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Língua baniua

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
(Redirecionado de Língua baníua)
Baniwa

Walimanai

Pronúncia:[bɐ'n̪iwa] / [wali'manai]
Outros nomes:baniua, curripaco, baniwa do içana, baniwa-curripaco, maniba, maniva
Falado(a) em: Brasil, Colômbia, Venezuela
Região: Rio Içana
Total de falantes: c. 17,6 mil[1]
Família: Aruak
 Japurá-Colômbia
  Baniwa
Escrita: Alfabeto latino
Estatuto oficial
Língua oficial de: Amazonas (Brasil)

São Gabriel da Cachoeira (AM, Brasil)

Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: ---
ISO 639-3: bwi

Mapa da distribuição da língua baniwa

A língua baniwa (em baniwa: walimanai, em AFI [wa.li.'ma.nai),[2] também conhecida como baniwa do içana,[3] ou baniwa-curripaco[4] é uma língua ativa (em estado vulnerável)[5] da família aruak e do grupo japurá-colômbia. A língua é falada pelo povo Baniwa, constituído de aproximadamente 17,6 mil indígenas, divididos em mais de 200 comunidades[6] localizadas às margens do rio Içana, principalmente no médio rio Içana, na fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela.[2]

É uma das línguas oficiais do município de São Gabriel da Cachoeira[7] e do estado do Amazonas.[8] No entanto, no território colombiano, o nome "baniwa" designa outro povo e outra língua, utilizando o termo "baniwa-curripaco" para o povo e língua do médio rio Içana.[9]

Durante o século XVIII, escravidão e aldeamentos dos indígenas pelos portugueses provocaram uma nova reorganização geográfica e dialetal da língua devido às fugas de indígenas. Já no século XX, houve uma maior movimentação para as margens do rio, além do envio de missionários para a região, o que, simultaneamente, converteu indígenas e provocou conflitos.[10] Atualmente, a língua baniwa possui representantes vizibilizados pela causa da luta indígena em busca de direitos e preservação das terras,[11] como o ativista André Baniwa, o artista Denilson Baniwa e o antropólogo Gersem Baniwa. Devido à colonização e presença religiosa a partir de 1730,[6] a língua utiliza em sua escrita o alfabeto latino. Um dos primeiros grandes estudos documentados do léxico baniwa data de 1853, feito pelo britânico Alfred Russel Wallace.[12]

A gramática da língua baniwa tem ordem SOV e apresenta nomes dependentes (que exigem complemento nominal) e nomes independentes, além de verbos e adjetivos (que comumente são transformados em verbos).[13] A marcação de pronomes e conjugação verbal é predominantemente relacionada com sufixos e prefixos.[14] Dentre os pronomes, se destaca a divisão entre "feminino" e "não feminino".[15] Além disso, a língua apresenta classificadores, responsáveis por demarcar a forma ou características físicas e que também são marcados por sufixos.[16]

Etimologia

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O termo baniwa é um exônimo dado pelos portugueses que entraram em contato com o povo,[4] no entanto não existem registros concretos acerca de sua origem ou explicação. Já o termo "curripaco", muitas vezes ligado à língua, surgiu a partir de uma forma pejorativa de baniwas do Médio Içana chamarem baniwas do Alto Içana,[4] sendo uma junção dos termos kurri,[3] que marca a forma impessoal e também a ideia de negação, e paaku,[3] que significa "fala-se". Assim, essa expressão se assemelha com uma ideia de "se diz não".[4]

Apesar da etnia não ter um nome específico para sua língua, eles se intitulam com o nome endônimo walimanai. Essa expressão pode ser interpretada como "os outros novos que vão nascer", em contraste com os antepassados ancestrais (waferinaipe) que construíram o mundo para os vivos de hoje.[2]

Distribuição

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A língua baniwa está presente na região do curso do rio Içana, região fronteiriça entre o Brasil, no estado do Amazonas, a Colômbia e a Venezuela.[2] Apesar de estar nesses três países, a presença em território brasileiro é a maior, com 7145 falantes, enquanto na Colômbia são 7000 e na Venezuela são 3501.[2] A divisão e presença atual da língua é uma influência direta dos aldeamentos instalados na região durante a colonização, afetando e reorganizando os dialetos e grupos na região.[10]

Rio Içana.

