Sintra

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Sintra
Brasão de Sintra Bandeira de Sintra
Brasão Bandeira
Nt-sintra1.jpg
Vista de Sintra
Localização de Sintra
Gentílico Sintrense
Área 316,06 km²
População 377 835 hab. (2011)
Densidade populacional 1 195,45 hab./km²
N.º de freguesias 20
Presidente da
Câmara Municipal
Basílio Horta (PS)
Fundação do município
(ou foral)
1154
Região (NUTS II) Lisboa
Sub-região (NUTS III) Grande Lisboa
Distrito Lisboa
Antiga província Estremadura
Orago Santa Maria e São Miguel
Feriado municipal 29 de Junho (São Pedro)
Sítio oficial www.cm-sintra.pt
Municípios de Portugal Flag of Portugal.svg

Sintra é uma vila portuguesa no Distrito de Lisboa, na região de Lisboa, sub-região da Grande Lisboa e na Área Metropolitana de Lisboa.

É sede de um município com 317 km² de área e 377 835 habitantes (2011), subdividido em 20 freguesias. O município é limitado a norte pelo município de Mafra, a leste por Loures e Odivelas, a sueste pela Amadora, a sul por Oeiras e Cascais e a oeste pelo oceano Atlântico.

A Vila de Sintra inclui o sítio Paisagem Cultural de Sintra, Património Mundial da UNESCO e tem recusado ser elevada a categoria de cidade, apesar de ser sede do segundo mais populoso município em Portugal, segundo a Câmara Municipal de Sintra.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Existe ainda todo um património literário que transformou esta Sintra numa referência quase lendária. Sintra, cuja mais antiga forma medieval conhecida "Suntria" apontará para o indo-europeu “astro luminoso” ou “sol”, terá sido designada por Varrão e Columela como Monte Sagrado. Ptolomeu registou-a como a "Serra da Lua" e o geógrafo árabe Al-Bacr, no século X, caracterizou Sintra como «permanentemente mergulhada numa bruma que não se dissipa».

História de Sintra[editar | editar código-fonte]

Vista da Vila a partir do Castelo de Sintra

Podemos encontrar em Sintra testemunhos de praticamente todas as épocas da história portuguesa e, não raro, com uma dimensão que chegou a ultrapassar, pela sua importância, os limites deste território. Na candidatura de Sintra a Património Mundial/Paisagem Cultural junto da UNESCO, tratou-se de classificar toda uma área que se assumiu como um contexto cultural e ambiental de características específicas: uma unidade cultural que tem permanecido intacta numa plêiade de palácios e parques; de casas senhoriais e respectivos hortos e bosques; de palacetes e chalets inseridos no meio de uma exuberante vegetação; de extensos troços amuralhados que coroam os mais altos cumes da Serra. Também de uma plêiade de conventos de meditação entre penhascos, bosques e fontes: de igrejas, capelas e ermidas, pólos seculares de fé e de arte; enfim, uma unidade cultural intacta numa plêiade de vestígios arqueológicos que apontam para ocupações várias vezes milenárias.

Do Neolítico à Idade do Bronze[editar | editar código-fonte]

Os mais antigos testemunhos de ocupação humana localizam-se num cume da vertente Norte da Serra de Sintra. Trata-se da ocupação epipaleolítica da Penha Verde, comprovada por abundantes utensílios de tipo microlaminar. Testemunho de uma ocupação do Neolítico é o sítio de ar livre de São Pedro de Canaferrim, junto à Capela do Castelo dos Mouros. Ocupação testemunhada pela presença de cerâmicas decoradas — incisas, impressas e com aplicações — associadas a uma indústria lítica talhada em sílex, datada pelo método do radiocarbono de inícios do V milénio a.C. A originalidade deste sítio, enquadrado em termos cronológico-culturais na corrente circum-mediterrânica, consiste na sua implantação na paisagem, em plena montanha. Vestígios vários da Idade do Bronze Atlântico (segunda metade do II milénio a.C. - inícios do I), surgem em diversos locais da Serra de Sintra, quer a nível de habitats (Parque das Merendas, junto à Vila), quer em contextos votivos (Monte do Sereno). Do Bronze Final ou período Orientalizante, séculos IX-VI a.C, de novo e intensamente virado para a Bacia Mediterrânica, existe um importante e vasto povoado localizado sob o Castelo dos Mouros.

