Carlota Joaquina de Bourbon

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Carlota Joaquina de Bourbon
Imperatriz do Brasil (de jure)
Rainha consorte de Portugal
Infanta de Espanha
Governo
Reinado 20 de março de 181610 de março de 1826
Consorte João VI
Casa Real Bourbon
Vida
Nascimento 25 de Abril de 1775
Aranjuez, Madrid
 Espanha
Morte 7 de janeiro de 1830 (54 anos)
Queluz, Sintra
 Portugal
Sepultamento Panteão dos Braganças, Mosteiro de São Vicente de Fora, Lisboa
 Portugal
Filhos Maria Teresa
Francisco António
Maria Isabel
Pedro IV
Maria Francisca
Isabel Maria
Miguel I
Maria da Assunção
Ana de Jesus
Pai Carlos IV de Espanha
Mãe Maria Luísa de Parma

Dona Carlota Joaquina Teresa Caetana de Bourbón e Bourbón, em castelhano Carlota Joaquina Teresa Cayetana de Borbón y Borbón GCNSC (Aranjuez, 25 de Abril de 1775Palácio de Queluz, 7 de Janeiro de 1830) foi uma infanta de Espanha por nascimento, e Infanta consorte de Portugal, princesa-consorte do Brasil, Princesa-regente consorte de Portugal, Rainha consorte do reino unido de Portugal, Brasil e Algarves e Rainha consorte de Portugal por seu casamento com o então Infante português D. João Maria de Bragança (futuro Dom João VI), àquela altura Senhor do Infantado e duque de Beja. Foi também Imperatriz do Brasil, entre 1825 e 1826. Ficou conhecida como A Megera de Queluz, pela sua personalidade forte e porque foi isolada no Palácio de Queluz, nos arredores de Lisboa, por ter conspirado contra seu marido e ser antiliberal.

Também, pelo tratado do Rio de Janeiro de 1825, foi imperatriz do Brasil, de jure, por alguns poucos dias.

Nascimento e casamento[editar | editar código-fonte]

Carlota Joaquina era a filha primogênita do rei Dom Carlos IV de Espanha e de sua esposa, D. Maria Luísa de Parma, rainha da Espanha. No dia em que iria a Portugal, Carlota Joaquina pediu à sua mãe para que fizessem uma pintura sua com seu vestido vermelho para colocar na parede, no lugar do quadro da infanta D. Margarida (à qual Carlota dizia superar em beleza).

Teve seu casamento arranjado, em 8 de maio de 1785 (com apenas dez anos de idade), com o Infante português D. João Maria de Bragança (futuro Dom João VI), àquela altura Senhor do Infantado e duque de Beja, sendo o segundo filho de D. Maria I, Rainha de Portugal (que mais tarde enlouqueceria).