A língua baniwa-koripako apresenta quatro super-dialetos que, apesar de apresentarem diferenças, não impedem a compreensão. Além desses quatro principais, existem diversas variações com mesclas de características, uma vez que o casamento de pessoas de diferentes dialetos é uma prática comum. Henri Ramirez, em Dicionário da Língua Baniwa, apresenta a seguinte divisão:[17]

  • Superdialeto Meridional (Karokana): também conhecido como Victorino, ocupa regiões do rio Guaiania, em fronteiras com a Colômbia.
  • Superdialeto Central (Baniwa): ocupa o rio Içana e seus afluentes (rio Aiari e rio Cuiari)
  • Superdialeto Setentrional (Curripaco): ocupa o alto rio Içana, rio Guainia e cabeceiras do rio Cuiari.
  • Tariano: ocupa a região abaixo do superdialeto central.

Assim, os estudos normalmente recaem sobre o dialeto baniwa-curripaco que, por serem comumente muito próximos, são estudados muitas vezes juntos e também é uma forma de diferenciar a língua do baniwa de Maroa.[17] Segue uma comparação dos dialetos baniwa-koripako:[18]

Comparação de palavras nos dialetos
PortuguêsSuperdialeto CentraisSuperdialeto SetentrionaisSuperdialeto MeridionalTariano
onçadzaawijaawidzaawijaawi
cobraaapiaapieepi-tsiããpi
saber-aanhee-anhii-aanhee-aanhi
cortar-takhaa-jʊa-takhaa-apitsa
nadar-aajhaa-hiɲa-aanhaa-aajhaa
longejakaateekʊjakaawia-ka
pesadohamiɲahamiɲahameɻʊhamiɲa

Línguas relacionadas

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A língua baniwa faz parte da família linguística aruak. Essa família foi marcada pela sua presença em todo o continente americano e apresenta mais de 400 mil falantes dos quais metade está na região da Amazônia setentrional.[19] Assim, a árvore da família, proposta por Henri Ramirez em seu livro "Línguas Arawak da Amazônia Setentrional", é a seguinte:[20]

História

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História da língua

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Indígena baniwa com pinturas faciais características do povo

A documentação da história da língua baniwa se inicia com o contato com os colonizadores portugueses a partir de 1730,[21] pois não se tem registros documentados da origem da língua e trocas culturais e linguísticas predecessoras. Apesar disso, o povo mesmo não tendo história escrita nos moldes europeus atuais, apresenta suas tradições e cultura de maneira oral. Assim, os missionários católicos carmelitas foram os primeiros a alcançar a região, tendo como objetivo a catequização e a inserção de formas europeias de trabalho com mão de obra indígena.[22] Assim, os descimentos fizeram muitas comunidades indígenas do médio rio Içana fugirem para cursos de água menores (igarapés) e para a Venezuela,[23] formando uma nova distribuição dialetal.[21] Durante a colonização, as danças tradicionais, a cultura, os saberes e a língua das comunidades foram reprimidas, havendo uma imposição de valores europeus.[22] Os eventos de separação e fuga permitiram uma preservação do baniwa distante de outras culturas e línguas.[23]

No final do século XIX, após o fim da influência colonizadora, a dominação na região passou a estar envolvida com o ciclo da borracha. Já durante o século XX, após a Segunda Guerra Mundial, houve uma movimentação de retorno ao fluxo principal do rio, concentrando novamente as populações em seu curso.[21] Durante esse período, a chegada de missionários salesianos impactou a formação da língua com a inserção do nheengatu, língua utilizada para a catequese e que se tornou paralela ao baniwa na comunicação.[23] De forma paralela, a chegada de missionários evangélicos na região, durante a década de 40, intensificou ainda mais a repressão social contra as características tradicionais indígenas, ocasionando uma conversão em massa da população e o apagamento de diversos aspectos tradicionais.[22]

Parte de uma exposição de arte indígena do artista baniwa Denilson Baniwa.

