Antigo Egito

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Necrópole de Gizé (ou Guiza), um dos monumentos mais emblemáticos do Antigo Egito.
Mapa do Egito antigo, mostrando grandes cidades e sítios (c. 3150 a.C. e 30 a.C.).

O Antigo Egito (AO 1945: Egipto) foi uma civilização da antiguidade oriental do Norte de África, concentrada ao longo ao curso inferior do rio Nilo, no que é hoje o país moderno do Egito. Era parte de um complexo de civilizações, as "Civilizações do Vale do Nilo", dos quais as regiões ao sul do Egito (hoje no Sudão, Eritreia, Etiópia e Somália) são uma parte. Tinha como fronteira a norte o Mar Mediterrâneo, a oeste o Deserto da Líbia, a leste o Deserto Oriental Africano e a sul a primeira catarata do rio Nilo.[1] O Egito Antigo foi umas das primeiras grandes civilizações da antiguidade e manteve durante a sua existência uma continuidade nas suas formas políticas, artísticas, literárias e religiosas, explicável em parte devido aos condicionalismos geográficos, embora as influências culturais e contactos com o estrangeiro tenham sido também uma realidade.

A civilização egípcia se aglutinou em torno de 3 150 a.C.[2] com a unificação política do Alto e Baixo Egito, sob o primeiro faraó, e se desenvolveu ao longo dos três milênios seguintes.[3] Sua história desenvolveu-se ao longo de três grandes reinos marcados pela estabilidade política, prosperidade económica e florescimento artístico, separados por períodos de relativa instabilidade conhecidos como Períodos Intermediários. O Antigo Egito atingiu o seu auge durante o Império Novo, uma era cosmopolita durante a qual o Egito dominou, graças às campanhas militares do faraó Tutmés III, uma área que se estendia desde a Núbia, entre a quarta e quinta cataratas do rio Nilo, até ao rio Eufrates.[4], após o que entrou em um período de lento declínio. O Egito foi conquistado por uma sucessão de potências estrangeiras neste período final. O governo dos faraós terminou oficialmente em 31 a.C., quando o Egito caiu sob o domínio do Império Romano e se tornou uma província, após a derrota da rainha Cleópatra VII na Batalha de Ácio.[5]

O sucesso da antiga civilização egípcia foi causada em parte por sua capacidade de se adaptar às condições do Vale do Nilo. A inundação previsível e a irrigação controlada do vale fértil produziam colheitas excedentárias, o que alimentou o desenvolvimento social e cultural. Com recursos de sobra, o governo patrocinou a exploração mineral do vale e nas regiões do deserto ao redor, o desenvolvimento inicial de um sistema de escrita independente, a organização de construções coletivas e projetos de agricultura, o comércio com regiões vizinhas, e campanhas militares para derrotar os inimigos estrangeiros e afirmar o domínio egípcio. Motivar e organizar estas atividades foi uma tarefa burocrática dos escribas de elite, dos líderes religiosos, e dos administradores sob o controle de um faraó que garantiu a cooperação e a unidade do povo egípcio, no âmbito de um elaborado sistema de crenças religiosas.[6][7]

As muitas realizações dos antigos egípcios incluem o desenvolvimento de técnicas de extração mineira, topografia e construção que permitiram a edificação de monumentais pirâmides, templos e obeliscos; um sistema de matemática, um sistema prático e eficaz de medicina, sistemas de irrigação e técnicas de produção agrícola, os primeiros navios conhecidos,[8] faiança egípcia e tecnologia com vidro, novas formas de literatura e o mais antigo tratado de paz conhecido.[9] O Egito deixou um legado duradouro. Sua arte e arquitetura foram amplamente copiadas e suas antiguidades levadas para os mais diversos cantos do mundo. Suas ruínas monumentais inspiraram a imaginação dos viajantes e escritores ao longo de séculos. O fascínio por antiguidades e escavações no início do período moderno levou à investigação científica da civilização egípcia e a uma maior valorização do seu legado cultural.[10]

Índice

[editar] Etimologia

Os egípcios usaram vários nomes para se referirem à sua terra. O mais comum era Kemet, "a Terra Negra" ou "Terra Fértil",[11][12] que se aplicava especificamente ao território nas margens do Nilo e que aludia à terra negra trazida pelo rio todos os anos. Decheret, "Terra Vermelha", referia-se aos desertos que circundavam o Nilo e por onde os egípcios só penetravam para enterrar os seus mortos ou para explorarem as pedras preciosas. Também poderiam chamá-la Taui ( "as Duas Terras", ou seja, o Alto e o Baixo Egito), Ta-meri ("Terra Amada") ou Ta-netjeru ("A Terra dos Deuses"). Na Bíblia o Egito é denominado Misraim. A actual palavra Egito deriva do grego Aigyptos (pronunciado Aiguptos), que se acredita derivar por sua vez do egípcio Hetkaptah, "a mansão da alma de Ptah".[carece de fontes?]

Os habitantes atuais do Egito dão o nome Misr ao seu país, uma palavra que em árabe pode também significar "país", "fortaleza" ou "acastelado". Segundo a tradição, Misr é o nome usado no Alcorão para designar o Egito, e o termo pode evocar as defesas naturais de que o país sempre dispôs. Outra teoria é que Misr deriva da antiga palavra Mizraim, que por sua vez deriva de md-r ou mdr, usada pelos locais para designar o seu país.[13]

[editar] História

Antigo Egito
Faraós e dinastias
Período pre-dinástico
Período protodinástico
Época Tinita: I - II
Império Antigo: III IV V VI
1º Período Intermediário:

VII VIII IX X XI

Império Médio: XI XII
2º Período Intermediário:

XIII XIV XV XVI XVII

Império Novo: XVIII XIX XX
3º Período Intermediário:

XXI XXII XXIII XXIV XXV

Época Baixa: XXVI XXVII
XXVIII XXIX XXX XXXI
Período Greco-romano:
Dinastia macedónica
Dinastia ptolomaica
Período Romano

No final do período paleolítico, o clima árido do Norte da África tornou-se cada vez mais quente e seco, forçando as populações da área a se concentrarem ao longo do Vale do Nilo, e desde caçadores e coletores nômades até os homens modernos começaram a viver na região até ao final do Pleistoceno Médio, cerca de 120 mil anos atrás, o Nilo tem sido a salvação do Egito.[14] A planície fértil do Nilo deu aos homens a oportunidade de desenvolver uma economia agrícola sedentária e uma sociedade mais sofisticada e centralizada que se tornou um marco na história da civilização humana.[15]

[editar] Período pré-dinástico

Nos períodos pré-dinástico e dinástico, o clima egípcio era muito menos árido do que é hoje. Vastas regiões do Egito estavam cobertas por savanas arborizadas e povoadas por manadas de ungulados. A fauna e flora eram muito mais prolíficas e havia grandes populações de aves aquáticas na região do Nilo e suas imediações. A caça teria sido uma prática comum para os egípcios, sendo este também o período em que muitos animais foram domesticados pela primeira vez.[16]

Um típico jarro Naqada II decorado com gazelas. (Período pré-dinástico).

Por volta de 5500 a.C., as pequenas tribos que habitavam o vale do Nilo evoluíram para uma série de culturas que demonstravam forte domínio da agricultura e da pecuária, e que hoje podem ser identificadas pela sua cerâmica e objetos pessoais, como pentes, pulseiras e colares. No norte as culturas que mais se destacaram foram a cultura Faiumiana, que dominava técnicas como a tecelagem, e a El-Omari, que tinha rituais funerários e construiu cemitérios. No sul do Egito, a Badariana, era conhecida por sua cerâmica de alta qualidade, ferramentas de pedra e uso de cobre.[17]

No norte do Egito, a cultura Badariana foi sucedida pelas culturas Amratiana e Gerzeana,[18] que apresentaram uma série de avanços tecnológicos. No período Gerzeano, existem registros antigos a respeito do contato com a Palestina e Mesopotâmia.[19]

No sul do Egito, a cultura Naqada, semelhante à Badariana, começou a se expandir ao longo do Nilo cerca de 4 000 a.C. Já durante o período Naqada I, os egípcios pré-dinásticos importavam obsidiana da Etiópia, usada para dar forma a lâminas e outros objetos a partir de lascas.[20][21] Durante um período de cerca de 1000 anos, a cultura Naqada evolui de pequenas comunidades agrícolas para uma poderosa civilização cujos líderes dominavam a população e os recursos do vale do Nilo.[22] Com o estabelecimento de um centro de poder em Nekhen e, posteriormente, em Abidos, os líderes de Naqada III expandiram seu controle sobre Egito em direção a norte ao longo do Nilo.[23] Também promoveram trocas comercias com a Núbia ao sul, com os oásis do deserto ocidental a oeste, e com as culturas do Mediterrâneo Oriental a leste.[23]

A cultura Naqada fabricou uma gama diversificada de bens materiais, reflexo do crescente poder e riqueza da elite, que inclui pintura, cerâmica de alta qualidade, vasos de pedra decorados com motivos geométricos e animais estilizados, paletas de cosméticos e joias feitas de ouro, lápis-lazúli e marfim. Eles também desenvolveram um esmalte cerâmico conhecido como faiança, que foi amplamente usado no período romano para decoração de copos, amuletos e figurinhas.[24]Durante a última fase do período pré-dinástico, a cultura Naqada desenvolveu símbolos escritos que acabariam por evoluir para um sistema de hieróglifos usados na escrita egípcia.[25]

[editar] Época Tinita

As duas faces da Paleta de Narmer. Nela é representada a suposta unificação do Alto e Baixo Egito.[26]

No século III a.C., o sacerdote Maneton estabeleceu uma cronologia dos faraós desde Menés aos seus contemporâneos, agrupando-os em 30 dinastias, um sistema ainda em uso atualmente.[27] Ele escolheu para começar a sua história oficial o rei chamado Meni (em grego: Menés) que se acredita ter sido o unificador dos reinos do Alto e Baixo Egito (c. de 3 100 a.C.).[28] Na realidade, a transição para um estado unificado aconteceu de forma mais gradual do que os escritores egípcios relatam, e não há registro contemporâneo de Menés.

Alguns académicos acreditam, no entanto, que o mítico faraó Menés pode realmente ter sido o faraó Narmer, que é retratado vestindo trajes reais sobre a cerimonial Paleta de Narmer em um ato simbólico de unificação,[29] ou então o faraó Hórus Aha.[30] Durante o período tinita, c. de 3 150 a.C., a primeira dinastia de faraós consolidou seu controle sobre o Alto Egito mudando a capital de Tinis para a recém-fundada Mênfis,[31] a partir da qual eles poderiam controlar a força de trabalho e a agricultura do fértil Delta, bem como as rotas do lucrativo e fundamental comércio com o Levante. O crescente poder e riqueza dos faraós durante o período dinástico se refletiu em suas mastabas elaboradas e em estruturas de culto mortuário em Abidos, que foram utilizadas para celebrar o faraó endeusado após sua morte.[32] A forte instituição da realeza desenvolvida pelos faraós serviu para legitimar o controle estatal sobre a terra, trabalho e recursos que foram essencialmente para a sobrevivência e o crescimento da antiga civilização egípcia.[33]

Durante o período tinita os faraós realizaram ataques contra os núbios, líbios e beduínos, assim como realizaram incursões no Sinai em busca de cobre e turquesa e no Mar Vermelho para exploração das minas locais.[30] Também comercializaram com a região síria-palestina, de onde obtinham a madeira de cedro.[30]

[editar] Império Antigo

Estátua de Quéops, o faraó construtor da Grande Pirâmide de Gizé.

Durante o Império Antigo, uma administração central bastante desenvolvida tornou possível o aumento da produtividade agrícola, o que serviria de motor para impressionantes avanços nos campos da arquitetura, arte e tecnologia.[34] Sob a direção do vizir, funcionários do Estado arrecadavam impostos, coordenavam projetos de irrigação para melhorar o rendimento das culturas, recrutavam camponeses para trabalhar em projetos de construção e estabeleceram um sistema de justiça que assegurava a manutenção da ordem e da paz.[35] Com os excedentes dos recursos disponibilizados por uma economia produtiva e estável, o Estado foi capaz de patrocinar a construção de monumentos colossais e a excepcional comissão de obras de arte para as oficinas reais.

A par da crescente importância da administração central, surgiu uma nova classe de escribas e oficiais letrados que receberam propriedades do faraó como pagamento pelos seus serviços.[36]Os faraós também fizeram concessões de terras para seus cultos funerários e templos locais, de forma a garantir que estas instituições teriam recursos necessários para a adoração do faraó após a sua morte. Acredita-se que cinco séculos de práticas feudais corroeram lentamente o poder econômico do faraó, e que a economia já não podia sustentar uma grande administração central.[37] Com a diminuição do poder do faraó, governantes regionais designados nomarcas começaram a desafiar a supremacia do faraó.[36] Isso, em conjunto com um período de secas extremas entre 2 200 e 2 150 a.C.,[38] é apontado como causa da transição para um período de 140 anos de fome e conflitos conhecido por Primeiro Período Intermediário.[39]

Estátua de Quéfren.

