Lev Yashin

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Lev Yashin
Лев Яшин
Lev Yashin.jpg
Informações pessoais
Nome completo Lev Ivanovich Yashin
Data de nasc. 22 de outubro de 1929
Local de nasc. Moscou, Flag of the Soviet Union (1923-1955).svg União Soviética
Nacionalidade Flag of the Soviet Union.svg soviético
Falecido em 20 de março de 1990 (60 anos)
Local da morte Moscou, Flag of the Soviet Union.svg União Soviética
Altura 1,89 m
Apelido Aranha negra
Informações profissionais
Período em atividade 1949-1971 (22 anos)
Posição Guarda-redes
Clubes profissionais
Anos Clubes Jogos (golos/gols)
1949-1971 Flag of the Soviet Union (1955-1980).svg Dínamo Moscou 326 (0)
Seleção nacional
1954-1970 Flag of the Soviet Union (1955-1980).svg União Soviética 78 (0)
Medalhas
Jogos Olímpicos
Ouro Melbourne 1956 Futebol

Lev Ivanovich Yashin OL - em russo: Лев Иванович Яшин (Moscou, 22 de outubro de 1929Moscou, 20 de março de 1990) foi um goleiro soviético.

Era conhecido pela alcunha de Aranha Negra na América do Sul, ou Pantera Negra na Europa, devido ao seu uniforme todo preto. Único goleiro até hoje a ganhar a Bola de Ouro da France Football, prêmio para o melhor jogador da Europa, em 1963. Quando se aposentou, em jogo-despedida de 1971, a FIFA resolveu homenageá-lo com uma medalha de ouro especial, por sua extraordinária contribuição ao esporte. Foi um entre tantos reconhecimentos que recebeu durante e após a vida, sendo popularmente considerado o melhor goleiro do século XX.

Mesmo que Yashin, por ironia, jamais tenha sido eleito o melhor goleiro em uma Copa do Mundo, a FIFA voltou a homenagear-lhe, em 1994, quatro anos após sua morte, batizando com seu nome o prêmio dado oficialmente ao melhor goleiro de uma Copa. O troféu Lev Yashin seria posteriormente renomeado para Luva de Ouro.

Pioneirismo na Europa[editar | editar código-fonte]

Começou sua carreira como goleiro de hóquei no gelo na equipe de fábrica de ferramentas onde trabalhava em plena Segunda Guerra Mundial e aos catorze anos decidiu atuar como goleiro de futebol.

Yashin defendeu 150 pênaltis na carreira e não levou gol em 270 jogos. Inspirado no goleiro búlgaro Apostol Sokolov, em excursão deste em 1949 na URSS, deixou de restringir à pequena área, portando-se virtualmente como um líbero.[1] Desta forma, cortava cruzamentos altos, tomava as bolas nos pés dos atacantes e bloquear-lhe os ângulos.

Yashin também prezava pela antevisão dos lances adversários, antecipando de suas observações o movimento de defesa.[2] Aprimorando a idéia do búlgaro, espalharia pela Europa a noção de um goleiro avançado em relação à sua área.[3]

Carreira[editar | editar código-fonte]

Dínamo[editar | editar código-fonte]

Yashin defendeu o Dínamo de Moscou por toda a sua carreira de 22 anos, onde ingressou em 1949. O início não foi fácil, sendo gafes comum. Foi ganhar a posição em 1953, ficando até 1958 sem tomar um unico gol. Naquele ano, ele, um fã de hóquei no gelo, decidiu recusar uma convocação da Seleção Soviética de Hóquei para concentrar-se no futebol.[3]

Sua "Era de Ouro" com o Dínamo iniciaria-se no ano seguinte, conquistando seu primeiro campeonato soviético pelo clube. Venceria a Liga outras quatro vezes (1955, 1957, 1959 e 1963). Foi também três vezes campeão da Copa da URSS (em 1953, 1967 e 1970). Entretanto, seus outros feitos no Dínamo são difíceis de se apurar com rigor, pois os melhores momentos de Yashin no clube foram nos mais fechados tempos do comunismo na Guerra Fria.[2]

Ainda assim, no ano em que ganhou seu quarto título soviético, foi eleito o melhor jogador da Europa pela France Football, que entregou a Bola de Ouro a ele e não a Gianni Rivera, principal nome do campeão europeu daquele ano (o Milan). Yashin despediu-se em 1971, após ganhar no final do ano anterior a Copa de URSS.

