Ásatrú

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Ásatrú [ausa'tɾu] ou Ásatrú Vanatrú (Islandês para " nos Æsir e Vanir"), é um movimento religioso neopagão que busca reconstruir a religião nórdica existente na época dos vikings e anterior a ela – baseado, principalmente nas Eddas [1] , mas também nas Sagas– antes da chegada do cristianismo.

Óðinn, o deus caolho, retratado na Edda em Prosa de Snorri Sturluson.

Æsir e Vanir são, respectivamente, os dois maiores grupos de divindades nórdicas que ainda conhecemos. É conhecido através da narrativa poética Vǫlospá (trad."Profecia da Vidente") que

"Sua lança havia Óðinn jogado sobre o anfitriões

O primeiro dos combates, foi assim no mundo

foi quebrada em batalha a fortificação de Asgard

lutando com os Vanir no campo de batalha" [2] .

Ao final de tal guerra ambos os clãs de deuses haviam decidido permanecer em paz e trocado reféns entre si. Tal passagem, segundo Mathias Pietsch "lembra um tempo da pré-história nórdica (talvez dois mil anos antes de Cristo) quando dois cultos lutaram pelo domínio na Escandinávia. Um grupo teve a supremacia [...], e os dois cultos se uniram no passado" [3] . Tal hipótese, todavia, não é consenso entre todos os praticantes da religião, como a maioria dos elementos de uma religião reconstrucionista e não centralizada ou dogmatizada, para boa parte dos que participam dela. Comumente um praticante pode se denominar ásatrúar, heathen, pagão nórdico, ou, simplesmente pagão. Alguns preferem o termo heathen simplesmente por designar os moradores dos campos nos países germânicos.

A Ásatrú Vanatrú é, assim, uma religião politeísta, de culto à natureza e dos seres que compõem os "Nove Mundos" de Yggdrasil. A crença na magia é algo presente nessa religião, muito relatado nas Sagas Islandesas, da qual dois tipos básicos de magia podem ser compreendidos (embora eles sejam mais complementares que excludentes): o Galdr e o Seiðr. Toda a história que compõe pode ser encontrada nas Sagas e nas Eddas (Poética, de autores anônimos e em Prosa, de Snorri Sturluson), livros onde existem os escritos nórdicos que retratam desde o início do mundo a partir do choque entre Musspelheimr e Niflheimr no grande abismo de Ginnungagap, passando pelas formas pelas quais Óðinn (Odin) descobriu a magia Seiðr ensinada pela Deusa Freyja, até contos de heróis lendários, como o Deus Thor e profecias de sua morte pela serpente filha de Loki, o deus da trapaça, e a forja do seu martelo Mjölnir pelos anões Brokk e Eitri, filhos de Ivaldi, que também forjaram outros artefatos mágicos para os Deuses, além claro, dos feitos de grandes navegadores e guerreiros nórdicos.

Pingente representando o Mjölnir , o martelo do Deus Thor ; tais pingentes são frequentemente usados ​​por pagãos nórdicos. Seu uso é antigo, sendo encontrado em sítios arqueológicos.

A religião Ásatrú não possui nenhum dogma, porém muitos ásatrúares (praticantes do Ásatrú Vanatrú) fundamentam-se na vivência das "Nove Nobres Virtudes": Coragem, Verdade, Honra, Fidelidade, Disciplina, Hospitalidade, Laboriosidade, Independência e Perseverança. Todavia, com o maior esclarecimento da comunidade é bom deixar claro que a origem das Nove Virtudes remonta ao século XX, com a organização folkish Odinic Rite, não sendo, assim, senão uma escolha mais ou menos arbitrária de valores que este grupo reconheceu nas Eddas[4] , em detrimentos de tantos outros, como, por exemplo, o bom-senso que é mencionado no Hávámál e não se encontra na lista.

