Maria Bonita

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Maria Bonita
Maria Bonita, fotografada em 1936 por Benjamin Abrahão Botto
Nome completo Maria Gomes de Oliveira
Nascimento 8 de março de 1911[1]
Glória, BA
Morte 28 de julho de 1938 (27 anos)
Poço Redondo, SE
Nacionalidade brasileira
Progenitores Mãe: Maria Joaquina Conceição de Oliveira
(Dona Déa)[2]
Pai: José Filipe Gomes de Oliveira[2]
Cônjuge Zé de Neném (c.1926-s.1929)
Virgulino Ferreira da Silva (c.1929-f.1938)
Filho(s)
  • Expedita Gomes de Oliveira Ferreira (n.1932) [3]
Ocupação Cangaceira

Maria Gomes de Oliveira, conhecida como Maria de Déa e, após sua morte, Maria Bonita (Glória,[4] 8 de março de 1911[1]Poço Redondo, 28 de julho de 1938), foi uma cangaceira brasileira, companheira de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e a primeira mulher a participar de um grupo de cangaço.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Origem[editar | editar código-fonte]

Filha de Maria Joaquina Conceição de Oliveira, conhecida como Dona Déa, e de José Filipe Gomes de Oliveira, Maria nasceu e cresceu em uma família humilde, no povoado de Malhada da Caiçara, que atualmente se localiza no município Paulo Afonso,[5] na época pertencente ao município de Santo Antônio de Glória, atualmente conhecido como Glória, no sertão baiano.[5]

Primeiro Casamento[editar | editar código-fonte]

Aos quinze anos, em um matrimônio arranjado pelas famílias, casou-se com seu primo, o sapateiro Zé de Neném.[6] O relacionamento era conturbado, e Maria sofria em um matrimônio infiel, com constantes agressões do marido alcoólatra. Maria era espancada sempre que contestava as atitudes adúlteras do marido. Por vingança, passou a trair o marido com diversos homens. Um dia, seu matrimônio ruiu de vez, quando Virgulino Ferreira da Silva entrou em sua vida, tendo verdadeiramente apaixonado-se por ele, formando um triângulo amoroso.[7]

União com Lampião e Ingresso no Cangaço[editar | editar código-fonte]

Em 1929, ainda casada, tornou-se a amante de Virgulino Ferreira da Silva, conhecido também como o Lampião. Nesse mesmo ano, decidiu fugir com ele, para fazer efetivamente parte do bando de cangaceiros, assim se tornando a mulher de Lampião, com quem viveria por nove anos. Entre o bando, Maria começou a ser chamada de Maria da Déa, ou Maria do Capitão, e assim a nova cangaceira aprendeu cada lei do bando.[8]

Conhecida por sua beleza e personalidade forte, diferentemente de todas as outras mulheres do cangaço, Maria nunca foi abusada pelos cangaceiros, e tinha diversas regalias. Andava com vestidos de seda, luvas com estampas florais, sandálias e botas de cano curto. Também usava joias caras, broches, portava moedas de prata e enfeites de ouro decoravam seus cabelos. No pescoço e nos pulsos, usava o mesmo perfume francês que Lampião. Quando estava ao lado do marido nos campos de batalha, vestia botas de couro e roupas de algodão.[9]

A vida no cangaço era difícil, onde passavam bastante necessidade, e viviam escondendo-se. A realidade do cangaço também era cercada de muitas superstições. Quando o assunto era manter relações sexuais com as próprias cangaceiras, os homens tinham algumas exigências e rituais. Por exemplo, Maria não poderia deitar-se com Lampião às sextas-feiras. O ato também não era permitido nas vésperas da fuga para um novo esconderijo. Antes de qualquer ato sexual, entretanto, as mulheres deveriam banhar-se. Uma porção da água do rio era guardada apenas para que elas fizessem a limpeza íntima. Em um movimento contrário, os homens, por vezes, não se lavavam, e até transmitiam doenças sexualmente transmissíveis, adquiridas nos cabarés da região. Agora, quando o ato sexual realmente acontecia, as superstições eram levadas muito a sério. Na noite do ato, os cangaceiros tiravam seus colares de orações. Lampião mesmo carregava oito deles — além de um crucifixo de ouro puro.[10]