O Império Antigo é também caracterizado por um crescente comércio com o Líbano, Palestina, Mesopotâmia e Punt, assim como por expedições comerciais para exploração mineral nas minas do Sinai e Mar Vermelho (Deserto Oriental) e por campanhas militares contra núbios e líbios.[36] Com suas campanhas militares e comerciais o Egito além de criam acampamentos estratégicos também adquiriu ouro, cobre, turquesa, madeira de cedro, mirra, malaquita e electrum.[36] Sob Sahuré, com o crescente comércio, foi criada a primeira frota marítima egípcia.[36]

[editar] Primeiro Período Intermediário

Depois do colapso do governo central do Egito no final do Império Antigo, o governo não conseguiu sustentar ou estabilizar a economia do país. Os governadores regionais não podiam contar com o faraó para apoio em épocas de crise, e a consequente escassez de bens e disputas políticas agravaram-se para situações de fome e guerras civis de pequena escala. No entanto, apesar dos problemas, os líderes locais que já não deviam o tributo ao faraó, usaram esta independência para estabelecer uma cultura próspera nas províncias. Uma vez que dominavam os seus próprios recursos, as províncias desenvolveram-se economicamente, fato demonstrado por maiores e melhores atos fúnebres entre todas as classes sociais.[40] Através de surtos de criatividade, os artesãos das províncias adotaram e adaptaram motivos culturais antes restritos à realeza do Império Antigo, e os escribas desenvolveram estilos literários que expressam o otimismo e a originalidade do período.[41]

Livres da fidelidade ao faraó, os governantes locais começaram a competir entre si pelo controle territorial e poder político. Por volta de 2 160 a.C., os governantes de Heracleópolis controlavam o Baixo Egito, enquanto um clã rival, baseado em Tebas, a família Intef, assumiu a posse do Alto Egito. À medida que os Intefs cresceram em poder e se expandiram para norte, um confronto entre as duas dinastias rivais tornou-se inevitável. Cerca de 2 055 a.C., as forças de Tebas sob o comando de Mentuhotep II derrotaram finalmente os governantes de Heracleópolis, reunindo as Duas Terras e dando origem a um período de renascimento econômico e cultural conhecido como o Império Médio.[42]

[editar] Império Médio

Os faraós do Império Médio restituiram a prosperidade e estabilidade do país, situação que estimulou um renascimento da arte, literatura e projetos de construção monumental.[43] Mentuhotep II e seus sucessores da XI dinastia governaram a partir de Tebas, mas o vizir Amenemhat I, ao assumir ao trono que deu início início à XII dinastia por volta de 1 985 a.C., mudou a capital do país para a cidade de Itjtawy, localizada em Faium.[44] De Itjtawy, os faraós da XII dinastia comprometeram-se a realizar uma recuperação de áreas degradadas e melhorar o sistema de irrigação para aumentar a produção agrícola na região. Além disso, deu-se a reconquista militar de toda a Núbia, rica em pedreiras e minas de ouro, enquanto trabalhadores construíram uma estrutura defensiva no Delta Oriental, chamada "Muros-do-Rei", para defesa do Egito contra ataques exteriores.[45]

Tendo sido garantida a segurança militar e política, e na presença de uma vasta riqueza agrícola e mineira, a população, a arte e a religião prosperaram significativamente. Em contraste com a atitude elitista do Império Antigo para com os deuses, no Império Médio assistiu-se a um aumento nas manifestações de devoção pessoal, e àquilo que pode ser designado por democratização da vida no além, na qual todas as pessoas possuem uma alma e podem ser recebidas na companhia dos deuses.[46] A literatura do Império Médio abordava temas eruditos e personagens complexos, narrados num estilo confiante e eloquente.[41] A escultura capturou detalhes subtis e distintos que atingiram um novo patamar de perfeição técnica.[47] Todos os governantes do Império Médio erigiram pirâmides.[48]

Durante o Império Médio foi comum os faraós dividirem o trono com seus sucessores, como forma de assegurar a sucessão ainda em vida, mantendo-os como co-faraós.[49] Durante este período foram mantidas relações comerciais com a Fenícia e com Creta e houve expedições comerciais ao reino de Punt.

O último grande governante do Império Médio, Amenemhat III, permitiu colonos asiáticos na região do Delta de modo a ter disponível força de trabalho suficiente para as suas particularmente ativas campanhas de construção e mineração. Estas ambiciosas campanhas, porém, em conjunto com cheias inadequadas do Nilo no seu reinado, fragilizaram a economia e precipitaram um lento declínio no Segundo Período Intermediário durante as posteriores XIII e XIV dinastias. Durante esse declínio, os colonos asiáticos começaram a assumir o controle da região do Delta, acabando eventualmente por alcançar o poder no Egito, como foi o caso dos hicsos.[50]

[editar] Segundo Período Intermediário

Por volta de 1 785 a.C., com o poder dos faraós do Império Médio enfraquecido, os imigrantes asiáticos residentes na cidade de Aváris assumiram o controle da região e forçaram o governo central a se retirar para Tebas, onde o faraó era tratado como um vassalo e era obrigado a pagar tributo.[51] Os hicsos (Heka-khasut, governantes estrangeiros) imitaram o modelo de governo egípcio e se apresentaram como faraós, integrando elementos egípcios na sua cultura da Idade do Bronze Médio.[52]Introduziram também elementos novos na civilização egípcia como o cavalo, os carros de guerra, novos métodos de fiação e tecelagem e novos instrumentos musicais.[49]

Depois da retirada, os reis de Tebas se viram presos entre os hicsos no norte e os aliados núbios dos hicsos, os cuchitas, no sul. Após anos de inatividade, Tebas reuniu força suficiente para desafiar os hicsos em um conflito que duraria mais de 30 anos, até 1 555 a.C.[51] Os faraós Taá II e Kamés acabaram por derrotar os núbios, mas foi o sucessor de Kamés, Ahmés, que empreendeu com sucesso uma série de campanhas que permanentemente erradicaram a presença dos hicsos no Egito. No Império Novo que se seguiu, o poder militar se tornou uma prioridade central para os faraós, que procuraram expandir as fronteiras do Egito e garantir o domínio completo do Oriente Próximo.[53]

[editar] Império Novo

Mapa da extensão territorial máxima do Antigo Egito (século XV a.C.).

Os faraós do Império Novo estabeleceram um período de prosperidade sem precedentes, ao assegurar as fronteiras e reforçar os laços diplomáticos com seus vizinhos. Campanhas militares levadas a cabo sob o comando de Tutmés I e seu neto Tutmés III, alargaram a influência dos faraós para o maior império que o Egito já havia visto.[54] Quando Tutmés morreu em 1 425 a.C., o Egito prolongava-se desde Niya no norte da Síria até à quarta catarata do Nilo, na Núbia, cimentando fidelidades e abrindo caminho para importações essenciais como bronze e madeira.[55] Os faraós do Império Novo iniciaram uma campanha de construção em grande escala para promover o deus Amom, com culto assente em Karnak.[54][49] Também construíram monumentos para glorificar suas próprias realizações, tanto reais como imaginários. A faraó Hatchepsut usou tais meios como propaganda para legitimar sua pretensão ao trono.[56] Seu reinado bem sucedido foi marcado por expedições comerciais em Punt, um elegante templo mortuário, um par de obeliscos colossais e uma capela em Karnak. Apesar de suas realizações, o sobrinho e enteado de Hatchepsut, Tutmés III tentou fazer desaparecer o seu legado perto do fim de seu reinado, possivelmente em represália pela usurpação do seu trono.[57] Sob Tutmés IV (1 397-1 388 a.C.) realizou uma aliança com Mitanni para empreender ataques contra os hititas.[54] Durante Amenófis III foram edificados os templos de Luxor, o palácio de Malaqata e o Templo de Milhões de Anos, do qual atualmente só restam os conhecidos "Colossos de Memnon"; também mandou ampliar o templo de Amon em Karnak.[58] Durante seu reinado, colheitas férteis e excedentes, permitiram a Amenófis III assegurar relações com os reinos orientais assim como os nobres das cidades sírio-palestinas por meio de acordo diplomáticos, alguns dos quais envolvendo casamentos reais. [59] Cerca de 1 350 a.C., a estabilidade do Império Novo foi ameaçada quando Amenófis IV subiu ao trono e instituiu uma série de reformas radicais e caóticas. Após mudar o seu nome para Akhenaton (O Esplendor de Aton), decretou como a divindade suprema o até aí obscuro deus sol Aton, suprimindo o culto de outras divindades e atacando o poder religioso instalado.[60] Mudando a capital para a nova cidade de Akhetaten (Horizonte de Áton, atual Amarna), Akhenaton tornou-se desatento aos negócios estrangeiros, deixando-se absorver pela devoção a Aton e pela sua personalidade de artista e pacifista.[54] Durante seu reinado as relações comerciais com o Mar Egeu (minoicos e micênios) são cortadas e os hititas começam a por em dúvida a soberania egípcia na Síria.[59] Após sua morte, o culto de Aton foi rapidamente abandonado, e os faraós Tutankhamon, Ay e Horemheb apagaram todas as referências à heresia de Akhenaton, agora conhecida como Período Amarna.[61]

As quatro colossais estátuas de Ramsés II na entrada do templo de Abu Simbel.

Sob Seti I, o Egito controlou revoltas e conquistou a cidade de Kadesh e a região vizinha de Amurru, ambas localidades palestinas.[54] Ramsés II, também conhecido como Ramsés, o Grande ascendeu ao trono por volta de 1 279 a.C., prosseguindo a construção de um número significativo de templos, estátuas e obeliscos; além de ter sido o faraó com a maior quantidade de filhos da história.[62] Também transferiu a capital do império de Tebas para Pi-Ramsés no Delta Oriental.[63] Ousado líder militar, Ramsés II comandou o seu exército contra os hititas na Batalha de Kadesh em 1 274 a.C.[63] e depois de um impasse, assinou em 1 258 a.C.[64] o primeiro tratado de paz da história, onde ambas as nações comprometiam-se a se ajudar mutuamente contra inimigos internos ou externos.[54][63] O tratado foi selado com o casamento de Ramsés II e a filha mais velha do imperador Hatusil III.[63]

A riqueza do Egito fez dele um alvo tentador para uma invasão, em especial de líbios e dos chamados povos do mar.[54] No reinado de Merenptah ambos os povos se aliaram com o objetivo de atacar o Egito, incitando também os núbios à revolta. Com a sequente derrota dos invasores, os revoltosos acabariam por ser suplantados.[54] Durante o reinado de Ramsés III o faraó conseguiu expulsar os povos do mar para fora do Egito em duas grandes batalhas, no entanto, eles acabariam por assentar na costa palestina e durante o reinado de seus sucessores tomariam por completo a região.[54]

Entretanto o império não estava enfrentando apenas problemas no exterior. Após a morte de Ramsés II e a subida ao trono de seu filho Merenptah, a instabilidade política assolou o Egito.[54] Diversos golpes de Estado depuseram muitos faraós em pouco tempo e diversos distúrbios civis, corrupção, revoltas de trabalhadores e roubos de túmulos contribuíram para a instabilidade interna.[65] Como forma de ganhar popularidade, durante o início da XX dinastia foram concedidas terras, tesouros e escravos para os sacerdotes dos templos de Amon, o que fortaleceu o poder destes,[65] e esse poder crescente fragmentou o país durante o Terceiro Período Intermediário.[66]

[editar] Terceiro Período Intermediário

Por volta de 730 a.C., líbios vindos do oeste fragmentaram a unidade política do país.

Após a morte de Ramsés XI em 1 070 a.C., Smendes assumiu a autoridade sobre a parte norte do Egito governando a partir da cidade de Tânis.[67] O sul foi de facto controlado pelos sumos sacerdotes de Amon em Tebas, que reconheciam Smendes apenas informalmente.[68] O sacerdote Piankh conseguiu deter a expansão do reino de Cush que havia dominado boa parte do Alto Egito.[67]

Na mesma época, os líbios tinham se instalado no Delta Ocidental, e os líderes destes colonos começaram a ganhar autonomia. Os príncipes líbios assumiram o controle do delta no reinado de Shoshenk I em 945 a.C., fundando a dinastia chamada Líbia ou Bubastilas, que governaria por cerca de 200 anos. Shoshenk também ganhou o controle do sul do Egito, ao colocar os seus familiares em importantes cargos sacerdotais.[67] Invadiu a Palestina durante o reinado do rei Roboão e restaurou o comércio com Biblos, aumentando a prosperidade da dinastia.[67]

Sob Osorkon II, o Egito auxiliando os reinos sírio-palestinos repudiou as primeiras expedições assírias.[67] As muitas guerras civis que se seguiram causaram a divisão do Egito em várias dinastias.[67] O poder líbio entrou em declínio à medida que duas dinastias rivais surgiram., uma centrada em Leontópolis (XIII dinastia) e outra em Saís (XXIV dinastia).[67] No entanto, a constante ameaça cuchita do sul forçou a união das três dinastias com vista à sua defesa.[67] Por volta de 727 a.C., o rei cuchita Pié derrotou um exército de oito mil soldados egípcios, invadindo o norte, tomando o controle de Tebas e do Delta,[69] formando a XXV dinastia.[67]

O prestígio secular do Egito diminuiu consideravelmente durante o final do Terceiro Período Intermediário. Os seus aliados estrangeiros ficaram sob a esfera de influência assíria, e em 700 a.C. a guerra entre os dois estados tornou-se inevitável. O faraó Chabataka empreendeu uma batalha contra os assírios da qual sairia vitorioso.[67] O seu sucessor, Taharka, incentivou revoltas na Palestina assíria, tendo conseguido expulsar os assírios das imediações em 673 a.C..[67] No entanto, entre 671 e 667 a.C., os assírios iniciaram ataques contra o Egito. Os reinados dos reis cuchitas Taharka e do seu sucessor Tanutamon foram marcados por conflitos com os assírios, contra os quais os governantes núbios obtiveram várias vitórias.[70] Por fim, os assírios empurraram os cuchitas para a Núbia, ocupando Mênfis e saqueando os templos de Tebas.[71]

[editar] Época Baixa

Sem planos definitivos de ocupação, os assírios delegaram a administração do Egito numa série de vassalos que se tornariam conhecidos como reis Saite da XVI dinastia. Por volta de 653 a.C., o rei Psamético I logrou expulsar os assírios[72] com ajuda de mercenários gregos, recrutados para formar o que seria a primeira marinha do Egito. A influência grega expandiu-se significativamente à medida que os gregos se concentraram na cidade de Naucratis, no Delta. Os reis Saite, a partir da nova capital em Saís, testemunharam um breve, mas significativo ressurgimento da economia e cultura,[72] mas em 525 a.C., os poderosos persas aquemênidas, liderados por Cambises II, iniciaram uma campanha de conquista do Egito, tendo acabado por capturar o faraó Psamético III[72] na Batalha de Pelusa. Em seguida Cambises II assumiu o título formal de faraó, governando o Egito a partir de Susa, deixando a região sob a administração de um sátrapa. Algumas revoltas bem sucedidas contra os persas marcaram o Egito no século V a.C., mas nunca foram capazes de os derrubar de forma definitiva.

Após a sua anexação pelo Império Aquemênida, o Egito seria aglomerado com o Chipre e com a Fenícia, na sexta satrapia dos persas aquemênidas. Este primeiro período de domínio persa sobre o Egito, também conhecido como XXVII dinastia, terminou em 402 a.C.. De 380 a 343 a.C., a XXX dinastia governou como última casa real nativa do Egito dinástico, que terminaria com o reinado de Nectanebo II. Uma breve restauração do domínio persa, por vezes designada como XXXI dinastia, teve início em 343 a.C., mas pouco depois, em 332 a.C., o governante persa Mazaces entregou sem grande resistência o Egito a Alexandre, o Grande.[73]

[editar] Dinastia Ptolomaica

Em 332 a.C., Alexandre, o Grande conquistou o Egito com pouca resistência dos persas e foi recebido pelos egípcios como um libertador.[74] A administração estabelecida pelos sucessores de Alexandre, os Ptolomeus, foi baseada no modelo egípcio e a capital estabelecida na recém-erguida cidade de Alexandria.[74] A cidade era uma montra do poder e prestígio do governo grego, e tornar-se-ia um pólo de cultura e ensino, centrados na famosa Biblioteca de Alexandria.[75] O Farol de Alexandria iluminou o caminho para os muitos navios que mantinham vivo o comércio com o exterior, uma vez que a economia assente em empresas de grande retorno económico era a mais alta prioridade dos Ptolomeus.[76]

A cultura grega não pretendeu impor-se à cultura egípcia nativa, tendo os Ptolomeus apoiado tradições seculares de forma a garantir a lealdade da população.[74] Foram construídos novos templos em estilo egípcio, apoiadas as formas de culto tradicionais, e os governantes retratavam-se a si mesmo como faraós.[74] Algumas tradições de ambas as culturas foram fundidas, como deuses gregos e egípcios sincretizados em divindades híbridas, como Serápis, e formas clássicas da escultura grega influenciaram motivos tradicionais egípcios. Apesar dos seus esforços para apaziguar os egípcios, os Ptolomeus foram contestados por rebeliões locais, rivalidades entre famílias e pela poderosa máfia de Alexandria, formada depois da morte de Ptolemeu IV.[77] Além disso, à medida que Roma dependia cada vez mais de importações de cereais do Egito, os romanos começaram a demonstrar grande interesse na situação política da região. Revoltas egípcias constantes, políticos ambiciosos e poderosos oponentes sírios contribuíram para a instabilidade da região, levando Roma ao envio de tropas com o objectivo de assegurar o país como província do seu império.[78]

[editar] Domínio romano

Um dos retratos de Fayum, uma das tentativas de unir as culturas egípcia e romana.