O conceito de Confiança, que pode ser interpretado como fé, não é uma das Nove Nobres Virtudes, porque se baseia nos princípios de esperar e acreditar, contrariando a premissa da Laboriosidade. Um(a) ásatrúar não cultiva esperanças de que algo aconteça, ele (ou ela) trabalham arduamente pelas suas conquistas e pelas conquistas de seu Kindred (Círculo familiar praticantes do Ásatrú). Um Kindred não dá sua confiança espontaneamente, esta deve ser laboriosamente conquistada. A cultura Ásatrú é voltada para uma visão de ordem social subordinada à ordem familiar. Para uma visão de bem comum para o Clã (comunidade com várias famílias), onde cada membro da comunidade é um Kin. Portanto, é essencial a dedicação e comprometimento do indivíduo para com seu grupo, bem como a dedicação e comprometimento do grupo para com cada indivíduo. O Ásatrú não é uma religião expansionista, pois o conceito de compreensão das diversidades é intrínseco à natureza do politeísmo. Daí que não é uma prática aceitável para um Ásatrúar levantar críticas preconceituosas sobre os conceitos (religiosos, filosóficos, políticos ou sexuais) de qualquer indivíduo.

Seu crescimento é percebido pelo mundo, principalmente nos países nórdicos, mas também em Portugal e Argentina, com movimentos menores no Brasil e Estados Unidos.

Histórico[editar | editar código-fonte]

Sveinbjörn Beinteinsson, fundador da Ásatrúarfélag (Associação Ásatrú) Islandesa.

Ásatrúarfélagið (islandês: "Associação da Fé nos Æsir), foi a primeira organização a usar a expressão "Ásatrú" para o reconstrucionismo religioso. A Ásatrúarfélag foi fundada na Islândia por Sveinbjörn Beinteinsson, um fazendeiro, skald (poeta) e estudioso Islândes, no Primeiro Dia do Verão de 1972, tendo conseguido o reconhecimento como organização religiosa registrada em 1973. A Ásatrú é uma religião oficialmente reconhecida pelos governos da Islândia (desde 1973), Dinamarca (desde 2003) e Noruega. A organização foi liderada por Beinteinsson entre 1972 até sua morte, em 1993. O governo dos Estados Unidos não endossa ou reconhece oficialmente qualquer grupo religioso; todavia, numerosos grupos Ásatrú têm sido reconhecidos com o status de organização sem fins lucrativos desde os anos 1970.

Embora o termo Ásatrú originalmente se referisse especificamente aos partidários islandeses da religião, neopagãos germânicos e grupos reconstrucionistas têm se identificado majoritariamente como Ásatrú, particularmente nos Estados Unidos. Neste sentido mais amplo, o termo Ásatrú é usado como um sinônimo de neopaganismo germânico ou paganismo germânico, conjuntamente com os termos Forn Sed, Heathenry, Heathenism.

Muitos membros do Asatrú e do neo-paganismo germânico se intitulam também de reconstrucionistas, muitas vezes recorrendo a estudos e pesquisas acadêmicas sobre a antiga religiosidade da Era Viking. Especialmente os atuais praticantes dos países escandinavos, como a Noruega, mantém algum tipo de vínculo com as pesquisas historiográficas sobre religiosidade nórdica.[5]

É importante notar que há uma gama de vertentes do reconstrucionismo pagão germânico e nórdico como: theodismo, odinismo, irminismo, etc. Eles podem ter pontos de contato com a Ásatrú, mas a diferença essencial entre eles e os movimentos que se inspiram naquele dos islandeses está em sua prática e visão de mundo. Em geral grupos odinistas (que, ao menos pelo nome, são tão abundantes quanto os de Ásatrú) inspiram-se no nacionalismo e romantismo alemão dos séculos XIX e XX, e em Else Christensen. Já a Ásatrú não possui nenhuma pretensão racial ou política em sua origem, fato atestado inclusive pelo rompimento formal da Ásatrúarfélag islandesa com todos os grupos pagãos fora da Islândia na década de 1980, para evitar ser envolvida com posturas racialistas[1] .