Durante o Império Romano[editar | editar código-fonte]

Ao tempo do Império Romano toda a região de Sintra se inscreveu no vasto territorium da civitas olisiponense, à qual César cerca de 49 a.C. ou, mais provavelmente, Otaviano cerca de 30 a.C., concedeu o invejável estatuto de Municipium Civium Romanorum. Os vários habitantes da região inscrevem-se na tribo Galeria, adoptando nomes romanos - com especial destaque para o imperial "Lulius" -, e apresentam-se plenamente imbuídos de romanidade, nos mais diversos aspectos culturais, políticos e económicos. Mesmo aqueles que, porventura oriundos de outras regiões da Lusitania, ostentam nomes indígenas aparecem quase sempre integrados nesta sociedade profundamente romanizada. Sob a actual Vila de Sintra detectaram-se vestígios romanos avulsos, que sugerem a presença de um habitat ocupado desde os séculos II/I a.C.- V d.C.. Uma via ligaria este aglomerado à zona rural a sudeste da Serra onde entroncaria na estrada para Olisipo. O troço seguiria grosso modo a Rua da Ferraria, a Calçada dos Clérigos e a Calçada da Trindade. Conforme o habitual uso que os Romanos tinham em colocar os seus túmulos ao longo das vias e à saída dos habitats, também aqui se detectaram vestígios de lápides pertencentes a monumentos funerários do século II d.C..

Domínio muçulmano[editar | editar código-fonte]

Porta islâmica no Castelo dos Mouros (Sintra). Após a Invasão muçulmana do século VIII, a região de Sintra foi ocupada, tendo a povoação recebido o nome de as-Shantara e sido erguida a primitiva fortificação da penedia, entre o século VIII e o IX, para controlar estrategicamente as vias terrestres que ligavam Sintra a Mafra, Cascais e Lisboa.
Respiradouros da cisterna de grande capacidade, que remonta ao período islâmico. No seu interior abobadado brota a nascente que abastecia o Palácio Nacional de Sintra. Castelo dos Mouros (Sintra)

Durante o domínio muçulmano surgem os primeiros textos que referem explicitamente a Vila de Sintra (Xintara ou Shantara em árabe). Sintra é apresentada no século X pelo geógrafo Al-Bacr, fixada por Al-Munim Al-Himiari, como «uma das vilas que dependem de Lisboa no Andaluz, nas proximidades do mar». Outros textos assinalam-na como o centro urbano mais importante logo a seguir a Lisboa, neste território. Sintra «uma das regiões onde as maçãs são mais abundantes (...) [e] atingem uma tal espessura que algumas chegam a ter quatro palmos de circunferência» (Al-Bacr), Lisboa a Al-Usbuna que foi durante o período de ocupação muçulmana um importante centro económico de tal dimensão que o cruzado Osberno, à data da reconquista, se lhe referiu como «o mais opulento centro comercial de toda a África e de uma grande parte da Europa».

A Reconquista[editar | editar código-fonte]

Principal núcleo urbano e económico logo a seguir a Lisboa, a Vila de Sintra e o seu Castelo foram durante a Reconquista, no século XI, várias vezes assolados pelos exércitos cristãos. O rei Afonso VI de Leão na sequência da queda do califado de Córdova numa conjuntura de instabilidade entre as diversas Taifas muçulmanas da Península e da decisão do rei de Badajoz Al Mutawakkil, de se colocar sob sua proteção face à ameaça almorávida, após um período de hesitação entre 1090 e 1091, recebeu deste na Primavera de 1093 as cidades de Santarém, de Lisboa e o Castelo de Sintra. Afonso VI tomou posse das ditas cidades e do castelo de Sintra entre 30 de Abril e 8 de Maio de 1093.

Lisboa foi pouco depois da entrega a Afonso VI conquistada pelos almorávidas, assim como Sintra, só resistindo Santarém devido aos esforços de D. Henrique de Borgonha, nomeado conde de Portucale em 1096, em substituição de Raimundo de Borgonha. É neste contexto de manutenção da fronteira do Tejo que, em Julho de 1109, o conde D. Henrique reconquista o Castelo de Sintra. Esta fortificação foi ainda alvo de surtidas esporádicas, caso do assalto comandado pelo príncipe Sigurd, filho do rei Magnus da Noruega que, de passagem em cruzada à Terra Santa desembarcou na foz do Rio de Colares.

Só após a conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques em 1147, Sintra - cuja guarnição do castelo se entrega ao rei em Novembro — é definitivamente integrada no espaço cristão, no contexto da conquista de Almada e Palmela. Logo após a tomada de posse do Castelo, D. Afonso Henriques aí funda a igreja de São Pedro de Canaferrim.