O Dínamo, embora tenha sido vice-campeão da Recopa Europeia em 1972, não soube repor a liderança, respeito e carisma de sua maior estrela, entrando em decadência: quem passou a disputar os troféus soviéticos com o rival Spartak Moscou foi outro Dínamo, o de Kiev. O de Moscou ficaria atrás dos dois na tabela dos maiores vencedores do campeonato soviético e a carência de títulos prosseguiria nos tempos pós-URSS: é a única grande equipe que ainda não ganhou o campeonato russo, ficando atrás do Spartak, dos também moscovitas CSKA e Lokomotiv e até de equipes menores, como o Zenit São Petersburgo, Rubin Kazan e Alania Vladikavkaz.

Seleção[editar | editar código-fonte]

Pela Seleção Soviética jogou as Copas do Mundo de 1958, 1962, 1966 e 1970, sendo o único jogador do país a ter ido a quatro Copas, embora tenha jogado apenas as três primeiras; na última, quando já tinha 40 anos, foi como reserva de Anzor Kavazashvili, seu suplente no mundial de 1966 - na Copa em que Yashin ajudou a levar sua equipe ao quarto lugar, a melhor colocação do país na história do torneio.

Pelo fato de a Seleção render mais imagem internacional do que o Dínamo, boa parte do mito em torno de Yashin deve-se às suas exibições pela União Soviética, notadamente as realizadas nas Copas. Ele também conseguiu duas das três premiações soviéticas no futebol em seleções principais: a medalha de ouro nas Olimpíadas de 1956 e na Eurocopa 1960.

Ascensão[editar | editar código-fonte]

Carismático, era o modelo de pessoa para os dirigentes do Partido Comunista, do qual era membro.[3] Já não era um estranho para o mundo do futebol quando conseguiu o ouro olímpico nos Jogos de 1956, mas só alcançou grande fama internacional após a Copa de 1958. No segundo jogo da primeira fase, contra a Áustria, terceira colocada na Copa anterior, demonstrou pela primeira vez ao Ocidente uma de suas principais habilidades características: defendeu um pênalti sem dar rebote, e os soviéticos terminaram vencendo por 2 x 0.[4]

Mesmo no pandemônio que tomou conta da defesa soviética no jogo seguinte, quando foi a primeira do mundo a enfrentar juntamente Pelé e Garrincha, o goleiro salvou-se, levando apenas dois gols [5] - os mesmos adversários posteriormente marcariam cinco contra a mais respeitada França e a anfitriã Suécia. Após o jogo contra os brasileiros, a URSS teve de jogar um play-off contra a Inglaterra para decidir a vaga para os mata-matas.

Yashin foi a grande figura do jogo ao segurar a pressão inglesa após o gol soviético, o único da partida. Seria este desempenho, precisamente, que o começaria a celebrizá-lo entre os inventores do futebol e os ocidentais em geral.[6] Todavia, o jogo extra cansou os soviéticos, que não tiveram muita força para deter a anfitriã Suécia na próxima partida, pelas quartas-de-final.[7]

Dois anos depois, realizou-se a primeira Eurocopa. A União Soviética conseguiu um lugar entre as quatro seleções que decidiram em Paris a fase final do torneio. E a Eurocopa 1960 terminaria nas mãos dos vermelhos após trabalhosa vitória na prorrogação contra a Iugoslávia: o adversário atacou mais, Yashin defendeu muito e os soviéticos conseguiram os dois gols da vitória de virada em contra-ataques, fazendo os adversários perderem a cabeça: Viktor Ponedelnik, o autor do gol do título, saiu da partida direto para um hospital, com suspeita de fratura na costela, e o meia Igor Chislenko levou doze pontos em corte no supercílio.[8]

Reputação em dúvida[editar | editar código-fonte]

A participação na Copa seguinte foi garantida muito por conta do goleiro, fundamental para a classificação, em confronto direto contra a Turquia em Istambul; sua experiência e frieza foram fundamentais para segurar o selecionado soviético após os turcos empatarem a partida seis minutos após o gol da URSS, que tinha a vantagem do empate e sofreu pressão até os cinco minutos do fim, quando conseguiu marcar seu segundo gol e vencer o jogo.[9]

