Línguas aruaques

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Línguas aruaques
Outros nomes:Maipureanas
Falado em:
Total de falantes:
Família: Macroaruaques (controversa)
 Línguas aruaques
Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: ---
As línguas aruaques da América do Sul. Os pontos representam as localizações precisas das línguas bem documentadas. O resto das áreas sombreadas reconstroem a extensão da distribuição das línguas no passado. Em azul-claro, as línguas aruaques setentrionais, e, em azul-escuro, as línguas aruaques meridionais.

As línguas aruaques, nuaruaques,[1] aruak ou arawak formam uma família de línguas ameríndias da América do Sul e do Mar do Caribe. As línguas aruaques são faladas em grande parte do território da América do sul em direção ao Paraguai ao norte, em países da costa norte da América do Sul, como o Suriname, a Guiana e a Venezuela.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

O termo "aruaque" se originou do termo aruaque aruwak, que significa "comedor de farinha".[2] O termo "nuaruaque" se originou da expressão aruaque nu aruwak, que significa "meu comedor de farinha".[3]

Geografia[editar | editar código-fonte]

Para Rodrigues,[4] essa língua, também conhecida como Lokono, era falada em algumas ilhas antilhanas, como Trinidad. Quando os europeus inciaram sua colonização do Caribe, os Aruák aí dividiam e disputavam o mesmo espaço com os Karib, e foi com uns e outros que aqueles tiveram seus primeiros contatos com a população nativa e com suas línguas. Assim como Karib, o nome Aruák veio a ser usado para designar o conjunto de línguas encontradas no interior do continente e aparentadas à língua Aruák. Ainda segundo esse autor, esse conjunto de línguas foi também chamado de Maipure ou Nu-Aruák e corresponde ao que Martius (1794 — 1868) há mais de um século chamou de Guck ou Coco.

Dispersão[editar | editar código-fonte]

Considerando a possibilidade de reconstrução histórica a partir das línguas nativas, o referido autor Urban (1992) conjectura que o curso principal do Amazonas não foi a principal rota de dispersão Arawák. Ao contrário, parece que os Maipure migraram pela periferia da bacia amazônica, tanto pelo norte como pelo sul a partir da área peruana, estabelecendo-se apenas mais tarde em regiões de terras baixas amazônicas há mais de 3 000 anos atrás.

Classificação[editar | editar código-fonte]

Payne subdivide o grupo de línguas aruaques em cinco categorias:[5] setentrional (exemplo: Achagua); oriental (ex: Palikur); central (ex: Waurá); meridional (ex: Terena) e ocidental (Ex: Amuesha). Não existindo consenso na literatura quanto à origem geográfica desse troco (Maipure[6]), apesar de estar claro que, em relação aos Tupi, e caribe, os Maipure apresentam uma distribuição genericamente ocidental.[7]

Jolkesky (2016)[editar | editar código-fonte]

Classificação interna das línguas aruaques (Jolkesky 2016):[8]

  • † = língua extinta
Arawak
  • Yanexa
  • Arawak Ocidental
    • Aguachile †
    • Chamikuro
    • Mamoré-Paraguai
      • Mamoré-Guaporé
        • Mojo-Paunaka
          • Mojo: Ignaciano; Trinitario
          • Paunaka
        • Baure-Paikoneka
          • Baure: Baure; Joaquiniano; Muxojeone †
          • Paikoneka †
      • Terena: Chane †; Guana †; Kinikinau; Terena
    • Negro-Putumayo
      • Jumana-Pase: Jumana †; Pase †
      • Kaixana †
      • Nawiki
        • Kabiyari
        • Karu-Tariana
          • Karu: Baniwa; Kuripako
          • Tariana
        • Mepuri †
        • Piapoko-Achagua: Achagua; Piapoko
        • Wainambu †
        • Warekena-Mandawaka: Warekena; Mandawaka †
        • Yukuna-Wainuma: Mariate †; Wainuma †; Yukuna
      • Resigaro
      • Wirina †
    • Orinoco
      • Yavitero-Baniva: Baniva; Yavitero †
      • Maipure †
    • Pré-Andino
      • Axaninka-Nomatsigenga
        • Nomatsigenga
        • Machiguenga-Nanti
        • Axaninka-Kakinte
          • Kakinte
          • Axaninka-Axeninka
            • Axaninka: Axaninka
            • Axeninka: Axeninka Pajonal; Axeninka Perene; Axeninka Pichis; Axeninka Ucayali; Axininka
    • Purus
      • Apurinã
      • Inhapari
      • Piro-Manchineri: Kanamare †; Kuniba †; Manchineri; Maxko Piro; Yine
  • Arawak Oriental
    • Baixo Amazonas
      • Atlântico: Marawan †; Palikur
      • Guaporé-Tapajós
        • Saraveka †
        • Tapajós: Enawene-Nawe Paresi
      • Xingu
        • Kustenau †
        • Waura-Mehinako: Mehinaku; Waura
        • Yawalapiti
      • Waraiku: Waraiku †
    • Solimões-Caribe: Marawan †; Palikur
      • Marawa
      • Caribenho
        • Kaketio †
        • Wayuu-Anhun
          • Anhun
          • Wayuu
        • Lokono-Inheri
          • Inheri: Garifuna; Kalhiphona †
          • Lokono
        • Xebayo †
        • Taino †
      • Negro-Branco
        • Arua †
        • Mainatari †
        • Negro
          • Bare-Guinao: Bare; Guinao †
          • Bawana-Kariai-Manao: Bawana †; Kariai †; Manao †
          • Yabaana †
        • Branco
          • Mawayana
          • Wapixana-Parawana: Aroaki †; Atorada; Parawana †; Wapixana