Em 9 de Janeiro de 1154 D. Afonso Henriques outorga Carta de Foral à Vila de Sintra com as respetivas regalias. A Carta de Foral estabelece o Concelho de Sintra, cujo termo passa a abranger um vasto território, mais tarde dividido em quatro grandes freguesias: São Pedro de Canaferrim, com sede paroquial junto ao Castelo; São Martinho, com sede paroquial no centro da Vila; e Santa Maria e São Miguel, ambas com sede paroquial no Arrabalde.

Nestes primórdios, existia na Vila de Sintra uma significativa comunidade de sefardins, que dispunha de sinagoga e de bairro próprio, a Judiaria - designação que chegou aos nossos dias na toponímia do Centro Histórico. Referem, os documentos, também a existência de mouros-forros dos quais existia uma comunidade importante em Colares, cuja subsistência ainda é referida no reinado de D. Dinis. Outra documentação assinala numerosos antropónimos de tipo Godo, reminiscências dos cruzados ou das gentes do Norte da Península, chegados com a reconquista de D. Afonso Henriques. Alguns nomes de cariz moçárabe, menos frequentes, ou latinos, apontam para antigas populações autóctones.

Do século XII ao século XIV[editar | editar código-fonte]

Em 1154, D. Afonso Henriques outorgou Carta de Foral a Sintra e, visando o seu repovoamento e defesa, terá determinado reparos no castelo de Sintra e a construção da Igreja de São Pedro de Canaferrim. O seu filho D. Sancho I (1185-1211) também dispensou cuidados ao Castelo de Sintra, remodelando e reforçando-lhe as defesas, bem como D. Fernando I.

Ao longo dos séculos XII e XIII, fazendo jus à fertilidade das terras de Sintra, vários conventos e mosteiros, assim como ordens militares, aqui possuem casais, herdades, azenhas, vinhas. Existe no Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Sintra registo de um grande número de doações. Assim, logo em 1157 ou 1158, D. Afonso Henriques doa ao mestre da Ordem do Templo, D. Gualdim Pais várias casas e herdades no termo de Sintra e «casas de morada» nas proximidades do Paço. Em 1210, o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra afora quatro casais que detinha em Pocilgais, tornando a aforá-los mais tarde, em 1230. Possuía também, em 1264, vinhas e casais em Almargem. O Mosteiro de São Vicente de Lisboa detinha, em 1216, uma vinha na várzea de Colares e, em 1218, herdades em Queluz e Barota. Em data situada entre 1223 e 1245, o Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça possuía vários privilégios nesta área. A Ordem militar de Santiago possuía, em 1260, uma herdade na Arrifana, a qual afora nesse ano.

As doações régias ocorridas no século XII e XIII a conventos, mosteiros e ordens militares - assim como os próprios privilégios outorgados pelo foral de D. Afonso Henriques e confirmados em 1189 pelo seu filho D. Sancho I (1185-1211) -, correspondem a uma estratégia de organização estrutural do território sintrense pós-Reconquista. É assim que, logo a partir de 1261, Sintra possui uma administração local constituída por um alcaide que representa a Coroa e por dois "alvazis" ou juízes eleitos pelo povo.

No contexto das conturbadas relações entre a coroa e a igreja durante o reinado de D. Sancho II (1223-1248) — que levaram à deposição deste pela Santa Sé em 1245 e à nomeação do seu irmão, o infante D. Afonso III, regente do reino, as igrejas de São Pedro e de São Martinho, que pertenciam ao rei, são cedidas a título de reparação, respectivamente ao bispo de Lisboa e ao cabido da Sé.

Após a Reconquista e durante a fase de estruturação do poder régio que se prolonga até ao reinado de D. Dinis (1279-1325), Sintra soube assimilar, no âmbito de uma tradição secular, cristãos e mouros. Há registo de em 1281 a comunidade de mouros-forros de Colares se ter queixado ao rei do elevado teor das contribuições que sobre si recaíam e de D. Dinis as ter reduzido para o quarto das colheitas em troco de trabalho no Paço da Vila.

A grande epidemia de peste negra que durante o século XIV dizimou um quarto da população europeia chegou a Sintra em 1348 e há notícia, por um documento de 1350, que a doença matou cinco tabeliães da administração municipal. Devido ao clima frio e húmido de Sintra — que reunia condições favoráveis à rápida propagação da doença — a peste deve ter feito na vila um considerável número de mortos.

Durante o reinado de D. Fernando I (1367-1383) aparece Sintra ligada ao controverso casamento do monarca. Em 1372[1] o rei doa Sintra a D. Leonor Teles, com quem acabara de casar, publicamente, no norte do país: «Então a recebeu el-Rei perante todos, e foi notificado pelo reino como era sua mulher, de que todos os grandes e pequenos houveram mui grande pesar. E deu-lhe el-Rei logo Vila Viçosa, e Abrantes, e Almada, e Sintra» [sic], entre outras terras.

