialização tivesse avançado mais lentamente, o ataque teria sido bem-sucedido e a história mundial teria se desenvolvido de maneira bastante diferente".[91] Para os trabalhadores envolvidos na indústria, entretanto, a vida era difícil. Eles eram incentivados a cumprir e superar as cotas por meio da propaganda, como a relacionada ao movimento stakhanovista.
Alguns historiadores, porém, interpretam a falta de preparação da União Soviética para se defender como uma falha no planejamento econômico de Stalin. David Shearer, por exemplo, argumenta que havia uma "economia administrativo-dirigida", mas não uma "economia planejada". Segundo ele, a União Soviética ainda sofria as consequências do Grande Expurgo e estava completamente despreparada para a invasão alemã. O economista Holland Hunter, por sua vez, argumenta em Overambitious First Soviet Five-Year Plan que existiam diversos "caminhos alternativos disponíveis, resultantes da situação existente no final da década de 1920... que poderiam ter produzido resultados tão bons quanto aqueles alcançados, por exemplo, em 1936, mas com muito menos turbulência, desperdício, destruição e sacrifício".
Guerra Fria
[editar | editar código]Controle soviético sobre o Leste Europeu
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No período posterior à Segunda Guerra Mundial, a União Soviética ampliou sua influência política e militar sobre o Leste Europeu, em uma iniciativa considerada por alguns uma continuação das antigas políticas do Império Russo. Alguns territórios perdidos pela Rússia soviética no Tratado de Brest-Litovski, de 1918, foram anexados pela União Soviética depois da Segunda Guerra Mundial: os países bálticos e as regiões orientais da Polônia do período entre as guerras. A República Socialista Federativa Soviética da Rússia também recebeu da Alemanha a metade norte da Prússia Oriental, correspondente ao atual oblast de Calininegrado. A República Socialista Soviética da Ucrânia recebeu a Transcarpátia, constituída como o Oblast da Transcarpátia, da Checoslováquia, além da Bucovina do Norte, de população ucraniana, constituída como o Oblast de Tchernivtsi, da Romênia. Por fim, no final da década de 1940, partidos comunistas pró-soviéticos venceram eleições em cinco países da Europa Central e do Leste Europeu — especificamente na Polônia, em 1947; na Checoslováquia, em 1948; na Hungria, em 1947; na Romênia, em 1946; e na Bulgária, em 1945 — e posteriormente transformaram esses países em democracias populares. Essas eleições são geralmente consideradas fraudulentas, e as potências ocidentais as reconheceram como eleições de fachada. Durante a Guerra Fria, os países do Leste Europeu tornaram-se Estados satélites soviéticos: eram nações formalmente "independentes", mas constituíam Estados de partido único e Estados comunistas, cujos secretários-gerais precisavam ser aprovados pelo Kremlin. Por isso, seus governos geralmente mantinham suas políticas alinhadas aos interesses da União Soviética, embora forças e pressões nacionalistas dentro dos Estados satélites provocassem alguns desvios em relação ao rígido domínio soviético.
Relações entre a União Soviética e os Estados Unidos
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A União Soviética necessitava urgentemente de munições, alimentos e combustíveis, que foram fornecidos pelos Estados Unidos e também pelo Reino Unido, principalmente por meio do Lend-Lease. As três potências mantiveram contato regular, enquanto Stalin procurava preservar um véu de sigilo sobre os assuntos internos soviéticos. Churchill e outros dirigentes de alto escalão visitaram Moscou, assim como Harry Hopkins, o principal assessor de Roosevelt. Stalin solicitou repetidamente que os Estados Unidos e o Reino Unido abrissem uma segunda frente na Europa continental, mas a invasão aliada somente ocorreu em junho de 1944, mais de dois anos depois. Enquanto isso, os soviéticos sofreram grandes perdas e enfrentaram a maior parte das forças alemãs. Os Aliados afirmaram que seus intensos bombardeios aéreos constituíam um fator importante que Stalin ignorava.[92][93][94]
Guerra da Coreia
[editar | editar código]Em 1950, a União Soviética protestou contra o fato de que o assento chinês no Conselho de Segurança das Nações Unidas era ocupado pelo governo nacionalista da China, sediado em Taiwan, e boicotou as reuniões.[95] Durante a ausência da União Soviética, a Organização das Nações Unidas aprovou a Resolução 82, que condenava as ações da Coreia do Norte e, posteriormente, ofereceu apoio militar à Coreia do Sul.[96] Depois desse episódio, a União Soviética nunca mais se ausentou das reuniões do Conselho de Segurança.