Nikulin & Carvalho (2019)[editar | editar código-fonte]

Classificação interna das línguas aruaques (Nikulin & Carvalho 2019: 270):[9]

Ramirez (2019)[editar | editar código-fonte]

A classificação da família arawak segundo Henri Ramirez (2019).[10][11] Essa classificação difere substancialmente de sua classificação anterior (Ramirez 2001[12]), mas chega a ser muito semelhante à proposta por Jolkesky (2016).

12 subgrupos (subfamílias) com 56 línguas (29 vivas e 27 extintas) († = extinta)

Línguas dessa família[editar | editar código-fonte]

Aldeia arawak, (G.W.C. Voorduin 1860/1862).
Wikilivros
O Wikilivros tem um livro chamado Civilização Aruaque

Influência na língua portuguesa[editar | editar código-fonte]

As línguas aruaques legaram algumas palavras para a língua portuguesa, embora não de modo tão expressivo quanto as línguas da família tupi-guarani. Geralmente, essas palavras chegaram à língua portuguesa indiretamente, através da língua castelhana dos conquistadores espanhóis das Antilhas, os quais aprenderam o idioma taino dos habitantes dessa região. Exemplos de palavras da língua portuguesa com origem no idioma taino são: canoa, goiaba, furacão, iguana, cacique, batata, caribe, tabaco etc.[13]

Reconstrução[editar | editar código-fonte]

Reconstrução do proto-arawak e do proto-nawiki (Jolkesky 2016):[8]