Constantemente traída por seu companheiro, Maria tinha diversas crises de ciúmes de Lampião, mas o cangaceiro tratava sua esposa com paciência e carinho. Em 1931, inclusive, os dois viajaram para uma fazenda, a fim de desfrutar da lua de mel que nunca tiveram. Para a jovem cangaceira, no entanto, aquilo não era o suficiente. Diversos relatos afirmam que Maria, por vingança, iniciou um caso extraconjugal com João Maria de Carvalho, um comerciante. Do amante, ela ganhava sapatos, roupas e outros presentes, e Lampião jamais desconfiou, ou Maria pagaria com sua própria vida.[11]

Logo depois de sua lua de mel na fazenda, Maria engravidou. Comprovadamente ela teve uma filha com Lampião, batizada como Expedita Gomes de Oliveira Ferreira,[4] a única reconhecida legalmente,[3] que sob as regras do cangaço, foi entregue para ser criada por um casal de amigos vaqueiros. Saudosa pela filha perdida, Maria amarrou um pano em seus seios cheios de leite para que eles não vazassem mais.[12]

Existem, porém, dúvidas sobre o parentesco dos supostos gêmeos Arlindo e Ananias Gomes de Oliveira. Ambos até então considerados filhos de Maria Bonita e Lampião. Outras fontes afirmam que eles eram, na verdade, irmãos caçulas de Maria.[2]

Morte[editar | editar código-fonte]

Em 28 de julho de 1938, quando os cangaceiros estavam acampados na Grota de Angicos, em Poço Redondo, no Sergipe, o bando foi atacado de surpresa pela polícia armada oficial, conhecida como volante. Maria assistiu a vida de nove cangaceiros e de seu marido ser ceifada pela polícia. Eles foram mortos a tiros e posteriormente, degolados.[4] A jovem Maria, de apenas 27 anos, tentando fugir, foi baleada duas vezes: uma no abdômen e outra nas costas, e logo em seguida foi decapitada viva por José Panta de Godoy, o mesmo que lhe deu os tiros. Nessa hora, com a cabeça separada do corpo, recebeu o apelido de Maria Bonita.[13]

Representações na cultura popular[editar | editar código-fonte]

Nome[editar | editar código-fonte]

A baiana Maria Gomes de Oliveira era chamada desde a infância de Maria de Déa, em referência a sua mãe. Nem a família nem o bando de Lampião a tratavam por Maria Bonita, apelido que só se difundiu após sua morte. Há algumas versões sobre a origem desse nome. Uma delas diz que se tratou de invenção dos repórteres dos jornais do Rio de Janeiro, possivelmente inspirados no filme Maria Bonita, lançado em 1937 e baseado na obra de mesmo nome de Afrânio Peixoto, de 1921. Outra, que teria sido dado por soldados que se impressionaram com a beleza da cangaceira quando ela foi morta em 28 de julho de 1938, aos 27 anos.[14]

Patrimônio histórico[editar | editar código-fonte]

Em 2006 a Prefeitura de Paulo Afonso restaurou a casa de infância de Maria Bonita, instalando o Museu Casa de Maria Bonita no local.[5]

Referências

  1. a b Segundo o Antônio Amaury, a certidão de batismo em nome de Maria Bonita não pode ser localizada. Maria deve ter nascido por volta do ano de 1908 (ARAÚJO 1984, fls. 168)
  2. a b c FILHOS DO REI DO CANGAÇO, João de Sousa Lima, escritor e pesquisador, membro da SBEC-Sociedade de Estudos do Cangaço, da Academia de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Paulo Afonso
  3. a b Morre em SP o irmão de Maria Bonita, aos 79 anos, pág. visitada 31 de outubro de 2012.
  4. a b c Morte de Lampião completa 70 anos, pág. visitada 31 de outubro de 2012.
  5. a b c Lampião provoca medo até depois de morto, pág. visitada 31 de outubro de 2012.
  6. «Paixão transformou mulher de sapateiro em Maria Bonita». Folha online. 29 de fevereiro de 2012. Consultado em 6 de fevereiro de 2018 
  7. [[1]]
  8. [[2]]
  9. [[3]]
  10. [[4]]
  11. [[5]]
  12. [[6]]
  13. [[7]]
  14. «A soberana do Sertão». revista piauí 


Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Antônio Amaury Corrêa de Araújo (1984). Lampião. as Mulheres e o Cangaço. São Paulo: Traço Editora 
  • João de Sousa Lima. A Trajetória Guerreira de Maria Bonita, a Rainha do Cangaço. [S.l.: s.n.] 
  • DANTAS, Sérgio Augusto de Souza. Lampião e o Rio Grande do Norte: a história da grande jornada. 2. ed. Ed. Gráfica Real: 2014.