Política interna
[editar | editar código]Censura
[editar | editar código]A arte e a ciência foram submetidas a uma censura rigorosa sob a supervisão direta de Stalin. Enquanto a União Pan-Russa de Escritores (AUW) havia anteriormente tentado publicar obras apolíticas, a Associação Russa de Escritores Proletários (RAPP) insistia na importância da política na produção literária e publicava conteúdos que incorporavam principalmente a hegemonia dos valores da classe trabalhadora na ficção. Em 1925, a RAPP iniciou uma campanha contra o presidente da AUW, Evgeni Zamiatin. Isso resultou na derrota da AUW, que foi substituída pela União Pan-Russa de Escritores Soviéticos, a qual adotou rigorosamente o estilo literário do realismo socialista. Os estudos soviéticos de biologia foram fortemente influenciados pelo atualmente desacreditado biólogo Trofim Lysenko, que rejeitava o conceito de herança mendeliana em favor de uma forma de lamarckismo. Na física, a teoria da relatividade foi rejeitada como "idealismo burguês". Grande parte dessa censura foi obra de Andrei Jdanov, conhecido como o "carrasco ideológico" de Stalin, até sua morte por um ataque cardíaco, em 1948.[97]
O culto à personalidade de Stalin atingiu seu auge no período posterior à guerra, quando seu retrato era exibido em todas as escolas, fábricas e repartições governamentais, embora ele raramente aparecesse em público. A reconstrução do pós-guerra avançou rapidamente, mas, como toda a ênfase recaía sobre a indústria pesada e o setor energético, os padrões de vida permaneceram baixos, sobretudo fora das grandes cidades.[98]
Período pós-guerra
[editar | editar código]A moderada liberalização política ocorrida na União Soviética durante a guerra chegou rapidamente ao fim em 1945. A Igreja Ortodoxa Russa geralmente não foi incomodada depois da guerra e chegou a receber permissão para imprimir pequenas quantidades de literatura religiosa, mas a perseguição às religiões minoritárias foi retomada.[99]
Stalin e o Partido Comunista receberam todo o crédito pela vitória sobre a Alemanha, enquanto generais como Júkov foram rebaixados para comandos regionais — no caso dele, para a Ucrânia. Com o início da Guerra Fria, a propaganda antiocidental foi intensificada, e o mundo capitalista passou a ser retratado como um lugar decadente no qual o crime, o desemprego e a pobreza eram generalizados.[100]
O final do período stalinista presenciou o surgimento de um "grande acordo" tácito entre o Estado, a nomenklatura soviética e os especialistas cujo estatuto correspondia ao da classe média ocidental. Segundo esse acordo, o Estado aceitaria hábitos "burgueses", como certo grau de consumismo, relacionamentos amorosos e vida doméstica, em troca da lealdade inabalável da nomenklatura ao Estado.[101] O "grande acordo" informal resultou da Segunda Guerra Mundial, pois muitos integrantes das classes médias soviéticas esperavam um padrão de vida mais elevado depois da guerra em troca dos sacrifícios realizados durante o conflito. Como o sistema soviético não poderia funcionar sem os especialistas técnicos necessários e sem a nomenklatura, o Estado precisava dos serviços dessas pessoas, o que levou ao "grande acordo" informal.[102] Além disso, durante a guerra, o Estado havia flexibilizado seu controle até certo ponto e permitido a existência de práticas informais que normalmente contrariavam as regras.[103] Depois de 1945, esse relaxamento do controle social nunca foi completamente revertido. Em vez disso, o Estado procurou cooptar determinados setores da população, permitindo que certas regras fossem infringidas, desde que a população permanecesse, em termos gerais, leal.[104] Uma das consequências do "grande acordo" foi o aumento do materialismo, da corrupção e do nepotismo, que continuaram a marcar a vida cotidiana na União Soviética durante o restante de sua existência.[102] Outro exemplo do "grande acordo" foi a publicação, a partir do final da década de 1940, de uma série de romances de amor destinados ao público feminino, uma escolha temática que teria sido inconcebível antes da guerra.[101]