Finais do século XIV[editar | editar código-fonte]

Palácio Nacional de Sintra, vista da entrada principal com arcos ogivais (góticos)

Durante a crise dinástica de 1383-1385, Sintra tomou o partido de D. Leonor Teles, que pelo reino ordenou a proclamação da filha D. Beatriz, casada com D. João I de Castela, como rainha de Portugal e de Castela. Depois da derrota do exército castelhano em Aljubarrota (Agosto de 1385) pelos portugueses e ingleses comandados pelo condestável D. Nuno Álvares Pereira, Sintra foi dos lugares que logo se entregaram[2] sem luta a D. João I, regente desde 1383 e, a partir de Abril de 1385, rei de Portugal.

D. João I (1385-1433), primeiro rei da Segunda Dinastia quebra a tradição de doar Sintra à Casa das Rainhas. Talvez em 1383, D. João I tenha doado o Paço ao conde D. Henrique Manuel de Vilhena, a quem o retirou depois por este ter tomado o partido de D. Beatriz, conservando-o para si e empreendendo então uma vasta campanha de obras que substituiu e ampliou a anterior construção. Até finais do século XVII, este imponente Paço Régio constituiu uma das principais moradas e lugar de veraneio da Corte – aqui D. João I se encontrava quando decidiu a conquista de Ceuta em 1415; aqui nasceu e morreu D. Afonso V (1433-1481) e foi aclamado rei D. João II (1481-1495).

Durante os séculos dos Descobrimentos (XV e XVI)[editar | editar código-fonte]

Janela Manuelina no Palácio Nacional de Sintra. D. Manuel I (1495-1521) transforma e enriquece a Vila, a Serra e o seu termo, com uma nova e vasta campanha de obras no Paço da Vila.
Palácio Nacional de Sintra, Pátio Central: pormenor de azulejos com marcada influência mudejar

Ao período dos descobrimentos marítimos ficaram ligados os nomes de alguns naturais de Sintra, como Gonçalo de Sintra, escudeiro da Casa do Infante D. Henrique e que, mandado por este em 1443 como capitão de uma caravela à costa de África, explorou a angra a que ficou ligado o seu nome, perto do Rio do Ouro, onde morreu em 1444. Gomes Eanes de Zurara, na Crónica de Guiné, regista os feitos deste Gonçalo de Sintra no capítulo XXVII, «Como o Infante mandou Gonçalo de Sintra a Guiné, e por que guisa foi morto», assim como João de Barros na Década I de Ásia (cap. IX).

A Pedro de Sintra e a Soeiro da Costa se deve o limite máximo de descobrimento da costa atlântica de África na data que medeou entre a morte do infante D. Henrique em 1460 e o arrendamento desta exploração costeira a Fernão Gomes por D. Afonso V. Pedro de Sintra e Soeiro da Costa chegaram à mata de Santa Maria, para além da já reconhecida Serra Leoa e do Cabo do Monte a uma latitude de 6,5° N.

A importância da Vila de Sintra nos itinerários régios proporcionou, no final do século XV, por iniciativa da rainha D. Leonor, mulher de D. João II — a instituidora das Misericórdias portuguesas, o melhoramento da sua principal instituição de assistência e caridade, o Hospital e Gafaria do Espírito Santo, de que hoje resta a capela de São Lázaro. Nas chaves das suas abóbadas ogivais podem ver-se, ainda, as divisas de D. João II (o Pelicano) e de D. Leonor (o Camaroeiro). Em 1545, o Hospital passou para a administração da Santa Casa da Misericórdia de Sintra fundada pela rainha D. Catarina de Áustria, mulher de D. João III.

Na transição do século XV para o século XVI, D. Manuel I (1495-1521) transforma e enriquece a Vila, a Serra e o seu termo, com uma nova e vasta campanha de obras no Paço da Vila, ocorridas depois da viagem a Castela e Aragão para ser jurado herdeiro daqueles reinos em 1498, que reflectem a impressão que o mudejarismo espanhol deixou no monarca; da reconstrução da velha igreja gótica de São Martinho; da construção do Mosteiro de Nossa Senhora da Pena (1511), no pico mais alto da serra, entregue à Ordem de São Jerónimo.