"Para realizar o projeto chamado de Floridablanca pelo qual se conseguiria uma aliança duradoura entre Espanha e Portugal foi assinado um tratado no qual estabelecia dois casamentos entre infantes espanhóis e portugueses; a Espanha daria ao príncipe Dom João a princesinha Carlota; e Portugal daria ao Príncipe Dom Gabriel, filho do Rei Carlos III, Dona Mariana Vitória irmã de Dom João; na época destes acordos Dona Carlota tinha 8 anos de idade e Dona Mariana tinha 15; esses casamentos levaram dois anos para se consumarem; só ocorreram após a assinatura do "tratado" entre a Rainha Maria Vitória de Portugal e o Rei Carlos III de Espanha. Em 17 de março de 1785 o Conde de Louriçal que era ministro português na corte de Madrid pediu a mão de Dona Carlota para casamento em nome de Dom João; e o Conde Fernan Nunes embaixador espanhol em Lisboa pediu a mão da infanta portuguesa Dona Mariana Vitória em nome do príncipe Dom Gabriel. Carlota teve que submeter-se aos chamados "exames públicos" para o acordo matrimonial, quando respondeu durante 4 dias, cerca de uma hora por dia a perguntas sobre religião, geografia, história, gramática, língua portuguesa, (não se esqueça que ela era espanhola) espanhol e francês; as apresentações dos dois casais aconteceram no dia 8 de maio de 1785 na cidade portuguesa de Vila Viçosa na fronteira com a Espanha. No dia seguinte, o casamento foi aceite pela Igreja através da benção dada por um cardeal. Os festejos duraram quatro dias, durante o dia se realizavam torneios e touradas, e a noite havia reuniões musicais que na época se chamavam "serenins", bailes e representações líricas. Dentro desses festejos, durante uma das noites de núpcias, a princesa Carlota agrediu o esposo, mordeu-lhe fortemente a orelha e atirou um castiçal no rosto do marido. Depois desse episódio, foi feito um ato adicional ao contrato de casamento, permitindo que Dona Carlota pudesse ter sua primeira relação sexual com o marido aos 14 anos podendo voltar atrás caso assim ela quisesse ou seja: se ela quisesse fazer sexo antes dos 14 anos, poderia. Um certo Padre José Agostinho de Macedo, imprimiu uns folhetos contando esse caso da noite de núpcias de forma brincalhona e sarcástica com o titulo "O gato que cheirou e não comeu" (…); a princesa, indignada com o escrito mandou dar uma surra de chicote nas nádegas do padre, despi-lo em praça pública e aplicar uma "seringada" de pimenta do reino no seu clérigo traseiro e depois soltá-lo nu no Bairro das Marafonas. O Padre José Agostinho foi socorrido por uma atriz cômica do Teatro da Rua dos Condes, Maria da Luz que depois veio a ser amante do vigário humilhado. O matrimônio, é claro, foi um fracasso. A vida sexual do casal só começou realmente cinco anos depois, quando Carlota menstruou pela primeira vez."[1]

Em 1788, com a morte do herdeiro da Coroa portuguesa, o primogénito D. José, príncipe da Beira, D. João tornou-se o príncipe herdeiro. Por loucura de sua mãe, este tornou-se regente de Portugal de facto em 1792, e de jure em 1798, e, por conseguinte, Carlota tornou-se princesa-regente consorte de Portugal.

Esta virada dos acontecimentos conveio perfeitamente ao caráter ambicioso e até violento de Carlota. Desde cedo procurou intrometer-se nos assuntos de Estado, procurando influenciar as decisões do marido, muitas das vezes não se lhes submetendo; começou a desprezá-lo, recorrendo até à chantagem, à intriga e à pressão conjugal sempre que não conseguia os seus intentos. A situação proporcionou à casa real uma verdadeira situação de anomia, que eventualmente acabou por chegar aos ouvidos do povo.

Tramas políticas[editar | editar código-fonte]

Por ser descartada das decisões muitas das vezes, Carlota Joaquina organizou à sua volta um partido com o objetivo de tirar as rédeas do poder ao príncipe regente, prendendo-o e declarando-o incapaz de cuidar dos assuntos do Estado, tal como sua mãe.

Contudo, em 1805 esse partido foi descoberto[2] ; o conde de Vila Verde propôs a abertura de um inquérito e a prisão dos implicados, e a princesa só não pagou mais caro porque D. João, desejando evitar um escândalo público, opôs-se à sua prisão, preferindo confinar os movimentos da esposa ao Palácio de Queluz, enquanto ele mesmo ia morar para o Palácio de Mafra, separando-se dela. Nessa altura os seus inimigos afirmavam que somente cinco dos seus nove filhos (incluindo D. Miguel I) eram filhos de Dom João VI, já que Carlota Joaquina era uma notória ninfomaníaca.

E deles e dos que estavam contra a política de um monarca forte e com poder de decisão depara-se-nos sobre ela a coisas mais incríveis, numa altura em que "as mulheres não tinham voz, a não ser para urdir surdas intrigas", que hoje está a ser revista que a revelam afinal "uma mulher de elevada cultura política, com rasgos de extraordinária sagacidade, para além de mãe atentíssima, sobretudo no que concerne à saúde de seus filhos, e ainda de filha dedicada, de esposa muitas vezes terna, contra tudo o que dela se propalou"[3] .

Contra ela e o Reino de Portugal temos nomeadamente a discrição feita pela mulher do general que comandou a primeira invasão francesa a Portugal, Laura Junot, que afirma: "a sua fealdade, seus cabelos sujos e revoltos, seus lábios muito finos e arroxeados adornados por um buço espesso, seus dentes", "desiguais como a flauta de Pã". Chegando ao ponto de escrever que "Não podia convencer-me de que ela era uma mulher e, entretanto, sabia de fatos nessa época que provavam fartamente o contrário".

