Massafumi Yoshinaga

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Massafumi Yoshinaga
Nascimento 22 de janeiro de 1949
Paraguaçu Paulista
Morte 7 de junho de 1976 (27 anos)
São Paulo
Cidadania Brasil
Progenitores Mãe:Mitsuki Kuriki
Pai:Kiyomatsu Yoshinaga
Ocupação estudante
Causa da morte enforcamento

Massafumi Yoshinaga (Paraguaçu Paulista - São Paulo, 22 de janeiro de 1949 - São Paulo, 7 de junho de 1976) foi militante pelo movimento estudantil de São Paulo, atuou pelo UPES (União Paulista de Estudantes Secundaristas) em nível nacional e fez parte da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Ficou conhecido por ser um dos militantes de esquerda que gravaram depoimentos para a televisão renegando suas convicções políticas anteriores e se manifestando contra organizações clandestinas.

É um dos casos investigados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), que apura mortes e desaparecimentos na ditadura militar brasileira, regime instaurado em 1 de abril de 1964 e que durou até 15 de março de 1985.

Vida[editar | editar código-fonte]

Massafumi Yoshinaga nasceu no dia 22 de janeiro de 1949 na cidade de  Paraguaçu Paulista, no interior do estado de São Paulo. Seus pais eram Kiyomatsu Yoshinaga e Mitsuki Kuriki, descendentes de japoneses. Estudou no Colégio Brasílio Machado, localizado no bairro Vila Mariana da capital paulista, onde começou a se envolver com movimentos estudantis.

Movimento Secundarista[editar | editar código-fonte]

Começou a participar do Movimento Estudantil Secundarista enquanto ainda era estudante do ensino médio, no Colégio Brasílio Machado, em 1966, quando foi eleito para a vice-presidência da UPES (União Paulista dos Estudantes Secundaristas). Em 1968, passou a dirigir o jornal “Avante”, em sua escola, e se tornou liderança conhecida nesse segmento estudantil.[1]

Vanguarda Popular Revolucionária[editar | editar código-fonte]

Logo após o envolvimento com o movimento estudantil, iniciou contatos com a VRP e atuou na área de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira tornando-se militante da Vanguarda Popular Revolucionária. Massafumi passou alguns meses na primeira área de treinamentos, juntamente com os revolucionários Celso Lungaretti, Carlos Lamarca, Lavecchia e Yoshitane Fujimori. Em 1970, Massafumi e Lungaretti foram retirados da área de guerrilha. Lungaretti foi preso em abril do mesmo ano, pouco antes de os órgãos de segurança descobrirem a presença de Lamarca naquela região. Em julho, Massafumi, se apresentou voluntariamente aos órgãos de segurança depois de passar alguns meses sem contato com a VPR, enfrentando dificuldades de sobrevivência e sendo perseguido pelo regime militar, pois era confundido com Fujimori, que, assim como Yoshinaga, era Nissei. Ele foi acusado de participação em inúmeras ações armadas, enquanto que Massafumi tinha, na VPR, militância de base.[1]

Retratação e arrependimento[editar | editar código-fonte]

Após ser preso, agentes de segurança forçaram com que ele se retratasse publicamente e explicasse suas posições políticas. O fato foi muito divulgado pela imprensa da época e em 2 de julho de 1970, concedeu a entrevista à TV Tupi[2], quando renegou suas convicções políticas anteriores e se manifestou contra organizações clandestinas. A entrevista foi dada na presença do coronel Danilo de Sá da Cunha e Melo, do Secretário de Segurança Pública da época, de Danton Avelino, Comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo e Leonardo Lombardo, diretor de Relações Públicas da Secretaria de Segurança. Massafumi foi posto em liberdade dias depois da declaração. Muitos casos de "arrependimento”, termo utilizado nas notas oficiais dos órgãos de segurança, foram na verdade resultado de intensas torturas. Vale ressaltar também que esses protagonistas de boa parte dos “arrependimentos”, inclusive os de maior repercussão, foram secundaristas que, em circunstâncias normais, teriam demorado muitos anos para atingirem tal grau de militância. Entretanto, a esquerda armada estava perdendo muitos quadros e precisava repô-los rapidamente, então diminuiu a rigidez nos critérios de admissão e mesmo de treinamento.

