Ásatrú

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Ásatrú ou Ásatrú Vanatrú (Islandês para " nos Æsir e Vanir"), é uma religião neopagã, que busca reconstruir a antiga religiosidade nórdica e germânica, na compreensão e vivenciamento segundo a visão social e espiritual praticada entre as tribos germânicas e entre os povos Escandinavos, com embasamentos mitológicos nas Eddas,[1] e também comumente literaturas lendárias nas Sagas, escritas antes e após a chegada do cristianismo na Escandinávia.

Óðinn, o deus caolho, retratado na Edda em Prosa de Snorri Sturluson.
Heathens em um Blót na Suécia, junho de 2011.

Æsir e Vanir são, respectivamente, os dois maiores grupos de divindades nórdicas que ainda conhecemos, que a princípio, travaram uma guerra um contra o outro. É conhecido através da narrativa poética Völuspá (tradução: "Profecia da Vidente"), que diz:

"Sua lança havia Óðinn jogado sobre os anfitriões

O primeiro dos combates, foi assim no mundo

foi quebrada em batalha a fortificação de Asgard

lutando com os Vanir no campo de batalha" [2].

Ao final de tal guerra ambos os clãs de deuses haviam decidido permanecer em paz e trocado reféns entre si. Tal passagem, segundo Mathias Pietsch "lembra um tempo da pré-história nórdica (talvez dois mil anos antes de Cristo) quando dois cultos lutaram pelo domínio na Escandinávia. Um grupo teve a supremacia [...], e os dois cultos se uniram no passado".[3] Tal hipótese, todavia, não é consenso entre todos os praticantes da religião, como a maioria dos elementos de uma religião reconstrucionista e não centralizada ou dogmatizada, para boa parte dos que participam dela. Comumente um praticante pode se denominar ásatrúar, heathen, pagão nórdico, ou, simplesmente pagão. Alguns preferem o termo heathen simplesmente por designar os moradores dos campos nos países germânicos.

Por ser um reconstrucionismo religioso, é uma forma de paganismo moderno, onde seus adeptos buscam reconstruir crenças e práticas vividas em tempos remotos em regiões específicas, voltadas tanto para um conceito cultural, mas principalmente a busca pela compreensão de uma visão espiritual dos antigos povos nórdicos e germânicos e suas percepções quanto a esse ponto de vista. Que podem ser compreendidas de maneira abrangente como mostrado em contextos históricos e poemas pertencente a esses povos, que se diferenciavam em tribos e de diferentes épocas, não havendo assim uma centralização formal quanto a visão religiosa.

A Ásatrú é, assim, uma religião politeísta e animista, de culto à natureza e dos seres que compõem os mundos de Yggdrasil. Juntamente complementar a crença na magia, características que compõem a religiosidade pagã, não podendo assim uma excluir a outra, pois ambas andam juntas, evidenciados relatos nas Sagas Islandesas, da qual dois tipos básicos de magia podem ser compreendidos (embora eles sejam mais complementares que excludentes): o Galdr e o Seiðr. Toda a história que compõe pode ser encontrada nas Sagas e nas Eddas (Poética, de autores anônimos e em Prosa, de Snorri Sturluson), livros onde existem os escritos nórdicos que retratam desde o início do mundo, segundo a visão cosmológica pertencente aos conjuntos narrativos, que se encontram no poema Völuspá, onde são retratados acontecimentos que fizeram parte das histórias dos deuses e feitos realizados por eles. Passando também por narrativas, pelas quais o deus Óðinn (Odin) descobriu a magia Seiðr ensinada pela deusa Freyja, até contos de heróis lendários como Siegfried, pertencente a saga dos volsungos, cujos contos influenciaram feitos teatrais, como a adaptação de Richard Wagner, uma das mais famosas.

Sua ritualística religiosa mais importante é o Blót, em que são realizados pedidos e oferendas para os deuses e Vættir, tendo também os ritos de passagens das estações do ano, como o início de inverno. Para cada rito é comumente explicado a data para qual divindade ou passagem a ser celebrada, que é especificada no calendário pagão nórdico, que se divide em Hemisfério Norte e Hemisfério Sul. O crescimento da Ásatrú é percebido pelo mundo, principalmente nos países nórdicos, mas também em Portugal e Argentina, com movimentos menores no Brasil e Estados Unidos.