Existem diversos grupos como a Ásatrú Folk Assembly e a COE (Comunidad Odinista de España - Ásatrú) que, apesar de seus nomes, são mais próximas do odinismo que da própria Ásatrú. Apesar da aparência exterior e confusão de nomes os grupos pagãos possuem diversas diferenças entre si, sendo a mais clara percebida pelo debate entre universalistas e folkish. Segundo os primeiros todos seriam capazes de praticar a religião, e, segundo os últimos, apenas os que possuem descendência (pura) europeia. A Ásatrú islandesa, todavia, é muito mais um movimento com uma característica muito mais cultural que religiosa, prezando muito mais pela ética que pelo dogmatismo religioso, sendo a organização marcada inclusive pela polêmica do atual sumo-sacerdote (allsherjargoði), Hilmar Örn Hilmarsson da Ásatrúarfélag ter se pronunciado como a seguir:

"Eu já disse que eu não acredito em um homem de um olho só, montando um cavalo de oito patas, e alguns consideram isso blasfêmia. Há sempre pessoas que querem coisas para serem gravadas em pedras. Mas a Edda Poética é fundamentalmente sobre como a vida muda, e como você deve estar preparado para responder às mudanças que ela traz”[1] .

No Brasil, apesar de sem ligação direta com a Ásatrú islandesa, diversos grupos buscam nela exemplo para desenvolver suas práticas, promovendo mesas redondas via internet, para além de suas atividades na vida real, para auxiliar a compreensão dos leigos no assunto sobre aspectos da religião.

Atitude[editar | editar código-fonte]

Esse ponto é de grande discussão entre os heathens, mas vale delimitá-lo em linhas gerais. Para alguns praticantes da religião o conjunto das Nove Nobre Virtudes é por algum motivo insuficiente para representar a totalidade da ética e valores expressos pela Ásatrú, embora a grande maioria considere que a ação é um foco central da religião, tanto quanto o culto às divindades e vaettir. Isto, porque a visão de tempo na mentalidade nórdica abarcava, segundo o estudioso Vilhelm Grönbech[6] , o passado e o presente como uma única coisa ("aquilo que é") em oposição ao futuro ("aquilo que ainda não é").

Esse conceito deriva da própria explicação mítica de tempo: a deusa Frigg, esposa de Óðinn, fiava o fio do örlög, através do qual as Nornir (ou Nornas, sing. "Norn") Uld, Skuld e Verdandi teciam a teia do wyrd (destino) dos homens. Assim, a ação era livre de maneira relativa, pois era limitada pelo possível no fio do örlög. "Se a urd [wyrd] são os caminhos que podemos escolher [...], a örlög é nosso ponto de partida e o nosso ponto de chegada — duas coisas sendo certas: nosso nascimento, e nossa morte"[7] . Desta forma, os heathens de maneira geral não acreditam em milagres, pois o presente é resultado de nossas ações anteriores, e não da intervenção das divindades. Por outro lado, reforça-se a ideia de que um heathen deve agir ativamente, quando quer algo diferente, modificando a teia do próprio wyrd a partir de suas ações, embora nunca possa fugir dos frutos daquilo que semeou no passado, como diz o ditado muito mencionado "We are the sum of our acts" ("Nós somos os nossos atos", em tradução livre).

Por outro lado, além dos conceitos de wyrd e örlög são muito importantes os de fríðr (paz), sorte e honra. Ainda segundo Grönbech [6] , o conceito de sorte era tomado individualmente pelos antigos povos nórdicos, e fazia com que esses membros do clã tivessem boas colheitas, sorte em caça, batalha etc. Tal fato colaborava com o bem-estar do clã, e era, junto com outros elementos, valorizado por auxiliar a se alcançar a paz, a fríðr, a estabilidade. Esses dois, todavia, eram contrabalançados pelo de honra, que fazia com que muitas contendas fossem iniciadas, para se manter a dignidade pessoal e do clã perante insultos, muitas vezes, velhos e homens incapazes por alguma razão de defender sua honra através das armas, preferindo a morte a viver sem o respeito dado por este sentimento. Tais aspectos, embora não possam ser aplicados de maneira literal na realidade atual, segundo a compreensão de alguns heathens, devem, todavia, guiar a interpretação dos heathens sobre a realidade, impedindo que se caia em situações comparáveis à desonra, no passado.