Porém, sua imagem após o torneio ficou apagada: o país foi eliminado novamente nas quartas-de-final pelos anfitriões, agora os chilenos. Desta vez, por duas falhas individuais do arqueiro: na primeira, esperando uma cobrança de falta adversária em dois toques - o que não seria o caso - pois o lance que a originara tinha sido uma obstrução, não se mexeu e a bola entrou em seu ângulo esquerdo.[10] A outra ocorreu apenas um minuto depois do gol de empate soviético, em que ele chegou atrasado em um chute rasteiro de fora da área.[10]

Apesar da boa estreia contra a Iugoslávia, onde os lances da URSS bons (os dois gols e as defesas de seu goleiro) e ruins (a fratura de Yeduard Dubins'kyi em meio à violência adversária) foram bastante similares às da decisão da Eurocopa dois anos antes,[8] seu mito chegara já um pouco abalado no jogo contra o Chile, piorando após a derrota para os donos da casa. A razão desse desgaste foi uma partida na primeira fase contra outros sul-americanos, os colombianos. A União Soviética vencia por 4 x 1, os três primeiros gols obtidos em três minutos no primeiro tempo.[11] Aos 22 minutos do segundo tempo, a Colômbia conseguiu um gol olímpico que passou entre a trave e o defensor Givi Chokheli, originando discussões que destabilizaram todo o time soviético, que em dez minutos permitiu o empate em 4 x 4,[11] o que o obrigou a se submeter novamente a um play-off, agora contra o Uruguai (vencido por 2 x 1).

A volta do Aranha Negra[editar | editar código-fonte]

Ainda assim, o goleiro manteve respeito o suficiente para ser o escolhido para defender no ano seguinte o gol da seleção do Resto do Mundo que enfrentou a Inglaterra em partida que celebrou o centenário da Football Association. 1963 também marcou-lhe a entrega da Bola de Ouro, o que fez dele o primeiro (e, até hoje, único) goleiro a receber a prestigiada premiação da France Football como melhor jogador da Europa. Um ano depois, o prestígio renovou-se um pouco com a URSS novamente alcançando o final da Eurocopa, na segunda edição do torneio. Porém, a Eurocopa 1964 acabaria ficando com a anfitriã Espanha. No mesmo ano, realizaram-se as Olimpíadas de 1964 e, apesar de favorito para vencer no futebol, o país não participou.[12]

Veio a Copa do Mundo de 1966 e Yashin ainda amargava as lembranças de 1962, mesmo com a classificação para o mundial obtida sem maiores problemas. Na primeira fase, só foi titular na vitória contra a Itália.[13] Já com 37 anos, foi poupado do jogo contra a Coreia do Norte, a estreia,[14] e contra o Chile, pois os soviéticos já estavam classificados,[15] dando seu lugar ao reserva Anzor Kavazashvili. Nas quartas-de-final,contra a Hungria, voltou ao gol e a angariar imponência, ao ser o personagem do jogo, fazendo meia dúzia de defesas antológicas.[16] A União Soviética caiu na partida seguinte, a semifinal contra a Alemanha Ocidental, e perderia também o terceiro lugar para Portugal, mas o goleiro voltara a ser o Aranha Negra.

A URSS novamente ficou entre as quatro primeiras na Eurocopa 1968, mas com uma frustração: perdeu a vaga na final no cara e coroa, após empate sem gols contra a Itália, que terminaria campeã - a disputa por pênaltis ainda não era adotada para desempatar prorrogações e o jogo-desempate já não era mais adotado. Paralelamente, Yashin, à beira dos quarenta anos e da aposentadoria, cedia de vez o gol para seu suplente Kavazashvili. O lendário goleiro foi à Copa do Mundo de 1970, mas como reserva do georgiano, não jogando nenhuma partida.

No ano seguinte, despediu-se de vez do futebol. Falta de magia ou não, quando despediu-se de mundiais, a União Soviética demoraria 12 anos para voltar a um.

