Nheengatu

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Nheengatu
Falado em: Brasil, Colômbia, Venezuela
Região: Amazônia
Total de falantes: 8 0001
Família: Proto-tupi
 Tupi
  Tupi-guarani
   Subgrupo III
    Nheengatu
Estatuto oficial
Língua oficial de: São Gabriel da Cachoeira
Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: sai
ISO 639-3: yrl
Aiumâna (abraço)2
Amâna (chuva)3
Bóia (cobra)4

O nheengatu, também conhecido como nhengatu, nhangatu, inhangatu, língua geral amazônica, língua brasílica, tupi e tupi moderno5 , é uma língua artificial derivada do tronco tupi. Pertence à família linguística tupi-guarani. Foi criada no século XVII, tendo sido a segunda língua geral indígena desenvolvida no Brasil, após a língua geral paulista. Até o século XIX, foi veículo da catequese e da ação social e política luso-brasileira na Amazônia. Atualmente, continua a ser falado por aproximadamente 8 000 pessoas na região do vale do Rio Negro6 .

Índice

[editar] História

O nheengatu é uma língua artificial7 que se originou a partir do século XVII no Pará e Maranhão, como lingua franca8 criada pelos jesuítas portugueses a partir do vocabulário e pronúncia tupinambás, que foram enquadrados em uma gramática modelada na língua portuguesa. Para conceitos e objetos estranhos à língua, emprestaram-se inúmeros vocábulos do português e espanhol. A essa mistura, deu-se o nome ie’engatu, que significa "língua boa".

Em seu auge, chegou a ser a língua dominante do vasto território brasileiro em conjunto com sua irmã idiomática, a língua geral paulista, sendo usada não apenas por índios e jesuítas, mas também como língua corrente de muitos colonos de sangue português. Segundo o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, "até o fim do século XVIII, em São Paulo, falava-se a língua geral, o nhangatu, uma derivação do tupi. Foi uma língua imposta pelos missionários, até hoje ouvida em alguns locais da Amazônia."9 Na visão do poeta Jorge Mautner, "Anchieta e Nóbrega chegam e inventam o Brasil já numa atitude linguística. Eles pegam o tupi-guarani e transformam, facilitam, e isso vira a língua geral inhangatu (mistura de tupi e português), que vai ser falada em São Paulo até 1930 (sic), quando 70 ou 60 por cento da população falava só essa língua."10 (em vez de 1930, a data mais correta seria 1830, quando, aproximadamente, faleceram os últimos falantes paulistas remanescentes da cultura predominante antes do ciclo do ouro das Minas Gerais)

Entretanto, a língua entrou em declínio no fim do século XVIII, com o aumento da imigração portuguesa, e sofreu duro golpe em 1758, ao ser banida pelo Marquês de Pombal, por ser associada aos jesuítas, que haviam sido expulsos dos territórios dominados por Portugal. Esse declínio do nheengatu na Amazônia se acentuou com a chegada de imigrantes nordestinos, falantes do português.

[editar] Uso atual

Atualmente, o nheengatu ainda é falado por cerca de 8 000 pessoas no Brasil (3 000), Colômbia (3 000) e Venezuela (2 000), especialmente na bacia do rio Negro (rios Uaupés e Içana).1 Para além disso, é a língua materna da população cabocla e mantém o caráter de língua de comunicação entre índios e não índios, ou entre índios de diferentes línguas. Constitui, ainda, um instrumento de afirmação étnica dos povos que perderam suas línguas, como os barés, os arapaços, os baniuas, os Werekena e outros.

O nheengatu é uma das quatro línguas oficiais do município de São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas, no Brasil.11

[editar] Características

Além da anteriormente mencionada língua geral paulista, agora extinta, o nheengatu é bastante relacionado com o tupi antigo, idioma extinto, e com o guarani do Paraguai, que, longe de estar extinto, é o idioma mais falado naquele país e uma de suas línguas oficiais. Segundo algumas fontes, o nheengatu e o guarani paraguaio chegam a ser mutuamente inteligíveis.