  • Nota: As línguas nawikis são kabiyari, karu (baniwa e kuripako), tariana, mepuri, piapoko-achagua, wainambu, warekena-mandawaka e yukuna-wainuma (mariate, wainuma e yukuna).
glosa proto-arawak proto-nawiki
abelha *maba *maapa; *emuru; *muunu-
açai *manakʰa-i
ácido *kaʦi
água *uni *huuni; *aa
algodão *ʦaawa-li *ʦaawa-li
amarelo *heewa
amargo *kepʰidi
animal *hamana; *-pira
anta *kema
ânus *haapu
aranha *heenui
arara *waaru; *aanda-ru
arco *jawi-tʰa; *ʤawi-
arraia *inatu-li
árvore *anda *ahiku
asa *aʔna-pɨ; *pʰai
ayahuasca *kaapi
azedo/doce *kaʔama
batata *hunai
batata doce *kʰalɨ-; *kalɨ- *kali-; *kaliri
beiju *pee-li
bico *kɨri
bom *kʰeime
boto *hamana; *munia
braço *aʔna-pɨ
cabeça *hiwida
cabelo *si; *-iti *-ʧii
cachorro *ʧiinu
caititu (Pecari tajacu) *jamu
caminho *apu; *apɨ
canoa *hiita
capivara *keeʦu
carne *ina; *tɨna *ina; *iʔina
carrapato *kuupa-li
carvão *kandaː-li; *men-ki *kandaa-li
casa *pe; *pana; *pani; *ponku; *ponko *-pani
casca *mada
caxiri *jalakʰi
céu *ʤeenu-
chicha *haʦi
chupar *ʧuʧu *ʧuʧu
cinzas *paliʃi; *pʰa(ne) *paʔli
cipó *hepe-pɨ
cobra *owi; *pi
coca *hiipatu
comer *ni-ka *iiɲha
comprido *-pʰi
coruja *punpu-li
costas *paʔrai
cujubim *kundui
cupim *maaru
dar *po
defecar *-iʦu
dente *ahʦe; *aɺi
dois *jama
dono *mina-li; *i-minali
dormir *maka; *imaka *imaa
esquilo *maade-li
estrela *hiwirhi
falar *-ima
farinha *maʧuka
feijão *kumana
fezes *itika; *itiki *i-ʦu
fígado *(uh)-bana
filha *-iitu
filho *eeni
flecha *iʦindua
fogo *i-ʦijai
folha *pana *-pʰai
formiga *kudɨ
frio *kaʧɨ-
fumaça *iiʦa, *iʦa
galinha *kalaka
garça *wakala *maali
gente *inawi-
gordura *-i-ʔiʦi
grande *maanu
homem *(w)aʧina-li
iguana *iwana
inhame *kali-
interior *-uʔku-
ir *kawa
jacaré *kasiu- *kaʤhui-
jacu *marai
japu *tuːwi-li
lagarto *iwana *tuupu/*nduupu
lenha *ʦɨma
língua *nene *nene; *-enene
lua *kahɨtʰi *keeri
macaco *kuhdi
macaco-barrigudo *kaapa-ru
machado *epiʧi; *ʧipaala
madeira *anda; *-mɨna
mama *-iini
mão *kʰapɨ; *-wahku *kaapi
marido *iini-li
marimbondo *piitʰairu
martim-pescador *jali-ru
matar *maanalii
matrinxã *mamu-li
mel *maba
milho *marikɨ; *mariki *kaanhai
molhado *isa-
montanha *hiipa-
morcego *piiʦi-li
morrer *maanalii
mosquito *hainiju
mulher *ʧ-ɨna-(ru) *-iina{-ru}
mutum *kuiʧi
nariz *hɨtaku
noite *ndaipi; *ndai(a)pi
nuvem *iiʦa
olho *uke; *ukɨ *i-dhui
onça *manɨ-tʲi *jawi
orelha *hainaku
osso *(n)apɨ
outro *ba
ouvir *kema
ovo *eewhe
paca *pʰɨkɨlɨ; *lapa
pai *eewhe
pajé *mali-
papagaio *koliko-li; *waaru
pássaro *kudɨ-
pato *kuumanda
paxiúba *puupa
*kɨhti *hiʔipa
pedra *kʰiba *hiipa; *hiipahɨ
peito *tiku
peixe *hima
pele *mada
pelo *si; *-iti *-ʧii
pena *pʰai
peneira *dupiʧi
pênis *iiʦipɨ
periquito *keɻike-li
perna *kɨhti
pescoço *ʧano *iiʦipɨ
pessoa *winaiwi-ki
pimenta *haʧɨ(dɨ); *aʧɨdɨ *haʦi; *aʦi
piolho *nih
piranha *umai
pium *maapii-li
plantar *-aapana
pomba *hutuku-li
pombo *huliitu
porco-do-mato *haapiʤa-
preto *kʰuere
pulga *iiʦito; *iiʦi-tu
pupunha *piipi-
quati *kʰahpedi *kapɨʦi
rabo *iiʦipɨ
raia *inatu-li
raiz *pale; *ata-pa-le *-aʔapali
raposa *kema
rato *hii-li
remédio *taape; *tapee
rosto *-eekua
sal *idɨwɨ *hiiwi
sangue *iʔira-na
saracura *kuuʧa
semente *aki *iinda
sogro *kuhko
sol *kamui; *kamɨ- *kamu-i
surubi *kuli-li
tabaco *ʤaɨ-ri *jeema
tamanduá-mirim *muundu-ʦi
tartaruga *haara; *(h)iiku-li
tatu *kaʃa *jaʔi
temer *pɨnka
terra *kɨpa-ʧi *hiipa-(h)ɨ
tio *kuhko *kʰui-lɨ
trovão *eeno
um *ba
umbigo *-he(ʔ)pure; *-heʔepu-
urucum *pʰɨːli
veado *inatu-li; *nee-ri
verde *aapana
vermelho *kɨra *kiira
vespa *hanɨ
vila *jakalee