Na segunda metade do século XVI, Sintra foi «um centro cortesão por excelência, incentivado pela presença de uma aristocracia em ascensão que aqui edificava os seus solares e quintas» (V. Sertão). Nesta ruralidade propícia ao gosto humanista encontrou o Vice-Rei da Índia D. João de Castro (1500-1548), a partir de 1542, o descanso dos últimos anos da sua vida, na Quinta da Penha Verde, onde fomentou um cenáculo de arte e de erudição frequentado por alguns dos mais destacados vultos da cultura portuguesa do seu tempo, entre os quais o célebre Francisco de Holanda. É neste pólo de cultura renascentista que se insere o retábulo de mármore esculpido por Nicolau de Chanterenne entre 1529 e 1532 para a capela do Mosteiro de Nossa Senhora da Pena na Serra, e o pórtico da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Ulgueira (1560).

Domínio Espanhol e Restauração[editar | editar código-fonte]

Sala dos Brasões no Palácio Nacional de Sintra, cuja cúpula ostenta as armas de D. Manuel I, de seus filhos e de setenta e duas das mais importantes famílias da Nobreza. O revestimento das paredes data do século XVIII, obra de grandes mestres da azulejaria lisboeta da altura.

Com a morte do Cardeal D. Henrique (1578-1580), Filipe II de Espanha herda o reino de Portugal que permanecerá sob a administração espanhola até 1640. Durante este período de sessenta anos, pode dizer-se que a importância que Sintra tivera durante séculos se “transfere” para Vila Viçosa, a cidade principal da Casa de Bragança, cujos duques, descendentes de D. João I, se consideram os herdeiros do trono português. Mas não deixa Sintra de ser, nesta época, um dos locais em que se reflectem algumas das principais conjunturas políticas e mentais do reino.

Nas vésperas da Restauração, por volta de 1639, Sintra contava com cerca de 4.000 habitantes, segundo um cômputo espanhol da altura. A conjuntura da Restauração e das suas guerras com a Espanha (1640-1668), a afirmação de Mafra no tempo de D. João V (1706-1750) com a construção do Palácio-Convento e, por fim, de Queluz onde é construído em 1747 um outro palácio real, no período dos reinados de D. José I (1750-1777) e de D. Maria I (1777- -1816), afasta a Vila dos circuitos régios e aristocráticos. Apenas se verifica, durante este longo tempo, em 1652 e 1654 as festas de entrada em Sintra, respectivamente, da rainha D. Luísa de Gusmão e do seu marido o rei D. João IV (1640-1656); e o final da saga da deposição e morte de D. Afonso VI.

Alegando a insanidade do rei e a sua incapacidade para dar ao reino um herdeiro, o duque de Cadaval e o infante D. Pedro lideram um golpe de Estado em 1667 que leva à demissão do conde de Castelo-Melhor, ministro de D. Afonso VI (1656-1633) e à prisão do próprio monarca. As Cortes de Lisboa de 1668 confirmam o infante D. Pedro, irmão do rei, regente e herdeiro. D. Afonso VI vive o resto da sua vida encarcerado: no Paço da Ribeira de Lisboa (1667-1669), no forte de São João Baptista de Angra, nos Açores (1669-1674) e, por fim, depois de descoberta uma conspiração para matar o regente, no Paço da Vila de Sintra (1674-1683).

O século XVIII: o terramoto[editar | editar código-fonte]

Palácio de Seteais, construído no século XVIII para o cônsul holandês Daniel Gildemeester, numa porção de terra cedida pelo marquês de Pombal.
Palácio Real de Queluz, um dos últimos edifícios rococó erguidos na Europa, chamado "o Versalhes português", iniciou-se em 1747, como recanto de verão para D. Pedro de Bragança, mais tarde rei consorte da rainha D. Maria I de Portugal, Queluz, no concelho de Sintra

O terramoto de 1755, causou na Vila de Sintra e no seu termo avultados estragos e numerosos mortos. É nesta segunda metade do século XVIII que decorrem, no Paço da Vila, obras de restauro. Há que registar, ainda no século XVIIl, a fundação da primeira unidade industrial do concelho, a Fábrica de Estamparia de Rio de Mouro, em 1778, e a visita da rainha D. Maria I à Vila em 1787, para cuja ocasião foram redecoradas algumas salas e câmaras do Paço. Mas as grandes festas, em 1795, pelo baptizado do infante D. António, filho de D. João VI, foram celebradas com magnificência no Palácio de Queluz... E até que o rei-consorte D. Fernando II compre o Mosteiro da Pena e uma vasta área adjacente, em 1838, há apenas que assinalar o arco da autoria do arquitecto Costa e Silva, construído no Palácio de Seteais pertença do Marquês de Marialva, para comemorar em 1802 a visita dos Príncipes do Brasil, D. João e D. Carlota Joaquina e a visita do rei absolutista D. Miguel em 1830.