Problemas psicológicos[editar | editar código-fonte]

Depois de ser posto em liberdade, Massafumi tentou trabalhar como vendedor de coleções de livros, pesquisador de mercado, corretor de imóveis, mas não se fixou em nenhum trabalho. No processo apresentado por seus familiares à Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos[3] consta que, após submeter-se a retratação pública, Massafumi passou a apresentar distúrbios psicológicos. Massafumi tinha alucinações e dizia repetidamente que a Operação Bandeirante - Oban (reorganizada como Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna - DOI-CODI em julho de 1970) iria matá-lo. Diante disso, em 1973, começou um tratamento psiquiátrico e chegou a ser internado. [1] Em 1973, seu estado de saúde mental piorou por causa da morte de sua mãe. De outubro de 1975 a abril de 1976, esteve internado no Hospital das Clínicas de São Paulo, em tratamento psiquiátrico. Durante seu processo de reabilitação, ele foi isolado e condenado moralmente por seus ex-companheiros, pelas declarações feitas na televisão contra o movimento de oposição ao governo no qual antes participava, o que agravou ainda mais seu quadro de distúrbios psicológicos.

Morte[editar | editar código-fonte]

Mesmo com tratamento, Massafumi jogou-se embaixo de um ônibus, mas não chegou a óbito; tentou uma segunda vez, jogando-se da janela de sua casa; na terceira e última, no dia 7 de junho de 1976, enforcou-se com a mangueira de plástico do chuveiro do apartamento que dividia com seu pai e dois de seus cinco irmãos, em sua casa, na Vila Odete, na cidade de São Paulo. O laudo de sua morte atesta como causa a "asfixia mecânica por enforcamento", atestado pelo Dr. Jose Francisco de Gois Filho. O sepultamento ocorreu em São Paulo no Cemitério do Araçá. [1] Sua morte aconteceu seis anos depois de gravar seu depoimento para a TV Tupi. A historia da vida e morte do Massafumi é contada pelo historiador Jeffrey Lesser no livro Uma Diaspora Descontente. [4]

Em 2004, Toshiro Yoshinaga pediu na justiça que seu irmão Massafumi fosse reconhecido como morto em razão da participação em atividades políticas, pela Lei 9140/95 [5] e 10.536/2002[6]. Dessa forma, sua morte é declarada como diretamente relacionada ao período ditatorial brasileiro.

Comissão da Verdade do Estado de São Paulo 'Rubens Paiva'[editar | editar código-fonte]

Após as investigações sobre a morte de Massafumi Yoshinaga, conclui-se que após ser perseguido, preso e vítima das mais diversas formas de pressão, por parte de agentes públicos vinculados ao Estado brasileiro, que resultaram em abalo físico e mental, ocasionando seu suicídio. A morte de Massafumi Yoshinaga fomentou discussões sobre direitos humanos articuladas pela ditadura militar implantada no Brasil a partir de 1 de abril de 1964. [7]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d «MASSAFUMI YOSHINAGA - Comissão da Verdade». comissaodaverdade.al.sp.gov.br. Consultado em 9 de outubro de 2019 
  2. Entrevista de Massafumi à TV Tupi http://www.bcc.org.br/tupi/detalhe/44741.
  3. Relatório sobre Massafumi Yoshinaga da Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos http://cemdp.sdh.gov.br/modules/desaparecidos/acervo/ficha/cid/137.
  4. Uma Diáspora Descontente: Os Nipo-Brasileiros e os Significados da Militância Étnica, 1960-1980 (São Paulo: Editora Paz e Terra, 2008) http://www.record.com.br/livro_sinopse.asp?id_livro=27390
  5. «Lei 9140/95 | Lei nº 9.140, de 04 de dezembro de 1995, Presidência da Republica». Jusbrasil. Consultado em 18 de outubro de 2019 
  6. «L10536». www.planalto.gov.br. Consultado em 18 de outubro de 2019 
  7. «MASSAFUMI YOSHINAGA - Comissão da Verdade». comissaodaverdade.al.sp.gov.br. Consultado em 18 de outubro de 2019