Histórico[editar | editar código-fonte]

Sveinbjörn Beinteinsson, fundador da Ásatrúarfélag (Associação Ásatrú) Islandesa.

Ásatrúarfélagið (islandês: "Associação da Fé nos Æsir), foi a primeira organização a usar a expressão "Ásatrú" para o reconstrucionismo religioso. A Ásatrúarfélag foi fundada na Islândia por Sveinbjörn Beinteinsson, um fazendeiro, skald (poeta) e estudioso Islândes, no Primeiro Dia do Verão de 1972, tendo conseguido o reconhecimento como organização religiosa registrada em 1973. A Ásatrú é uma religião oficialmente reconhecida pelos governos da Islândia (desde 1973), Dinamarca (desde 2003) e Noruega. A organização foi liderada por Beinteinsson entre 1972 até sua morte, em 1993. O governo dos Estados Unidos não endossa ou reconhece oficialmente qualquer grupo religioso; todavia, numerosos grupos Ásatrú têm sido reconhecidos com o status de organização sem fins lucrativos desde os anos 1970.

Embora o termo Ásatrú originalmente se referisse especificamente aos partidários islandeses da religião, neopagãos germânicos e grupos reconstrucionistas têm se identificado majoritariamente como Ásatrú, particularmente nos Estados Unidos. Neste sentido mais amplo, o termo Ásatrú é usado como um sinônimo de neopaganismo germânico ou paganismo germânico, conjuntamente com os termos Forn Sed, Heathenry, Heathenism.

Muitos membros da Ásatrú e do neo-paganismo germânico se intitulam também de reconstrucionistas, muitas vezes recorrendo a estudos e pesquisas acadêmicas sobre a antiga religiosidade da Era Viking. Especialmente os atuais praticantes dos países escandinavos, como a Noruega, mantém algum tipo de vínculo com as pesquisas historiográficas sobre religiosidade nórdica.[4]

É importante notar que há uma gama de vertentes do reconstrucionismo pagão germânico e nórdico como: theodismo, odinismo, irminismo, etc. Eles podem ter pontos de contato com a Ásatrú, mas a diferença essencial entre eles e os movimentos que se inspiram naquele dos islandeses está em sua prática e visão de mundo. Em geral grupos odinistas (que, ao menos pelo nome, são tão abundantes quanto os de Ásatrú) inspiram-se no nacionalismo e romantismo alemão dos séculos XIX e XX, e em Else Christensen. Já a Ásatrú não possui nenhuma pretensão racial ou política em sua origem, fato atestado inclusive pelo rompimento formal da Ásatrúarfélag islandesa com todos os grupos pagãos fora da Islândia na década de 1980, para evitar ser envolvida com posturas racialistas[1].

Existem diversos grupos como a Asatru Folk Assembly (AFA) e a COE (Comunidad Odinista de España - Ásatrú) que, apesar de seus nomes, são mais próximas do odinismo que da própria Ásatrú. Apesar da aparência exterior e confusão de nomes os grupos pagãos possuem diversas diferenças entre si, sendo a mais clara percebida pelo debate entre universalistas e folkish. Grandes movimentos dentro da Ásatrú em uma visão espiritual, afirmam que todos são capazes de praticar a religião, e, segundo os últimos (AFA e a COE), dizem que apenas os que possuem descendência (pura) europeia. A Ásatrú islandesa, todavia, é muito mais um movimento com uma característica cultural, espiritual e religiosa, prezando muito mais pela ética que pelo dogmatismo, sendo a organização marcada inclusive pela polêmica do atual sumo-sacerdote (allsherjargoði), Hilmar Örn Hilmarsson da Ásatrúarfélag ter se pronunciado como a seguir:

"Eu já disse que eu não acredito em um homem de um olho só, montando um cavalo de oito patas, e alguns consideram isso blasfêmia. Há sempre pessoas que querem coisas para serem gravadas em pedras. Mas a Edda Poética é fundamentalmente sobre como a vida muda, e como você deve estar preparado para responder às mudanças que ela traz”[1].