Tempos áureos: séc.XIX e XX[editar | editar código-fonte]

Palácio de Monserrate, exemplar notável do Romantismo, foi construído em 1858
Interior do Palácio de Monserrate, projectado pelo arquitecto James Knowles e construído por ordem de Sir Francis Cook, visconde de Monserrate.
Jardins do Palácio de Monserrate um trabalho de paisagismo elaborado pelo pintor William Stockdale com o botânico William Nevill e James Burt, mestre jardineiro.

No terceiro quartel do século XVIII e praticamente todo o século XIX o espírito romântico dos viajantes estrangeiros e da aristocracia portuguesa redescobrem a magia de Sintra e dos seus lugares, mas sobretudo o exotismo da sua paisagem e do seu clima. Aqui chega, no Verão de 1787 William Beckford, hóspede do 5° marquês de Marialva, estribeiro-mor do reino, residente na sua propriedade de Seteais e é aqui que a ainda princesa D. Carlota Joaquina, mulher do regente D. João, compra, no princípio do século XIX, a Quinta e o Palácio do Ramalhão.

Entre 1791 e 1793 Gerard Devisme constrói na sua extensa Quinta de Monserrate o palacete neo-gótico cujo desenho — supõe-se que de arquitecto inglês — não foi ainda atribuído com segurança. Beckford, que permanecera em Sintra, arrenda a propriedade de Devisme em 1794. E é ainda o exotismo desta paisagem envolta em nevoeiro uma boa parte do ano que atrai um outro inglês, Francis Cook — o segundo arrendatário de Monserrate depois de Beckford, a expensas do qual é construído o pavilhão de gosto orientalizante que hoje conhecemos -, entre uma série de magnatas estrangeiros que por aqui se vão fixando em palácios, palacetes e chalets que fazem construir ou reconstroem à medida das potencialidades deste invulgar meio natural.

O grande empreendimento artístico deste século em Sintra é sem dúvida o Palácio da Pena, obra marcante do romantismo português, iniciativa do rei-consorte D. Fernando II, marido da rainha D. Maria II (1834-1853), um alemão da casa de Saxe-Cobourg-Gotha. O Palácio, construído sobre o que restava do velho mosteiro Jerónimo do século XVI — mas conservando-lhe partes fundamentais (a igreja, o claustro, algumas dependências) — é de uma arquitectura ecléctica única que não teve continuidade na arte portuguesa. Projecto do barão de Eschwege e do próprio D. Fernando II, substitui-se ao Palácio da Vila enquanto estância de veraneio da Corte, alternando, no final do século, com outro núcleo regional do veraneio régio: Cascais. Depois de Sintra, nos meses de Setembro e Outubro é em Cascais que a corte de D. Luís I (1861-1889) e de D. Carlos I (1889-1908) termina o veraneio.

Palácio Nacional da Pena, uma das melhores expressões do Romantismo arquitectónico do século XIX no mundo, construído cerca de 30 anos antes do carismático Castelo de Neuschwanstein, na Baviera.
Palácio Nacional da Pena, pórtico do Tritão programado por D. Fernando, que o desenhou como um «Pórtico allegórico da creação do mundo» e parece condensar em termos simbólicos a teoria dos «quatro elementos».

Em 1854 é celebrado o primeiro contrato para a construção de um caminho de ferro que ligasse a Vila a Lisboa. Um decreto de 26 de Junho de 1855 regulava este contrato celebrado entre o governo e o conde Claranges Lucotte que, todavia, foi rescindido em 1861. Após várias tentativas sem êxito, a linha foi finalmente inaugurada a 2 de Abril de 1887.

No princípio do século XX, foi Sintra um reconhecido lugar de veraneio e residência de aristocratas e de milionários. De entre estes, Carvalho Monteiro detentor de uma considerável fortuna que lhe valeu a alcunha de "Monteiro dos Milhões", fez construir perto da Vila, na quinta que comprara à baronesa da Regaleira, um luxuoso palacete cuja arquitectura neo-manuelina representa um marco na história do revivalismo português.

Palácio da Regaleira, também designado Palácio do Monteiro dos Milhões, alcunha do proprietário António Augusto Carvalho Monteiro. Rodeado de luxuriantes jardins, lagos, grutas e construções enigmáticas, que ocultam significados alquímicos.