Diz outro historiador que "passava por ser de ânimo perspicaz e de dotes elevados de espírito, porém, as suas qualidades morais não mereceram igual apreço. Ambiciosa, violenta, pretendeu logo dominar a vontade de seu marido, e dirigi-lo nos negócios internos e nos do Estado. Não se submetendo o regente, começou a olhá-lo com desprezo e desdém, convertendo o lar doméstico em contínua luta, cujos menores incidentes eram discutidos e comentados nas praças públicas. D. Carlota dispôs as coisas de forma que criou um partido seu, e em 1805 divulgou-se que o regente descobrira uma conspiração tramada contra ele pela esposa. Ela, tendo a seu lado nobres e eclesiásticos, projectava tirar o governo a seu marido, e prendê-lo, declarando-o incapaz de gerir os negócios públicos. O conde de Vila Verde dispunha-se a abrir uma devassa e castigar os criminosos, porém o regente, para evitar escândalo, não consentiu, limitando-se a separar-se de sua mulher, dando-lhe para residência o palácio de Queluz onde antes viviam juntos, passando ele a residir em Mafra, e a exilar fidalgos que mais se manifestavam afetos à princesa. A desgraçada situação a que chegou Portugal, em 1807, fez com que os esposos se reunissem por algum tempo, e a esquadra, que em novembro conduziu o Príncipe regente e D. Maria I ao Brasil, levava também a seu bordo a astuciosa princesa. No Rio continuaram vivendo separados, cada um em seu palácio, reunindo-se apenas quando eram obrigados a comparecer nalguma solenidade pública". Em uma carta, Dom João escreve à irmã que sua esposa Carlota Joaquina teria raspado os cabelos devido a uma infestação de piolhos.

O próprio |Octávio Tarquínio de Sousa, em «História dos Fundadores do Império do Brasil», diz que a mulher era quase horrenda, ossuda, com uma espádua acentuadamente mais alta do que a outra, uns olhos miúdos, a pele grossa que as marcas de bexiga ainda faziam mais áspera, o nariz avermelhado. E pequena quase anã, claudicante (…) uma alma ardente, ambiciosa, inquieta, sulcada de paixões, sem escrúpulos, com os impulsos do sexo alvoroçados.

Projetos no Rio da Prata[editar | editar código-fonte]

E prossegue, adiante: "D. Carlota Joaquina é que se não resignava à inação política a que se via condenada, decidida, como estava, a dominar como soberana; e começando a lavrar no Rio da Prata os primeiros sintomas de emancipação, concebeu o projecto de levantar para si um trono nas províncias espanholas da América, ou pelo menos, de governar como regente em nome de seu irmão Fernando VII. Auxiliada pelo vice-almirante inglês Sydney Smith, e não encontrando oposição do marido, foram enviados agentes ao Rio da Prata, onde formaram um grande partido. As intrigas principiaram então a desenvolver-se mais cruéis e enredadoras. O ministro inglês, Lorde Strangford, insinuou a D. João que o vice-almirante lhe desonrava o tálamo conjugal.

D. João pediu a Londres transferência do vice-almirante. Satisfeito o pedido, Sydney Smith retirou-se, vindo substitui-lo o almirante de Courcy. No entretanto, as divergências eram enormes. No próprio governo havia correntes muito opostas. D. João, cada vez mais abatido e com medo da mulher, pedia que não a contrariassem sempre que suas exigências não fossem impossíveis de satisfazer. Anulados afinal os planos da Rainha, nem assim ela esmoreceu. Procurou ser agradável aos castelhanos, e conseguir, na falta de seu pai Carlos IV e de seu irmão, prisioneiros na França, ser nomeada regente da Espanha, e vir talvez a ser a herdeira de Carlos IV, abolindo-se a lei sálica. Para realizar o projeto, teve de sustentar acesa luta com o embaixador inglês, tendo a astúcia de alcançar que o governo da regência lhe permitisse enviar secretamente ao General Elio, que estava em Montevidéu, víveres e dinheiro, para o que não hesitou em vender as jóias. Afinal, e visto não ser possível narrar detidamente as variadas peripécias desta luta de orgulhos e de ambições, o sonho dissipou-se".