O final da década de 1940 presenciou, em particular, a ascensão dos vory v zakone — "ladrões na lei" —, como eram conhecidos determinados integrantes do crime organizado russo, que formavam uma subcultura muito específica, dotada inclusive de seu próprio dialeto da língua russa. Apesar do nome, os vory v zakone não eram apenas ladrões, mas participavam de toda a variedade de atividades criminosas. Eles prosperaram como operadores do mercado negro em uma sociedade do pós-guerra que sofria com a escassez de produtos básicos. A onda de criminalidade que atingiu a União Soviética no final da década de 1940 foi uma fonte de grande inquietação pública naquele período.[105] Uma fonte particular de preocupação foi o crescimento da criminalidade juvenil. Um estudo policial de 1947 demonstrou que 69% de todos os crimes eram cometidos por adolescentes com menos de dezesseis anos.[106] A maioria dos jovens criminosos era composta por órfãos da guerra que viviam nas ruas e haviam recorrido ao crime como única forma de sobrevivência.[106] A maior parte das queixas sobre a criminalidade juvenil dizia respeito a crianças em situação de rua que trabalhavam como prostitutas ou ladras ou que ofereciam seus serviços aos vory v zakone.[107] Diversas reformas econômicas, como a reforma monetária de 1947, foram realizadas para estabilizar a economia do pós-guerra e reprimir o comércio ilegal.
Apesar dos imensos sofrimentos e perdas, a Grande Guerra Patriótica, graças à propaganda, passou a ser lembrada com nostalgia como uma época de entusiasmo, aventura, perigo e solidariedade nacional. A vida do pós-guerra, por outro lado, era considerada tediosa, estagnada e banal, além de ser vista como uma época em que as pessoas colocavam seus interesses individuais acima do bem comum.[103] Havia uma percepção generalizada de que, embora a guerra tivesse sido vencida, a paz havia sido perdida, pois as expectativas e esperanças de um mundo melhor depois do conflito não se concretizaram.[103] O período posterior à guerra presenciou o surgimento de diversas subculturas que, de alguma maneira, normalmente se desviavam do que era oficialmente prescrito — como, por exemplo, ouvir discos contrabandeados de música popular ocidental. Dependendo de sua natureza, essas subculturas eram toleradas ou reprimidas pelas autoridades.[103] Outra tendência social do pós-guerra foi o surgimento de um individualismo maior e de uma busca por privacidade, à medida que crescia a procura por apartamentos particulares e que os habitantes das áreas urbanas procuravam passar mais tempo no campo, onde o Estado exercia menor controle sobre a vida cotidiana.[108] Para os integrantes da nomenklatura, o símbolo máximo de prestígio passou a ser uma datcha no campo, onde eles e suas famílias podiam se divertir longe dos olhares alheios.[108] Outras pessoas procuravam seu próprio espaço dedicando-se a atividades apolíticas, como as ciências exatas, ou mudando-se para regiões remotas, como a Sibéria, onde o Estado exercia menos controle.[108] Surgiram redes informais de amigos e parentes conhecidas como svoi — "os seus" —, que funcionavam como sociedades de auxílio mútuo e frequentemente se tornavam essenciais para determinar o sucesso social de uma pessoa. A participação no svoi adequado poderia aumentar as chances de os filhos ingressarem em uma universidade de prestígio ou permitir a obtenção de produtos básicos escassos, como papel higiênico.[108] Outro exemplo da tendência social de busca por maior espaço pessoal entre as pessoas comuns foi a crescente popularidade da poesia clandestina e da literatura samizdat, que criticava o sistema soviético.[109]
Apesar dos esforços das autoridades, muitos jovens no final da década de 1940 gostavam de ouvir as transmissões em língua russa da Voz da América e da BBC, o que levou ao início, em 1948, de uma grande campanha destinada a desacreditar as duas emissoras como "propaganda capitalista".[110] Da mesma forma, as revistas Amerika — "América" — e Britanskii Soiuznik — "Aliado Britânico" —, publicadas pelos governos dos Estados Unidos e do Reino Unido, eram muito populares entre os jovens no final da década de 1940 e tinham seus exemplares esgotados poucos minutos depois de chegarem às bancas de Moscou e Leningrado, atual São Petersburgo.