Neonazismo no Brasil

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

O movimento neonazista surgiu no Brasil no início da década de 1980, em meio à efervescência local do movimento punk.[1] As duas subculturas, por sua vez, tem suas origens locais dentro do mesmo contexto sócio-econômico, marcado pelo esgotamento do "milagre econômico" do regime militar, gerando perspectivas sombrias de futuro para a juventude de então.[2] Tal contexto facilitou a assimilação por grupos de jovens brasileiros da influência do movimento neonazista internacional, enquadrando-se também em uma tendência global de expansão do movimento, até então relativamente restrito ao seu berço, o Reino Unido, mas fortalecido pelo sucesso político da ultraconservadora e racista Frente Nacional britânica.[3]

Características[editar | editar código-fonte]

Os neonazistas brasileiros frequentemente atacam os migrantes nordestinos, a mão-de-obra barata que migrou para o sudeste em busca de trabalho.

Existem hoje mais de uma dezena de grupos neonazistas operando no Brasil, congregando um total estimado entre dois e três mil ativistas organizados e um grande número de simpatizantes. Encontram-se espalhados sobretudo por São Paulo (com grande concentração na capital paulista e na região do ABC), Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Distrito Federal e Espírito Santo. Há indícios de que os grupos estejam começando a se organizar também em algumas capitais da Região Nordeste[carece de fontes?]. São tradicionalmente divididos em duas vertentes: uma mais "intelectualizada" e elitizada, dedicada ao ativismo político e à produção cultural do movimento, congregando profissionais liberais, militares, empresários e universitários (que alega ser herdeira direta dos integralistas da década de 1930); e uma outra mais agressiva, agindo de forma clandestina, composta pelos "carecas" (denominação local dos skinheads), gangues de jovens de origem proletária ou de classe média baixa que frequentemente praticam ataques a minorias, quer por motivos ideológicos, quer pela simples atração pela violência.[4] [5]

Embora mantenham estreitas relações entre si, chegando a congregar indivíduos com dupla militância, os grupos neonazistas brasileiros caracterizam-se frequentemente pela ausência de hierarquia formal e por inúmeras divergências, discórdias e paradoxos quanto à ideologia e objetivos. Há, entretanto, características comuns a todos, sobretudo a apologia à intolerância. De forma análoga ao movimento internacional, os grupos brasileiros frequentemente professam ideais ultranacionalistas, racistas, xenófobos e discriminatórios e advogam, em maior ou menor grau, o uso da violência. À perseguição de negros, homossexuais, judeus e dependentes químicos, grupos neonazistas também somam outro alvo, os migrantes nordestinos, estabelecendo dessa forma um paralelo adaptado à realidade local da perseguição sofrida por imigrantes africanos, asiáticos e latino-americanos por neonazistas europeus e norte-americanos. Também opõem-se fortemente ao sionismo, aos comunistas, aos conservadores e à direita política como um todo. Vínculos ideológicos com o nazismo e com o fascismo, assumidos ou dissimulados, também são comuns a quase todos os grupos.[5] [4]

Grupos neonazistas brasileiros[editar | editar código-fonte]