No Rio de Janeiro[editar | editar código-fonte]

Dona Leopoldina, uma de suas noras, que casou com Dom Pedro I, Imperador do Brasil, quando a viu pela primeira vez, achou-a tão feia que "baixou os olhos como não querendo voltar a vê-la; as marcas da varíola, o corte de cabelo, cordões e mais cordões de pérolas e pedras preciosas enroladas em seus cabelos, pendendo de seus cachos gordurosos como cobras".
Bairro do Catete, op. cit..[4]

Foi durante a estada no Rio de Janeiro, entre os anos de 1808 e 1821, quando D. João VI pôde realmente governar pessoalmente o Império Português, que Carlota Joaquina demonstrou muitas das facetas de sua personalidade.

É fato sabido que ela tinha um fetichismo confesso em relação aos sapatos:

"Assim como alguns contam carneirinhos para dormir, há quem diga que Carlota contava sapatos. Carneirinhos aparentemente são iguais, sapatos existem tantos quantos propõe o imaginário. Haja tempo para dormir! Carlota tinha, sem exagero, dezenas de pares de sapatos! Sua nobre mãe, como presente de casamento, dera-lhe um par de sapatos para cada dia do ano. O noivo Real não deixou por menos, presenteou-a com uma quantidade inesquecível de sapatos, onde destacavam-se os vermelhos e os de salto alto. Homem sábio este, porque, os estudiosos do assunto juram que a cor vermelha é a cor da sedução. Mas, certamente não levou isto tão a sério, já que os mesmos estudiosos ainda nos lembram que o vermelho é também a cor do poder e da dominação. Carlota com seu instinto aguçado aprendeu desde menina que os sapatos de salto alto e ainda vermelhos, eram muito poderosos. Como a cor possui uma intensa força de comunicação, a vaidosa Carlota preferia os vermelhos acima de qualquer outra cor e os usava - altos - impedindo que alguém esquecesse quem ela era. Como se fosse possível. Então, o vermelho da Imperatriz do Brasil evidencia sua posição, comanda atitudes, ordena aos que a rodeiam. Segundo os especialistas ainda, o vermelho também é uma cor erótica e, talvez seja a mensagem de cor mais direta que se pode enviar, paixão e poder são claramente comunicados. Viajantes, surpreendiam-se com a quantidade de sapatarias existentes no Rio de Janeiro - capital do Império Português na América - repletas de trabalhadores nesta cidade onde, de cada seis habitantes, cinco andavam descalços. Mais ainda, ao observarem que as senhoras brasileiras, usavam sapatos de seda para andar em qualquer tempo nas calçadas de pedras desniveladas e mal cuidadas, esgarçando em pouco tempo o delicado tecido do calçado. Não esquecendo que naquele momento, também este tecido era tido como erótico conseqüentemente, os sapatos confeccionados com ele, representavam peças insinuantes. Assim, as senhoras também tinham objetos que por elas falavam. Apesar dos extremos das cores, as senhoras da Corte tinham sua munição e com ela comunicavam suas intenções, esperado serem admiradas como mulheres desejáveis, sem apelos diretos, que podiam estar sendo compreendidos como ameaçadores à sua posição de “senhora” numa sociedade patriarcal como da época, bem como de enfrentamento à Carlota."[5]

Viveu alguns anos afastada da política, sempre separada de seu marido, que então já havia sido aclamado Rei, por ter falecido D. Maria I em 1816, até que a revolução do Porto em 1820, que trouxe para a Europa a família real, pôs novamente em evidência a rainha, reunindo algum tempo os esposos.

Retorno a Portugal, conspirações e morte[editar | editar código-fonte]

Dom João VI e Dona Carlota

Aliada aos frades, aos nobres, aos que se mostravam pouco simpáticos ao novo regime, urdia a conspiração chamada da rua Formosa, destinada a obrigar o rei a abdicar e a destruir a Constituição. Falhando esse plano, as cortes de 15 de maio de 1822 decidiram deportar a Rainha para o palácio do Ramalhão, por ela se recusar a jurar a Constituição, alvitre que ela aceitou com júbilo, pois lhe permitia continuar a sua obra perturbadora. Opondo-se abertamente à Revolução liberal do Porto, de 24 de Agosto de 1820, foi a figura mais notável do País a recusar-se a jurar a Constituição de 1822, juntamente com o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Carlos da Cunha e Menezes.