Após parar[editar | editar código-fonte]

Ele se aposentou com 42 anos, em 1971, passando a treinar equipes juvenis e trabalhar como professor de educação física, além de ter participado das comissões técnicas do Dínamo e da seleção. Em 1984 teve de amputar uma perna devido a um problema circulatório. Dois anos depois, teve um AVC.[2] Morreu em 1990, por causa de um câncer de estômago, no ano anterior à desintegração do país em que nasceu.

Em uma eleição realizada em 1998 pela Fifa, Yashin foi escolhido o goleiro do século XX. Posteriormente, em 2004, foi eleito o melhor jogador russo dos 50 anos da UEFA, nos Prêmios do Jubileu da entidade.

Curiosidades[editar | editar código-fonte]

  • Por causa de sua má fase inicial do Dínamo, em que ficou no banco de reservas por um período, considerou por um tempo a possibilidade de se tornar jogador de hóquei sobre o gelo.
  • A frieza de Yashin no gol se manteve intacta durante toda sua carreira. Graças a um ritual pouco comum em que ele se submetia antes de jogos importantes. Nessas ocasiões, o goleiro sempre fumava um cigarro "para acalmar os nervos" e tomava uma vodca "para tonificar os músculos".[17]
  • A importância do futebol para o Aranha Negra ficou evidenciada em uma referência que fez a uma das maiores conquistas da história da humanidade, Yashin disse: "A alegria de ver Yuri Gagarin no espaço só é superada pela alegria de uma boa defesa de um pênalti".
  • Fã do futebol brasileiro e do goleiro Gilmar,[18] em 1965 obteve licença de seu governo para visitar o Brasil, escolhendo o Rio de Janeiro. Passava as manhãs na praia e às tardes treinava os goleiros do Flamengo, onde também mantinha a forma.[2]

Estatísticas[editar | editar código-fonte]

  • 812 jogos na carreira
  • 326 jogos pelo Dínamo de Moscou na liga soviética
  • 78 jogos pela seleção nacional soviética
  • 150 pênaltis defendidos
  • 270 jogos sem levar gol


Prêmios e homenagens[editar | editar código-fonte]

Títulos[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. "'O Diabo Loiro' Búlgaro", FourFourTwo, número 1, novembro de 2008, Editora Cádiz, pág. 67
  2. a b c d "Revolução sob a trave", Especial Placar - Os Craques do Século, novembro de 1999, Editora Abril, pág. 24
  3. a b c "Situação russa no gol", FourFourTwo, número 1, novembro de 2008, Editora Cádiz, pág. 67
  4. "Vai que é sua, Yashin", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 6 - 1958 Suécia, fevereiro de 2006, Editora Abril, pág. 35
  5. "Um verdadeiro baile", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 6 - 1958 Suécia, fevereiro de 2006, Editora Abril, pág. 36
  6. "Duelo de titãs", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 6 - 1958 Suécia, fevereiro de 2006, Editora Abril, pág. 37
  7. "Bota pra correr", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 6 - 1958 Suécia, fevereiro de 2006, Editora Abril, pág. 38
  8. a b "Replay de Paris", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 7 - 1962 Chile, março de 2006, Editora Abril, pág. 27
  9. "Todos querem ir ao Chile", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 7 - 1962 Chile, março de 2006, Editora Abril, págs. 10-15
  10. a b "...E Yashin falhou", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 7 - 1962 Chile, março de 2006, Editora Abril, pág. 37
  11. a b "Reação histórica", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 7 - 1962 Chile, março de 2006, Editora Abril, pág. 28
  12. "Mais do mesmo", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 9 - 1966 Inglaterra, abril de 2006, Editora Abril, págs. 10-15
  13. "Cadê o ataque?", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 9 - 1966 Inglaterra, abril de 2006, Editora Abril, pág. 35
  14. "Nada de moleza", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 9 - 1966 Inglaterra, abril de 2006, Editora Abril, pág. 34
  15. "Show dos reservas", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 9 - 1966 Inglaterra, abril de 2006, Editora Abril, pág. 36
  16. "Um herói, outro vilão", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 9 - 1966 Inglaterra, abril de 2006, Editora Abril, pág. 39
  17. "O que falaram deles", Heróis do Futebol, Nova Sampa Diretriz Editora, pág. 65
  18. "Lev Iashin - O Aranha Negra", Heróis do Futebol, Nova Sampa Diretriz Editora, pág. 41

Ligações externas[editar | editar código-fonte]