Rituais[editar | editar código-fonte]

Blót[editar | editar código-fonte]

Pagãos .jpg

O rito religioso mais importante é chamado Blót, constitui um ritual em que as oferendas são fornecidas aos deuses, normalmente ocorre ao ar livre, e geralmente consiste em ofertas de comidas, hidromel e outras bebidas, que podem ser contidos dentro de uma tigela ou deixado na natureza. Os Deuses são invocados e os pedidos são expressos por sua ajuda, o Goði usa um raminho ou ramo de uma árvore verde para polvilhar hidromel em ambas as estátuas das divindades e os participantes reunidos, em um blót pode ser recitado poemas, danças, entre outras atividades que são escolhidas pelos membros do grupo, por final são feitas as oferendas que podem ser jogados em uma fogueira, ou sobre a terra, é importante também oferendas aos Landvættir (espíritos da terra). Para cada blót existe uma data especificando qual deus ou seres serão celebrados no dia do rito.

Antigamente os Blótar (Blót no plural) eram feitos com sacrifícios de animais, realizado para agradecer aos Deuses e ganhar seus favores. Atualmente grupos de pagãos modernos, não realizam esse ato, por não saberem técnicas de abate ou estarem presos a conceitos negativos sobre essa prática ou outros motivos, porém ainda existem grupos em menor número que realizam sacrifícios.

Sumbel[editar | editar código-fonte]

Também escrito symbel , é uma cerimônia de beber em ritual para os deuses, é realizado com um Drinking Horn (Copo Chifre), em que o chifre é cheio com hidromel ou cerveja e é passado ao redor do grupo e uma série de brindes são feitos, geralmente, para os deuses, ancestrais, ou heróis da religião. Os brindes variam por grupo, e alguns grupos fazem uma distinção entre um sumbel "regular" e uma sumbel "alto", que têm diferentes níveis de formalidade, e regras diferentes durante o consumo. Os participantes também podem orgulha-se de seus próprios atos, fazer juramentos ou promessas de ações futuras. Palavras faladas durante o sumbel são considerados com cuidado e qualquer juramento feito são considerados sagrados, tornando-se parte do destino daqueles indivíduos.

Juramento[editar | editar código-fonte]

O juramento é algo de peso, e deve ser feito com toda certeza absoluta, pois um Heathen juramentado sempre seguirá e honrará aos Deuses do Norte, ancestrais e os vættir. O Juramento pode ser feito com algum objeto de valor emocional, e segurando ele, são recitadas palavras se juramentando sempre seguir e honrar os Deuses.

Magia na Escandinávia[editar | editar código-fonte]

Völva ou Seidrkona, praticante de magia. Desenhada por Valentina-Mustarjarvi.

Na religiosidade Germano-nórdica, a crença na magia era algo característico, podendo ser divididas em várias funções e termos para diferencia-los, os praticantes de magia poderiam ser caracterizados de diversos nomes de acordo com o tipo de magia que praticavam e eram pessoas a margem da sociedade de acordo com a sua especialização. O uso das runas, a prática do seidr, entre outros tipos, era algo comumente recorridos naquela época, visto até mesmo como uma profissão, em uma concepção geral podendo se dividir em dois grupos: defensivo (estando incluso a magia profética) e ofensivo. A feitiçaria era praticado tanto em centros urbanos nórdicos como no mundo rural, envolvendo rituais em grupos ou individuais, utilizados para fins domésticos, defensivos, para batalha (no caso dos guerreiros Berserker), amaldiçoar, entre muitos outros objetivos.