Como já dito, não há uma centralização quanto a isso, então a crença de como são os deuses e como eles se manifestam, é algo pessoal.

No Brasil, apesar de sem ligação direta com a Ásatrú islandesa, diversos grupos, buscam nela exemplo para desenvolver suas práticas, promovendo mesas redondas via internet, para além de suas atividades na vida real, para auxiliar a compreensão dos leigos no assunto sobre aspectos da religião.

Atitude[editar | editar código-fonte]

A religião Ásatrú não possui nenhum dogma, porém alguns heathens, fundamentam-se na vivência das "Nove Nobres Virtudes": Coragem, Verdade, Honra, Fidelidade, Disciplina, Hospitalidade, Laboriosidade, Independência e Perseverança. Todavia, com o maior esclarecimento da comunidade é bom deixar claro que a origem das Nove Virtudes remonta ao século XX, com a organização folkish Odinic Rite, não sendo, assim, senão uma escolha mais ou menos arbitrária de valores que este grupo reconheceu nas Eddas[5], em detrimentos de tantos outros, como, por exemplo, o bom-senso que é mencionado no Hávámál e não se encontra na lista.

Esse ponto é de grande discussão entre os heathens, mas vale delimitá-lo em linhas gerais. Para alguns praticantes da religião o conjunto das Nove Nobre Virtudes é por algum motivo insuficiente para representar a totalidade da ética e valores expressos pela Ásatrú, embora a grande maioria considere que a ação é um foco central da religião, tanto quanto o culto às divindades e vaettir. Isto, porque a visão de tempo na mentalidade nórdica abarcava, segundo o estudioso Vilhelm Grönbech[6], o passado e o presente como uma única coisa ("aquilo que é") em oposição ao futuro ("aquilo que ainda não é").

Esse conceito deriva da própria explicação mítica de tempo: a deusa Frigg, esposa de Óðinn, fiava o fio do örlög, através do qual as Nornir (ou Nornas, sing. "Norn") Uld, Skuld e Verdandi teciam a teia do wyrd (destino) dos homens. Assim, a ação era livre de maneira relativa, pois era limitada pelo possível no fio do örlög. "Se a urd [wyrd] são os caminhos que podemos escolher [...], a örlög é nosso ponto de partida e o nosso ponto de chegada — duas coisas sendo certas: nosso nascimento, e nossa morte"[7]. Desta forma, os heathens de maneira geral não acreditam em milagres, pois o presente é resultado de nossas ações anteriores, e não da intervenção das divindades. Por outro lado, reforça-se a ideia de que um heathen deve agir ativamente, quando quer algo diferente, modificando a teia do próprio wyrd a partir de suas ações, embora nunca possa fugir dos frutos daquilo que semeou no passado, como diz o ditado muito mencionado "We are the sum of our acts" ("Nós somos os nossos atos", em tradução livre).

Por outro lado, além dos conceitos de wyrd e örlög são muito importantes os de fríðr (paz), sorte e honra. Ainda segundo Grönbech [6], o conceito de sorte era tomado individualmente pelos antigos povos nórdicos, e fazia com que esses membros do clã tivessem boas colheitas, sorte em caça, batalha etc. Tal fato colaborava com o bem-estar do clã, e era, junto com outros elementos, valorizado por auxiliar a se alcançar a paz, a fríðr, a estabilidade. Esses dois, todavia, eram contrabalançados pelo de honra, que fazia com que muitas contendas fossem iniciadas, para se manter a dignidade pessoal e do clã perante insultos, muitas vezes, velhos e homens incapazes por alguma razão de defender sua honra através das armas, preferindo a morte a viver sem o respeito dado por este sentimento. Tais aspectos, embora não possam ser aplicados de maneira literal na realidade atual, segundo a compreensão de alguns heathens, devem, todavia, guiar a interpretação dos heathens sobre a realidade, impedindo que se caia em situações comparáveis à desonra, no passado.