Neste retiro do Ramalhão tramou ainda a queda da Constituição; e servindo-se de D. Miguel, que ela educara, e com quem vivia intimamente, conseguiu realizar o movimento conhecido por Vilafrancada em 26 de maio. Derrubada a Constituição e dissolvidas as cortes, foi levantado o desterro da rainha, e D. João VI a foi buscar à quinta do Ramalhão, conduzindo-a ao paço da Bemposta.

Pouco tempo, porém, durou a harmonia entre os esposos, porque a rainha mudou a sua residência para Queluz, e tornou-se cabeça do partido absolutista que dentro em pouco promoveu a Abrilada em 30 de abril de 1824. Tendo a rainha tomado parte manifesta no movimento, quando D. João VI, apoiado nos embaixadores francês e inglês, se decidiu a mandar sair do reino D. Miguel, ordenou que sua mulher se recolhesse ao paço de Queluz, e nunca mais aparecesse na corte.

Em consequência desse ato, que a promoveu a figura de proa do partido reaccionário, a rainha foi exilada para Queluz, vivendo uma vez mais separada do rei (que vivia no Palácio da Bemposta, em Lisboa), onde continuou a exercer intensa atividade política, promovendo várias conspirações para derrubar D. João VI e suspender a constituição.

O seu Palácio ou quinta do Ramalhão tornou-se o principal foco da intriga absolutista, e à rainha é imputada enorme responsabilidade nos projectos dos principais levantamentos reaccionários dos anos 1820 (a Vilafrancada, de 1823, e a Abrilada, de 1824), que procuraram abolir o constitucionalismo, afastar D. João VI do governo e colocar no trono o Infante D. Miguel, seu filho direto, a quem ela educara.

Após a Vilafrancada, o rei acabou por suspender a constituição, prometendo não obstante para breve a convocação de novas eleições, a fim de se redigir um novo texto constitucional. Foi então buscar a esposa no retiro e durante alguns meses, reinou a harmonia entre os dois.

Pouco tempo depois, esta harmonia desfez-se, após o golpe da Abrilada, em que o infante D. Miguel tentou apossar-se do trono, com o auxílio de sua mãe, a verdadeira cabeça do partido absolutista em Portugal. Com o apoio dos embaixadores francês e inglês, D. João retirou-se para um vaso de guerra estacionado no Tejo, exonerou D. Miguel do cargo de generalíssimo do exército e ordenou-lhe o exílio; quanto à sua esposa, decretou que fosse desterrada para sempre para Queluz, nunca mais devendo aparecer na corte.

Sentindo a morte próxima (talvez porque fosse lentamente envenenado), D. João VI nomeou um conselho de regência para lhe suceder após a morte, o qual devia escolher o herdeiro do trono português e ao qual presidia a sua filha Isabel Maria de Bragança — retirava desta forma à sua mulher uma prerrogativa que desde sempre na história portuguesa havia cabido à rainha-viúva: o exercício da regência do reino durante a menoridade ou ausência do herdeiro no país. O documento que estabeleceu o conselho regencial tem sua veracidade hoje contestada, pois o rei — segundo afirmam os médicos e estudiosos atuais que analisaram as suas vísceras, enterradas em um jarro de porcelana chinesa sob uma laje, na capela dos Meninos de Palhavã, no Mosteiro de São Vicente de Fora, e a grafologia da sua assinatura — já se encontrava, alegam, morto à sua data.

A 10 de março de 1826 faleceu D. João VI, tendo previamente nomeado regência presidida por sua filha, a infanta D. Isabel Maria, e composta do cardeal patriarca, Duque de Cadaval, Marquês de Valada, Conde dos Arcos e os seus ministros de Estado.