Desse modo, atualmente, existem conflitos ideológicos e religiosos na região, com os evangélicos sendo um grupo mais fechado à retomada da cultura indígena em oposição aos grupos católicos, que são mais abertos para tais práticas.[24] Além desse contexto interno, a situação nacional indígena também afeta os grupos, apresentando uma participação ativa em debates acerca dos direitos indígenas.[11]

História da documentação

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A documentação da língua baniwa apresentou por muito tempo um grande impasse em relação às muitas similaridades entre os dialetos e línguas da família aruak, impossibilitando registros mais precisos antes da delimitação do que seria a língua baniwa.[25] Dessa maneira, os primeiros estudos começaram no século XIX, sendo um dos mais expressivos o estudo do léxico realizado por Alfred Russel Wallace em suas viagens entre 1848 e 1853.[12] Assim, o relatório de Wallace influenciou as pesquisas futuras, como as dos pesquisadores Koch-Grünberg, Curt Nimuendajú e Martius.[25]

Durante o século XX, se desenvolveram pesquisas mais aprofundadas em aspectos específicos da língua baniwa: as primeiras descrições fonológicas; classificações nominais, numerais e adjetivais; gramática e léxico; descrição fonológica; fonéticas sobre tons e acentos.[25] Os estudos também continuam avançando ao longo do século XXI, como, por exemplo, a gramática e dicionário feito por Henri Ramirez.[25]

Escola baniwa no rio Içana.

Um ponto importante para a documentação da língua baniwa foi a tradução do Novo Testamento pela missionária evangélica Sophie Muller. A tradutora foi responsável por criar um sistema ortográfico próprio que é utilizado por certos grupos, ao mesmo tempo que outros assumem o sistema estabelecido por Ramirez.[26]

História do ensino

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O ensino da língua baniwa apresenta o longo de sua história uma desvalorização devido à aspectos religiosos, que escanteiam as origens do povo. Apesar disso, atualmente existem movimentos educacionais nas escolas da região que buscam implementar o ensino da língua baniwa por meio de práticas institucionais e culturais.[24] Durante a tentativa de implementar um ensino bilíngue, o principal impasse é a falta de materiais didáticos da língua. Assim, ao mesmo tempo que os conteúdos são passados na língua materna, a mesma não é estudada diretamente.[27]

Fonologia

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Consoantes

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A língua baniwa apresenta 17 consoantes divididas em plosivas (oclusivas), africadas, nasais, fricativas, aproximantes e aproximante lateral. No entanto, as plosivas surdas apresentam variações de aspiração (ʰ).[28] O fone [b] é muito raro na língua, sendo em comumente utilizado em palavras importadas do português. O fone [j] também é raro nos dialetos centrais e meridionais.[29] Os fones [dz] e [ts] são palatalizados quando vem antes da vogal [i].[30]

Consoantes
BilabialDentalAlveolarRetroflexoPalatalVelarGlotal
Plosiva p       b          t       d k       g
Africada ts       dz
Nasal          m          n          ɲ
Fricativa h         
Aproximante          ɻ          j          w
Aproximante lateral          l

A língua baniwa apresenta 4 vogais, sendo elas divididas em anterior ou posterior e entre fechada, semifechada e aberta. No entanto, as realizações do fonema /u/ oscilam entre [o] e [u]. Além disso, o fonema /i/ é realizado como [j] quando começa a palavra e a vogal seguinte não é [i].[29] As vogais podem aparecer de forma breve ou longa, oral ou nasalizada, sonora ou surda.[31]

Vogais
Altura
AnteriorPosterior
Fechada i                 u
Semifechada e        
Aberta a        

