Stuart Angel Jones

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Stuart Angel Jones
Nome completo Stuart Edgart Angel Jones
Nascimento 11 de janeiro de 1946
Salvador, Brasil
Morte 14 de junho de 1971 (25 anos)
Rio de Janeiro, Brasil
Nacionalidade Brasil brasileiro
Estados Unidos norte-americano
Ocupação guerrilheiro
Influências

Stuart Edgart Angel Jones (Salvador, 11 de janeiro de 1946Rio de Janeiro, 14 de junho de 1971) foi um integrante da luta armada contra a ditadura militar no Brasil e militante do grupo guerrilheiro revolucionário de extrema esquerda MR-8,[1] preso, torturado, morto e dado como desaparecido político brasileiro.[2]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Stuart era filho do americano Norman Jones e de Zuleika Angel Jones, mais conhecida como Zuzu Angel, figurinista e estilista conhecida internacionalmente. Bicampeão carioca de remo pelo Clube de Regatas Flamengo na adolescência,[3] ele foi estudante de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Possuía dupla nacionalidade, brasileira e americana.

Na virada das décadas de 60/70, passou a militar no MR-8, grupo de ideologia socialista que fazia a luta armada contra o regime militar, onde usava os codinomes "Paulo" e "Henrique". Preso, torturado e morto por membros do CISA (Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica) em 14 de junho de 1971,[4] aos 25 anos de idade. Foi casado com a também militante e guerrilheira Sônia Morais Jones, presa, torturada e morta dois anos depois e também dada como desaparecida.

Morte[editar | editar código-fonte]

Preso próximo a seu "aparelho", no bairro do Grajaú, perto da Avenida 28 de Setembro, na Zona Norte do Rio, Stuart foi levado pelos agentes do CISA à Base Aérea do Galeão para interrogatório. Dele, os militares queriam a informação da localização do ex-capitão Carlos Lamarca, chefe do MR-8 e então o grande procurado pelo regime. Negando-se a falar, foi então barbaramente torturado e espancado. Depois, foi conduzido ao pátio da base, vindo a morrer em consequência dos maus tratos.

Documento do SNI sobre Stuart, 1971

A versão mais conhecida e difundida de sua tortura e morte foi dada pelo ex-guerrilheiro Alex Polari, também preso no local, que assistiu da janela de sua cela as torturas feitas contra Stuart. Ele foi amarrado a um carro e arrastado por todo o pátio do quartel[4] . Em alguns momentos entre os risos, as perguntas e as chacotas feitas pelos militares, ele era obrigado a colocar a boca no escapamento do veiculo aspirando todos os gases tóxicos por ele emitido. Polari ainda conta na carta remetida a Zuzu Angel, que lhe foi entregue no Dia das mães na qual a notificava sobre o paradeiro de seu filho, que após ser desamarrado o militante foi deixado abandonado no chão, com o corpo já bastante esfolado onde seguiu clamando por água noite adentro. De posse dela, a estilista denunciou o assassinato de Stuart — que tinha cidadania brasileira e americana — ao senador Edward Kennedy, que levou o caso ao Congresso dos Estados Unidos.[4]

O livro Desaparecidos Políticos, de Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, aponta duas versões para o desaparecimento do corpo do guerrilheiro: " A primeira é de que teria sido transportado por um helicóptero da Marinha para uma área militar localizada na Restinga de Marambaia, na Barra de Guaratiba, próximo à (então) zona rural do Rio, e jogado em alto-mar pelo mesmo helicóptero. Mas, de acordo com outras informações, o corpo de Stuart teria sido enterrado como indigente, com o nome trocado, num cemitério de um subúrbio carioca, provavelmente Inhaúma."[5] Os responsáveis, segundo eles: "os brigadeiros Burnier e Carlos Afonso Dellamora, o primeiro, chefe da Zona Aérea e, o segundo, comandante do CISA; o tenente-coronel Abílio Alcântara, o tenente-coronel Muniz, o capitão Lúcio Barroso e o major Pena – todos do mesmo organismo; o capitão Alfredo Poeck – do CENIMAR; Mário Borges e Jair Gonçalves da Mota – agentes do DOPS".[6]

Em 2013, um novo nome foi descoberto, juntando-se aos demais citados após o cruzamento de dados com depoimentos de sobreviventes: o do sargento Abílio Correa de Souza, codinome "Pascoal", verdadeira identidade do suboficial da Aeronáutica na época apenas identificado como suboficial "Abílio Alcântara", um militar treinado em inteligência de combate e contraespionagem na Escola das Américas, no Forte Gulick, no Panamá. Abílio seria o principal torturador de Stuart e último a vê-lo ainda vivo em sua cela. [7]