O Hávamál, o bom senso e o convívio[editar | editar código-fonte]

O Hávamál é o mais longo poema Éddico, com os ditos de Óðinn, tendo o próprio deus caolho como protagonista e autor, sua origem é desconhecida e seu nome traduzido "Discurso de Hár" sendo Hár um dos apelidos de Óðinn. O poema narra valores e feitos de grande porte para o paganismo nórdico sendo levados como éticas não dogmatizadas, sendo seguidas por livre vontade. Sendo assim os valores seguidos por um heathen, pode por fazer parte de seus próprios conceitos, e também estar ligado ao seu Fulltrui, o culto específico a um determinado deus, estando ligado a sua própria forma de comportamento da divindade, também um grande valor expresso pelo Hávamál é um conjunto de elementos que formam o "Bom senso", sendo um comportamento de conduta muito mencionada. É importante notar que em uma forma de pensamento politeísta, existem múltiplas consciências diferentes que se interagem entre si, e um conceito de espiritualidade segundo a visão nórdica, existe o chamado fríðr, que é a paz, comunhão e respeito, presado entre a convivência das divindades, tal narração pode servir de exemplo para reforçar esse conceito que é mostrado em Lokasenna, onde Loki julga as atitudes dos deuses e deusas e tanta usar como modo de insulto, o mesmo é expulso por um tempo, após algumas ameaças do deus Þórr, pois aquele ato tinha o intuito de causar desavença entre eles.

Dentro da estruturação do Hávamál, contém os versos que compõem o Rúnatal, onde é narrado como o deus Óðinn, obteve as runas através do seu auto sacrifício, os versos seguem adiante juntamente com 18 encantamentos, que se encontram no verso 146 ao 163, os estudos das runas para uso mágico e oracular, também se amplificam para os poemas rúnicos que são o Anglo-Saxão, Islandês e o Norueguês.

Rituais e práticas[editar | editar código-fonte]

Nordiska gudabilder vid julgille.jpg

Blót[editar | editar código-fonte]

O rito religioso mais importante, o Blót, constitui em um ritual em que as oferendas são oferecidas aos deuses, normalmente ocorre ao ar livre, e geralmente consiste em ofertas de comidas, hidromel e outras bebidas, que podem ser contidos dentro de uma tigela ou deixado na natureza. Esse rito, normalmente começa com a consagração do local, que é feita geralmente com o ritual do hammer, após isso, os deuses são invocados através de poemas ou discursos iniciais, e os pedidos são expressos por sua ajuda sendo feitos por cada um dos participantes, o Goði (sacerdote), usa um ramo de uma árvore verde para polvilhar hidromel em ambas as estátuas das divindades, em alguns casos, e os participantes reunidos. Em um blót pode ser recitado poemas, danças, entre outras atividades que são escolhidas pelos membros do grupo, que por final são feitos os discursos finais e são deixadas as oferendas que podem ser jogadas em uma fogueira, deixados em uma tigela ou sobre a terra, como já mencionado. São importantes também oferendas aos Landvættir (espíritos da terra). Para cada blót existe uma data especificando qual deus ou seres serão celebrados no dia do rito.

Antigamente o Blót, eram realizados com sacrifícios de animais, feitos para agradecer aos deuses e ganhar seus favores. Atualmente grupos de pagãos modernos, não realizam esse ato, por não saberem técnicas de abate ou estarem presos a conceitos negativos sobre essa prática ou outros motivos, porém ainda existem grupos em menor número que realizam sacrifícios.

Oferendas deixadas em um Blót.

Symbel[editar | editar código-fonte]

Também escrito sumbel , é uma cerimônia de beber em ritual para os deuses, é realizado com um Drinking Horn (Copo Chifre), em que o chifre é cheio com hidromel ou cerveja e é passado ao redor do grupo e uma série de brindes são feitos, geralmente, para os deuses, ancestrais, ou heróis da religião. Os brindes variam por grupo, e alguns grupos fazem uma distinção entre um sumbel "regular" e uma sumbel "alto", que têm diferentes níveis de formalidade, e regras diferentes durante o consumo. Os participantes também podem orgulha-se de seus próprios atos, fazer juramentos ou promessas de ações futuras. Palavras faladas durante o sumbel são considerados com cuidado e qualquer juramento feito são considerados sagrados, tornando-se parte do destino daqueles indivíduos.