A língua frequentemente apresenta situações com vogais longas, as quais têm as mesmas características fonológicas dos ditongos e tritongos, realizando uma oposição entre as vogais longas e curtas para diferenciar palavras.[32] Enquanto isso, variantes nasais sempre ocorrem quando estão acompanhadas de uma consoante nasal (normalmente anterior à vogal), ocorrendo também a inserção da fricativa glotal surda entre os sons, de modo que a nasalização sempre aparece como N(h)V (onde N é uma consoante nasal e V é uma vogal)[33] e, no uso coloquial, é muitas vezes tida como apenas Ṽ.[34] Já as variações surdas ocorrem mais frequentemente ao fim da palavra ou em sílabas átonas.[31]

A língua baniwa apresenta dois tons: o alto e o ascendente. Os tons apenas se manifestam em palavras com vogais longas, nas quais o acento agudo na primeira parte da vogal denota o tom alto enquanto o acento na segunda parte denota o tom ascendente. Os tons são de uso gramatical e afetam apenas a sílaba, diferenciando, por exemplo, néenitsa (lá mesmo) de neénitsa (há sim).[35]

Fonotática

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O padrão silábico da língua baniwa varia de dois modos de acordo com a posição da sílaba na palavra: sílaba inicial e sílaba não inicial. A sílaba inicial pode ser das formas: (C)V(N), (C)vV, (C)Vv e (C)vVv. Para sílabas não iniciais, as formas são: CV(N), CvV, CVv e CvVv. Nessa representação, parênteses indicam opcionalidade, C indica consoante, V indica vogal, N indica consoante nasal, vV indica ditongo crescente, Vv indica ditongo decrescente e vVv indica tritongo. Assim, a separação de sílabas ocorre sempre depois de uma vogal (se for sozinha) ou de um grupo de vogais (ditongo e tritongo).[36]

Ortografia

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A ortografia da língua baniwa utiliza o alfabeto latino.[37] A língua tem seu sentido de escrita na horizontal, da esquerda para a direita e de cima para baixo. A relação grafema-fonema, assim como a pronúncia em português e especificidades da língua estão na tabela abaixo:[30]

Alfabeto baniwa
Grafema Fonema correspondente Pronúncia em línguas relacionadas
a /a/ Amor
b /b/ Bosque
d /d/ Dente
dz /dz/ Desafio (pronúncia rápida)
e /e/ Encontro
h /h/ Happy
i /i/ Imagem
k /k/ Coração
l /l/ Lago
m /m/ Mandioca
n /n/ Natureza
ñ /ɲ/ Amanhã
u /u/ Uva
p /p/ Pato
r /ɻ/ Porta (muitos dialetos do Centro-Sul)
t /t/ Terra
ts /ts/ Cats (em inglês)
tt // Montanha
w /w/ Water (em inglês)
x /x/ Chácara
y /y/ Yes (em inglês)

A língua baniwa apresenta, com maior ocorrência, o acento agudo (´). O seu uso decorre do fato de que, comumente, a penúltima sílaba da palavra é a sílaba tônica, não sendo marcada pelo diacrítico. Desse modo, o acento agudo aparece para marcar sílabas tônicas diferentes da penúltima, tendo um papel de distinguir palavras, além de também ser responsável por marcar os tons em ditongos.[38]

A língua também apresenta o acento grave (`) em casos de pronome-objeto para indicar o acento secundário subordinado à acentuação normal da palavra. Além disso, a parada glotal ou alongamento da vogal (ambas marcadas por ' no fim da frase) e o acento circunflexo (^ no interior da palavra) marcam a elevação da voz como forma de antecipação do início da frase seguinte.[39]