O Egito tornou-se uma província romana em 30 a.C., após a derrota de Marco Aurélio e da rainha Ptolomaica Cleópatra VII por Otaviano (posteriormente Imperador Augusto) na Batalha de Actium.[74] Os romanos dependiam fortemente das remessas de cereais do Egito, e o exército romano, sob o comando de um prefeito nomeado pelo imperador, reprimiu revoltas, fez aplicar a cobrança de impostos, e impediu os ataques de salteadores, que se tinham tornado um problema significativo durante este período.[79] Alexandria torna-se um centro cada vez mais importante na rota de comércio com o Oriente, uma vez que em Roma havia grande procura de mercadorias e bens exóticos e de luxo.[80]

Embora os romanos tivessem uma atitude mais hostil do que os gregos para com os egípcios, algumas tradições foram mantidas, como a mumificação e o culto dos deuses tradicionais.[81] A arte de retratar as múmias floresceu e alguns dos imperadores romanos se fizeram retratar como faraós, embora não na medida dos Ptolomeus, já que os primeiros moravam fora do Egito e não desempenharam funções cerimoniais da realeza egípcia. A administração local tornou-se romana o que tendeu a minar a liberdade dos nativos egípcios.[81]

A partir de meados do séculoI d.C., o cristianismo se enraizou em Alexandria, sendo visto e aceito como outro culto. No entanto, o fato de ser uma religião inflexível e proselitista, que procurava converter pessoas do paganismo, ameaçando com isso as tradições religiosas populares, levou à perseguição dos convertidos ao cristianismo, que culminou com o grande expurgo de Diocleciano a partir de 303. Apesar disso, o cristianismo acabou por triunfar.[82] Em 391 o imperador cristão Teodósio I introduziu uma legislação que proibiu ritos pagãos e os templos foram fechados.[83] Alexandria tornou-se palco de grandes protestos antipagãos, com imagens públicas e privadas destruídas.[84] Como consequência, a cultura do Egito pagão entrou em declínio. Enquanto a população nativa continuou a usar a sua língua, a capacidade de ler e escrever hieróglifos, na medida em que o papel dos sacerdotes tornou-se exímio, acabou por retroceder. Os templos eram por vezes convertidos em igrejas ou abandonados ao leu.[85]

[editar] Geografia

A civilização egípcia se desenvolveu na região situada entre a primeira catarata do Nilo (Assuão) e o Delta do Nilo.[86] O Sinai, que durante este período não pertenceu ao Egito até sua conquista no Império Novo, foi utilizado como rota de comunicação para o corredor sírio-palestino que a rigor, seria a faixa de terra litorânea que liga o Egito à Mesopotâmia.[86] A oeste do Nilo encontra-se o Deserto Oriental Africano (comumente conhecido como Deserto Oriental) que estende-se até ao Mar Vermelho e a leste fica o Deserto da Líbia (comumente conhecido como Deserto Ocidental)[86] onde existem vários oásis dos quais se destacam o de Siuá, Kharga, Farafra, Dakhla e Bahareia. Ao sul da primeira catarata se localizava a Núbia.[86]

O atual território do Egito não pode ser comparada ao do Antigo Egito, pois, atualmente, o Sinai, e partes dos desertos Oriental e Ocidental estão dentro dos limites do Egito.[86][87] O Rio Nilo é formado por dois afluentes principais, o Nilo Branco (que nasce no Lago Vitória) e o Nilo Azul (que nasce no Lago Tana). Ambos os afluentes unem-se em Cartum.[88] O Nilo corre de sul para norte, desaguando no Mar Mediterrâneo, numa extensão de aproximadamente 6 740 km.[11]

[editar] Vale do rio Nilo

Segundo o historiador grego Heródoto (c. 484?-420 a.C.), o Egito é uma dádiva do Nilo.[86][89] As chuvas sazonais causavam enchentes que depositavam húmus nas margens favorecendo a agricultura e pecuária; também fornecia água fresca, peixes, aves aquáticas além de servir para o transporte e comércio.[86][90][91][92] Como o nível do rio era inconstante os egípcios desenvolveram diques, barragens e canais de água para melhor aproveitarem as águas do rio,[86][90] e desenvolveram o "nilômetro", uma construção usada para medir as enchentes.[92]

Com a obervação dos astros e enchentes, os egípcios desenvolveram um calendário,[90] onde o primeiro dia do ano é o primeiro dia das cheias.[88] O ano era dividido em três períodos de quatro meses: inundações (Julho a Outubro), plantio (Novembro a Fevereiro) e colheita (Março a Junho).[93] Durante o período das enchentes os cidadãos eram deslocados para as cidades para trabalharem em outras tarefas.[86]

Para os egípcios, o Nilo era uma verdadeira bênção dos deuses,[90] sendo considerado sagrado e adorado como um deus,[91], ao qual dedicavam hinos e orações.[92]

[editar] Embarcações no rio Nilo

Embarcação egípcia retratada no Túmulo de Menna.

O meio mais fácil e mais rápido de viajar e transportar cargas pesadas era através de embarcações de diversos tamanhos.[94] Quando se tornava necessário efectuar uma viagem, os egípcios pensavam imediatamente em barcos.[94] Os navios possuiam remos presos a proa.[86] Os návios utilizados para transporte de cargas pesadas foram construídos com madeira do Líbano.[86] As embarcações para transporte, caça e pesca eram feitas de junco.[86] As barcaças elegantes fabricadas para o rei e para os nobres ou para transportar estátuas de deuses eram pintadas com cores alegres e enfeitadas com ouro. Tinham cabines confortáveis e velas de cores berrantes.

O Nilo corre de sul para norte, mas o vento sopra, geralmente, no Egito, de norte para sul. Portanto, um viajante que navegasse para norte, teria a corrente a seu favor. Na viagem de regresso, o vento ajudá-lo-ia, de modo que poderia utilizar as velas. Mas, se o vento parasse, ver-se-ia em dificuldades para remar contra a corrente.

[editar] O Alto Egito e o Baixo Egito

No Antigo Egito distinguiam-se duas grandes regiões: o Alto Egito e o Baixo Egito.[86] Inicialmente o Alto e Baixo Egito eram reinos distintos que haviam se formado em torno de 3 300 a.C. No entanto, acabaram por ser unificados poucos séculos depois. O Alto Egito (Ta-chemau) era a estreita faixa de terra com cerca de 900 km de extensão começando em Assuão e terminando em Mênfis.[86] O Baixo Egito (Ta-mehu) foi o Delta do Nilo, a norte de Mênfis, onde o rio se dividia em vários braços.[86] Por vezes também se distingue na geografia egípcia uma região conhecida como o Médio Egito, que é o território a norte de Qena até à região do Faium.

[editar] Demografia

Os antigos egípcios foram o resultado de uma mistura das várias populações que se fixaram no Egito ao longo dos tempos, oriundas do nordeste africano, da África Negra e da área semítica.[95]

Representação do povo hebreu no Antigo Egito por Edward Poynter (1867).

A questão relativa à etnia dos antigos egípcios é por vezes geradora de controvérsia, embora à luz dos últimos conhecimentos da ciência falar de raças humanas revela-se um anacronismo. Até meados do século XX, por influência de uma visão eurocêntrica, os antigos egípcios eram considerados praticamente como brancos; a partir dos anos 1950, as teorias do "afro-centrismo", segundo as quais os egípcios eram negros, afirmaram-se em alguns círculos. Importa também referir que as representações artísticas são frequentemente idealizações que não permitem retirar conclusões neste domínio.[95]

Os egípcios tinham consciência da sua alteridade: nas representações artísticas dos túmulos os habitantes do Vale do Nilo surgem com roupas de linho branco, enquanto que os seus vizinhos líbios e semitas se apresentam com roupas de .

A língua dos egípcios (hoje uma língua morta) é um ramo da família das línguas afro-asiáticas (camito-semíticas). Esta língua é conhecida graças à descoberta e decifração da Pedra de Roseta, onde se encontra inscrito um decreto de Ptolomeu V Epifânio (205-180 a.C.) em duas línguas (egípcio e grego clássico) e em três escritas (caracteres hieroglíficos, escrita demótica e alfabeto grego). Em 1822 o francês Jean-François Champollion decifrou a escrita hieroglífica e a demótica que se encontravam na pedra, permitindo assim o acesso aos textos do Antigo Egito e o começo da Egiptologia.[96]

O número de habitantes do Antigo Egito oscilou. Durante o período pré-dinástico (4500-3 000 a.C.) a população rondaria as centenas de milhares; durante o Império Antigo (séculos XVII a XII a.C.) situar-se-ia nos dois milhões, atingindo os quatro milhões por altura do Império Novo. Quando o Egito se tornou uma província romana a população deveria ser cerca de sete milhões. Esta população habitava as terras agrícolas situadas nas margens do Nilo, sendo escassas as populações que viviam no deserto. Ao contrário das civilizações da Mesopotâmia, o Antigo Egito não desenvolveu uma rede urbana importante.[carece de fontes?]

[editar] Governo

O faraó era geralmente representado usando símbolos da realeza e de poder.

[editar] Administração

O faraó era o monarca absoluto do país e, pelo menos em teoria, exercia o controle total da terra e seus recursos.[97] O rei era o comandante militar supremo e chefe do governo, que contava com uma burocracia de funcionários para gerenciar seus negócios. O encarregado da administração era o segundo no comando, o vizir (tjati), que atuava como conselheiro, representante e coordenava os levantamentos fundiários, tesouraria, projetos de construção, sistema legal e depósitos de documentos.[98] Ao nível regional, o país estava dividido em 42 regiões administrativas chamadas nomos, cada uma governada por um nomarca,[99] que era responsável pela jurisdição do vizir. Os templos formavam a espinha dorsal da economia. Eles não só eram edifícios de culto, mas também eram responsáveis por coletar e armazenar a riqueza da nação em um sistema de celeiros e tesourarias administradas por superintendentes, que redistribuíram os cereais e os bens.[100] Como não era possível para o faraó estar em todos os templos para realizar as cerimônias, ele delegava o seu poder religioso aos sacerdotes, que conduziam as cerimônias em seu nome.[101]

[editar] Sistema jurídico

Estátua de um escriba sentado (IV dinastia, c, 2 620-2 500 a.C.)

A cabeça do sistema jurídico era oficialmente o faraó, que era responsável pela promulgação de leis, aplicação da justiça e manutenção da lei e da ordem, um conceito que os egípcios antigos denominavam Ma'at.[98] Apesar de não terem chegado aos nossos dias quaisquer códigos legais do Antigo Egito, documentos da corte mostram que as leis egípcias foram baseadas em uma visão de censo comum de certo e errado, que enfatizou a celebração de acordos e resoluções de conflitos ao invés de cumprir rigorosamente um conjunto complicado de estatutos.[102] Conselhos locais de anciãos, conhecidos como Kenbet no Império Novo, eram responsáveis pela decisão em casos judiciais de pequenas causas e disputas menores.[98] Os casos mais graves envolvendo assassinato, transações de terrenos grandes e roubo de túmulos eram encaminhados para o Grande Kenbet, sobre o qual o vizir ou o faraó presidiu. Os demandantes e demandados representavam-se a si próprios e eram obrigados a jurar que eles tinham dito a verdade. Em alguns casos, o Estado assumiu tanto o papel de acusador como o de juiz, e tinha poder para torturar os acusados com espancamento para obter uma confissão e os nomes dos co-conspiradores. Se as acusações fossem sérias, escribas da corte documentavam a denúncia, testemunhavam, e o veredicto do caso era guardado para referência futura.[103]

As punições para crimes menores envolviam imposição de multas, espancamentos, mutilações faciais ou exílio, dependendo da gravidade do delito. Crimes graves, como homicídio e roubo de túmulos, eram punidos com execução, decapitação, afogamento ou empalamento do criminoso em uma estaca. A punição também podia ser estendida à família do criminoso.[98] A partir do Império Novo, os oráculos desempenharam um papel importante no sistema jurídico, dispensando a justiça nos processos civis e criminais. O processo consistia em pedir a Deus um "sim" ou "não" sobre o que era certo ou errado num problema. O deus, transportado por um número de sacerdotes, proferia a sentença, escolhendo um ou outro, movendo-se para a frente ou para trás, ou apontando para uma das respostas escritas em um pedaço de papiro ou de óstraco.[104]

[editar] Força militar

Uma biga egípcia.

O exército egípcio antigo foi responsável pela defesa do Egito contra invasões estrangeiras, e a manutenção da dominação egípcia no Antigo Oriente Próximo. O exército e a marinha egípcias eram complementares, onde os navios transportavam as tropas e os oficiais exerciam funções militares e navais.[105] Os exércitos empreenderam expedições militares no Sinai para proteção das minas locais durante o Império Antigo[106] e lutaram em guerras civis durante o Primeiro e Segundo Períodos Intermediários. Os militares foram importantes para a manutenção de fortificações ao longo de rotas comerciais importantes,[105] tais como as encontradas na cidade de Buhen no caminho para a Núbia. Também foram construídos fortes nas fronteiras com guarnições de 50 a 100 homens, para servir como bases militares,[105] tais como a fortaleza de Sile, a qual foi uma base de operações para expedições no Levante. No Império Novo, uma série de faraós usaram o exército egípcio para atacar e conquistar Cuche e partes do Levante.[107] Há informações que alegam que houve a prática de espionagem entre os exércitos egípcios.[108]

Os equipamentos militares típicos incluíram arcos e flechas de sílex, machados, bastões, lanças de cobre e escudos redondos feitos por estiramento de pele de animais sobre uma armação de madeira.[105] No Império Novo, os militares começaram a usar bigas e cavalos que haviam sido introduzidos pelos invasores hicsos durante o Segundo Período Intermediário.[105] As armas e armaduras continuaram a melhorar com a introdução do bronze: os escudos eram agora feitos de madeira sólida com uma fivela de bronze, lanças receberam pontas de bronze e o khopesh, uma espécie de espada com a extremidade curva, foi adotado a partir de modelos asiáticos.[109] O faraó foi geralmente representado na arte e na literatura andando à frente do exército e há evidências de que pelo menos alguns faraós, como Taá II e seus filhos, o fizeram.[110]

Os soldados eram recrutados entre a população em geral, mas durante e principalmente depois do Império Novo, os mercenários da Núbia, Cuche e Líbia foram contratados para lutar para o Egito.[111] Prisioneiros de guerra também foram incorporados ao exército egípcio.[105] Por volta do Império Novo os exércitos eram divididos em unidades táticas autônomas de 5 a 6 mil homens.[105]

No deserto havia patrulheiros que vigiavam as fronteiras e defendiam o império de expedições de nômades.[112] No Delta e no Vale do Nilo havia guardas rurais que defendiam os cobradores de impostos.[112] No Império Novo havia os medjayu, de origem núbia, eram patrulheiros do deserto, policiais das cidades e necrópoles, além de aplicadores das decisões da justiça.[112]

[editar] Economia

A economia do Antigo Egito era baseada na agricultura,[92] no entanto outras atividades como pecuária, caça, pesca, artesanato, comércio e extração mineral também foram importantes.

