Humanismo renascentista

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Florença em 1493.

Humanismo renascentista foi um movimento intelectual desenvolvido na Europa durante o Renascimento, entre os séculos XIV e XVI. Iniciado em Florença por Francesco Petrarca,[1] inspirado pela Antiguidade Clássica (Grega-latina), foi seguido por Dante Alighieri e Boccaccio. Expandindo-se a partir da Península Itálica veio a abranger a maior parte da Europa. O Humanismo é uma das principais características da nova mentalidade renascentista, que valoriza o ser humano e as suas capacidades.

Homem renascentista[editar | editar código-fonte]

Na procura de fontes autênticas antigas, expressa na frase latina ad fontes, os humanistas desenvolveram a filologia, atribuindo um papel central ao estudo das línguas e literatura. Acreditando que o homem estava na posse de capacidade intelectual ilimitada, defenderam uma educação capaz de desenvolver essas capacidades, o que levou à reforma de universidades e criação de colégios por toda a Europa. Muitos desenvolveram habilidades em várias áreas do conhecimento, o que gerou a noção do "homem renascentista" como polimata. Defendiam a divulgação de todo o conhecimento o que, impulsionado pela nova tecnologia de imprensa, acelerou o florescimento das línguas vernáculas em detrimento do latim, a língua franca nos meios académicos. Também a palavra divina devia ser acessível a todos, o que levou à tradução da Bíblia por Erasmo de Roterdão em 1516.

A circulação relativamente irrestrita de ideias e informação galvanizou populações e desafiou o poder de autoridades políticas e religiosas. No final do século XVI, o humanismo renascentista foi transformado e diversificado à mercê das mudanças causadas ​​pela evolução social e ideológica na Europa, e o colidir das Reformas Protestante e Calvinista com a Contra-reforma católica. O movimento, alimentou uma estética própria, consubstanciada, por exemplo, numa tipografia nova, conhecida como humanista, que imitava a antiga letra uncial, e que viria a substituir gradualmente a letra gótica medieval.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

A expressão studia humanitatis foi contraposta por Coluccio Salutati à teologia e escolástica para descrever a tendência intelectual de seu amigo Francesco Petrarca; para este, humanitas significava aquilo que os gregos designavam por filantropia, o amor por nossos semelhantes, mas ficou intimamente ligado à litterae, o estudo da literatura clássica. O neologismo germânico Humanismus foi usado para descrever uma teoria da educação em 1808 e, mais tarde, como oposto da escolástica (1841). Só em 1859 foi aplicado ao período de ressurgimento dos estudos clássicos por Georg Voigt, cujo livro com o subtítulo "O Primeiro Século do Humanismo", foi considerado por um século uma referência sobre esta questão.

O humanismo na educação[editar | editar código-fonte]

O humanismo destacou-se pela forma como reformou a educação. Aos métodos escolásticos das universidades medievais, centrados no treino estrito de profissionais - médicos, juristas e teólogos - a partir de manuais aprovados,[2] , os humanistas contrapuseram uma educação voltada para a prática, centrada nos estudos pré-profissionais, procurando o desenvolvimento universal das capacidades humanas.

Acreditando que o homem estava na posse de capacidade intelectual ilimitada, consideravam a busca de saber essencial para o uso adequado dessas faculdades. A educação humanista devia habilitar o homem a descobrir o seu verdadeiro destino e conceber através da imitação de modelos clássicos uma humanidade ideal. Preparando para falar e escrever com eloquência e clareza, para melhor se envolver na vida cívica.

O Humanismo italiano inicial continuou a tradição de ensino das artes liberais da Idade Média. Mas enfatizou e renomeou os estudos iniciais, o trivium, aumentando a sua abrangência, conteúdo e significado no currículo de escolas e universidades, sob o ambicioso nome de Studia humanitatis[3] . Precursores das actuais humanidades, os Studia humanitatis mantinham o estudo da gramática e da retórica mas excluiam a lógica, e acrescentavam o estudo do grego, da filosofia moral e da poesia, tornada a matéria mais importante do grupo.[4] [5]

As ideias humanistas na educação levaram à reforma das universidades e criação de colégios para os estudos iniciais em toda a Europa: Deventer na Holanda, São Paulo de Londres, Corpus Christi College em Oxford, o Colégio trilíngue de Lovaina (latim, grego e hebraico), o Collège de France criado por Francisco I de França por instigação de Guilherme Budé ou o Real Colégio das Artes e Humanidades em Coimbra, criado por D. João III de Portugal, tendo como principal André de Gouveia, reitor do Colégio de Guyenne em Bordéus e do Colégio de Santa Bárbara em Paris.

O Humanismo, a imprensa e as Línguas[editar | editar código-fonte]

Empenharam-se em editar e traduzir todos os textos antigos a partir dos testemunhos sobreviventes, alguns redescobertos (como Quintiliano) ou encontrados e trazidos do ex-Império Romano do Oriente por gregos bizantinos. Procuravam publicar (no sentido científico) e explicar os textos, limitando-se a uma abordagem filológica, para os "depurar" e corrigir a mitos e lendas posteriores.