[110] A historiadora alemã Juliane Fürst advertiu que o interesse dos jovens pela cultura da Anglo-América não representava necessariamente uma rejeição ao sistema soviético, mas poderia refletir apenas curiosidade pelo mundo existente além da União Soviética.[111] Fürst escreveu que muitos jovens do final da década de 1940 e início da década de 1950 demonstravam atitudes ambivalentes: por um lado, estavam convencidos de que sua nação era a maior e mais progressista do mundo; por outro, manifestavam certa dúvida persistente e acreditavam que talvez existisse algo melhor em outros lugares.[112] A maneira como o nacionalismo russo havia se fundido ao comunismo durante a Grande Guerra Patriótica para criar uma nova identidade soviética, baseada igualmente no orgulho de ser russo e comunista, permitiu que as autoridades classificassem as críticas ao sistema soviético como "antipatrióticas". Naquele momento, isso pareceu conter os elementos de dúvida existentes em determinados setores da população.[112]
Outro sinal da crescente busca por um espaço pessoal próprio depois de 1945 foi a popularidade dos filmes apolíticos, como musicais, comédias e romances, em comparação com os filmes mais políticos que glorificavam o comunismo.[113] O final da década de 1940 foi uma época do que o historiador húngaro Peter Kenz denominou "fome de filmes", pois a indústria cinematográfica soviética não conseguia lançar produções em quantidade suficiente devido aos problemas causados pela reconstrução do pós-guerra. Como consequência, os cinemas soviéticos exibiam filmes estadunidenses e alemães capturados pelo Exército Vermelho no leste da Alemanha e no Leste Europeu, conhecidos na União Soviética como "filmes-troféu".[113] Para a grande preocupação das autoridades, filmes estadunidenses como Stagecoach, The Roaring Twenties, The Count of Monte Cristo e Sun Valley Serenade tornaram-se extremamente populares entre o público soviético.[113] Os filmes estrangeiros mais populares foram o musical romântico germano-húngaro de 1941 The Girl of My Dreams, lançado na União Soviética em 1947, e o filme estadunidense de 1941 Tarzan's New York Adventure, lançado na União Soviética em 1951.[113] O músico Bulat Okudzhava recordou: "Era a única coisa em Tiblíssi pela qual todos perdiam a cabeça: o filme-troféu The Girl of My Dreams, com a extraordinária e indescritível Marika Rökk no papel principal. A vida normal parou na cidade. Todos falavam sobre o filme; corriam para assisti-lo sempre que tinham oportunidade; nas ruas, as pessoas assobiavam suas melodias; e, pelas janelas entreabertas, era possível ouvir pessoas tocando no piano músicas do filme".[113]
Já no final da década de 1940, o estudioso austríaco Franz Borkenau sustentou que o governo soviético não era uma máquina totalitária monolítica, mas estava dividido em vastas redes de chefstvo — patronagem — que se estendiam da elite aos níveis mais baixos do poder, enquanto Stalin atuava mais como árbitro supremo das diferentes facções do que como dirigente de um Estado semelhante ao retratado em 1984.[114] As técnicas de Borkenau consistiam em uma análise minuciosa das declarações oficiais soviéticas e da posição relativa ocupada por diferentes autoridades no Kremlin durante ocasiões festivas, a fim de determinar quais autoridades desfrutavam do favorecimento de Stalin e quais não.[114] Sinais como editoriais de jornais, listas de convidados de ocasiões formais, obituários publicados em jornais soviéticos e relatos de discursos oficiais eram importantes para identificar as diferentes redes de chefstvo.[114] Borkenau argumentava que até mesmo pequenas alterações na linguagem formalista do Estado soviético poderiam indicar mudanças importantes: "As questões políticas devem ser interpretadas à luz das fórmulas, políticas ou não, e de sua história; essa interpretação não pode ser concluída com segurança até que toda a história de determinada fórmula tenha sido estabelecida desde sua primeira enunciação".[114]