[editar] Agricultura

Pintura mural de um túmulo retratando trabalhadores arando os campos, a colheita das culturas e a debulha de cereais sob a direção de um supervisor.

Uma combinação de características geográficas favoráveis contribuiu para o sucesso da cultura egípcia, a mais importante das quais era o solo fértil resultante de enchentes anuais do Nilo. Os antigos egípcios foram, assim, capazes de produzir alimentos em abundância, permitindo que a população dedicasse mais tempo e recursos a atividades culturais, tecnológicas e artísticas. A gestão da terra foi crucial no Antigo Egito, porque os impostos foram avaliados com base na quantidade de terras em posse de uma pessoa.[113] Em teoria todas as terras pertenciam ao rei, mas a propriedade privada foi uma realidade.

A agricultura no Egito foi dependente do ciclo do Rio Nilo. Os egípcios reconheceram três estações: Akhet (inundação), Peret (plantio) e Shemu (colheita).[93] A estação chuvosa dura de julho a outubro, depositando nas margens do Nilo uma camada de lodo rico em minerais para o cultivo.[90] Após a redução do nível do rio, a estação de plantio ia de novembro a fevereiro. Agricultores aravam a terra com arados puxados por bois e plantavam as sementes, que eram irrigadas por intermédio de sistemas de diques e canais.[86][90] O Egito recebia pouca chuva, pelo que os agricultores se baseavam no Nilo para regar as culturas.[114] De março a junho, os agricultores usavam foices para suas colheitas, que eram depois debulhadas com um mangual ou com as patas dos bois para separar a palha do grão. Os grãos eram usados para fabricar cerveja ou armazenados em sacas nos celeiros reais para posterior distribuição..[115]

Os antigos egípcios cultivaram trigo e cevada e vários outros cereais, todos usados para produção de pão, biscoitos, bolos e cerveja.[116][117] O linho, arrancado antes da floração, foi cultivado para extração da fibra de seu caule. Estas fibras eram divididas juntas e eram usadas para tecer lençóis de linho e para fazer roupa. O papiro que cresce nas margens do Nilo era usado para fazer papel.[118] Legumes e frutas foram cultivadas em hortas perto das casas em solo elevado, e tiveram de ser regadas com a mão. Uvas foram transformadas em vinho.[119] Ainda foram plantados algodão, favas, alface, grão-de-bico, azeitonas, gergelim, pepinos, jujubas, alfarrobas, cebolas, alho-poró, tomilhos, maças, papoulas, alecrim, orégano, mirto, figos, tâmaras, lentilhas, feijão, melancias, melões, romã, laranjas, bananas, limões, pêssegos etc.[116][120]

Assim era praticada a horticultura, sendo produzidos alho, cebola, pepino, alface e outras verduras e legumes; também eram plantadas árvores frutíferas e videiras. (...) O Egito era um dos "formigueiros humanos" do mundo antigo, em virtude da sua extraordinária fertilidade renovada anualmente pelos aluviões [cheias] do Nilo. Sendo a vida agrícola inteiramente dependente da inundação, quando esta faltava ou era insuficiente ocorria a fome - apesar das reservas acumuladas pelo Estado - e morriam milhares de pessoas. Temos muitos documentos escritos (e às vezes pictóricos) que se referem a tais épocas calamitosas. Numa delas, (...) segundo parece, houve casos de canibalismo. -Ciro Flamarion S. Cardoso. O Egito Antigo. São Paulo, Brasiliense, 1986.[121]

[editar] Criação animal

Detalhe de pintura mural no túmulo do funcionário Sennedjem (XIX dinastia), c. 1 200 a.C.

Os egípcios acreditavam que uma relação equilibrada entre pessoas e animais era um elemento essencial da ordem cósmica e que por conseguinte os animais e plantas eram membros de um todo.[122] Animais, tanto domésticos como selvagens, foram, portanto, uma fonte essencial de espiritualidade, companheirismo, e sustento. Os bovinos foram os animais mais importantes; a administração coletava impostos sobre o gado nos censos regulares, e o tamanho de um rebanho refletia o prestígio e a importância da propriedade ou do templo que o possuía. Além do gado, os antigos egípcios apascentavam caprinos, ovinos e suínos. Aves como patos, gansos e pombos eram capturados em redes e criados em fazendas, onde eram alimentados à força com massa para engordá-los.[123] As abelhas também foram domesticadas, pelo menos desde o Império Antigo, e forneciam tanto mel como cera.[124] Também foram domesticados hienas e guepardos para a caça.[125]

Os egípcios usavam burros e bois como animais de carga, e foram responsáveis por lavrar os campos e debulhar as sementes do solo. O abate de um boi gordo, era também uma parte central de um ritual de oferenda.[123] Os cavalos foram introduzidos pelos hicsos no Segundo Período Intermediário, e o camelo, apesar de ser conhecido a partir do Império Novo, não foi usado como um animal de carga até à Época Baixa. Há também evidências que sugerem que os elefantes foram brevemente utilizados na Época Baixa, mas praticamente foram abandonados devido à falta de pastagens.[123] Cães, gatos e macacos eram animais comuns de estimação, enquanto animais de estimação mais exóticos importados a partir do coração da África, como leões, estavam reservados para a realeza. Heródoto observou que os egípcios foram os únicos a manter seus animais com eles em suas casas.[122] Durante o período pré-dinástico e nos períodos posteriores, o culto dos deuses em sua forma animal era extremamente popular, como a deusa gato Bastet e o deus íbis Thoth, e esse animais foram criados em grande número nas fazendas a fim de serem sacrificados.[126]

Os egípcios foram muito ativos nas suas tentativas de domesticação de animais (...). Chegavam a experimentar hienas, antílopes, gruas e pelicanos! O gado maior - bois, asnos, (...) - servia em primeiro lugar para puxar o arado, para separar os grãos da palha e para o transporte. O cavalo era usado para puxar carros, e não montado. Vacas e bois eram usados também para a alimentação (carne, leite) e sacrificados aos deuses. (...) O gado menor compreendia ovelhas, cabras e porcos. (...) -Ciro Flamarion S. Cardoso. O Egito Antigo. São Paulo, Brasiliense, 1986.[121]

[editar] Caça e pesca

Os egípcios caçavam lebres, antílopes, hipopótamos e crocodilos.[116] O Nilo proporcionou uma fonte abundante de peixes, onde eles pescavam carpa, pescada e tilápia.[116]

A agricultura e a criação eram complementadas pela pesca (...), praticada no Nilo, nos pântanos e nos canais com rede, anzol, nassa e arpão. Boa parte dos peixes era secado ao sol. Também a caça era praticada no deserto e nos pântanos, usando-se para tal o cão, o arco e o laço, e capturando-se aves selvagens com redes. -Ciro Flamarion S. Cardoso. O Egito Antigo. São Paulo, Brasiliense, 1986.[121]

[editar] Artesanato

Joias, tecidos, móveis, armas, perfumes, objetos decorativos, estátuas votivas e reais, objetos de uso doméstico, etc. são alguns dos exemplos de produtos fabricados.[127][128] As matérias-primas empregadas foram argila, pedras, marfim, madeira e metais.[105]

A atividade artesanal desenvolvia-se, em primeiro lugar, em função das matérias-primas fornecidas pelo rio e pelas atividades agrícolas e de coleta: fabricação de tijolos e de vasilhame com argila úmida do Nilo, recolhida logo depois da inundação; fabricação de pão e da cerveja de cereais; produção de vinho de uva e de tâmara; fiação e tecelagem do linho; indústrias de couro; utilização do papiro e da madeira para produções diversas (material para escrever, cordas, redes, embarcações, móveis, portas etc).
(...) O artesanato egípcio organizava-se em dois níveis. Nas proximidades rurais e nas aldeias existiam oficinas que produziam tecidos grosseiros, vasilhas utilitárias, tijolos, artigos de couro, produtos alimentícios (pão, cerveja) etc. Já o artesanato de luxo, de alta especialização e qualidade excepcional - ourivesaria, metalurgia, fabricação de vasos de pedra dura ou alabastro, faiança, móveis, tecidos finos, barcos, pintura e escultura etc., concentrava-se em oficinas mais importantes, pertencentes aos reis e aos templos. (...) -Ciro Flamarion S. Cardoso. O Egito Antigo. São Paulo, Brasiliense, 1986.[121]

[editar] Mineração

O Egito é rico em pedras de decoração e construção, cobre e minérios de chumbo, ouro e pedras semipreciosas. Estes recursos naturais permitiram aos egípcios construir monumentos, esculpir estátuas, fazer ferramentas e joias.[129] Os embalsamadores utilizavam sais de Wadi El Natrun (natrão) para mumificação, que também proporcionou a gipsita necessária para fazer gesso.[130] Formações rochosas de minérios foram encontradas a distância, em barrancos inóspitos do Deserto Oriental e no Sinai, exigindo grandes expedições controladas pelo Estado para obter os recursos naturais ali encontrados. Havia extensas minas de ouro na Núbia, e um dos primeiros mapas conhecidos é de uma mina de ouro na região. Wadi Hammamat foi uma notável fonte de granito, grauvaque e ouro. Sílex foi o primeiro mineral coletado e usado para fazer ferramentas e machadinhas de pedra e as primeiras evidências de habitação no Vale do Nilo. Nódulos do mineral eram cuidadosamente lascados para fazer lâminas e pontas de flechas, mesmo depois do cobre ser usado para essa finalidade.[131]

Os egípcios trabalharam em depósitos de minério de chumbo e galena em Gebel Rosas para fazer chumbo líquido, prumo e pequenas figuras. O cobre foi o material mais importante para a fabricação de ferramentas no Antigo Egito e foi fundido em fornos de minério de malaquita e turquesa extraída do Sinai.[132] Trabalhadores coletaram através da lavagem de ouro, pepitas de sedimentos em depósitos aluviais, ou pelo processo mais trabalhoso de moagem e lavagem de quartzito de ouro. Depósitos de ferro encontrados no norte do Egito, foram utilizados na Época Baixa.[133] Pedras de construção de alta qualidade eram abundantes no Egito; os antigos egípcios conseguiram calcário ao longo do Vale do Nilo, granito de Assuão, basalto e arenito dos barrancos do Deserto Oriental. Depósitos de pedras decorativas, tais como pórfiro, quartzo, feldspato verde, ágata, grauvaque, alabastro e cornalina pontilhada dos desertos oriental e ocidental foram coletadas antes mesmo da primeira dinastia. Nos período ptolomaico e romano, os mineiros trabalharam em jazidas de esmeraldas de Wadi Sikait e ametista em Wadi el-Hudi.[134]

[editar] Comércio

Expedição comercial ao Reino de Punt.

Grande parte da economia estava organizada a nível central estritamente controlado. Embora os antigos egípcios não utilizassem moedas até a Época Baixa, eles fizeram uso de um sistema de troca monetária,[135] com sacas de grãos como o valor padrão e o deben, um peso de cerca de 91 gramas (3 oz) de cobre ou prata, formando um denominador comum.[136] Os trabalhadores foram pagos com grãos; um simples operário podia ganhar 5½ sacas (250 kg ou 400 lb) de grãos por mês, enquanto um capataz podia ganhar 7½ sacas (250 kg ou 550 lb). Os preços foram fixados em todo o país e registrados em listas para facilitar a negociação; por exemplo, uma camisa custa cinco deben de cobre, enquanto uma vaca custa 140 deben.[136] Grãos podiam ser trocados por outras mercadorias, de acordo com a lista de preço fixo.[136] Durante o século V a.C. o dinheiro foi introduzido no Egito por estrangeiros. As primeiras moedas eram usadas como peças padronizadas de metais preciosos e não como dinheiro propriamente dito, mas nos séculos seguintes trocas internacionais passaram a depender das moedas.[137]

Os antigos egípcios estiveram envolvidos no comércio com os povos vizinhos para obter mercadorias raras e exóticas não encontradas no Egito. No período pré-dinástico, estabeleceram o comércio com a Núbia para a obtenção de ouro, plumas de avestruz, peles de leopardo, incenso e marfim.[138] Eles também estabeleceram o comércio com a Palestina, como evidenciado por jarros de óleos de estilo palestino encontrados nas sepulturas dos faraós da primeira dinastia.[139] Uma colônia egípcia fundada no sul de Canaã data para pouco antes da primeira dinastia.[140] Narmer havia produzido cerâmica egípcia em Canaã e exportou de volta para o Egito.[141]

Em meados da segunda dinastia, o comércio do Antigo Egito com Biblos rendeu um intenso comércio de madeira de boa qualidade não encontrada no Egito. Pela quinta dinastia, o comércio com Punt abasteceu o Egito com ouro, resinas aromáticas, ébano, marfim e animais silvestres, como macacos e babuínos.[142] O Egito realizou comércio com a Anatólia para adquirir quantidades essenciais de estanho bem como para o fornecimento suplementar de cobre, dois metais que são necessários para a fabricação de bronze. Os antigos egípcios valorizaram a pedra azul lápis-lazúli, que tinha de ser importada do Afeganistão. Os parceiros do Egito no comércio Mediterrâneo também incluem Creta e a Grécia, que forneciam, entre outras mercadorias, suprimentos de azeite.[143] Em troca de suas importações de luxo e de matérias-primas, o Egito exportava principalmente grãos, ouro, linho e papiro, além de outros produtos acabados, incluindo objetos de vidro e pedra.[144]

[editar] Sociedade

A sociedade egípcia antiga apresentava uma estrutura fortemente hierarquizada, formando uma pirâmide social.[145][146]

[editar] Hierarquia social

O faraó representava a própria vida do Egito, sendo o top da hierarquia da nação. Era o deus vivo, adorado e reverenciado. Na foto estátua de Tutmés III, no Museu Egípcio do Cairo.