Percepções de magia[editar | editar código-fonte]

Na religiosidade Germano-nórdica, a crença na magia era algo característico, podendo ser divididas em várias funções e termos para diferencia-los. Os praticantes de magia poderiam ser caracterizados de diversos nomes de acordo com o tipo de magia que praticavam e eram pessoas a margem da sociedade de acordo com a sua especialização. O uso das runas, a prática do seidr, entre outros tipos, era algo comumente recorridos naquela época, visto até mesmo como uma profissão, em uma concepção geral podendo se dividir em dois grupos: defensivo (estando incluso a magia profética) e ofensivo. A feitiçaria era praticado tanto em centros urbanos nórdicos como no mundo rural, envolvendo rituais em grupos ou individuais, utilizados para fins domésticos, defensivos, para batalha (no caso dos guerreiros que consagravam armas, e até mesmo os Berserker), amaldiçoar, entre muitos outros objetivos.

Os deuses por muita das vezes regem vættir (espíritos) que são responsáveis por algum tipo de trabalho, tendo como exemplo o deus Freyr que rege os Ljósálfar, que são entidades responsáveis pelo cultivo e fertilidade da terra,e também pelo fríðr, que pode ser interpretado como paz e harmonia. A percepção do mundo espiritual nessa visão pode ser interpretada como divindades que são responsáveis por algum trabalho, seja para comunhão familiar ou apelos medicinais. A invocação de divindades para trabalhos mágicos pode ser levado em consideração, quando o vættir invocado é atribuído a aquele tipo de especialidade, tal fato ocorre historicamente na inscrição de Ribe na Dinamarca, 725 d.C, e também na inscrição de Kvineby na Suécia, séc xi, em que divindades são invocadas para melhoria da saúde e afastar forças ofensivas.

Atualmente muitos grupos heathens buscam e realizam essas práticas, diretamente aos relatos nas Sagas, academicismo e conceitos de ocultismo que envolvem o mapeamento da alma voltados a magia escandinava. Um exemplo disso é o seiðr, que é descrito normalmente como um tipo de xamanismo praticado estre os escandinavos, com influência de outros povos, como os mencionados Lapões. Uma forma proeminente do seu uso é de um alto assento chamado Seiðhjallr, um instrumento onde o praticante senta para entrar em transe, que seria onde eles recebiam as visões, comunicação e a realização de viagens no mundos dos mortos.

Völva ou Seidrkona, praticante de magia. Desenhada por Valentina-Mustarjarvi.

Amuletos e Símbolos[editar | editar código-fonte]

Como grande parte das religiões, o paganismo nórdico também são repletos de símbolos representativos, sendo usados como amuletos e inscrições, na maioria das vezes. Na antiguidade entre os escandinavos, normalmente eram usados objetos representando algum deus e com objetivos mágicos, em grande parte para proteção, mas também assumindo outras tarefas, como símbolos rúnicos, bind runes e galdrastafir e principalmente simples pingentes. E também existiam algumas "simpatias" conhecidas como trolldom.

Exemplos de alguns amuletos e símbolos sagrados:


Pós-Vida[editar | editar código-fonte]

Hel, a deusa dos mortos nórdica, senhora do reino para onde a maioria dos seres humanos iria segundo as crenças pagãs, podendo ser conectados através de rituais de magia seidr ou diretamente através dos túmulos. Na religião antiga, dava-se menor importância ao Valhalla e maior valor aos cultos relacionados à fertilidade e ao contato com os seus antepassados.

O conceito de "Pós-Vida" varia muito entre pagãos, tanto quanto o conceito de reencarnação, embora isso seja algo muito pessoal, existe um estudo centralizado nesse assunto sobre os antigos povos. A cultura pop nos passa a impressão do Valhalla sendo como um "paraíso" para os pagãos nórdicos, e já associam Helheim, como o oposto passando a impressão de "inferno". Sendo essa uma visão falha que muitos acabam trazendo por conceitos de suas antigas crenças binárias entre "Paraíso/Inferno". Punição, exceto em casos de assassinato, traição e quebra de palavra, não era um conceito natural da religião tribal dos germanos.