Entre a segunda metade do século XIX e os primeiros decénios do século XX, Sintra tornou-se um lugar privilegiado para artistas: músicos como Viana da Mota; músicos-pintores como Alfredo Keil; pintores como João Cristino da Silva, autor de uma das mais célebres telas do romantismo português: Cinco Artistas em Sintra; escritores como Eça de Queiróz ou Ramalho Ortigão, todos eles aqui residiram, trabalharam ou procuraram inspiração.

Mas não só artistas portugueses se têm maravilhado em Sintra. Em 1757, o romancista Henry Fielding, ao sentir-se doente, retirou-se para uma mansão em Sintra, que considerou o lugar mais belo da terra para escrever um novo romance.[3] O poeta Robert Southey também viveu em Sintra com a mulher e com os filhos e desafiou os outros românticos ingleses a fazerem o mesmo.[4] Samuel Taylor Coleridge imitou-o e descreveu Sintra como um jardim do Éden à beira de um mar prateado, e o poeta William Wordsworth também visitou a região.[4] Em 1809 Lord Byron escreveu ao seu amigo Francis Hodgson (1781–1852) dizendo que a vila de Sintra é talvez a mais bonita do mundo.[5] No poema Childe Harold Pilgrimage Byron referiu-se a “Cintra's glorious Éden”[6] A 21 de Agosto de 1859 chegou a Portugal o poeta Alfred Tennyson com a intenção de conhecer Sintra.[7] Muitos anos mais tarde foi a vez do escritor Isaac Bashevis Singer, galardoado com o prémio Nobel da Literatura, andar a passear por Sintra, conforme relatou no seu conto Sabbath in Portugal.[8]

Em 1981, o cineasta brasileiro Glauber Rocha, um dos mais importantes nomes do cinema moderno mundial, legítimo representante do barroco latinoamericano e terceiromundista, escolhe Sintra para ser, como ele próprio afirmou, "seu segundo e último exílio". Aos 42 anos, já com a saúde debilitada, problemas financeiros, e uma forte decepção frente à rejeição de seu último filme, "A Idade da Terra" (1980), no Festival de Veneza, Glauber vai a Sintra já ciente de que sua vida chegara ao fim. "O preço pago pela liberdade artística", dizia. Um mistério: por várias vezes, anos antes, Glauber afirmara que morreria aos 42, o que, de fato, ocorreu. "Sintra é um belo lugar para morrer", afirmou.

"Verdadeiro Património da Humanidade já enquanto referência com largos séculos, a Candidatura de Sintra a Património Mundial/Paisagem Cultural, que apresentámos e defendemos, representa o reconhecimento monumental e ambiental de uma vasta paisagem cultural cuja identidade - formulada também com importantes contributos de estrangeiros que reconheceram neste lugar qualidades que na maior parte dos casos se saldaram com permanências longas e por vezes definitivas, na grande parte dos exemplos dando origem a um rico património literário — permaneceu ao longo dos oitocentos anos de história deste País." In: "Sintra Património da Humanidade".

Geografia[editar | editar código-fonte]

Vista marítima de um pôr do sol no norte do Cabo da Roca.

Seu ponto mais alto possui 528 metros de altitude. No âmbito contextual de natureza, arquitectura e ocupação humana, Sintra evidencia uma unidade única, resultado de diferentes motivos conjugados, entre os quais o peculiar clima proporcionado pelo maciço orográfico que constitui a Serra de Sintra e a fertilidade das terras depositadas nas várzeas circundantes. A relativa proximidade do estuário do Tejo, e - a partir de dada época - a vizinhança de Lisboa, cidade cosmopolita e empório de variadas trocas comerciais, fizeram com que desde cedo a região de Sintra fosse alvo de intensa ocupação humana. Na costa marítima da freguesia de Colares, no concelho de Sintra, localiza-se o Cabo da Roca. Situado 140 metros acima do nível do mar, com as coordenadas geográficas N 38º47', W 9º30', é o ponto mais ocidental do continente europeu. Ou, como escreveu Luís de Camões, é o local "onde a terra se acaba e o mar começa"[9] .

Clima[editar | editar código-fonte]

Dois factores contribuem decisivamente para as condições climáticas que se fazem sentir na região sintrense. O primeiro tem a ver com a situação do concelho em relação ao Oceano Atlântico; o segundo com a barreira de condensação que a Serra de Sintra constitui.