No topo estava o faraó, considerado um deus vivo.[116][145] Tinha poderes absolutos, tomando decisões militares, religiosas, econômicas e judiciais,[147] e era dono de todas as terras.[145][148] Em períodos de cheia o faraó ordenava que a população exercesse outras funções como, por exemplo, a construção de obras públicas.[92]

O faraó vivo era encarado como uma personificação do deus Hórus, enquanto que o faraó morto que o tinha antecedido era associado a Osíris, pai de Hórus, independentemente de existir uma relação familiar entre soberanos.[116] A partir da V dinastia os reis apresentam-se também como filhos de , o deus solar. Os faraós possuia várias insígnias: o pschent (a união das coroas do Alto e Baixo Egito), os cetros crossa e fragelo, o nemés (ornamento para cabeça decorado com uma cobra [Baixo Egito] e um abutre [Alto Egito]) e a barba postiça.[148] O faraó poderia ser simbolicamente representado como uma esfinge, e era associado a animais como a pantera, o leão e o boi.

Os faraós tinham muitas mulheres e filhos.[148] Sua mulher principal, denominada hemet nesut, "esposa do rei", podia ser sua irmã ou uma de suas filhas.[148]

A palavra faraó, vinda do egípcio per aâ, significa "Casa Grande".[148] Tornou-se o nome oficial dos líderes do Egito apenas durante a XVIII dinastia, pois, até este momento, habitualmente os líderes referiam-se a si mesmos como nesu (rei) ou neb (senhor). A partir da V dinastia a titulatura dos reis incluía cinco nomes reais: nome de Hórus, nome das Duas Mestras, nome de Hórus de Ouro, prenome e nome.[148]

Abaixo do faraó a população foi divida em duas classes: dominantes e dominados.

[editar] Dominantes

Eram conhecidos como "classe do saiote branco", em referência ao vestário de linho decorado que serviu como uma marca de sua categoria.[149]

  • Vizires: controlavam o arrecadamento de impostos, fiscalizavam as construções, as obras públicas, os celeiros reais, participavam do alto tribunal de justiça e chefiavam a polícia e as tropas.[147][150]
  • Sacerdotes: administravam os templos, cultos e as festas religiosas, eram conselheiros dos faraós e gozavam de terras, isenção de impostos e prestígio.[145][147]
  • Escribas: cobravam impostos, organizavam as leis e a escrita, determinavam o valor das terras, copiavam poemas, hinos e histórias, escreviam cartas, realizavam censos populacionais e calculavam os estoques de alimentos, produção agrícola, tamanho de terras aráveis, atividades comerciais, de soldados, necessidades do palácio, etc.[145][148][147][150] Havia escola de escribas.[148]
  • Grandes comerciantes: dominavam o comércio externo.[150]

[editar] Dominados

Escravo apanhando.
  • Soldados: recebiam produtos por serviços prestados e tomavam espólios de saques; não atingiam altos postos no exército.[145]
  • Artesãos: eram pintores, couristas, barbeiros, tecelões, cozinheiros, barqueiros, ceramistas, mercenários, escultores, joalheiros, ferreiros, desenhistas, pedreiros, ourives, carpinteiros, etc.[145][150] Trabalhavam especialmente para os reis, para nobreza e para os templos.[145] Recebiam alimentos e matéria-prima.[147]
  • Pequenos comerciantes: vendiam produtos nos mercados das cidades.[150]
  • Camponeses: ou félas formavam a maior parte da população e eram agricultores, pecuaristas e pescadores.[145][146][147] Mesmo sendo eles os produtores, os produtos agrícolas foram propriedade direta do Estado, dos templos ou da família nobre que possuía a terra.[151] Os camponeses também foram sujeitos a um imposto sobre o trabalho e foram obrigados a trabalhar na construção de obras públicas e limpeza de canais de água em um sistema similar a corveia medieval.[152] Também eram obrigados a trabalhar nos transportes e, às vezes, no exército.[145][146][147] Recebiam parte das colheitas.[153]
  • Escravos: cativos ou condenados da justiça, trabalhavam em atividades domésticas, públicas ou religiosas.[150][154] Gozavam de direitos civís e aprendiam a escrita egípcia.[146][155] Atualmente, no entanto, não existe conclusões acerca de quanto os escravos foram importantes para o Estado egípcio.[156] Em egípcio, escravo significa hemu e/ou baku.[155]

[editar] Mulheres

Os antigos egípcios viam homens e mulheres, incluindo as pessoas de todas as classes sociais, exceto os escravos, como essencialmente iguais perante a lei, e até mesmo o mais humilde camponês tinha direito de petição ao vizir e sua corte para reparação.[102] Tanto homens quanto mulheres tiveram o direito de possuir e vender imóveis, fazer contratos, casar e divorciar, receber herança, e prosseguir litígios em tribunal. Os casais podiam possuir bens em conjunto e protegerem-se de com contratos de casamento em caso de divórcio, que estipulavam as obrigações financeiras do marido para com a esposa e com as crianças ao final do casamento. As mulheres egípcias tinham uma maior gama de escolhas pessoais e oportunidades de realização. Podiam ser da realeza, trabalhar no palácio como amas-de-leite, concubinas ou escançãs (servidoras de vinho do faraó) e nos templos, desde cantoras à sacerdotisas.[157] Outras exerciam poderes divinos como esposas de Amon. Apesar destas liberdades, as mulheres egípcias antigas, muitas vezes não participavam em papéis oficiais da administração, servindo apenas em papéis secundários nas têmporas, e não foram tão susceptíveis de serem tão educadas quanto os homens.[102]

Quando o marido falecia, as mulheres assumiam a chefia familiar e, no caso dos faraós, o Estado.[157] Mulheres, como Hatshepsut e Cleópatra chegaram a tornar-se faraós. As mulheres podiam receber herança paterna.[157] Normalmente, o filho mais velho assumia o trono faraônico após a morte de seu pai, no entanto, quando só havia filhas como sucessoras ao trono, a mais velha deveria casar para seu marido assumir o trono.[157]

Representações pictóricas de mulheres com a cor amarela, indica, entre outras coisas, uma menor exposição ao sol do que o vermelho dos homens e, por isso, uma existência mais fechada. É possível que não fosse seguro às mulheres aventurarem-se a sair. Ramsés III, em um texto, afirma: "Tornei possível à mulher egípcia seguir o seu caminho, podendo as suas viagens prolongar-se até onde ela quiser, sem que qualquer outra pessoa a assalte na estrada".

Seja como for, (...) a mulher egípcia era sui juris, podendo dispor livremente de seus bens, intentar processos na justiça, tomar a iniciativa do divórcio tanto quanto o homem, desempenhar um papel ativo em diversas atividades produtivas, de serviços e eventualmente de gestão, emfim ir e vir com ampla liberdade. Havia, sem dúvida, certas limitações. Assim, por exemplo, se no século III a.C. achamos mulheres que desempenham funções administrativas ou sacerdotais das quais dependem bens e pessoas pertencentes ao palácio e aos templos, isto diminui muito nos períodos posteriores. Mesmo para o Império Antigo, a presença de mulheres naquelas funções sempre foi quantativamente muito inferior à dos homens. Em outras palavras, a direção da vida pública sempre esteve maciçamente em mãos masculinas; e tal tendência se fortaleceu com o tempo.
Na vida privada, porém, em termos gerais, mantiveram-se os amplos direitos da mulher: igual participação na herança paterna e materna, controle sobre os seus bens pessoais (mesmo quando geridos pelo marido, situação bastante corrente) etc. É certo, entretanto, que a mulher era encarada como tendo uma vocação essencialmente doméstica (...) ligada seja à administração da casa (...), seja à realização de tarefas no seu âmbito: fabricação de pão e cerveja, manufatura de fios e tecidos. (...) Com maior frequência, era o homem que intervinha em transações e, em geral, na gestão do patrimônio familiar, embora a intervenção direta da mulher fosse considerada algo normal em muitos casos, por exemplo, ao estar ausente o marido, ou na sua incapacidade, ou ainda durante a viuvez, sendo os filhos menores. - Ciro Flamarion Cardoso Algumas visões da mulher na literatura do Egito faraônico (II milênio a.C.). Citado em: História. São Paulo: UNESP, 1993, v. 12. p. 103-5.[88]

[editar] Família

A sociedade egípcia era patriarcal, com o homem administrando o lar, com participação da mulher, e decidindo os herdeiros de seu testamento.[158] Os anciãos eram consutados e honrados após a morte.[158]

[editar] Casamento

Um casal com o seu filho (IV Dinastia).

O casamento era monogâmico e não era sancionado pela religião. Não existia uma cerimônia de casamento, nem um registro deste. Aparentemente bastava um casal afirmar que queria coabitar para que a união fosse aceite. Os homens casavam por volta dos dezesseis, dezoito anos e as mulheres por volta dos doze, catorze anos. Por serem as mulheres as transmissoras do sangue real, como forma de legitimação do poder, houve casamentos entre irmãos.[159] Também houve casamentos entre faraós e uma de suas filhas.[159] Os homens com uma posição econômica mais elevada poderiam ter, para além da esposa legítima (nebet-per, "a senhora da casa"), várias concubinas, o que era visto como um sinal de riqueza. No entanto, se as mulheres tivesse mais de um homem elas eram assassinadas.[160]

Na corte faraônica existiram casos de bigamia e de poligamia, onde o faraó, para além da esposa principal, mantinha várias esposas secundárias e amantes.[159] Um dos casos mais conhecidos foi o de Ramsés II, que para além de ter tido como esposa principal Nefertari, teve outras mulheres, tendo assim 110 filhos.[159]

O casamento no Antigo Egito não era sancionado por qualquer ritual religioso ou ato administrativo. Tratava-se de um ato social, selado por festividades que envolviam a comunidade num nível estritamente local. Em suma, a natureza do matrimônio era secular e, em si mesma, não tinha caráter jurídico. Recentemente foi demonstrado (...) que as mesmas características se estendiam ao comportamento conjugal, assunto privado dos cônjuges. O Estado só intervinha, eventualmente, em questões de adultério no sentido de manter a ordem pública - limitando, por exemplo, a vingança privada. - Ciro Flamarion Cardoso Algumas visões da mulher na literatura do Egito faraônico (II milênio a.C.). Citado em: História. São Paulo: UNESP, 1993, v. 12. p. 103-5.[88]

[editar] Prostituição

Prática moralmente condenada foi praticadas as margens do Nilo.[161] Foram registrados em papiros e ostracas a prática de favores sexuais em troca de dinheiro, assim como houve menções de relações sexuais coletivas, o que leva a teórica possibilidade de existência de prostíbulos.[161] No Egito não houve prostituição sagrada, sendo a relação divindade-sacerdotisa, meramente simbólica.[161]

[editar] Língua e escrita egípcia

[editar] Desenvolvimento histórico

Colega do "mlk que meteu o loco pq eu fiquei com o amigo dele"

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'Língua egípcia' em hieroglifos é
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A língua egípcia é uma língua afro-asiática setentrional intimamente relacionada com o berber e as línguas semíticas.[162] Ela tem a segunda maior história de uma língua (depois do sumério), tendo sido escrita a partir de 3200 a.C. até a Idade Média, permanecendo como uma língua falada por mais tempo. As fases no Antigo Egito são egípcio arcaico, egípcio antigo, egípcio médio (egípcio clássico), egípcio tardio, demótica e copta.[163] Os escritos egípcios não apresentam diferenças antes do dialeto copta, no entanto, provavelmente, era falado em dialetos regionais em torno de Mênfis e depois de Tebas.[164]

O egípcio antigo foi uma língua sintética, tornando-se posteriormente em uma língua mais analítica. O egípcio tardio desenvolveu artigos prefixais definidos e indefinidos, que substituem os sufixos flexionais mais velhos. Há uma mudança da velha ordem Verbo Sujeito Objeto para Sujeito Verbo Objeto.[165] Os hieróglifos egípcios, a hierática e a demótica foram eventualmente substituídos pelo alfabeto copta, mais fonético. O copta ainda é usado na liturgia da Igreja Ortodoxa do Egito, e vestígios dela são encontrados no moderno árabe egípcio.[166]

[editar] Som e gramática

O egípcio antigo tem 25 consoantes similares aos de outras línguas afro-asiáticas. Estes incluem consoantes faríngeas e enfáticas, oclusivas sonoras e surdas, fricativas surdas e africativas surdas e sonoras. Têm três vogais longas e três vogais curtas, que se expandiram no egípcio tardio para cerca de nove.[167] Uma palavra básica em egípcio, semelhante ao berber e semita, tem consoantes e semi-consoantes de raiz triliteral e biliteral. Sufixos são adicionados para formar palavras. A conjugação verbal corresponde à pessoa. Por exemplo, o esqueleto triconsonantal S-Ḏ-M é o núcleo semântico da palavra "ouvir"; sua base conjugal é {{{2}}} 'ele ouve'. Se o sujeito é um substantivo, sufixos não são adicionados ao verbo:[168] sḏm ḥmt 'a mulher ouve'.

Os adjetivos são derivados de substantivos por um processo que os egiptólogos chamam nisbação devido a sua semelhança com o árabe.[169] A ordem das palavras em frases verbais e adjetivas é PREDICADO-SUJEITO, e SUJEITO-PREDICADO em frases nominais e adverbiais.[170] O sujeito pode ser movido para o início das frases se é longo e é seguido por um pronome resumptivo.[171] Verbos e substantivos são negados por uma partícula n, mas nn é usado para frases adverbiais e adjetivas. O acento tônico recai sobre a última ou penúltima sílaba, que poder ser aberta (CV) ou fechada (CVC).[172]

[editar] Escrita

A Pedra de Roseta, artefato que permitiu aos linguistas traduzir os hieróglifos egípcios[173]

A escrita hieroglífica datada de 3200 a.C. (túmulo U-j do cemitério U de Abidos[174][175]) é composta de cerca de 500 símbolos, que podiam ser representações de animais, plantas, pessoas ou partes do corpo e utensílios utilizados pelos egípcios.[176] Um hieróglifo pode ser uma palavra, um som ou silêncio determinante; e o mesmo símbolo pode servir a diferentes propósitos em contextos diferentes.[177] Os hieróglifos foram uma escrita formal, usados em papiros, monumentos de pedra e nos túmulos, que podem ser tão detalhados como obras de arte. No dia-a-dia, os escribas usavam uma forma de escrita cursiva, chamada hierática, que foi mais simples e rápida, escrita em pedras, papiros e placas de madeira.[178] Enquanto os formais hieróglifos podem ser lidos em linhas ou colunas em qualquer direção (embora, geralmente, escritos da direita para a esquerda),[177] a hierática era sempre escrita da direita para a esquerda, geralmente em linhas horizontais. Para se saber a direção a qual se devia ler os hieróglifos, era preciso olhar para a direção a qual as figuras humanas ou de pássaros estavam olhando, pois são estes que mostram o inicio do texto.[177] Uma nova forma de escrita surgida no século VII a.C., a demótica, tornou-se o estilo de escrita predominante substituindo a hierática.[179]

Por volta do século I d.C., o alfabeto copta começou a ser usado juntamente com a escrita demótica. O copta é um alfabeto grego modificado com a adição de alguns sinais demóticos.[180] Embora os hieróglifos formais foram usados em contexto cerimonial até o século IV, no final apenas um pequeno grupo de padres ainda podiam lê-los. Como os estabelecimentos religiosos tradicionais foram dissolvidos, o conhecimento da escrita hieroglífica estava quase perdido. As tentativas de decifração são datadas do período bizantino[181] e para os períodos islâmicos no Egito,[182] mas apenas em 1822, após a descoberta da Pedra de Roseta e anos de pesquisa de Thomas Young e Jean-François Champollion, os hieróglifos foram quase totalmente decifrados.[183] A Pedra de Roseta foi escrita de três formas: em hieróglifos formais, em hierática e em grego.[177]

[editar] Literatura

A literatura do Antigo Egito inclui textos de caráter religioso (como os hinos às divindades), mas igualmente obras de natureza mais secular, como textos sapienciais, contos e poesia amorosa.