  • Carecas do Subúrbio: Seus membros se concentram na Zona Leste de São Paulo e na região do ABC paulista. Apontado como o mais antigo grupo brasileiro, surgiu por volta de 1979, a princípio como um grupo punk,aproximando-se gradualmente da ideologia skinhead em sua vertente britânica. Professam ideais nacionalistas,não apoiam o nazismo. São contra homossexuais e dependentes químicos, pois estes são opostos aos ideais de Deus, Pária e Família. Em seu ápice, o grupo chegou a somar cerca de 500 integrantes, mas teve o número de membros reduzidos após sofrer dois "rachas" (cisões), que deram origem aos Carecas do ABC e ao White Power. Hoje, congregaria por volta de 100 militantes. Fazem apologia da violência, portam armas brancas e de fogo. O novo pensamento faz com que seus membros não se envolvam em brigas de gangues à toa. Orgulham-se por aceitar negros e nordestinos em suas fileiras. Admitem mulheres.
  • Carecas do ABC: Surgiu como uma dissidência dos Carecas do Subúrbio, ocorrida por divergências ideológicas entre as facções internas. Seus membros, estimados entre 50 e 100 militantes organizados, estão concentrados na região do ABC paulista, sendo na maioria de origem operária. São apontados como mais organizados e mais "intelectualizados" do que seu grupo originário. Adotam hierarquia baseada na organização militar, com "generais" e "soldados". Aproximam-se dos Carecas do Subúrbio na apologia da violência, mas, ao contrário destes, não portam armas de fogo, tendo no uso exclusivo da força física um pressuposto dos seus ideais. Identificam-se com o integralismo de Plínio Salgado e adotam o lema "Deus, Pátria e Família". Admitem a presença de negros e nordestinos em suas fileiras, mas vetam a entrada de mulheres. . Também se opõem à presença de multinacionais em território brasileiro.[6]
  • White Power: Surgiu em 1989, originário de uma dissidência dos Carecas do Subúrbio (do qual era a princípio uma facção mais extremada). A maioria de seus membros localiza-se na Grande São Paulo, possuindo também ramificações em toda a Região Sul do Brasil, embora não obedeçam a qualquer tipo de hierarquia. É considerado o mais radical e agressivo de todos os grupos neonazistas brasileiros. Ultra-racistas, adotam quase integralmente a estética e a ideologia nazistas/hitleristas. Defendem a superioridade da "raça branca" (sic) e manifestam violento repúdio a negros, mulatos, homossexuais, judeus e demais minorias. Notadamente, perseguem os migrantes nordestinos, apontados pelo grupo como "sub-raça", responsabilizando-os pelos problemas sociais e econômicos de São Paulo. Defendem a separação dos estados das regiões Sul e Sudeste do restante Brasil. Com objetivos apologéticos, cultuam os ideais da Revolução Constitucionalista de 1932 em São Paulo e, no Sul, os movimentos locais de caráter separatista, como a Guerra dos Farrapos. É um dos maiores grupos neonazistas brasileiros, congregando mais de mil militantes, a maioria jovens de classe média, bem como profissionais liberais, estudantes e empresários. É também um dos grupos mais "internacionalizados", mantendo contatos com agremiações de extrema-direita estrangeiros, sobretudo na Alemanha, Itália e França, e também com a Ku Klux Klan nos Estados Unidos. No Brasil, estão estreitamente vinculados ao Partido Nacionalista Revolucionário Brasileiro, fundado por Armando Zanine Teixeira Júnior. Gangues ligadas ao grupo costumam portar armas brancas e de fogo. Praticam o culto da força física, fazem musculação e treinam artes marciais. Admitem mulheres em suas fileiras.[7]
  • Partido Nacionalista Revolucionário Brasileiro (PNRB): Já denominado "Partido Nacional-Socialista Brasileiro" (PNSB). Apesar da denominação, não é reconhecido como um partido político oficial. Foi fundado em 1988 pelo antigo oficial da marinha mercante carioca Armando Zanine Teixeira Júnior. Atua sobretudo no Rio de Janeiro, possuindo ramificações em São Paulo, no Espírito Santo, na Bahia e no Distrito Federal. De ideologia excludente, mantém um discurso calcado em pressupostos ultranacionalistas, xenófobos e anti-semitas. O grupo afirma repudiar o racismo, a discriminação contra nordestinos e a violência dos skinheads, mas possui alguns carecas de dupla militância em suas fileiras.[8]
  • Carecas do Brasil: Seus membros atuam no estado do Rio de Janeiro. O grupo é apontado como a facção fluminense dos Carecas do Subúrbio. Como este, afirma não discriminar negros e nordestinos. Estiveram ligados no passado ao Partido Nacionalista Revolucionário Brasileiro. Somam cerca de 50 militantes organizados. Agressivos, perseguem homossexuais, judeus e dependentes químicos. Tornaram-se conhecidos ao protagonizar um violento tumulto durante o show da banda punk Ramones no Canecão, Rio de Janeiro, na noite de 23 de setembro de 1992.[8]
  • Soberanos da Revolução (SDR)[9] : É um movimento composto por 5 a 8 membros do Rio de Janeiro, provavelmente sediado em São Paulo e que pregam sua doutrina na internet, sendo acessível para todo o público internauta em seus websites. Não pratica atos de violência nem crimes de ódio, no entanto tem ideais ofensivos a diversos grupos. Não se espelham nem se baseiam em nenhuma teoria, visão política ou movimento, tendo uma filosofia única, formada pelo rebusque de diversas opiniões polêmicas. Sua doutrina apresenta ideias anti-patriotas, ateístas, racistas (incluindo aversão a negros, latinos e nipônicos), contrárias a qualquer religião, neonazistas (apesar de não se autoafirmarem explicitamente como tal), homofóbicas, xenófobas (contra migrações nordestinas e bolivianas), elitistas, segregacionistas, potencialmente hedonistas (criticam a aparência de idosos e defendem suicídio em idade avançada), veganas e contra o uso de videogames. Também são a favor do desligamento de máquinas de um indivíduo em estado de eutanásia, contra a transfusão de sangue e doação de órgãos. As teorias mais conhecidas são as da "Síndrome de Cirilo" (teoria racista que condena a dita auto-segregação de negros e suas "manias de perseguição", tratando-as como doenças psicológicas) e as teorias "anti-cariocas", que repudiam o suposto comportamento pouco sutil e indiscreto do povo do Rio de Janeiro, seus desapegos ao trabalho e condenam a influência direta das favelas na vida carioca, como por exemplo com o gosto musical, com a falta de cultura, com a mistura racial, etc., além de fazerem duras críticas à cidade principalmente por sua violência e por sua imagem negativa que traz para o país mundo afora.