Gramática

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A língua baniwa apresenta quatro principais partes do discurso: nomes independentes, nomes dependentes, verbos e adjetivos.[13] Os nomes independentes são nomes que funcionam sem prefixos pessoais (Pedro: Péduru, cão: tsíino), enquanto os nomes dependentes precisam de prefixos pessoais que indicam o possuidor como em partes do corpo: "mão (de)" -káapi; anatomia vegetal ou animal: -ke "galho (de)"; termos de parentesco: -hániri "pai (de)"; outros termos específicos: áanaa "suco (de)".[13] Os verbos são morfemas que designam situações dinâmicas e ativas, funcionando como predicados e sendo acompanhados de afixos que marcam sujeito, tempo, aspecto.[40] Os adjetivos também podem ser chamados de verbos independentes, sendo utilizados para expressar situações estáticas e inativas no momento (hape pode significar "frio" e "está frio").[40]

Pronomes pessoais

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Na língua baniwa, os pronomes pessoais são marcados como afixos que acompanham os verbos, tendo jogos distintos de prefixos e sufixos. Na classificação, a terceira pessoa do singular varia conforme o critério feminino e não feminino. Todos os jogos de afixos estão na tabela a seguir:[15]

Pronomes pessoais
Pessoas Prefixo Sufixo Pessoais independentes
1ª do singular nu- -nhua nhúa
2ª do singular pi- -phia phía
3ª não feminina do singular li- -ni, -lhia lhía
3ª feminina do singular ru- -nu, -lhua rhúa
1ª do plural wa- -whaa wháa
2ª do plural i- -hia hía
3ª do plural na- -na, -nhaa nháa
0 pa- -phaa pháa

Os prefixos são utilizados para marcar o sujeito do verbo (nukapa, "eu vejo") e o possuidor de um nome dependente (runáapa, "o braço dela"). Já os sufixos são utilizados para marcar o objeto do verbo (pikapanhua, "tu me vês") e o sujeito de um adjetivo (iinunaahia, vocês estão tristes).[41] Apesar de ser uma forma diferente de marcação, a pessoa independente é utilizada quando não há um suporte verbal direto, como ao responder uma pergunta ou ao enumerar pessoas.[42]

Pronomes demonstrativos

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Na língua baniwa, os pronomes demonstrativos são marcados de forma independente antes do nome. Assim, os pronomes demonstrativos estão na tabela a seguir e são divididos em zonas relacionadas com a distância:[43]

Pronomes demonstrativos
Base 1ª zona 2ª zona 3ª zona 4ª zona
lhía (ele) lhíe (esse) lhíera (este) lhiéna (aquele ali) lhiéta (aquele lá)
rhúa (ela) rhúa (esta) rhúara (essa) rhuána (aquela ali) rhuáta (aquela lá)
nháa (eles, elas) nháa (estes, estas) nháara (esses, essas) nhaána (aqueles ali, aquelas ali) nhaáta (aqueles lá, aquelas lá)
áa (base locativa) áa (aqui) áara (aí) áana (ali) aáta (lá)

As zonas significam, respectivamente, perto do falante e do ouvinte, levemente afastado ou perto do ouvinte, não perto/longe do falante e do ouvinte, mais longe ainda.[44]

Os pronomes demonstrativos servem tanto para indicar a posição de algo no espaço quanto para evidenciar a ordem da aparição no discurso (perdi aquela faca que me deram). Quando indicam a posição de algo, sempre são marcados com o sufixo -hã.[45]

Na língua baniwa, os verbos podem ser divididos entre transitivos e intransitivos. O sujeito do verbo é marcado por prefixos e, quando o adjetivo é utilizado como verbo, é marcado por sufixos.[14]

Os verbos do baniwa apresentam sua marcação por meio de sufixos que demarcam tempo, aspecto, modalidade e conceitos de voz.[46] Esses sufixos são divididos entre aqueles que vão junto à raiz verbal e aqueles que vão de forma separada.[47] Entre todos os sufixos, três deles são apresentados de forma separada de seus grupos pelo linguista Henri Ramirez,[48] são eles:

