Ana Kucinski

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Ana Kucinski
Nascimento 12 de janeiro de 1942
São Paulo, Brasil
Morte  ? de ? de 1974
Nacionalidade Brasil brasileira
Ocupação filósofa, professora
Influências

Ana Rosa Kucinski Silva (São Paulo, 12 de janeiro de 1942 – ? de ? de 1974) foi uma professora e militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN), organização de extrema-esquerda que combateu a ditadura militar brasileira, dada como desaparecida aos 32 anos, desde 1974.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Integrante da ALN na clandestinidade, Ana era graduada em química e doutora em filosofia. Casada com Wilson Silva, também integrante da ALN, era uma das mais jovens professoras do Instituto de Química da Universidade de São Paulo – USP. Em 22 de abril de 1974, ela saiu do trabalho na universidade para encontrar-se com o marido para um almoço na Praça da República, no centro da cidade de São Paulo, em comemoração aos quatro anos de casamento. Os dois nunca mais foram vistos.[1] Sua participação na luta armada teria sido informada à repressão por um dos ex-militantes infiltrados pela polícia na ALN, João Henrique Ferreira de Carvalho, o Jota, segundo depoimento do ex-sargento e ex-agente do DOI-CODI/SP, Marival Chaves.[1]

Seu desaparecimento e de seu marido causou a impetração de um pedido de habeas corpus por intermédio do advogado Aldo Lins e Silva, negado pela proibição do uso deste instrumento jurídico para presos políticos pelo AI-5.[1] O arcebispo de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns e a Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) foram acionados, sem conseguir do governo militar qualquer informação sobre o paradeiro do casal.[2] Seu desaparecimento levou a uma reportagem no New York Times e a debates numa reunião da OEA. Em 12 de setembro de 1974, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, John Hugh Crimmins, precisou da ajuda e orientação do Departamento de Estado americano após receber uma carta do presidente do Congresso Mundial Judaico, Jacques Torczyer, pedindo a intervenção da diplomacia americana no caso Ana Rosa Kucinski. A resposta, protocolar, assinalava que, não sendo Ana cidadã americana, o governo de Washington D.C. nada podia fazer.[3] Em 6 de fevereiro de 1975, respondendo a requerimento feito pelos familiares sobre o paradeiro dos desaparecidos políticos, o ministro da Justiça da época, Armando Falcão, publicou nota oficial a respeito, na qual os nomes de Ana Rosa e Wilson Silva são citados como “terroristas foragidos”.[1]

As primeiras pistas sobre o destino do casal só começaram a vir a público décadas depois, com a redemocratização do país. Em 1993, o ex-cabo do exército José Rodrigues Gonçalves, numa entrevista à revista Veja que nunca foi publicada, declarou que Ana e seu marido foram presos pela equipe de um dos mais famosos agentes da repressão da época, o delegado paulista Sérgio Paranhos Fleury, e entregues aos militares, que os levaram para a Casa da Morte, um centro clandestino de torturas e assassinatos dos exército na cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro, onde foram interrogados, torturados e executados.[2] A passagem de Ana e seu marido pela Casa da Morte também viria a ser assinalada anos depois por outras fontes militares.[4]

Em 2012, o ex-delegado e torturador confesso Cláudio Guerra, em depoimento aos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros para o livro Memórias de uma Guerra Suja, afirmou que os corpos de Ana Kucinski e seu marido foram incinerados no forno da Usina Cambahyba, no Rio de Janeiro, junto com o de outros presos políticos assassinados.[2] O corpo de Ana tinha "marcas de mordidas, talvez por ter sido assaltada sexualmente" e o de Wilson "não tinha unhas na mão direita".[5]

Resgate da memória[editar | editar código-fonte]

Em 2012, movimentos de direitos humanos reunidos no Fórum Aberto pela Democratização da USP, exigiram da direção da universidade a reversão e revogação da decisão resultante do processo instaurado pela Reitoria em 1975, que causou a "demissão" da professora por 13 votos favoráveis e dois votos em branco, por "abandono de função", ignorando seu desaparecimento forçado. Nesta época, ela já havia sido sequestrada e assassinada há mais de um ano.[6] Em abril de 2014, a demissão foi anulada por unanimidade pela Congregação do Instituto de Química da USP, sendo considerada um "equívoco" da época. A família de Ana também recebeu um pedido formal de desculpas da Congregação. Na mesma ocasião, foi anunciada a inauguração de um monumento em homenagem a Ana nos jardins do Instituto de Química da universidade.[7]

Ana Kucinski era irmã do jornalista, professor, cientista político e escritor Bernardo Kucinski.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d «ANA ROSA KUCINSKI SILVA». Comissão da Verdade do Estado de São Paulo. Consultado em 20 de março de 2014 
  2. a b c «O acerto póstumo da demissão de Ana Kucinski». LuisNassif online. Consultado em 20 de março de 2014 
  3. «WIKILEAKS: EUA NEGARAM AJUDA NO CASO ANA ROSA KUCINSKI». apublica. Consultado em 20 de março de 2014 
  4. Loyola, Leandro. «Parecia casa. Era o inferno». Revista Época. Consultado em 26 de junho de 2011 
  5. «Militantes de esquerda foram incinerados em usina de açúcar». IG Último Segundo. Consultado em 20 de março de 2014 
  6. «Movimentos querem que USP reverta demissão de Ana Rosa Kucinski, morta pela ditadura». viomundo. Consultado em 20 de março de 2014 
  7. «USP anula demissão de professora desaparecida na ditadura militar». O Estado de S. Paulo. Consultado em 22 de abril de 2014