Stuart, segundo depoimentos de testemunhas, foi o único preso morto pela Aeronáutica naquela ocasião, entre vários outros guerrilheiros aprisionados. Sua morte veio a causar a transferência de todos os presos das celas do CISA para outros lugares. No fim daquele ano, toda a cúpula da Aeronáutica foi substituída, devido às pressões causadas pela incessante procura e denúncias do desaparecimento de Stuart por sua mãe, Zuzu Angel, usando a imprensa no Brasil e no exterior. [7]

Desaparecido[editar | editar código-fonte]

Pelos anos seguintes, a mãe de Stuart, Zuzu, peregrinou pelo poder militar tentando conseguir explicações e informações sobre o corpo do filho, oficialmente dado como desaparecido. Sua campanha chegou ao mundo da moda, na qual tinha destaque, com desfiles de coleções feitas com roupas estampadas com manchas vermelhas, pássaros engaiolados e motivos bélicos.[8] O anjo, ferido e amordaçado em suas estampas, tornou-se também o símbolo do filho. Zuzu chegou a realizar em Nova York um desfile-protesto, no consulado do Brasil na cidade.

Usando de sua relativa notoriedade internacional, ela envolveu celebridades de Hollywood que eram suas clientes, como Joan Crawford, Liza Minnelli e Kim Novak, em sua causa,[9] e durante a visita de Henry Kissinger, então secretário de estado norte-americano, ao Brasil, chegou a furar a segurança para entregar-lhe um dossiê com os fatos sobre a morte do filho, também portador da cidadania americana.[8]

Zuzu morreu em 1976, num suspeito acidente de automóvel no bairro de São Conrado, Rio de Janeiro, sem jamais conseguir descobrir o paradeiro do corpo de Stuart Angel.[10] Em 1998, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos julgou o caso sob número de processo 237/96 e reconheceu a ditadura militar como responsável pela morte da estilista.[11][12]

Em 2013, documentos inéditos foram descobertos nos arquivos do extinto SNI disponíveis no Arquivo Nacional, onde consta o informe nº 1008, de 14 de setembro de 1971. O documento, de 167 páginas e classificado como confidencial, demonstra que a morte de Stuart foi bastante documentada pelas agências de repressão política, existindo sobre o título "Stuart Angel Jones — Falecido". Outro documento, "Informação nº 4.057", descoberto nos arquivos do SNI de São Paulo, listam seu nome ao lado de outros 89 guerrilheiros mortos no período, com a data de 16 de setembro de 1971, dois dias depois de seu desaparecimento. [7]

Cinema e literatura[editar | editar código-fonte]

Em 2006, a vida de Stuart e de sua mãe foram levadas ao cinema, com o filme Zuzu Angel, dirigido por Sérgio Rezende, com Daniel de Oliveira e Patrícia Pillar no papel do militante-guerrilheiro e da estilista.

O escritor José Louzeiro escreveu o romance Em carne viva, com personagens e situações que lembram o drama da morte de Stuart Angel.[13]

Referências

  1. «Fernando Gabeira e suas idéias». vice.com. Consultado em 22 de maio de 2013 
  2. «Stuart Edgar Angel Jones». Centro de Documentação Eremias Dolizoicov. Consultado em 15 de junho de 2011 
  3. «Stuart Angel é homenageado por seu combate». Consultado em 16 de junho de 2011 
  4. a b c «Stuart Edgar Angel Jones». Tortura Nunca Mais-RJ. Consultado em 16 de junho de 2011 
  5. Cabral, Reinaldo; Ronaldo Lapa. Edições Opção, ed. Desaparecidos políticos. 1979. [S.l.: s.n.] pp. pg. 115 
  6. Cabral, Reinaldo; Ronaldo Lapa. Edições Opção, ed. Desaparecidos Políticos. 1979. [S.l.: s.n.] pp. pg. 115 
  7. a b c «Stuart Angel: verdadeiro nome do principal torturador é descoberto». O Globo. Consultado em 22 de setembro de 2013 
  8. a b «Saiba mais sobre a estilista Zuzu Angel». Folha de S. Paulo. Consultado em 15 de junho de 2011 
  9. Miranda. «Vida ou arte em Zuzu Angel». Digestivo Cultural. Consultado em 15 de junho de 2011 
  10. «A dor, o luto e a luta de Zuzu Angel». R7. Consultado em 16 de junho de 2011 
  11. Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. «Direito à verdade e à memória: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos» (PDF). Consultado em 26 de setembro de 2012 
  12. Diário Oficial da União. «COMISSÃO ESPECIAL DOS DESAPARECIDOS POLÍTICOS - Secretaria Executiva». Consultado em 26 de setembro de 2012 
  13. «Bio José Louzeiro». Consultado em 22 de setembro de 2013