Hoje em dia muitos grupos Heathens buscam reconstruir essas práticas, recorrendo aos relatos nas Sagas e a estudos acadêmicos, embora não seja exercida com tal exatidão como na época, devido a pouca informação sobre. Um exemplo disso é o seiðr, que é descrito normalmente como um tipo de magia que envolve o transe, embora a adequação do seu uso é discutível. Uma forma proeminente do seu uso é de um alto assento ou seiðhjallr, que se baseia no conto de Thorbjorg na saga de Erik, o Vermelho. Embora essas práticas diferem entre os grupos, uma sessão de seiðr normalmente envolve uma seiðhjallr, cadeira elevada onde a Seidrkona ou o Seidrmann, irá sentar para entrar em transe, usando um cajado (Seiðrstafr) enquanto canções e cantos (vardlokkur) são realizadas para invocar os Deuses, vættir e proteger o praticante.

Pós-Vida[editar | editar código-fonte]

O conceito de "Pós-Vida" varia muito entre pagãos, tanto quanto o conceito de reencarnação, embora isso seja algo muito pessoal, existe um estudo centralizado nesse assunto sobre os antigos povos. A cultura pop nos passa a impressão do Valhalla sendo como um "paraíso" para os pagãos nórdicos, e já associam Helheim, como o oposto passando a impressão de "inferno". Sendo uma visão falha que muitos acabam trazendo por conceitos de suas antigas crenças binárias entre "Paraíso/Inferno".

Existe uma importância em desmistificar esse conceito de Valhalla x Helheim, para entrar mais afundo nesse estudo de "Pós-Vida", sendo assim necessário apresentar outros possíveis lugares para onde irão os falecidos, que diversificavam de acordo com o povo, momento histórico e região, dos antigos nórdicos. Tendo o Valhalla (Regido por Odin) e Fólkvangr ( Regido por Freyja), para os guerreiros mortos em batalhas. Bílskirnir (salão de Thor) para os simples trabalhadores que eram em grande maioria sendo os Karls (pobres) e Thralls (escravos). Helheim (regido por Hela), para os que morrem com doenças e velhice. Os que agem por egoísmo, quebrando a palavra, fazendo atos de traição, assim prejudicando a vida coletiva, iriam para o Náströnð local afastado em Helheimr, onde eram mastigados pela serpente Níðhöggr. O Salão de Aegir e Rán, para os mortos afogados e em alto mar. Helgafjel, para os que trazem benefícios políticos e sociais para os clãs e Gefjon, para as moças que morreram virgens.

Como dito o conceito de "Pós-Vida" varia muito de pessoas ou grupos pagãos, ainda tendo uma teoria apontada por Hilda Ellis Davidson que haviam humanos que viravam Elfos, que além de habitantes de Álfheim, também são seres, regidos por Freyr, ligados ao cultivo e trabalho no campo, bem como à fertilidade da Terra (Jörð).

Culto aos Ancestrais[editar | editar código-fonte]

Uma característica importante dentro da ritualística reconstrucionista da Ásatrú é o Culto aos Ancestrais, sendo que esse possui um dos papéis centrais. Embora não tão mencionado na nascente comunidade brasileira, possui relevância reconhecida e destaque na prática nos EUA, por exemplo.

Segundo a cultura nórdica, existe o chamado "Odal" ou "Orthanc" que é aquela parte do sangue de uma pessoa que ela compartilha com seus familiares, e os une em destino comum. Tal linha, segundo alguns, chega mesmo aos deuses, uma vez que o próprio deus Óðinn é reconhecido como fundador de linhagens reais.