A literatura apareceu pela primeira vez em associação com a realeza em rótulos e etiquetas para os itens encontrados em tumbas reais. Foi principalmente uma ocupação dos escribas, que trabalhavam para a instituição Per Ankh ou a Casa da Vida,[177] para os escritórios, as bibliotecas (chamadas Casas dos Livros), laboratórios e observatórios.[184] Algumas das peças mais conhecidas da literatura egípcia, como os textos das pirâmides e sarcófagos, foram escritos no egípcio clássico, que continuou a ser a língua da escrita até 1300 a.C.. Durante este período, a tradição da escrita evoluiu para o túmulo autobiográfico, como os de Harkhuf e Uni.

O gênero conhecido como Sebayt (instruções) foi desenvolvido para comunicar os ensinamentos e orientações dos nobres famosos. deste género destaca-se o Ensinamento de Ptah-hotep, que em trinta e seis máximas expõe as reflexões do seu autor (um vizir) sobre as relações humanas.

O Papiro Edwin Smith (ca. século XVI a.C.) descreve a anatomia e tratamentos médicos e está escrito em hierática.

O Papiro Ipuur, um poema de lamentações descrevendo catástrofes naturais e agitação social, é um papiro contraditório pois até o presente momento não se chegou a um consenso quanto a seu período, podendo ser um poema descritivo do Primeiro ou Segundo Período Intermediário.

A história de Sinué, escrita em egípcio médio, é um clássico da literatura egípcia,[185] contando as peripécias da personagem homônimo.[177] O Papiro Westcar também escrito neste momento, é um conjunto de histórias contadas a Khufu por seus filhos relatando as maravilhas realizadas pelos sacerdotes.[186] A Instruções de Amenemope é considerada uma obra-prima da literatura do Oriente Próximo.[187] Outras histórias famosa são o Conto do Náufrago (narra a história de um marinheiro que naufragou em uma ilha habitada por uma serpente), do Principe predestinado (narra a história de um principe amaldiçoado), dos Dois Irmãos (história de vinganças causada pela mulher de um dos irmãos) e a Sátira das profissões (sátira realizada por escribas para mostrar os incomodos das outras profissões que não fossem o ofício de escriba).[177]

O egípcio tardio foi falado no Império Novo e está representado em documentos administrativos do período ramessida, poesias de amor e contos, bem como em textos demóticos e coptas. No final do Império Novo, a língua vernácula foi mais frequentemente empregada para escrever peças populares como a História de Unamón e a Instrução de Any. O primeiro conta a história de um nobre que é roubado em sua maneira de comprar o cedro do Líbano e de sua luta para retornar ao Egito. Durante este período papiros como o Papiro Cester Beatty I, Papiro Harris 500 e um fragmento do Papiro de Turim mostram um tipo de poesia amorosa, com temas de paixão e erotismo.

De cerca de 700 a.C., histórias narrativas e instruções, como a popular Instruções de Onchsheshonqy, bem como documentos pessoais e empresariais foram escritos em demótico. Muitas histórias escritas em demótico durante o período grecorromano foram definidas em épocas históricas diferentes, quando o Egito era uma nação independente governada por grandes faraós como Ramsés II.[188]

[editar] Cultura

[editar] Vida cotidiana

Detalhe de pintura mural do túmulo de Nebamun que mostra dançarinas e uma instrumentista. Museu Britânico, c. 1350 a.C.

A maioria dos egípcios antigos eram agricultores ligados à terra. Suas habitações eram restritas aos membros imediatos da família, e foram construídas com tijolos de barro destinadas a manter o frescor no calor do dia. Cada casa tinha uma cozinha com teto aberto, o qual continha uma pedra de moinho para moagem de farinha e um pequeno forno para cozer pão.[189] As paredes foram pintadas de branco e podiam ser cobertas com tapeçaria tingida de linho. Os pavimentos foram cobertos com esteiras de palha, enquanto bancos de madeira, camas levantadas a partir do piso e mesas individuais compunham a mobília.[190] As mães eram responsáveis por cuidar dos filhos, enquanto o pai fornecia a renda da família.[191]

Os antigos egípcios colocavam um grande valor em matéria de higiene e aparência. A maioria banhava-se no Nilo e usava um sabão pastoso, o suabu, feito de gordura e giz.[192] Os homens raspavam todo o corpo para limpeza, e perfumes aromáticos, óleos e pomadas ocultavam maus odores e mantinha a pele suave.[193] Os óleos eram feitos com gordura vegetal ou animal e eram aromatizados com mirra, incenso ou terebintina.[192] Os egípcios usavam um tipo de sal, o bed, para fazer gargarejo.[192] As mulheres da corte passavam por um processo mais completo: depilavam-se, massageavam rosto e braços com pomada de mirra, colocavam um creme verde de malaquita nas pálpebras, desenhavam uma linha de khol preto para alongar o olho, colocavam pó de ocre nas bochechas e lábios e untavam a palma das mãos e a sola dos pés com hena.[192]

Ambos, homem e mulher da classe alta usavam perucas, joias e cosméticos. Inicialmente as mulheres tinham o costume de manter os cabelos curtos, no entanto, ao longo dos séculos adotaram os cabelos compridos.[192] Os homens adultos utilizavam cabelos curtos e as crianças e os sacerdotes raspavam a cabeça.[192]

As mulheres vestiam um vestido de linho branco e os homens uma tanga.[194] No entanto, a população trabalhadora habitualmente permanecia nua ou então com apenas um pedaço de tecido enrolado a cintura.[194] As crianças ficavam sem roupas até a maturidade, cerca de 12 anos, e nessa idade os homens eram circuncidados e tiveram suas cabeças raspadas. Vizires (vestidos), sacerdotes (pele de pantera) e o faraó (tanga costurada com fios de ouro) vestiam vestimentas especiais. No geral, havia apenas duas opções para os pés: nudez ou sandálias.[192] As sandálias podiam ser de junco e papiro amarrados com barbante (mais simples) ou de couro costuradas com linha de papiro (mais sofisticadas).[192]

Membros das classes mais elevadas da sociedade, costumeiramente adornavam o corpo com joias.[192] No entanto as joias também eram usadas pela população menos abastada da sociedade por poderem se tratar de amuletos.[192] Eram de ouro, prata, cobre ou cerâmica incrustadas com pedras preciosas ou pasta de vidro colorido.[192] Podiam ser diademas, colares, brincos, pulseiras, anéis e cintos.[192]

Nefertari jogando Senet. Pintura da tumba da Rainha Nefertari do Egito (1295–1255 BC).

A música e a dança eram entretenimentos populares para aqueles que podiam pagar por elas. Instrumentos antigos incluíam flauta e harpas,[195] enquanto os instrumentos semelhantes a trompetes, oboés e gaitas desenvolveram-se mais tarde e se tornaram populares. No Império Novo, os egípcios tocavam sinos, címbalos, tamborins, e tambores e importaram alaúdes e harpas da Ásia.[196] O sistro foi um instrumento musical do tipo chocalho que era especialmente importante em cerimônias religiosas. Os faraós possuíam uma banda preferida, os hinodos que o acompanhavam em grandes cerimônias religiosas.[192] Em banquetes para o divertimento dos presentes havia dançarinas que dançavam em movimentos lentos, mímicos que contava lendas dos deuses e os imitava e por últimos os pigmeus do coração africano que dançavam danças rápidas e rítmicas.[192]

Os antigos egípcios desfrutaram de uma variedade de atividades de lazer, incluindo jogos e música. Senet, um jogo de tabuleiro onde as peças se mudam de acordo com o acaso, era particularmente popular desde os primeiros tempos; outro jogo semelhante foi o Mehen, que tinha um tabuleiro em forma de serpente.[192] Jogos de malabarismo, vara e bola eram populares com as crianças, e luta também está documentada em uma tumba em Beni Hasan.[192][197] Os membros ricos da sociedade egípcia gozavam de caça e passeios de barco também. Para as crianças ainda havia uma grande variedade de brinquedos: piões, figurinhas, bonecas, cavalinhos e até bonecos articulados, todos de madeira.[192]

A escavação da vila dos trabalhadores de Deir el-Medina, resultou em um dos relatos mais bem documentados da vida da comunidade, no mundo antigo que se estende por quase 400 anos. Não há local comparável em que a organização, as interações sociais, de trabalho e as condições de vida de uma comunidade podem ser estudadas em pormenor.[198]

[editar] Religião e práticas funerárias

[editar] Religião

Pendente em ouro de Osorkon II (XXII dinastia). O deus Osíris (ao centro) acompanhado pelo seu filho Hórus e esposa, Ísis, formando uma tríade.

Não existiu propriamente uma religião entre os egípcios, no sentido contemporâneo da palavra.[199] No entanto, crenças no divino e na vida após a morte foram enraizadas na antiga civilização egípcia desde seu início; o reinado faraônico foi baseado no direito divino dos reis.[200] O faraó era considerado o filho de (posteriormente fundido com Amon, tornando-se Amon-Rá).[201]

A cultura egípcia era impregnada de religiosidade e a versão oficial da história egípcia era de caráter religioso. Em períodos mais recentes, até a própria economia se organizava à volta dos templos - o que não significa, necessariamente, que se tivesse tornado mais religiosa, já que os templos não eram, possivelmente, muito diferentes de outros senhorios. fosse como fosse, o que é claro é que o padrão de secularização, que temos tendência a tomar por certo no desenvolvimento das sociedades, não estava presente. A instituição central da monarquia acabou por perder o seu carisma, mas noutros aspectos tornou-se, de forma nítida, em vários aspectos: o oficial, de que sabemos bastante, a esfera funerária, que está também bem representada, e as práticas cotidianas da maioria da população, separadas, em larga medida, do culto oficial e mal conhecidas.

Os egípcios eram politeístas e endeusavam forças da natureza e elementos do universo, vinculando os deuses a elementos cotidianos.[202] Cada cidade possuía um deus especifico,[201] no entanto, quando esta se tornava capital, consequentemente o deus local assim como o animal sagrado tornava-se o deus reverenciado por todo o império.[201] Os deuses egípcios podiam ser antropomórficos, zoomórficos ou mistos.[203] Contudo, os egípcios em momento algum acreditaram, por exemplo, que o deus Hórus, muitas vezes representado com um homem com cabeça de falção, tivesse de facto aquele aspecto. A associação dos deuses com determinados animais relacionava-se com a atribuição ao deus de uma característica desse animal (no caso de Hórus a rapidez do falcão). O mais importante na religiosidade egípcia não eram as crenças, mas o culto às divindades; assim, a religião egípcia preocupava-se mais com a ortopraxia do que com a ortodoxia.[199]

O Livro dos Mortos, um conjunto de textos que ajudavam o morto em sua travessia pelo mundo subterrâneo.

O panteão egípcio era habitado por deuses, que tinham poderes sobrenaturais e foram chamados para ajuda ou proteção. No entanto, os deuses não eram sempre vistos como benevolentes, e os egípcios acreditavam que tinham de ser aplacados com oferendas e orações. A estrutura deste panteão mudava continuamente como novas divindades sendo promovidas na hierarquia, mas os sacerdotes não fizeram nenhum esforço para organizar os diversos mitos da criação, por vezes conflitante, e histórias em um sistema coerente.[204] Estas várias concepções de divindade não foram consideradas camadas contraditórias, mas sim múltiplas facetas da realidade.[205] Os deuses eram ordenados e hierarquizados em grupos de três (tríades), oito (Enéades) e nove (Ogdóades).[199] Entre estes grupos podemos citar a Enéade de Heliópolis, a Ogdóade de Hermópolis e as Tríades de Mênfis, Tebas e Elefantina.[199]

Entre os principais deuses podemos citar: Amon (rei de todos os deuses) e sua esposa Mut, Khonsu (deus da Lua, do tempo e do conhecimento, filho de Amon), Ptah (deus padroeiro dos artesãos) e sua esposa Sekhmet (deusa da guerra e da doença, esposa de Ptah), Nerfetum (deus da felicidade e dos perfumes, filho de Ptah) Khnum (deus das enchentes do Nilo, da criatividade e do vigor) e suas esposas Anuket (deusa das plantações) e Satet (deusa da sexualidade), Maát (deusa da justiça e verdade), Bés (deus protetor dos lares), Osíris (deus dos mortos) e suas irmãs Ísis (esposa de Osíris) e Néftis (esposa de Set), (deus do Sol), Hórus (filhos de Osíris), Anúbis (deus da mumificação), Tot (deus dos escribas), Bastet (deusa dos gatos, dançarinos e músicos), Serket (deusa da cura contra picadas e mordidas de animais venenosos), Sobek (deus dos crocodilos), Hathor (deusa do amor, alegria e música), Taweret (deusa protetora das mulheres grávidas), Set (deus do caos, das tempestades, do deserto e dos desastres), Hapi (deus do Nilo), Nun (deus das águas iniciais, o nada antes da criação de tudo), Atum (deus criador), Shu (deus do ar), Tefnut (deusa da umidade), Geb (deus da terra) e Nut (deusa do céu).[199][201][203][206] Ainda havia: os Filhos de Hórus (Hapy, Imseti, Duamutef e Kebehsenuef; personificavam os quatro jarros canópicos), Bat, Heqet, Apep, Heka, Amunet, Tatenen, Wosret, Sechat, Mafdet, Wepwawet, Meskhenet, Kuk, Resheph, Maahes, Wadj-wer, Menhit, Meretseguer, Uadjit, Montu, Min, Qebui, Sopdu, Mnévis, Pakhet, Sopdet, Nekhbet e Sokar.

Estátua ka, uma espécie de alma que os egípcios acreditavam que existia, tanto nos homens, como nos deuses.