[editar] Escrita

O nheengatu usa o alfabeto latino, devidamente adaptado por missionários à língua. São as cinco vogais tradicionais na forma curta (simples) mais aa, ee, ii, uu (forma longa); entre as consoantes, não existem F, J, L, Q, V, W, Z.

Alguns detalhes do uso do alfabeto:

  • G representa sempre o fonema /g/, como nas palavras portuguesas gato, guri, mesmo diante "E" ou "I" (gue, gui);
  • R representa o fonema /ɾ/, semelhante ao que temos em português nas palavras barata, caro, areia, ira (em nossa língua ocorre apenas entre vogais);
  • S é sempre sibilante surda, equivalente aos nossos S inicial, SS, C diante de "E" ou "I", Ç, como nas palavras sapo, sina, som, aceite, cebola, ação etc.;
  • X representa sembre o fonema /ʃ/ (nosso ch), como nas palavras portuguesas xarope, roxo, eixo.

[editar] Comparação com o tupi antigo

Tomando como exemplo os pronomes pessoais, veja-se uma comparação entre o tupi antigo e o nheengatu:

Tupi Antigo Nheengatu Português
xe, ixé se, ixé eu
ne/nde, endé ne, indé tu
a'e, i (singular) aé, i ele, ela
oré ø nós (exclusivo);
iandé iandé nós (inclusivo);
pe, pe'ẽ pe, penhẽ vós
a'e, i (plural) aintá/tá eles, elas

[editar] Amostra de texto

Nheengatu
Brasil, ker pi upé, coaracyáua,
Çaiçú í çaarúçáua çui ouié,
Marecê, ne yuakaupé, poranga.
Ocenipuca Curuça iepé!
Português
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido,
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.

[editar] Ver também

Referências

  1. a b "Nheengatu", Etnólogo, http://www.ethnologue.com/show_language.asp?code=yrl .
  2. Supermanual do escoteiro mirim. São Paulo. Abril. 1979. p. 357.
  3. Supermanual do escoteiro mirim. São Paulo. Abril. 1979. p. 357.
  4. Supermanual do escoteiro mirim. São Paulo. Abril. 1979. p. 357.
  5. NAVARRO, E. A. Método moderno de tupi antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos. 3ª edição. São Paulo. Global. 2005. p. 13.
  6. NAVARRO, E. A. Método moderno de tupi antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos. 3ª edição. São Paulo. Global. 2005. p. 13.
  7. As origens da língua brasílica, "Observatório", Último segundo (BR: iG), http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=449FDS004 .
  8. "Línguas", Habilidades, RPG ficção, http://rpg_ficcao.sites.uol.com.br/Habilidades/Lingua01.htm .
  9. Pinheiro, Flávio; Greenhalgh, Laura (20 de abril de 2008), Eduardo Viveiros de Castro, "Suplemento Aliás", Estadão, http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup159735,0.htm .
  10. Mautner, Jorge (agosto 2009), Nossa amálgama, , Revista FIGAS (BR) 1 (1), http://www.revistafigas.com.br/ed01/ed01_mat11.html .
  11. Martin, Flávia; Moreno, Vitor, "Na Babel brasileira, português é 2ª língua", Folha de S. Paulo, http://treinamento.folhasp.com.br/linguasdobrasil/saogabriel.html, visitado em 30 de outubro de 2012 

[editar] Bibliografia

  • NAVARRO, Eduardo de Almeida (2011), Curso de língua geral (nheengatu ou tupi moderno) – A língua das origens da civilização amazônica, São Paulo: Edição do autor, ISBN 978-85-912620-0-7 . 112 pp.
  • Simpson, Pedro Luís, Gramática da língua brasileira: brasílica, tupi ou nheengatu .
  • Casasnovas, Padre A (2006), Noções de língua geral ou nheengatu (2ª ed.), Manaus: UFAM; Faculdade Salesiana Dom Bosco ,

[editar] Ligações externas