Mas não apenas isso. Existia entre os germanos continentais, por exemplo, o culto às Matronae, o qual se assemelhava em muito ao das Dísir escandinavas. Ambas seriam, essencialmente, espíritos femininos, das mulheres da tribo, família ou clã, cultuadas por sua capacidade de influenciar o destino dos descendentes vivos. Havia também o culto aos elfos, que em muitos aspectos não parece claramente separado dos ancestrais, habitando ambos montes fúnebres, em vários casos[8] .

Acompanhando a divisão proposta por M. L. Stinson[9] , ele pode ser dividido, hoje, em três abordagens complementares entre si:

Abordagem Idealizada dos Ancestrais[editar | editar código-fonte]

O culto geral, feito aos heróis dos germanos (para aqueles com tal ascendência), retratados em sagas e histórias míticas.

Abordagem de Identidade Cultural[editar | editar código-fonte]

Nessa caso, tenta-se recuperar e reviver, ou mesmo preservar as tradições do povo específico do qual se descende. Como comer comidas típicas da região de seus ancestrais, ter elementos decorativos, por exemplo, de alemães, para um descendente de alemães, ou suecos, para quem tem tal descendência.

Abordagem de Ancestrais Pessoais[editar | editar código-fonte]

Por último, mas não menos importante, o culto aos ancestrais dos quais se descende diretamente, através da recomposição de árvores genealógicas, preservação de memórias como músicas, escritos, ou atos dos ancestrais. Tem uma importância enorme, e visa a manutenção do elo, que, segundo muitos heathens, não se rompe entre vivos e mortos quando alguns morrem.

Vættir[editar | editar código-fonte]

Vættir (em inglês wights) são os Espíritos dentro da tradição germânica. Poderíamos dizer que mesmo os deuses são vættir. Mas, dentro da tradição nórdica, muito importantes também são os landvættir (espíritos da terra). São de diversos tipos, sendo que os mais conhecidos são elfos, anões, trolls, ou mesmo espíritos caseiros, como os Tomte que eram, segundo o folclore sueco, responsáveis por cuidar de casas[10] .

Parte importante da visão de mundo de um ásatrúar consiste em aprender lidar com esses espíritos, mesmo que sem os ver, uma vez que eles, segundo as ideias animistas da religião, influenciam a todo o momento a vida dos seres humanos nos locais onde habitam, causando prejuízos ou benefícios, conforme a importância e oferendas que recebem dos humanos.

Kindreds[editar | editar código-fonte]

Os Kindreds são grupos familiares praticantes do Ásatrú, onde se reúnem para realizar os rituais e práticas dentro da fé. Para estar em um Kindred é necessário um juramento em grupo com os membros, existem Kindreds que realizam os rituais abertos e convidam pessoas de fora para participar, outros são mais fechados e restritos, isso depende das regras em que os membros desenvolveram, cada Kindred tem um modo de funcionamento e de admissão de novos membros para seu conjunto.

Mapa para localizações: Kindreds do Brasil.

Calendário[editar | editar código-fonte]

O presente calendário está adaptado para as estações no Hemisfério Sul.

Baseado fortemente no calendário do Kindred Allmátkki Áss[11]

Fevereiro

- 02 de Fevereiro – Freyrfaxi (Festa à Frey) ou Loafmass (Festa do Pão), em agradecimento às colheitas ceifadas. Ou Loaf-Feast (Festa do Pão)

Março

- 20 de Março – Harvest: Princípio de Outono e Chegada de Inverno. Ou Haustablót.

- 28 de Março – Dia de Ragnar Lodbrok, que conquistou Paris, França.

Abril

- 23 April 1958 Nasce Hilmar Örn Hilmarsson, atual Allsherjargoði  da Ásatrúarfélag.

- 30 dependendo da tradição de Abril – Wétturnaettr: Noites de Inverno – fim das colheitas e bendição pelas entidades como elfos, Dísir e Freyr, para a sobrevivência. Início da Caçada Selvagem.

Maio

- 22 de Maio – Celebração dos Vikings: comemora-se o início das ocupações vikings pela Europa.