Os deuses eram adorados nos templos de cultos administrados por sacerdotes em nome do rei.[206] Os templos eram tidos como a morada em terra dos deuses. No centro do templo, trancada em um naos ficava a estátua de culto do templo;[199] diariamente a estátua era lavada, perfumada, maquilada e alimentada pelos sacerdotes.[199] Os templos não eram locais de adoração pública ou congregação, e somente em dia de festas e comemorações foi selecionado um santuário para onde foi carregada a estátua do deus para a adoração pública.[206] As estátuas eram carregadas em procissões, à qual a população assistia;[199] durante o percurso actuavam músicos e cantores.[199] Normalmente, o domínio do deus estava isolado no mundo exterior e só era acessível aos funcionários do templo. Cidadãos comuns podiam ter estátuas de cultos privados em suas casas, e amuletos de proteção oferecidos contra as forças do caos. Após o Império Novo, o papel do faraó como um intermediário espiritual foi enfatizado como os costumes religiosos deslocados para dirigir a adoração dos deuses. Como resultado, os sacerdotes desenvolveram um sistema de oráculos para comunicar a vontade dos deuses diretamente para as pessoas.[199]

Os egípcios acreditaram numa vida para além da morte.[199] Em princípio esta vida estava apenas acessível ao rei, mas após o Primeiro Período Intermediário esta concepção alargou-se a toda a população.[199] Para aceder a esta vida era essencial que o corpo do defunto fosse preservado, razão pela qual se praticou a mumificação.[199]

Os egípcios acreditavam que todo o ser humano era composto de parte física e espiritual ou aspectos. Além do corpo, cada pessoa tinha um šwt (sombra), um ba (personalidade ou alma), um ka (força vital), e um nome.[207] O coração, ao invés do cérebro, foi considerado a sede dos pensamentos e emoções. Após a morte, os aspectos espirituais foram liberados do corpo e podem ser movidos à vontade, mas eles necessitam de restos físicos (ou um substituto, como uma estátua), como um lar permanente. O objetivo final do defunto era voltar a seu ka e ba e tornar-se um morto abençoado, vivendo como um akh, ou "unidade efetiva". Para que isso aconteça, o falecido tinha que ser julgado digno no Tribunal de Osíris, onde seu coração era pesado.[203] Se for considerado digno, o falecido poderia continuar sua existência sobre a terra em forma espiritual.[208] Se não, seria devorado por um monstro que consistia na mistura de três animais, leão, crocodilo e hipopótamo.[206]

[editar] Mumificação e práticas funerárias

Máscara funerária de Tutancâmon (Museu Egípcio do Cairo).

Os antigos egípcios mantiveram um elaborado conjunto de costumes de sepultamentos que acreditavam serem necessárias para garantir a imortalidade após a morte.[199][209] Estes costumes envolviam preservar o corpo por mumificação, realizando cerimônias fúnebres, e enterrando, junto com o corpo, as mercadorias para serem usadas pelo falecimento em vida após a morte.[199] Após a V dinastia, a mumificação, privilégio exclusivo para as classes abastadas do Egito, tornou-se acessível para toda a população, mesmo que de forma variada.[199]

Antes do Império Antigo, os corpos eram enterrados em covas no deserto, naturalmente preservados pela dessecação.[199]

O sepultamentos dos pobres era muito mais simples do que o da elite, pois não tinham condições financeiras para tal ato.[199] Os pobres rebeciam uma injeção de essências e vinhos corrosivos pelo ânus para dissolver os orgãos internos.[199] Após alguns dias, com os orgãos dissolvidos, o corpo era enfaixado com peles de animais para serem enterrados no deserto para conservação por dissecação.[199] Já os ricos tinham um processo diferente, a chamada mumificação artificial.[199] Primeiramente o cérebro era retirado por meio de uma pinça metálica pelo nariz.[199] Depois, as víceras (prática iniciada após a IV dinastia[210]) eram retiradas, mumificadas e depositadas em jarros canópicos.[199] O coração não era retirado.[199] Após a retirada dos órgaos o corpo era internamente lavado com vinho e substâncias aromáticas para depois ser preenchido com mirra e canela.[199] O corpo então era mergulhado em natrão (uma mistura de sais) por 70 dias.[199] Após este prazo o corpo era lavado para receber resinas, aromas, perfumes, bandagem e pó de serra para depois receber uma marcara e também ser enfaixado com tiras de linho embebidas em goma.[199] Entre as tiras foram colocados amuletos de proteção.[199] Os corpos então eram depositados em sarcófagos de pedra ou madeira.[199] Durante o Império Novo tornou-se comum sarcófagos antropomórficos e, durante a XX dinastia a prática de decoração das tumbas foi alterada pela prática da decoração dos sarcófagos.[211] Múmias da Época Baixa também foram colocadas em sarcófagos com cartonagem pintada. Práticas de preservação real diminuíram durante as eras, ptolomaica e romana, enquanto a maior ênfase foi colocada sobre a aparência exterior da múmia, que foi decorada.[212]

Colega do "mlk que meteu o loco pq eu fiquei com o amigo dele"

Múmia em hieroglifos é
G43 M17 A53
Anúbis era o deus egípcio associado a mumificação e rituais fúnebres; aqui, ele atende a uma múmia.

O cortejo fúnebre se iniciava após a colocação do corpo dentro de seu sarcófago. O sarcófago era transportado por um carro de bois enquanto famíliares, amigos, sacerdotes e carpideiras contratadas o acompanhavam.[206] Ao chegarem ao lugar de enterro começava-se uma série de rituais sendo o mais importante o da "Abertura da Boca".[206] Neste ritual, a múmia era retirada do sarcófago para ser segurada por um sacerdote com uma marcara de Anúbis.[206] Então o filho do morto ou então outro herdeiro se vestia com roupa de leopardo e, simbolicamente, com uma machadinha, fazia um corte que abria a boca do defunto para este recuperar o fôlego da vida.[206] Só então o corpo era depositado novamente no sarcófago para ser enterrado.[206]

Egípcios ricos eram enterrados com maiores quantidades de itens de luxo, mas todos os enterros, independentemente do estatuto social, incluíam bens para o defunto. A partir do Império Novo, os livros dos mortos foram incluídos nos túmulos, juntamente com estátuas shauabti que, segundo as crenças, realizaram trabalhos manuais por eles em vida após a morte.[213]

Enquanto a classe pobre do Egito era enterrada em covas rasas no deserto, a elite egípcia construia para si túmulos que podiam ser: pirâmides, hipogeus (túmulos subterrâneos cavados nos barrancos dos rio ou em enconstas de montanhas) e mastabas (túmbas de base retângular com salas para oferendas).[214] Como forma de proporcionar a senerinade do morto, os túmulos foram pintados com cenas da vida do morto.[199] Após o enterro, os parentes eram esperados para, ocasionalmente, trazerem comida para o túmulo e recitarem orações em nome do falecido.[215]

[editar] Mumificação animal

Outra prática muito comum entre os egípcios foi a mumificação animal.[216] Os animais mumificados podiam ser bichos de estimação, restos de animais para as múmias ou então podiam ser animais sagrados, divinizados por sua relação com os deuses.[216] Eram, no geral, objetos votivos destinados aos templos de culto a animais.[216] A partir da 26ª dinastia, as múmias votivas tornaram-se populares o que gerou um intenso comércio que empregou legiões de trabalhadores especializados.[216]

Entre os animais embalsamados estavam gatos, vacas/touros, crocodilos, cães, burros, elefantes, peixes, gazelas, cavalos, íbis, leões, lagartos, macacos, carneiros, aves de rapina, escaravelhos, musaranhos, serpentes e pedaços de carne.[216] Os animais eram preparados como as múmias humanas: seus orgãos poderiam ser retirados ou então dissolvidos, depois eram lavados interiormente com vinho e depois banhados em natrão para ressecamento e posteriormente eram envoltos com resinas para fixação das bandagens de linho.[216]

[editar] Arte

Busto de Nefertiti, pelo escultor Tutmés, é uma das mais famosas obras-primas da arte egípcia antiga.

Os antigos egípcios produziram arte para servir propósitos funcionais. Por mais de 3500 anos, os artistas aderiram as formas artísticas e a iconografia que foram desenvolvidas durante o Império Antigo, na sequência de um rigoroso conjunto de princípios que resistiu a influência estrangeira e a mudança interna.[217] Estes padrões artísticos – linhas simples, formas e áreas planas de cores combinadas com características projeções planas das figuras sem indicação de profundidade espacial - criou um senso de ordem e equilíbrio dentro de uma composição. Imagens e textos foram intimamente entrelaçados nas tumbas e paredes dos templos, caixões estelas e até estátuas. A Paleta de Narmer, por exemplo, exibe números que também podem ser lidos como hieróglifos.[218] Por causa das regras rígidas que presidiram à sua aparência altamente estilizada e simbólica, a arte egípcia antiga serviu a seus propósitos políticos e religiosos com precisão e clareza.[219] A hierarquia social e religiosa influenciava no tamanho dos personagens.[220]

As figuras nas pinturas e baixo-relevos são representadas respeitando-se a lei da frontalidade: cabeça, pernas, peito, ventre e braços de perfil; olhos, ombros, umbigo e baixo-ventre de frente.[221][222] Olhos, ombros, umbigo e baixo-ventre eram mostrados de frente.[223] O personagem principal de uma pintura deve ser representado sempre maior do que os personagens secundários.[223]

Faraós usaram para gravar em relevos vitórias de batalhas, decretos reais e cenas religiosas. Eram dispostos em faixas horizontais acompanhados por hieróglifos e apresentavam até "balões" indicando falas.[223]

As cores possuíam uma função simbólica nas pinturas. O preto usado nas sobrancelhas, perucas, olhos e bocas representava a noite, a morte, a fertilidade, a regeneração e as inundações do Nilo. O branco usado nas vestes dos sacerdotes, nos objetos rituais, nas casas, nas flores e nos templos era associado a pureza a verdade,[220] a alegria e o triunfo.[223] O vermelho representa a energia, o poder, a sexualidade e Seth.[220] A pele dos homens era pintada de vermelho-ocre e das mulheres de amarelo-ocre.[223] O amarelo representava a eternidade. O verde a regeneração e a vida. E o azul ao Nilo e ao céu.[220]

Pintura de Nefertari no seu túmulo.

As tintas foram obtidas a partir de minerais, como minérios de ferro (ocre vermelho e amarelo), minérios de cobre (azul e verde), a fuligem ou carvão (preto), e calcário (branco). As tintas podem ser misturadas com goma-arábica como aglutinante e prensada em bolos, que podem ser umedecidos com água quando necessário.[224] No entanto, análises de múmias de cerca d 3 200 a.C. mostram sinais de anemia hemolítica e distúrbios, sintomas causados por intoxicação com metais pesados (chumbo, mercúrio, arsênio, cobre) que eram usados como pigmentos, corantes e maquiagem especialmente pelas classes dominantes.

Os artesãos do Antigo Egito usavam pedra (basalto, pórfiro, xisto, diorito e o granito) para esculpir estátuas e finos relevos, mas usavam madeira como um barato e facilmente esculpido substituto. Algumas estátuas serviram um objetivo político, sendo colocadas diante dos templos para que o povo as visse, mas tinha sobretudo um objetivo religioso.[225] No geral as estátuas representam uma figura que olha para a frente, numa linha perpendicular ao plano dos ombros, e os braçõs colados ao corpo. As estátuas que se achavam nos túmulos eram consideradas como uma espécie de corpo de substituição; o ka e o ba deveriam reconhecer o rosto onde habitavam,[199] não sendo por isso relevante representar os defeitos do corpo. Algumas estátuas atingiam proporções grandiosas, como a Esfinge de Guiza e os Colossos de Memnon.[36][58]

Os cidadãos comuns tiveram acesso a obras de arte funerária, tais como estátuas shauabti e o livro dos mortos, que acreditavam que iria protegê-los na vida após a morte.[209] Durante o Império Médio, modelos de madeira ou de barro que representam cenas da vida diária tornaram-se populares aditamentos aos túmulos. Em uma tentativa de duplicar as atividades da vida após a morte, estes modelos mostram operários, casas, barcos e até mesmo formações militares que são escalas de representações do ideal de vida após a morte dos antigos egípcios.[226]

Apesar da homogeneidade da arte egípcia antiga, os estilos de determinadas épocas e lugares, por vezes, reflete a mudança de atitudes culturais ou políticas. Após a invasão dos hicsos no Segundo Período Intermediário, afrescos de estilo minoano foram encontrados em Aváris.[227] O exemplo mais marcante de uma mudança de motivação política na forma artística vem desde o período Amarna, onde as figuras foram radicalmente alteradas em conformidade com as revolucionarias ideias religiosas de Akhenaton.[228] Este estilo, conhecido como a arte Amarna, foi rapidamente e completamente apagado depois da morte de Akhenaton e substituído por formas tradicionais.[229] Durante a época romana os "Retratos de Faium" dominaram a composição mortuária.[223] As máscaras mostuárias foram substituídas por retratos realistas dos difuntos.[223]

[editar] Arquitetura

A arquitetura do Egito antigo inclui algumas das estruturas mais famosas do mundo: a região dos Grandes Pirâmides de Gizé e os templos em Tebas. Vários projetos foram organizados, contruídos e financiados pelo Estado para fins religiosos e comemorativos, mas também para reforçar o poder do faraó. Os antigos egípcios eram contrutores qualificados, usando ferramentas simples mas eficazes e instrumentos de observação, os arquitetos egípcios podiam construir grandes estruturas de pedra com exatidão e precisão.[230]

As habitações da elite e dos egípcios comuns foram construídas de materiais perecíveis tais como lama e tijolos e madeira.[231] Os camponeses viviam em casas simples, enquanto os palácios da elite foram estruturas mais elaboradas. As cidades egípcias possuiam bairros diferenciados e eram protegidas por muralhas.[232]

Uns poucos palácios sobreviventes do Império Novo, tais como aqueles em Malkata e Amarna, mostram paredes ricamente decoradas e chão com cenas de pessoas, pássaros, piscinas de água, divindades e design geométrico.[233] Importantes estruturas tais como templos e túmulos que foram pretendidos para durar para sempre foram construídos de pedra em vez de tijolos. Os elementos arquitetônicos de pedra de larga escala usados em primeiro lugar no mundo, o complexo mortuário de Djoser, inclui simples arquitraves apoiados em motivos de papiros e flores de lótus.

O bem preservado Templo de Edfu é um dos exemplos da arquitetura egípcia antiga.

Os mais antigos templos preservados do Antigo Egito, tais como aqueles de Gizé, consistem de simples salões anexos com lajes suportadas por colunas. No Império Novo, os arquitetos adicionaram o pilone, o pátio aberto e anexos salões hipóstilos de frente com os santuários dos templos, um estilo que foi padrão até o período grecorromano.[234] Os templos de Karnak e Luxor são alguns dos maiores exemplos deste tipo de edificação egípcia.