Desta maneira podemos observar que os níveis de radiação diminuem de Sudeste para Noroeste, isto é, à medida que nos aproximamos da costa. A insolação apresenta o mesmo tipo de variação mas, na zona da Serra registam-se valores tão baixos como aqueles que se verificam na Assafora e território adjacente, o que se deve à nublosidade aí existente. Quanto à temperatura, ela tem os seus valores mais baixos na zona da Serra e no extremo Nordeste do concelho; no primeiro caso devido à altitude e no segundo às condições de relativa continentalidade. Finalmente, quanto à precipitação, verificam-se duas situações bem diferenciadas: uma mais seca, junto ao litoral, e outra mais húmida, que abrange a zona de influência directa da Serra (onde a precipitação atinge o seu máximo) e toda a área oriental do concelho.

Freguesias de Sintra[editar | editar código-fonte]

  • Algueirão – Mem Martins
  • Casal de Cambra
  • Colares
  • Rio de Mouro
  • União das Freguesias de Agualva e Mira-Sintra
  • União das Freguesias de Almargem do Bispo, Pero Pinheiro e Montelavar
  • União das Freguesias de Cacém e São Marcos
  • União das Freguesias de Massamá e Monte Abraão
  • União das Freguesias de Queluz e Belas
  • União das Freguesias de São João das Lampas e Terrugem
  • União das Freguesias de SINTRA: Santa Maria E São Miguel, São Martinho e São Pedro de Penaferrim

Política[editar | editar código-fonte]

Administração municipal[editar | editar código-fonte]

O município de Sintra é administrado por uma câmara municipal composta por 11 vereadores. Existe uma assembleia municipal, que é o órgão legislativo do município, constituída por 53 membros da assembleia municipal (dos quais 33 eleitos diretamente).

O cargo de Presidente da Câmara Municipal é actualmente ocupado por Basílio Horta, eleito nas eleições autárquicas de 2013 pelo Partido Socialista, o qual logrou a eleição de mais três vereadores na Câmara. Foram ainda eleitos quatro vereadores pelo Movimento Sintrenses com Marco Almeida, dois vereadores pela Coligação Sintra Pode Mais (PPD/PSD e CDS/PP) e um pela CDU. Na Assembleia Municipal o partido mais representado é novamente O Partido Socialista, com 11 deputados eleitos e 7 Presidentes de Juntas de Freguesia, seguindo-se o Movimento Sintrenses com Marco Almeida (9; 4), a Coligação Sintra Pode Mais (6;0) a CDU (5; 0) e o Bloco de Esquerda (2; 0). O Presidente da Assembleia Municipal é Domingos Quintas do Partido Socialista.

Cidades Irmãs[editar | editar código-fonte]

Património[editar | editar código-fonte]

Demografia[editar | editar código-fonte]

População do concelho de Sintra (1801 – 2011)
1801 1849 1900 1930 1960 1981 1991 2001 2011
12 486 17 129 26 074 37 986 79 964 226 428 260 951 363 749 377 837

Gastronomia[editar | editar código-fonte]

A Vila tem algumas especialidades gastronómicas muito apreciadas, como os pasteis regionais "travesseiros", o cabrito assado, e as famosas queijadas de Sintra.

Cidade Gémea[editar | editar código-fonte]

Em Agosto de 2006, Sintra e Asilah (em Marrocos) foram consideradas cidades gémeas.

Cidadãos ilustres[editar | editar código-fonte]

Tozé ex-futura promessa do hóquei em patins nacional (n. 1986)

Galeria de imagens[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas e referências[editar | editar código-fonte]

  1. Crónica de el-rei D. Fernando, de Fernão Lopes, capítulos LXII e LXVI (data referida na era de César, correspondendo ao ano de 1372)
  2. Crónica de el-rei D. João o primeiro de Leão e Castela, de Lopez de Ayala, ano 7.º, capítulo XVII
  3. Martin Page, A Primeira Aldeia Global, Casa das Letras, 5ª edição, 2009, p. 21.
  4. a b Martin Page, A Primeira Aldeia Global, Casa das Letras, 5ª edição, 2009, p. 22.
  5. Baron George Noël Gordon Byron, Life, letters and journals of Lord Byron‎, London, 1844, p. 91
  6. Lord Byron, CHILDE HAROLD'S PILGRIMAGE TO PORTUGAL Archive.org.
  7. Alfred Tennyson, Poemas, selecção e tradução de Octávio dos Santos, Saída de Emergência, 2009, pp. 26-29.
  8. Singer, Collected Stories: A Friend of Kafka to Passions, The Library of America, 2004, p. 631.
  9. CAMÕES, L. Os Lusíadas. Canto III

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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Imagem: Paisagem Cultural de Sintra A vila de Sintra inclui o sítio Paisagem Cultural de Sintra, Património Mundial da UNESCO. Welterbe.svg