- 30 de Maio – Celebração dos Aesir: festa em honra aos Deuses dos Homens.

Junho

- 01 de Junho – Dia de Ullr, Rei do Inverno: marca o fim das estações de calor e começo dos meses de inverno.

- 21 de Junho – Mídwinterblót: Solstício de Inverno. Inicio do inverno e renascimento do sol.

- 23 de Junho – Yule: festa em comemoração ao ano novo nórdico e todos seus atributos. Celebração das Mães, das Dísir pedindo bênçãos para o novo ano. Ano novo nórdico. Nove dias de duração.

- 24 de Junho – Festa de Vali, Festa da Família ou Festa de Vingança de Sangue.

Julho.

- 4 de julho de 1924 - Nascimento de Sveinbjörn Beinteinsson, criador e primeiro Allsheriagoði da Ásatrúarfélag islandesa.

- 19 de Julho – Dia da morte de Olaf o Gordo e fim da opressão cristã.

- 24 de Julho – Thórrablót – Sacrifício a Thor: Proteção para o inverno.

- 31 de Julho – Disablót ou Álfablót: Sacrifício das Mães ou Sacrifício dos Elfos. Pedindo bênçãos como: proteção, saúde e cura a estes seres femininos do Clã. São louvadas as Dísir, Idesir, Walkyrjor e Norns no Disablót, ou os Elfos no Álbablót.

Setembro

- 22 de Setembro – Eostr: Equinócio de Primavera. Início dos degelos, quando o mundo chora para o retorno do sol e sorri quando ganha poder cada vez mais. Ou Idunnablót.

Outubro

- 13 de Outubro – Sumarsdag ou Sigrblót (Dia de Verão ou Sacrifício de Vitória) – Sacrifícios a Odin para assegurar a chegada do verão e as vitórias nas batalhas.

- 31 de Outubro – Sumarmál: princípio de verão. Também chamado de Noite de Walburga.

Novembro

- 01 de Novembro – Enherjarsdáegr: Dia dos Heróis Mortos, em honra aos Enherjar do Clã e suas virtudes.

- 30 de Novembro – Festa dos Vanir: celebração aos deuses da terra e da natureza.

Dezembro

- 21 de Dezembro – Mídsummarblót (Sacrifício de Meio de Verão): solstício de verão. Festa de Baldr.

- 24 de dezembro de 1993 morte de Sveinbjörn Beinteinsson, criador e primeiro Allsheriargoði da Ásatrúarfélag.

Referências

  1. a b c «Heathens contra o ódio: Entrevista exclusiva com o Sumo Sacerdote da Associação Pagã Islandesa». Ásatrú & Liberdade. 2015-08-17. Consultado em 2016-06-19. 
  2. «Voluspa (A profecia da vidente)» (PDF). 
  3. «A Primeira Guerra – Asen contra Vanen». Ásatrú & Liberdade. 2015-09-10. Consultado em 2016-06-19. 
  4. «Virtudes, visão de mundo e Ásatrú». Heathen Brasil. 2016-03-10. Consultado em 2016-06-19. 
  5. Johnni Langer|LANGER, Johnni. Religião e magia entre os vikings. Brathair 5 (2) 2005
  6. a b Grönbech, Vilhelm. «The Culture of the Teutons» (PDF). The Culture of the Teutons. 
  7. «Urðr, örlög, destino». Heathen Brasil. 2016-03-12. Consultado em 2016-06-19. 
  8. «A morte e depois dela, II: culto ancestral». Heathen Brasil. 2016-04-07. Consultado em 2016-06-20. 
  9. «Três Abordagens para o Culto Ancestral no Heathenry Moderno». Ásatrú & Liberdade. 2015-10-08. Consultado em 2016-06-20. 
  10. Gundarsson, KveldulfR. «Fort Wayne Heathens» (PDF). Elves, Wights and Trolls. 
  11. «Kindred Allmátkki Áss». www.facebook.com. Consultado em 2016-06-19. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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