  • O sufixo -ta marca o aspecto causativo e é sempre posto logo após a raiz verbal. Ele pode aparecer sozinho ao final de adjetivos: duwhenaa (sujo) torna-se -duwheenáata (sujar). Já nos verbos, ele é mais comum da forma -éeta, também podendo ter o significado de continuidade ou foco: -hira (subir) torna-se -hiréeta (suspender), -hima (escutar) torna-se -himéeta (escutar atentamente).[49]
  • O sufixo -wa marca a voz média e está ligado com a intransitividade. Ele aparece junto de verbos intransitivos de movimento: -héenawa (afastar-se); e em verbos que indicam algum tipo de posição: -rhuawa (deitar-se).[50]
  • O sufixo -áaka marca a voz reflexiva e a voz recíproca e normalmente está acompanhado do sufixo -wa: ienipétti iñáakakawa (as crianças se batem).[51]

Marcação temporal

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A marcação de tempo pode ocorrer por meio de advérbios de tempo e por meio de sufixos:[52]

  • Advérbios: pa+consoante nasal e vogal nasalizada+dza (agora, hoje mais tarde, na nossa época); úupiika (hoje mais cedo); théewa (amanhã); wheekudza (ontem); meeédzami (anteontem); meédzattua (depois de amanhã); píkeettua (agorinha).
  • Sufixos: -watsa (futuro); -pia (passado).

O sufixo -pia é utilizado para marcar o passado caducado (distante), enquanto o passado recente é marcado pela palavra independente úupi.[52]

Marcação de aspecto

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Os sufixos relacionados ao aspecto do verbo são marcados junto da raiz verbal e estão na lista a seguir:[46]

Aspectos verbais
Sufixo Marcação de: Exemplo
-nhi Permansivo iaránhiwa (ficar voando)[53]
-khe Gerúndio waanhíkhewa ((nós) andando)[54]
-hini/-huni Perfeito do pretérito nupeékhuni (perdi)[55]
-de Durativo nunude nuukade íphumitte (sempre que venho, (sempre) chego atrasado)[56]
-ka Subordinativo em orações subordinadas nuúma píiñhaka (eu quero que tu comas)[57]
-iitsa/-eetsa 2º inceptivo (desde então até agora) metsa maliuméneetsa (mas já morto(ele))[58]
-iina/-eena 1º inceptivo (desde agora, desde então) núiñhakeena (desde agora estou comendo)[59]

Marcação de modo

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A língua baniwa apresenta os modos marcados por certos sufixos verbais. No entanto, o indicativo é marcado pela falta de sufixos de modo. O modo imperativo não apresenta uma marcação muito clara, mas sabe-se que ele existe pois a marcação de negação no imperativo é dada pelo -ma (não) + raiz verbal + -tsa (restritivo).[60] A língua também apresenta os modos frustrativo[61] e irreal:[62]

Modalidade Verbal
Sufixo Marcação de: Significado Exemplo
-tha Frustrativo em vão, para nada nudzawítatha úupiika dzáapa kalitta liko (hoje flechei em vão um tucumaré no lago)
-mitha Irreal similar ao subjuntivo nuwánamitha , ñámetsamitha kúaka hímali nulhiu (se eu gritasse, ninguém iria me escutar)

Evidencialidade

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A língua baniwa não apresenta aspectos que demarcam a evidência que existe acerca de uma ação verbal. Apesar disso, o sufixo pida, marcado fora da raiz verbal, traz o significado citativo (dizem que, ouvi dizer que), se assemelhando à evidencialidade: liiñheeniina pida (dizem que ele já comeu).[63]

Classificadores, quantificadores e numerais

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Na língua baniwa, existem diversos morfemas que aparecem ligados automaticamente nas principais raízes nominais e são responsáveis por denotar características, sendo chamados de classificadores. Eles classificam, em sua maioria, as formas ou qualidades físicas das coisas e estão relacionados a classes como animais e plantas ou objetos.[16] Alguns dos classificadores são:[64]

Classificadores
Sufixo Significado Classes relacionadas
-aápa Forma oblonga Animais (muitas aves: arara) e tubérculos (mandioca)
-da Forma redonda Animais (tatu), frutos e tubérculos (goiaba), partes do corpo (olho), objetos (pedra)
-hiwi Pontiagudo Objetos pontiagudos (agulha), partes do corpo (ponta dos dedos)
-iíta Achatado ou forma humana Animais (macaco), humanos (pessoa), partes animais (escamas), objetos (tábua)
-áanhaa Líquidos Água, lágrimas, etc.