Pronomes[editar | editar código-fonte]

O sistema pronominal do proto-arawak:[8]

pessoa singular plural
1 *nu-/*ni-/*no- *wi/*wa-
2 *pɨ- *hi-
3 *ri-; *tʰu *ra-/*na-

Afixos[editar | editar código-fonte]

Morfemas gramaticais:[8]

glosa proto-arawak
absoluto *-ʧi
causativo *-ta; *a-
classificador (longo, flexível) *-pi
classificador (semente) *-ki
dativo *-kɨ
existencial/progressivo *-ena
feminino *-ru
interrogativo *-ka
locativo/direcional *-kɨ
negativo *-ʧɨ
negativo/privativo *ma-
passado *-pe
possessivo *-ne, *-re, *-te
privativo *ma-
reflexivo *-wa
voz passiva *-ka
verbalizador *-d

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Reconstruções

Campa:

  • MICHAEL, Lev. La reconstrucción y la clasificación interna de la rama Kampa de la família Arawak. In: Memorias del V Congreso de Idiomas Indígenas de Latinoamérica, 6–8 de octubre de 2011, Universidad de Texas en Austin. Austin: University of Texas, 2011.
  • MICHAEL, Lev; Robin ALCORN; Lisa FANN; Briana VAN EPPS; Mona ZARKA. Phonological reconstruction of the Kampan branch of Arawak. Trabalho apresentado em 1 de maio de 2010 no 13° Workshop on American Indigenous Languages. Santa Barbara: University of California, 2010.

Purus:

  • BRANDÃO, Ana Paula; Sidi FACUNDES. Estudos comparativos do léxico da fauna e flora Aruák. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências humanas, Belém, v. 2, n. 2, p. 133–168, maio/ago. 2007.
  • FACUNDES, Sidney da Silva. The language of the Apurinã people of Brazil (Arawak). Tese (Doutorado em Linguística) – University of New York at Buffalo, Buffalo, 2000.
  • FACUNDES, Sidney da Silva. The comparative linguistic methodology and its contribution to improve the knowledge of Arawakan. In: HILL, Jonathan D.; Fernando SANTOS-GRANERO (eds.). Comparative Arawakan histories. Illinois: University of Illinois Press, 2002. p. 74–96.

Referências

  1. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 178.
  2. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 178.
  3. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 203.
  4. Rodrigues, Aryon Dall'Igna. Línguas brasileiras. Para o conhecimento das línguas indígenas. SP, Loyola, 1986
  5. Payne, David L. A classification of Maipuran (Arawakian) languages based on shared lexical retentions. in Derby-shire, D.C.; Pullun, G.K. (orgs) Handbook of Amazonian languages, 1991. pp. 355-499
  6. Payne e outros autores empregam os termos 'maipure' e 'arauaque' como sinônimos. Ver também (em castelhano) Lenguas Indígenas - Análisis comparativode la cláusula relativa en lenguasarahuacas venezolanas. Por Marlene Socorro Sánchez. Lingua Americana Año VIII Nº 15 (2004): 101 - 124
  7. Urban, Greg. A história da cultura brasileira segundo as línguas nativas. in: Cunha, Manuela Carneiro (org.) História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras - Secretaria Municipal de Cultura/ FAPESP, 1992
  8. a b c d Jolkesky, Marcelo Pinho de Valhery. 2016. Estudo arqueo-ecolinguístico das terras tropicais sul-americanas. Doutorado em Linguística. Universidade de Brasília.
  9. Nikulin, Andrey; Fernando O. de Carvalho. 2019. Estudos diacrônicos de línguas indígenas brasileiras: um panorama. Macabéa – Revista Eletrônica do Netlli, v. 8, n. 2 (2019), p. 255-305. (PDF)
  10. Ramirez, Henri (2019). Enciclopédia das línguas arawak: acrescida de seis novas línguas e dois bancos de dados. (no prelo)
  11. Ramirez, Henri, & França, Maria Cristina Victorino de. (2019). Línguas Arawak da Bolívia. LIAMES: Línguas Indígenas Americanas, 19, e019012. https://doi.org/10.20396/liames.v19i0.8655045
  12. Ramirez, Henri (2001). Línguas arawak da Amazônia Setentrional. Manaus: Universidade Federal do Amazonas. (PDF)
  13. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 830 p.