Existe uma importância em desmistificar esse conceito de Valhalla x Helheim, para entrar mais afundo nesse estudo de "Pós-Vida", sendo assim necessário apresentar outros possíveis lugares para onde irão os falecidos, que diversificavam de acordo com o povo, momento histórico e região, dos antigos nórdicos. Todavia, a crença mais comum era que o local de habitação da maioria dos mortos era no seu túmulo, o que, aliás, era muito importante, tendo em vista que os montes nos quais enterravam-se os parentes eram como que um "portal" de acesso a eles. Além disso, haviam os destinos para além de Midgard: o Helheim, que não era de forma alguma um local ruim, (regido por Hela), para os que morrem de causas naturais, possivelmente o destino da maioria das pessoas, tanto na época antiga quanto hoje. Os que agem por egoísmo, quebrando a palavra, fazendo atos de traição, assim prejudicando a vida coletiva, iriam para o Náströnð local afastado em Helheimr, onde eram mastigados pela serpente Níðhöggr. O Salão de Aegir e Rán, para os mortos afogados e em alto mar. Helgafjel, para os que trazem benefícios políticos e sociais para os clãs e Gefjon, para as moças que morreram virgens. E, por fim, os salões de Asgaard: o Bílskirnir (salão de Thor) para os simples trabalhadores que eram a grande maioria sendo os Karls (pobres) e Thralls (escravos), o Valhalla (Regido por Odin) e Fólkvangr (Regido por Freyja), ambos para os guerreiros mortos em batalhas, o qual muito se questiona na atualidade senão seria algo mais poético do que religioso, de fato[8].

O conceito de "Pós-Vida" varia muito de pessoas ou grupos pagãos, ainda sendo de grande importância a teoria apontada por Hilda Ellis Davidson[9] que haviam ancestrais que tornavam-se Elfos, que além de habitantes de Álfheim, também são seres regidos por Freyr, ligados ao cultivo e trabalho no campo, bem como à fertilidade da Terra (Jörð).

Culto aos Ancestrais[editar | editar código-fonte]

Montes tumulares de Gamla Uppsala, Suécia.

Os montes reais de Gamla Uppsala na Suécia são dos séculos V e VI. Originalmente, o local tinha 2000 a 3000 túmulos, mas devido a pedreiras e agricultura apenas 250 restaram. Ali acontecia parte importante da religiosidade pagã: o culto ancestral.

O culto dos ancestrais era um elemento na cultura escandinava pré-cristã. Os antepassados eram de grande importância para a auto-imagem da família e as pessoas acreditavam que ainda eram capazes de influenciar a vida de seus descendentes a partir da terra dos mortos. O contato com eles foi visto como crucial para o bem-estar da família. Se fossem tratados da maneira ritualmente correta, poderiam dar suas bênçãos aos vivos e assegurar sua felicidade e prosperidade. Por outro lado, os mortos poderiam assombrar os vivos e trazer má fortuna se os rituais não fossem seguidos. Não está claro se os antepassados foram vistos como forças divinas em si, mas sugere-se que estavam ligados a outras forças relacionadas com a morte como os elfos.

O status do morto determinou a forma do seu túmulo e os montes tumulares foram vistos como a morada dos mortos. Eles eram lugares de poder especial que também influenciavam os objetos dentro deles. A evidência de aberturas pré-históricas em montes pode, portanto, não indicar pilhagem, mas os esforços da comunidade local para recuperar objetos sagrados do túmulo, ou para inserir ofertas. Uma vez que a escavação de um monte era uma tarefa demorada e laboriosa que não poderia ter acontecido sem ser notada, o historiador religioso Gro Steinsland e outros acham improvável que os saques de sepulturas fossem comuns nos tempos pré-históricos.

Há também vários contos e lendas mitológicas sobre a recuperação de objetos de túmulos e um relato na Ynglingasaga de ofertas a Freyr continuando através de aberturas em seu monte tumular em Uppsala.

A conexão entre os vivos e os mortos foi mantida através de rituais ligados ao local do sepultamento como sacrifício de objetos, comida e bebida. Normalmente os túmulos foram colocados perto da habitação da família e os ancestrais eram considerados como protegendo a casa e seus habitantes contra a má sorte e dando fertilidade. Assim, o culto dos ancestrais foi de importância crucial para a sobrevivência e há sinais de que ela continuou até os tempos modernos em áreas isoladas. A adoração dos ancestrais era também um elemento nas festas, onde os brindes comemorativos aos falecidos faziam parte do ritual. Também o álfablót estava intimamente ligado à família[10].