Dentro do grupo dos classificadores, a língua apresenta o subgrupo dos quantificadores e numerais. Eles são marcados como prefixos antes dos substantivos. Os numerais cardinais são: 1 apaa- (costuma ser reduzido para -apá), 2 dzama-, 3 madali-, 4 likua-...-áaka. A partir do 5 utiliza-se as mãos (pakáapi) acrescidas do sufixo classificador -eéma na palavra anterior (duas mãos é igual a 10).[65] Alguns exemplos são: apá íita (uma canoa),[66] dzamaápa palana (duas bananas).[67] O termo apaa- também é frequentemente utilizado como o artigo indefinido do português.

Os numerais ordinais formam-se a partir da adição do prefixo numeral e do sufixo -jhuúpa (nominalizador) ao substantivo. Por exemplo, (a) terceira mulher é escrita como: madalimajhuúpa.[65]

Sentença

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Alinhamento e ordem da frase

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A língua baniwa apresenta um alinhamento nominativo-acusativo.[68] A ordem das palavras na língua é Sujeito-Verbo-Objeto e, com adjetivos, Adjetivo-Sujeito.[69] Dentro do objeto, é mais comum a ordem objeto indireto-objeto direto.[70]

A ordem pode ser exemplificada na frase: Péduru íaka Paulu írhiu apaíta maliye, que significa "Pedro (sujeito) deu (verbo) a Paulo (objeto indireto) uma faca (objeto direto)".[70]

Sentenças interrogativas

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Na língua baniwa, as sentenças interrogativas são divididas entre dois grupos: aquelas que tem respostas de sim ou não; aquelas com interrogativas independentes (quem?, onde?, etc).[71]

As perguntas de sim/não começam com a palavra interrogativa káphaa (pergunta): káphaa lideeka mukawa (ele trouxe a espingarda?). Já as perguntas de variadas respostas iniciam-se com o morfema kúa (o que?, quem?) ou suas variações como kúame (como?), kuawada (por quê?), kalhe (onde?) e kenakuda (quantos?).[71] Exemplos: kúa íinaiwatsa núawa? (com quem irei?), kuamekawali rúukawa (quando ela chegou?).

Sentenças negativas

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Na língua baniwa, todos os tipos de sentenças negativas são formadas a partir do ñame, que, apesar de ter o significado de "não", é melhor entendido como "negado".[72] Quando utilizado, o termo sempre vem no início da oração e, por tem características de verbo, pode levar sufixos verbais (como o -pia de passado) e implica na utilização do sufixo de subordinação -ka no predicado. Exemplos: ñame kéeruakanhua (não estou zangado/ é negado que estou zangado), ñamepia línuka (ele não veio).[72]

Vocabulário

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Durante as missões de evangelização na área do rio Içana, em 1984, o falante Domingos de Souza Paiva compartilhou três contos da mitologia baniwa, os quais foram escritos e explicados gramaticalmente por Gerald Taylor em seu livro "Introdução à língua Baniwa do Içana" de 1991.[73]

Iñaime (Satanás)

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A história, apesar de ser traduzida com o termo religioso cristão "Satanás", apresenta uma referência aos espíritos do mato presentes na cosmovisão baniwa. No seu enredo, um homem indígena faz um tipo de pacto com os espíritos da floresta para poder comprar mercadorias dos colonizadores e, após cinco anos, o espírito volta para capturá-lo. O diálogo entre os dois é:[74]

Iñaime
Texto em baniwa Tradução para o português
Rittatha hrimá-hrià: kuawada inunáa-phià?