Instituíra uma ordem exclusivamente destinada às senhoras, com a autorização do príncipe regente, seu marido, por decreto de 4 de Novembro de 1801, com a designação de Ordem das Damas Nobres de Santa Isabel, cujos estatutos foram confirmados pelo alvará de 25 de Abril de 1804[6] .

Durante o governo de D. Miguel, que ascendeu ao trono em 1828, não viria a ter papel relevante na governação daquele que fora, para muitos, o seu filho predilecto, pois faleceu (ou suicidou-se) em 1830, em Queluz. De resto, o próprio príncipe não a mandou chamar do desterro assim que subiu ao trono, pelo que faleceu só, esquecida, triste e amargurada. Segundo alguns historiadores, este facto é um dos vários indicadores de que teria existido um afastamento gradual entre mãe e filho nos últimos anos de vida daquela. Jaz no Panteão dos Braganças, ao lado do seu desavindo marido, no mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa.[7]

Posteridade[editar | editar código-fonte]

Nasceram-lhe nove filhos, dos quais três homens. Pormenores sobre eles se encontrarão sob o verbete D. João VI. Foram eles:

  1. Maria Teresa de Bragança, Princesa da Beira (1793-1874), casada em primeiras núpcias com o infante de Espanha D. Pedro Carlos de Bourbon e Bragança, com descendência, e pela segunda vez com D. Carlos de Bourbon, Conde de Molina, também infante de Espanha e seu cunhado; sem descendência.
  2. Francisco António, Príncipe da Beira (1795-1801); sem descendência.
  3. Maria Isabel de Bragança (1797-1818), casou-se com Fernando VII de Espanha; uma filha natimorta.
  4. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, imperador do Brasil e Rei de Portugal (1798-1834), casado em primeiras núpcias com Dona Leopoldina da Áustria e em segundas com Dona Amélia de Leuchtenberg; com descendência.
  5. Maria Francisca de Assis de Bragança (1800-1834), casou com Carlos de Bourbon, Conde de Molina; com descendência.
  6. Isabel Maria de Bragança, regente de Portugal (1801-1876); sem descendência.
  7. Miguel I de Portugal (1802-1866), casado com Dona Adelaide de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg; com descendência.
  8. Maria da Assunção de Bragança (1805-1834); sem descendência.
  9. Ana de Jesus Maria de Bragança (1806-1857), casou com Nuno José Severo de Mendonça Rolim de Moura Barreto, 1º duque de Loulé; com descendência.

Representações na cultura[editar | editar código-fonte]

Galeria[editar | editar código-fonte]

Referências

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • AZEVEDO, Francisca Nogueira de. Carlota Joaquina na Corte do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
  • AZEVEDO, Francisca Nogueira de. Carlota Joaquina: cartas inéditas. Rio de Janeiro, Casa da Palavra, 2007.
  • CASSOTTI, Marsilio. Carlota Joaquina - O Pecado Espanhol. Lisboa, A Esfera dos Livros, 2009.
  • CHEKE, Marcus. Carlota Joaquina, a Rainha Intrigante. 1949.
  • LIMA, Oliveira. D. João VI no Brasil. Topbooks.
  • PEREIRA, Sara Marques (1999), D. Carlota Joaquina e os Espelhos de Clio - Actuação Política e Figurações Historiográficas, Livros Horizonte, Lisboa, 1999.
  • PEREIRA, Sara Marques (2008), D. Carlota Joaquina Rainha de Portugal, Livros Horizonte, Lisboa, 2008.
  • SANTOS, João Felício dos. Carlota Joaquina, a Rainha Devassa. 1968.
  • LÁZARO, Alice, La Menina - Retrato de Dona Carlota Joaquina nas Cartas Familiares (1785-1790), Chiado Editora, 2011.
  • LOUSADA, M.ª Alexandre e PEREIRA, M.ª de Fátima Melo, D. Miguel, Círculo de Leitores, Lisboa, 2005
  • Resenha das familias titulares do reino de Portugal, por João Carlos Feo Cardozo de Castello Branco e Torres, Manuel de Castro Pereira de Mesquita, Imprensa Nacional, Lisboa, 1838, pág.s 35 e 36

Ligações externas[editar | editar código-fonte]


Precedido por
Maria I
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Rainha de Portugal

18161826
Sucedido por
Leopoldina de Áustria
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