Demografia[editar | editar código-fonte]

Estados brasileiros por número de simpatizantes do neo-nazismo. São considerados simpatizantes internautas que já fizeram o download de mais de 100 arquivos em sites neo-nazistas.[10]

Desde o surgimento do grupo Carecas do Subúrbio, o alcance das ideias nazistas foi ampliado no país, sobretudo devido à possibilidade de comunicação anônima na internet.[11] Segundo a antropóloga Adriana Dias, pesquisadora sobre o tema desde 2002,[11] que já prestou consultoria para a Polícia Federal e para serviços de inteligência de outros países, os grupos neonazistas são predominantes no Sul do Brasil, embora tenham crescido vertiginosamente no Distrito Federal e nos estados de Minas Gerais e São Paulo nos últimos anos.[10] A pesquisadora mapeia o número de internautas que fazem downloads de arquivos em sites neonazistas, considerando como simpatizantes da ideologia aqueles que já fizeram mais de 100 downloads. Segundo esse critério, haveriam, em 2013, cerca de 105 mil neonazistas no Sul do país; 45 mil apenas no estado de Santa Catrina.[10]

Na opinião de Dias, o acalorado debate entre tucanos e petistas na eleição presidencial de 2010, quando foram levantados temas como a legalização do aborto e do casamento entre pessoas do mesmo sexo, teria dado fôlego ao movimento.[11] De acordo com matéria da revista Istoé, o candidato tucano José Serra teria se aproximado de grupos ultraconservadores para tentar vencer a eleição.[12] Segundo Dias, o preconceito aos nordestinos presenciado na internet após a vitória do PT,[13] que "vem desde as eleições do Lula", foi radicalizado durante a eleição de Dilma Rousseff.[11] No caso específico de Minas Gerais, os movimentos neonazistas parecem ter ganhado fôlego em 2009, como resposta ao assassinato de Bernardo Dayrell Pedroso, um dos líderes do movimento no estado, morto por uma gangue rival.[10] Além disso, pode-se citar a recente adoção de ações afirmativas por universidades públicas brasileiras,[11] o que reforça o discurso desses grupos de que os negros estão tomando o espaço dos brancos na sociedade.

Segundo a antropóloga, há dois grandes grupos etários de neonazistas no Brasil.[11] O primeiro tem entre 18 e 25 anos e o segundo tem entre 35 e 45 anos; esse último seria o líder do primeiro.[11] Para ela, os grupos atendem ao proselitismo de parcela da juventude; os jovens em busca de uma causa acabam sendo acolhidos pelo grupo, que os convencem de que o negro tomou seu espaço no mercado de trabalho ou na universidade.[10] os líderes, segundo Dias, geralmente não participam das ações violentas, por se tratar de "pessoas que já possuem uma condição financeira melhor e (...) um alto grau de instrução que buscam se resguardar de eventuais ações judiciais".[10]

Referências

  1. Salem, 2007, pp. 57.
  2. Salem, 1995, pp. 38-39.
  3. Neonazismo em São Paulo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (originalmente publicado pela Escola Vesper). Visitado em 19 de novembro de 2011.
  4. a b Salem, 1995, pp. 42-45.
  5. a b Bracht, 2007, pp. 61.
  6. Erro de citação: Tag <ref> inválida; não foi fornecido texto para as refs chamadas Salem_45
  7. Salem, 1995, pp. 47.
  8. a b Salem, 1995, pp. 48.
  9. http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI185719-15228,00.html
  10. a b c d e f Léo Rodrigues "Mapa da intolerância: Região Sul concentra maioria dos grupos neonazistas". EBC. 11 de abril de 2013. Página visitada em 15 de abril de 2013.
  11. a b c d e f g Lima, Eduardo. "Neonazistas brasileiros saem da toca?". Brasil de Fato. 13 de outubro de 2011. Página visitada em 15 de abril de 2013.
  12. Rodrigues, Alan e Cavalcanti, Bruna. "Os santinhos de uma guerra suja". Istoé. 22 de outubro de 2010. Página visitada em 15 de abril de 2013.
  13. Harada, Mônica. "Vitória de Dilma gera ataques preconceituosos contra nordestinos no Twitter". Correio Braziliense. 1 de novembro de 2012. Página visitada em 15 de abril de 2013.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • BRACHT, Alexandre. Caminhos da Violência. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro: SABIN, ano 2, nº. 19, abril de 2007, pp. 56-61
  • SALEM, Helena. As tribos do mal: O neonazismo no Brasil e no mundo (série História Viva). V. ed. São Paulo: Atual, 1995. CDD 305.8924.