Na Atualidade[editar | editar código-fonte]

Uma característica importante dentro da ritualística reconstrucionista da Ásatrú é o Culto aos Ancestrais, sendo que esse possui um dos papéis centrais. Embora não tão mencionado na nascente comunidade brasileira, possui relevância reconhecida e destaque na prática nos EUA, por exemplo.

Segundo a cultura nórdica, existe o chamado "Odal" ou "Orthanc" que é aquela parte do sangue de uma pessoa que ela compartilha com seus familiares, e os une em destino comum. Tal linha, segundo alguns, chega mesmo aos deuses, uma vez que o próprio deus Óðinn é reconhecido como fundador de linhagens reais.

Mas não apenas isso. Existia entre os germanos continentais, por exemplo, o culto às Matronae, o qual se assemelhava em muito ao das Dísir escandinavas. Ambas seriam, essencialmente, espíritos femininos, das mulheres da tribo, família ou clã, cultuadas por sua capacidade de influenciar o destino dos descendentes vivos. Havia também o culto aos elfos, que em muitos aspectos não parece claramente separado dos ancestrais, habitando ambos montes fúnebres, em vários casos[11].

Acompanhando a divisão proposta por M. L. Stinson[12], ele pode ser dividido, hoje, em três abordagens complementares entre si:

Abordagem Idealizada dos Ancestrais[editar | editar código-fonte]

O culto geral, feito aos heróis dos germanos (para aqueles com tal ascendência), retratados em sagas e histórias míticas.

Abordagem de Identidade Cultural[editar | editar código-fonte]

Nessa caso, tenta-se recuperar e reviver, ou mesmo preservar as tradições do povo específico do qual se descende. Como comer comidas típicas da região de seus ancestrais, ter elementos decorativos, por exemplo, de alemães, para um descendente de alemães, ou suecos, para quem tem tal descendência.

Abordagem de Ancestrais Pessoais[editar | editar código-fonte]

Por último, mas não menos importante, o culto aos ancestrais dos quais se descende diretamente, através da recomposição de árvores genealógicas, preservação de memórias como músicas, escritos, ou atos dos ancestrais. Tem uma importância enorme, e visa a manutenção do elo, que, segundo muitos heathens, não se rompe entre vivos e mortos quando alguns morrem.

Vættir[editar | editar código-fonte]

Vættir (em inglês wights) são os Espíritos dentro da tradição germânica. Poderíamos dizer que mesmo os deuses são vættir. Mas, dentro da tradição nórdica, muito importantes também são os landvættir (espíritos da terra). São de diversos tipos, sendo que os mais conhecidos são elfos, anões, trolls, ou mesmo espíritos caseiros, como os Tomte que eram, segundo o folclore sueco, responsáveis por cuidar de casas[13].

Parte importante da visão de mundo de um ásatrúar consiste em aprender lidar com esses espíritos, mesmo que sem os ver, uma vez que eles, segundo as ideias animistas da religião, influenciam a todo o momento a vida dos seres humanos nos locais onde habitam, causando prejuízos ou benefícios, conforme a importância e oferendas que recebem dos humanos.

Kindreds[editar | editar código-fonte]

Os Kindreds são grupos familiares praticantes do paganismo nórdico, como a Ásatrú, onde se reúnem para realizar os rituais e práticas dentro da fé. Para estar em um Kindred é necessário um juramento em grupo com os membros, existem Kindreds que realizam os rituais abertos e convidam pessoas de fora para participar, outros são mais fechados e restritos, isso depende das regras em que os membros desenvolveram. Cada kindred tem um modo de funcionamento e de admissão de novos membros para seu conjunto.

Calendário[editar | editar código-fonte]

O presente calendário está adaptado para as estações no Hemisfério Sul.