O terror praticado pela polícia secreta continuou no período pós-guerra. Embora nada comparável a 1937 tenha voltado a acontecer, houve diversos expurgos menores, incluindo um expurgo em massa do aparelho do Partido Comunista da Geórgia entre 1951 e 1952. A partir de 1949, o principal inimigo do Estado passou a ser representado pelos "cosmopolitas sem raízes", expressão que nunca foi definida com precisão.[115] Na prática, o termo "cosmopolita sem raízes" era utilizado para atacar intelectuais, judeus e, frequentemente, pessoas pertencentes aos dois grupos.[115] A saúde de Stalin também se deteriorou rapidamente depois da Segunda Guerra Mundial. Ele sofreu um acidente vascular cerebral no segundo semestre de 1945 e permaneceu doente durante meses. Outro acidente vascular cerebral ocorreu em 1947. Stalin tornou-se menos ativo na administração cotidiana do Estado e, em vez de reuniões partidárias, preferia convidar os integrantes do Politburo para jantares que duravam a noite inteira, durante os quais assistia a filmes e os obrigava a se embriagar, passar vergonha ou dizer algo comprometedor.[116]
Em outubro de 1952, o primeiro congresso partidário realizado depois da guerra reuniu-se em Moscou. Stalin não se sentiu em condições de apresentar o relatório principal e permaneceu em silêncio durante a maior parte dos trabalhos, enquanto Nikita Khrushchov e Geórgiy Malenkov proferiam os discursos mais importantes. Stalin sugeriu, entretanto, que o partido fosse renomeado de "Partido Comunista de Toda a União (Bolcheviques)" para "Partido Comunista da União Soviética", sob o argumento de que "houve uma época em que era necessário nos distinguirmos dos mencheviques, mas já não existem mencheviques. Agora somos o partido inteiro". Stalin também mencionou sua idade avançada — faltavam dois meses para completar 73 anos — e sugeriu que talvez fosse o momento de se aposentar. Como era previsível, ninguém no congresso ousou concordar, e os delegados imploraram para que ele permanecesse.

Após a morte de Stalin
[editar | editar código]Em 1º de março de 1953, os funcionários de Stalin o encontraram semiconsciente no chão do quarto de sua datcha de Volynskoe.[117] Ele havia sofrido uma hemorragia cerebral.[118] Stalin morreu em 5 de março de 1953.[119] Uma autópsia revelou que ele havia morrido em decorrência da hemorragia cerebral e que também apresentava lesões graves nas artérias cerebrais causadas pela aterosclerose.[120] É possível que Stalin tenha sido assassinado.[121] Beria foi apontado como suspeito de assassinato, embora nenhuma prova conclusiva tenha sido encontrada.[118]
Stalin não deixou um sucessor designado nem uma estrutura na qual pudesse ocorrer uma transferência de poder.[122] O Comitê Central reuniu-se no dia de sua morte, e Malenkov, Beria e Khrushchov emergiram como as principais figuras do partido.[123] O sistema de liderança coletiva foi restaurado, e medidas foram introduzidas para impedir que qualquer integrante alcançasse novamente uma posição de domínio autocrático.[124] A liderança coletiva incluía os oito seguintes integrantes de alto escalão do Presidium do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, apresentados de acordo com a ordem de precedência formalmente divulgada em 5 de março de 1953: Geórgiy Malenkov, Lavrenti Beria, Viatcheslav Molotov, Kliment Vorochilov, Nikita Khrushchov, Nikolai Bulganin, Lazar Kaganovich e Anastas Mikoyan.[125] Reformas no sistema soviético foram implementadas imediatamente.[126] A reforma econômica reduziu os grandes projetos de construção, concedeu nova ênfase à construção de moradias e diminuiu os níveis de tributação do campesinato para estimular a produção.[127] Os novos dirigentes buscaram uma aproximação com a República Socialista Federativa da Iugoslávia e uma relação menos hostil com os Estados Unidos,[128] além de procurarem encerrar a Guerra da Coreia por meio de negociações, em julho de 1953.[129] Os médicos que haviam sido presos foram libertados, e os expurgos antissemitas foram interrompidos.[130] Uma ampla anistia em 1953 foi concedida a determinadas categorias de prisioneiros, reduzindo pela metade a população carcerária do país, enquanto os sistemas de segurança estatal e do Gulag foram reformados e a tortura foi proibida em abril de 1953.[127]
Ver também
[editar | editar código]Notas e referências
Notas
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