O ideal humanista de expansão de todo o conhecimento foi impulsionado pelo desenvolvimento da imprensa em c.1455 por Johannes Gutenberg em Mogúncia. A publicação e divulgação de textos acelerou, com um enorme crescimento do número de livros em circulação. No século XV o movimento espalha-se por todo o continente. O desenvolvimento da imprensa multiplicou as edições em línguas nativas (vernáculas) exigindo uma padronização. O tratamento de vernáculos floresceu e tornou-se influente no Renascimento.

Embora a gramática fosse ensinada como uma disciplina nuclear durante a Idade Média, seguindo a influência de autores como Prisciano, a primeira gramática conhecida de uma língua românica é um manuscrito do humanista Leon Battista Alberti escrito entre 1437 e 1441, intitulado Grammatica della lingua toscana. Nele Alberti procurou demonstrar que o vernáculo - aqui o dialeto toscano, origem do italiano moderno - era tão estruturado como o Latim. Para isso fez o mapeamento estruturas vernáculas contrapondo-as ao latim.[6] Entre 1437 e 1586 foram escritas, embora nem sempre imediatamente publicadas, as primeiras gramáticas de Francês, Português, Espanhol, Holandês, Alemão e Inglês.

Com a imprensa desenvolveram-se as fonte tipográficas. Tipógrafos venezianos adoptaram o alfabeto romano em substituição da escrita gótica, inspirado nas inscrições em pedra. No recriar entusiasta da cultura clássica, estudiosos humanistas italianos do início do século XV procuram fontes minúsculas para combinar com as capitais romanas. Como os manuscritos clássicos disponíveis haviam sido reescritos durante a renascença carolíngia, confundiram a minúscula carolíngia inspirada na escrita uncial, apelidando-a lettera antica. [1] Redesenhada, com serifas para integrá-la com as capitais romanas, desenvolveram uma família tipográfica consistente hoje conhecida como humanista. Entre os tipógrafo que a desenvolveram estão o italiano Aldo Manúcio e o editor francês Claude Garamond.

Fatores que favoreceram o humanismo[editar | editar código-fonte]

A partir do século XV, o movimento humanista foi impulsionado por vários fatores:

  • A migração de eruditos bizantinos: com o Império Bizantino progressivamente sitiado pelos otomanos, muitos procuraram refúgio na Europa Ocidental, especialmente na península itálica. Traziam com eles textos gregos e promoveram a difusão da cultura, valores e linguagem gregos. Foi o caso de Manuel Crisolaras, estudioso de Constantinopla, que ensinou grego em Florença desde 1396-1400, que escreveu para os seus discípulos a obra questões de língua grega baseada na Gramática de Dionísio, o Trácio. O seu discípulo Leonardo Bruni(1370-1444) foi o primeiro a fazer traduções do grego para latim em grande escala, tal como Ambrose Traversari, que recomendou a Cosimo de Medici adquirir 200 códices gregos de Bizâncio, ou Francesco Filelfo que transportou muitos outros.
  • A invenção da prensa móvel: a invenção de Gutenberg permitiu a produção e distribuição de livros a custo reduzido, assegurando a ampla disseminação das ideias humanistas e o desenvolvimento do sentido crítico contra o magister dixit, o argumento de autoridade medieval.
  • A acção dos mecenas: os patronos, com a sua proteção política, o apreço pelo conhecimento antigo, o afã coleccionista e a remuneração financeira aos humanistas pelo seu trabalho na imprensa, promoveram o desenvolvimento do humanismo. Entre os mecenas mais importantes do renascimento destacam-se os Médici de Florença, Lorenzo de Medici, o Magnífico, e seu irmão Giuliano de Medici, ou os papas Júlio II e Leão X.
  • A criação de universidades, escolas e faculdades: A multiplicação de universidades e escolas como Lovaina, Siena, Alcalá de Henares, Coimbra e as escolas do século XV, contribuiu largamente para a expansão do humanismo em toda a Europa.

Referências

  1. [1]
  2. Craig W. Kallendorf, introduction to Humanist Educational Treatises, edited and translated by Craig W. Kallendorf (Cambridge, Massachusetts and London England: The I Tatti Renaissance Library, 2002) p. vii.
  3. "Wiesner-Hanks, p32"
  4. Oskar Kristeller-Paul, Renaissance Pensamento II: Artigos sobre Humanismo e as Artes (New York: Harper Torchbooks, 1965), p. 178.
  5. Kristeller's Renaissance Thought I, "Humanism and Scholasticism In the Italian Renaissance", Byzantion 17 (1944–45), pp. 346–74. Reprinted in Renaissance Thought (New York: Harper Torchbooks), 1961.
  6. Marazzini, Claudio (2000), "102. Early grammatical descriptions of Italian", in Auroux, Sylvain; Koerner, E. F. K.; Niederehe, Hans-Josef et al., History of the Language Sciences / Histoire des sciences du langage / Geschichte der Sprachwissenschaften, Part 1, Berlin, New York: Walter de Gruyter, pp. 742–749