Riaku hriépaka: ñámeka nuukétaka nudzaruáhnewa

Riaku iñaimi: nua pihriu parata

Pikadaa-watsa pimáakarru ipeedza apa ttuhwiáriku

Kaahwi-watsa pikapa, pákhame-watsa idzarruahnetti ihrruákawa

(O demônio) perguntou para ele: "Por que você anda triste?"

(O homem) respondeu: "Não consigo a minha mercadoria".

O demônio disse: "Eu dou prata para você

Antes de dormir você vai deixá-la num quarto.

Quando você acordar, vai ver a sua mercadoria amontoada (alí)".

Desenho de uma espécie de peixe mandi

A história é um relato tradicional de pobreza, revelando o medo do povo de ter má sorte durante a pesca. No conto, um pescador sem sorte começa a afundar a sua canoa para pegar peixes quando um peixe mandi implora por piedade e, em troca de sua vida, ajudaria o pescador a conseguir peixes. No entanto, o peixe fala para o pescador levar uma de suas filhas junto e, quando ela também é lançada no rio, retoma com um noivo serpente sucurijo. O momento da pesca e frustração é o seguinte:[75]

Umáwari
Texto em baniwa Tradução para o português
Uupi neeni aphepa atsianri

Riade riuma riitsareta

Iia ríinuaka riwíniwa

Riukakádanaku ríipananaku riinu ikuíttani

Kuawada karru piinua kawini-phià o! rruaku rihriu

Neeni inunaa riádaka hriá atsianri

Antigamente havia um homem.

Costumava ir pescar.

Não pegava nada.

Quando chegava (na casa dele), a mulher o xingava.

"Por que você não consegue pescar nada?" lhe disse.

Então o homem ficava triste.

Duas mulheres

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A história apresenta a fuga de duas mulheres que, em seu trajeto em busca de seus pais, encontram os espíritos malignos do mato (os iñaime) e, após conseguirem afastá-los, encontram seus pais novamente em seu vilarejo. O trecho a seguir mostra o encontro delas com o espírito:[76]

Duas mulheres
Texto em baniwa Tradução para o português
Naaphitte' riema aphepa

Rihriu pidá dzameema riékua

Neeni riphumittédari riékua rikapaká-hnaà

Riaku rikitsienape ihriu: nuhfilérenai' panáinaha iina

Neeni napítuwa néekuwa

Té naa nemaa hnéwawa háikunaku karikúnenaku

Em baixo delas estava alguém

Tinha duas caras.

A cara de trás viu elas.

Disse para os parentes dele: "Meus irmãos mais novos, ali tem mulheres".

Daí fugiram correndo.

Finalmente, foram dormir dentro de uma árvore onde tinha um buraco.

Termos de parentesco

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Na língua baniwa, os termos que indicam parentesco são:[77]

Termos de parentesco
Geração Termo em baniwa Tradução para o português
Pais hániri pai
hadua mãe
Avós wheri avô, irmão do avô ou da avó
hírumi avó, irmã do avô ou da avó
Filhos iri filho
íitu filha
Irmaõs mhéreeri irmão mais novo
pheeri irmão mais velho
wéedua irmã mais nova
pheeru irmã mais velha
Tios khiri tio materno, esposo da tia paterna
kuiru tia paterna, esposa do tio materno
hanirí-pheeri irmão mais velho do pai
haniritenaa irmão mais novo do pai
hadua-pheeru irmã mais velha da mãe
haduatenaa irmã mais nova da mãe
Primos iitenaa primo filho de tia paterna ou tio materno (para referencial masculino)
téduali primo filho de tia paterna ou tio materno (para referencial feminino)
téduaro prima filho de tia paterna ou tio materno
kítsini primo filho de tia materna ou tio paterno
kítsidua prima filha de tia materna ou tio paterno

Referências

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Bibliografia

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Ligações externas

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