Baseado fortemente no calendário do Kindred Allmátkki Áss[14]

Fevereiro

- 2 de Fevereiro – Freyrfaxi (Festa à Frey) ou Loafmass (Festa do Pão), em agradecimento às colheitas ceifadas. Ou Loaf-Feast (Festa do Pão)

Março

- 20 de Março – Harvest: Princípio de Outono e Chegada de Inverno. Ou Haustablót.

- 28 de Março – Dia de Ragnar Lodbrok, que conquistou Paris, França.

Abril

- 23 April 1958 Nasce Hilmar Örn Hilmarsson, atual Allsherjargoði  da Ásatrúarfélag.

- 30 dependendo da tradição de Abril – Wétturnaettr: Noites de Inverno – fim das colheitas e bendição pelas entidades como elfos, Dísir e Freyr, para a sobrevivência. Início da Caçada Selvagem.

Maio

- 22 de Maio – Celebração dos Vikings: comemora-se o início das ocupações vikings pela Europa.

- 30 de Maio – Celebração dos Aesir: festa em honra aos Deuses dos Homens.

Junho

- 1 de Junho – Dia de Ullr, Rei do Inverno: marca o fim das estações de calor e começo dos meses de inverno.

- 21 de Junho – Mídwinterblót: Solstício de Inverno. Inicio do inverno e renascimento do sol.

- 23 de Junho – Yule: festa em comemoração ao ano novo nórdico e todos seus atributos. Celebração das Mães, das Dísir pedindo bênçãos para o novo ano. Ano novo nórdico. Nove dias de duração.

- 24 de Junho – Festa de Vali, Festa da Família ou Festa de Vingança de Sangue.

Julho.

- 4 de julho de 1924 - Nascimento de Sveinbjörn Beinteinsson, criador e primeiro Allsheriagoði da Ásatrúarfélag islandesa.

- 19 de Julho – Dia da morte de Olaf o Gordo e fim da opressão cristã.

- 24 de Julho – Thórrablót – Sacrifício a Thor: Proteção para o inverno.

- 31 de Julho – Disablót ou Álfablót: Sacrifício das Mães ou Sacrifício dos Elfos. Pedindo bênçãos como: proteção, saúde e cura a estes seres femininos do Clã. São louvadas as Dísir, Idesir, Walkyrjor e Norns no Disablót, ou os Elfos no Álbablót.

Setembro

- 22 de Setembro – Eostr: Equinócio de Primavera. Início dos degelos, quando o mundo chora para o retorno do sol e sorri quando ganha poder cada vez mais. Ou Idunnablót.

Outubro

- 13 de Outubro – Sumarsdag ou Sigrblót (Dia de Verão ou Sacrifício de Vitória) – Sacrifícios a Odin para assegurar a chegada do verão e as vitórias nas batalhas.

- 31 de Outubro – Sumarmál: princípio de verão. Também chamado de Noite de Walburga.

Novembro

- 1 de Novembro – Enherjarsdáegr: Dia dos Heróis Mortos, em honra aos Enherjar do Clã e suas virtudes.

- 30 de Novembro – Festa dos Vanir: celebração aos deuses da terra e da natureza.

Dezembro

- 21 de Dezembro – Mídsummarblót (Sacrifício de Meio de Verão): solstício de verão. Festa de Baldr.

- 24 de dezembro de 1993 morte de Sveinbjörn Beinteinsson, criador e primeiro Allsheriargoði da Ásatrúarfélag.

Referências

  1. a b c «Heathens contra o ódio: Entrevista exclusiva com o Sumo Sacerdote da Associação Pagã Islandesa». Ásatrú & Liberdade. 17 de agosto de 2015. Consultado em 19 de junho de 2016 
  2. «Voluspa (A profecia da vidente)» (PDF) 
  3. «A Primeira Guerra – Asen contra Vanen». Ásatrú & Liberdade. 10 de setembro de 2015. Consultado em 19 de junho de 2016 
  4. Johnni Langer|LANGER, Johnni. Religião e magia entre os vikings. Brathair 5 (2) 2005
  5. «Virtudes, visão de mundo e Ásatrú». Heathen Brasil. 10 de março de 2016. Consultado em 19 de junho de 2016 
  6. a b Grönbech, Vilhelm. «The Culture of the Teutons» (PDF). The Culture of the Teutons 
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