A mais antiga e mais popular tumba arquitetônica do Império Antigo foi a mastaba, uma estrutura retangular de teto achatado construída de tijolos de lama ou pedra acima de uma câmara funerária subterrânea.[235] A pirâmide de degraus de Djoser, a primeira pirâmides construida, é uma série de mastabas de pedra empilhadas em cima uma das outras.[235] Pirâmides foram construídas durante o Antigo e Império Médio, mas os governantes tardios abandonaram as em favor de menos notáveis tumbas escavadas na pedra.[236]

No Antigo Egito foram construídas dezenas de pirâmides.[36] As Pirâmides de Guiza estão incluídas entre as Sete Maravilhas do Mundo antigo.[86][237] As pirâmides eram formadas por blocos de pedra de três toneladas.[231] As pedras eram cortadas com cunhas de madeira e depois eram arrastadas para cima em rampas sobre trenós.[231] O interior das pirâmides foram construídos dispondo-se um tipo de labirinto onde se era depositado o túmulo faraônico em uma camara secreta para evitar saqueadores.[222]

[editar] Tecnologia e ciência

Na tecnologia, medicina e matemática, os antigos egípcios alcançaram um padrão relativamente alto de produtividade e sofisticação. O tradicional empirismo, como evidenciado por Edwin Smith e no Papiro Ebers (1600 a.C.), é primeiramente creditado ao Egito, e as raízes do método científico podem também traçadas de volta aos egípcios antigos. Os egípcios criaram seu próprio alfabeto e sistema decimal.

[editar] Tecnologia

[editar] Faiança e vidro

Vidreiro foi uma arte altamente desenvolvida.

Mesmo antes do Império Antigo, os egípcios antigos desenvolveram um material vítreo conhecido como faiança, que eles tratavam como um tipo de pedra artificial semipreciosa. Faiança é uma cerâmica feita de sílica, pequenos montantes de cal e soda, e um colorante, tipicamente cobre.[238] O material foi usado para fazer miçangas, telhas, figurinhas, e pequenas cerâmicas. Vários métodos podem ser usados para criar faiança, mas a produção tipicamente envolve aplicações de materiais pulverizados na forma de uma pasta mais um núcleo de argila, que foi ateado fogo. Por uma técnica relacionada, os egípcios produziram um pigmento conhecido como egípcio azul, também chamado fritar azul, que é produzido por fusão (ou sintetização) de sílica, cobre, cal, e um alcalino tal como o sódio. O produto pode ser triturado e usado como um pigmento.[239]

Os antigos egípcios podiam fabricar objetos de vidro com grande habilidade, fato comprovado pela grande variedade de objetos cotidianos e de adorno encontrados em tumbas e pela recente descoberta de uma fábrica de vidro, no entanto, não é claro se eles desenvolveram o processo independentemente.[240] É também obscuro se eles fizeram seu próprio vidro bruto ou meramente importaram lingotes pré-feitos, que eles derreteram e finalizaram. No entanto, eles tinham conhecimento técnico em fazer objetos, tão bem quanto adicionando oligoelementos para controlar a cor do vidro final. Uma variedade de cores podiam ser produzidas incluindo amarelo, vermelho, verde, azul, roxo, e branco, e o vidro poderia ser feito quer transparente ou opaco.[241]

[editar] Medicina

Uma página do Papiro Ebers, uma espécie de enciclopédia médica egípcia.

Os problemas médicos dos antigos egípcios estavam diretamente relacionados com o meio ambiente. Vivendo e trabalhando perto do Nilo trouxe riscos de malária e deliberadamente parasitas do gênero schistosoma, que causa danos ao fígado e intestino. Perigosos animais selvagens tais como crocodilos e hipopótamos também foram uma ameaça comum. O vitalício trabalho na agricultura e em construções põe stress na coluna e articulações, e ferimentos traumáticos de construção e guerra tiveram um custo significativo no corpo. O cascalho e areia de pedras do chão usadas para moer farinha desgastava os dentes, deixando-os suscetíveis a abscessos (embora cáries fossem raras).[242]

A dieta dos ricos foi rica em açúcar, o que provocou periodontite.[243] Apesar da lisonjeira retratação do físico nas paredes dos túmulos, o excesso de peso de muitas múmias da alta classe mostra os efeitos de uma vida de excesso.[244] A expectativa de vida dos adultos foi de 35 para os homens e 30 para as mulheres, mas atingir a maioridade foi difícil visto que aproximadamente um terço da população morria na infância.[245]

Os médicos egípcios foram renomados no antigo Oriente Próximo por suas habilidades curativas, e alguns, como Imhotep, mantiveram-se famosos após sua morte.[246] Heródoto comentou que havia um alto de especialização entre os médicos egípcios, com alguns tratando só a cabeça ou o estomago, enquanto outros sendo oculistas e dentistas.[247] O lugar de formação dos médicos levou o nome de Per Ankh ou "Casas de Vida", área do templo que funcionava como biblioteca e arquivo, onde também se ministravam conhecimentos e se copiavam textos, mas nomeadamente aquelas sedes em Bubástis no Império Novo e em Abidos e Saís no Época Baixa. O papiro médico egípcio mostra o conhecimento empírico de anatomia, doenças, e tratamentos práticos.[248]

Feridas foram tratadas por bandagem com carne crua, linho branco, suturas, redes e cotonete encharcado com mel para evitar infecções,[249] enquanto ópio foi usado para aliviar a dor. Alho e cebola foram usados regularmente para promover boa saúde e pensou-se que aliviavam os sintomas de asma. Os cirurgiões egípcios antigos costuravam feridas, colocavam braços quebrados no lugar, e amputavam membros doentes, mas também reconheceram que alguns doentes eram tão sérios que eles não poderiam só deixar o paciente confortável até sua morte.[250]

Os egípcios foram os primeiros a afirmar que as doenças tem causas naturais o que motivou-os a produzir remédios para combatê-las.[251] Os egípcios produziram a primeira farmacopedia.[251] Entre os medicamentos pode-se citar ervas medicinais,[96] sangue de lagarto, fezes animais, leite de mulher grávida e livro velho fervido.[251]

No Antigo Egito ainda havia a prática da previsão do futuro por meio da interpretação dos sonhos.[252] Foi encontrado um papiro com uma relação de sonhos e interpretações.[252]

[editar] Construção naval

Os egípcios sabiam como juntas tábuas de madeira em um casco tão cedo quanto 3000 a.C. O Instituto Arqueológico da América relatou[8] que alguns dos mais antigos barcos ainda desenterrados são conhecidos como barcos de Abidos. Estes são um grupo de 14 navios descobertos em Abidos que foram construídos de tábuas de madeira que foram "costuradas" juntas. Descobertos pelo egiptólogo David O’Connor da Universidade de Nova Iorque,[253] alças de tecido foram encontradas sendo usadas para manter as tábuas juntas,[8] e juncos e grama recheados entre as tábuas ajudaram a selar as costuras.[8] Pela razão de os navios estarem todos enterrados juntos e próximos da casa mortuária pertencente ao faraó Khasekhemui,[253] originalmente eles foram todos pensados terem pertencido a ele, mas um dos 14 navios foi datado de 3000 a.C.,[253] e jarros de cerâmica enterrados que foram associados também sugerem datação mais antiga.[253] O navio datado de 3000 a.C. tem 23 metros de comprimento[253] e é agora pensado talvez pertencer a um faraó mais antigo. De acordo com O'Conner, o navio de 5000 anos atrás têm mesmo pertencido ao faraó Aha.[253]

Os antigos egípcios também sabiam como juntas tábuas de madeira com cavilhas de madeira para firmá-las juntas, usando breu para calafetar as emendas. O "Navio de Quéops", um navio de 43,6 metros selado em um poço na Complexo das Pirâmides de Gizé ao pé da Grande Pirâmide de Gizé na IV dinastia em torno de 2500 a.C., é um sobrevivente completo que pode ter cumprido a simbólica função de uma barca solar.

Os antigos egípcios também sabiam como prender as tábuas do navio juntas com peças encaixáveis.[8] Apesar da capacidade dos egípcios antigos para construir barcos muito grandes e facilmente navegarem ao longo do Nilo, eles não foram conhecidos como bons marinheiros e não se envolveram em uma generalizava navegação e expedição ao mar Mediterrâneo e ao mar Vermelho.

[editar] Matemática

Os antigos egípcios utilizavam seus conhecimentos para resolver problemas como controle das inundações, construção de sistemas hidráulicos, preparação da terra para a semeadura, mumificação de cadáveres, etc.[254]

Os primeiros exemplos atestados de cálculos matemáticos são datados do período pré-dinástico Naqada, e mostram um sistema numeral totalmente desenvolvido.[255] A importância da matemática para um egípcio educado é sugerido por uma carta ficcional do Império Novo em que o escritor propõe uma competição acadêmica entre ele e outro escriba nas tarefas diárias, tais como cálculo de contabilidade de trabalho, terra e grãos.[256] Textos como o Papiro de Rhind e o Papiro de Moscou mostram que os antigos egípcios podiam realizar as quatro operações matemáticas básicas – adição, subtração, multiplicação e divisão – usavam frações, calculavam volumes de caixas e pirâmides, e calculavam áreas superfícies de retângulos, triângulos círculos e até mesmo esferas. Eles entendiam os conceitos básicos de álgebra e geometria, e podiam resolver simples conjuntos de equações simultâneas.[257]

Colega do "mlk que meteu o loco pq eu fiquei com o amigo dele"

23 em hieroglifos é
D22

A notação matemática era decimal, e com base em sinais hieróglifos para cada potência de dez até um milhão. Cada um desse poderia ser escrito tantas vezes quanto necessário para somar o número desejado; então para escrever o número oitenta e oitocentos, o símbolo de dez ou foi escrito dez vezes respectivamente.[258] Por seus métodos de cálculo não poderem lidar com frações com numerador maior que um, as frações dos antigos egípcios tiverem de ser escritas como a soma de várias frações. Por exemplo, a fração de dois quintos foi resolvida na soma de um terço + um quinze avos, o que foi facilitado por tabelas.[259] Algumas frações comuns, porém, foram escritas com um hieróglifo especial, o equivalente moderno de dois terços é mostrado à direita.[260]

Os matemáticos egípcios antigos tinham uma compreensão dos princípios subjacentes ao teorema de Pitágoras, sabendo, por exemplo, que um triângulo tinha um ângulo reto oposto a hipotenusa quando seus lados estavam em uma proporção 3-4-5.[261] Eles foram capazes de estimar a área de um círculo, subtraindo um nono de seu diâmetro e em quadratura com o resultado:

Área ≈ [(89)D]2 = (25681)r 2 ≈ 3.16r 2,

Uma aproximação razoável da fórmula πr 2.[261][262]

A proporção áurea parece refletir-se em muitas construções egípcias, incluindo as pirâmides, mas seu uso pode ter sido uma consequência não intencional da prática egípcia de combinar o uso de cordas com nós como um senso intuitivo de proporção e harmonia.[263][264]

[editar] Química e astronomia

A palavra química vem do egípcio Kemi, que significa "terra negra".[251] Para fins medicinais e composições simples, os egípcios utilizaram de substâncias químicas como arsênio, cobre, petróleo, alabastro, sal, sílex moído etc.[251]

A astronomia teve grande importância religiosa pois foi por meio dela que os egípcios determinaram datas de festas religiosas.[252] O calendário egípcio possuia 365 dias divididos em 12 meses de 30 dias.<[252] Os dias possuiam 24 horas, no entanto, uma hora egípcia variava de acordo com as estações agrícolas.[252]

Os egípcios tinham conhecimento de alguns planetas,[252] e agruparam as estrelas que conheciam em constelações, produzindo mapas astronômicos.[251] Alguns túmulos tinham o teto decorado com tais mapas.[252]

[editar] Legado

A cultura e monumentos do Antigo Egito, deixaram um legado duradouro para o mundo. O culto da deusa Ísis, por exemplo, tornou-se popular no Império Romano, como obeliscos e outras relíquias sendo transportadas para Roma.[265] Os romanos também utilizavam materiais de construção importados do Egito para erguer estruturas em estilo egípcio. Os primeiros historiadores como Heródoto, Estrabão, Diodoro Sículo estudaram e escreveram sobre a terra que passou a ser vista como um lugar de mistério.[266]

Turistas montados em um camelo bactriano na frente da Pirâmide de Quéfren. As Pirâmides de Gizé são um dos pontos turísticos mais populares do Egito.

Durante a Idade Média e Renascimento, a cultura pagã egípcia estava em declínio após a ascensão do cristianismo e depois do Islã, mas o interesse na antiguidade egípcia continuou nos escritos de estudiosos medievais como Dhul-Nun al-Misri e al-Maqrizi.[267] Nos séculos XVII e XVIII, viajantes e turistas europeus trouxeram de volta as antiguidades e escreveram histórias de suas viagens, levando a uma onda de egiptomania em toda a Europa. Esse interesse renovado enviou coletores para o Egito, que levaram, compraram ou foram dadas a eles muitas antiguidades importantes.[268]

Embora a ocupação colonial europeia do Egito tenha destruído uma parte significativa do legado histórico do país, alguns estrangeiros tiveram resultados mais positivos. Napoleão, por exemplo, organizou os primeiros estudos em egiptologia quando ele trouxe cerca de 150 artistas e cientistas para estudar e documentar a história natural do Egito, que foi publicado na Description de l'Egypte.[269]

No século XX, o governo egípcio e os arqueólogos igualmente reconheceram a importância do respeito cultural e integridade nas escavações. O Conselho Supremo de Antiguidades agora aprova e supervisiona todas as escavações, que visam encontrar informações ao invés de tesouro. O conselho também supervisiona os museus e programas de reconstrução de monumentos concebidos para preservar o legado histórico do Egito.

O monoteismo de Akhenaton, a circuncisão, práticas esotéricas e ocultistas e certas concepções do além egípcio são características visíveis em certas crenças atuais. Algumas palavras (química[251]) e expressões (anos de vacas magras) são de origem egípcia. Contribuíram com alguns símbolos da alquimia: a serpente ouroboros e a fénix. o papiro egípcio foi o antepassado do papel. Além disso a arquitetura egípcia (pirâmides e obeliscos) influenciaram muitas construções contemporâneas.

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[editar] Fontes secundárias

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  • Kemp, Barry. Ancient Egypt: Anatomy of a Civilization. Londres: Routledge, 1991. ISBN 0-415-01281-3

[editar] Ligações externas

  • Navegar no Antigo Egipto - página do Museu Calouste Gulbenkian.
  • Antigo Egipto - todos os períodos, reis e dinastias de faraós egípcios. Comparação de cronologias. Nomes reais (Cartuchos e Serekhs) de alguns faraós.
  • Amigos de la Egiptología - página em castelhano com bastantes informações sobre os diversos aspectos do Antigo Egipto.
  • Ancient Egypt - página do British Museum dirigida ao público juvenil.
  • BBC History - Egyptians - página da BBC dedicada à civilização do Antigo Egipto.
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