Nheengatu

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Nheengatu
Falado em: Brasil, Colômbia, Venezuela
Região: Amazônia
Total de falantes: 8 000[1]
Família: Proto-tupi
 Tupi
  Tupi-guarani
   Subgrupo III
    Nheengatu
Estatuto oficial
Língua oficial de: São Gabriel da Cachoeira
Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: sai
ISO 639-3: yrl

O nheengatu, também conhecido como nhengatu, ñe'engatú, nhangatu, inhangatu, língua geral amazônica, língua brasílica, tupi, língua geral, nenhengatu[2] , yẽgatú, nyenngatú e tupi moderno[3] , é uma língua derivada do tronco tupi. Pertence à família linguística tupi-guarani. O nheengatu surgiu no século XIX, como uma evolução natural da língua geral setentrional[4] , em um desenvolvimento paralelo ao da língua geral paulista, que acabou se extinguindo. Até o século XIX, foi veículo da catequese e da ação social e política luso-brasileira na Amazônia, sendo mais falada que o português no Amazonas e no Pará até 1877.[5] Atualmente, continua a ser falado por aproximadamente 8 000 pessoas na região do vale do Rio Negro.[6]

Ayumana (traduzido do nheengatu, "abraço")[7]

Etimologia[editar | editar código-fonte]

O termo "nheengatu" e suas variantes são originários do termo tupi nhe'engatu [ɲɛ̃ʔɛ̃ŋa'tu], que significa "língua boa".[8]

Amana (traduzido do nheengatu, "chuva")[9]

História[editar | editar código-fonte]

Ao chegarem ao Brasil, colonizadores portugueses encontraram diversas línguas ou dialetos aparentados da família Tupi-Guarani usados ao longo da costa do Brasil. Desconsideradas as diferenças dialetais, praticamente havia uma "língua brasílica" da qual os colonizadores podiam-se servir como lingua franca[10] para se comunicarem com os indígenas ao longo dum vasto território.

Essa "língua brasílica" falada pelos índios - o tupi antigo - foi absorvida pela sociedade colonial, passando a usar-se não apenas por índios e jesuítas, mas também por muitos colonos de sangue português. A então chamada de "língua geral" foi levada junto aos portugueses na conquista do território brasileiro, sendo imposta até a povos indígenas que falavam outras línguas. Evoluiu-se em dois ramos, a língua geral setentrional amazônicae a língua geral meridional, paulista - a qual, em seu auge, chegou a ser a língua dominante do vasto território brasileiro. Um manuscrito anônimo do século XVIII é emblematicamente intitulado "Diccionario da lingua geral do Brasil, que se falla em todas as villas, lugares, e aldeas deste vastissimo Estado, escrito na cidade do Pará, anno de 1771".[11]

Entretanto, a língua entrou em declínio no fim do século XVIII, com o aumento da imigração portuguesa, e sofreu duro golpe em 1758, ao ser banida pelo Marquês de Pombal, por ser associada aos jesuítas, que haviam sido expulsos dos territórios dominados por Portugal. Encurralada, a língua geral paulista gradualmente extinguiu-se. O declínio da língua geral na Amazônia acentuou-se com a chegada de migrantes nordestinos lusófonos após a grande seca de 1877.[12]

O tupinólogo Eduardo de Almeida Navarro defende que o nheengatu com suas características actuais teria surgido somente no século XIX, como uma evolução natural da língua geral setentrional.[13]

Buya (traduzido do nheengatu, "cobra")[14]

Uso atual[editar | editar código-fonte]

Atualmente, o nheengatu ainda é falado por cerca de 8 000 pessoas no Brasil (3 000), Colômbia (3 000) e Venezuela (2 000), especialmente na bacia do rio Negro (rios Uaupés e Içana).[1] Para além disso, é a língua materna da população cabocla e mantém o caráter de língua de comunicação entre índios e não índios, ou entre índios de diferentes línguas. Constitui, ainda, um instrumento de afirmação étnica dos povos que perderam suas línguas, como os barés, os arapaços, os baniuas, os Werekena e outros.

O nheengatu é uma das quatro línguas oficiais do município de São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do estado do Amazonas, no Brasil.[15]

Características[editar | editar código-fonte]

Além da anteriormente mencionada língua geral paulista, agora extinta, o nheengatu é bastante relacionado com o tupi antigo, idioma extinto, e com o guarani do Paraguai, que, longe de estar extinto, é o idioma mais falado naquele país e uma de suas línguas oficiais. Segundo algumas fontes, o nheengatu antigo e o guarani chegaram a ser mutuamente inteligíveis no passado.

Escrita[editar | editar código-fonte]

Ao longo do tempo têm-se usado diversas convenções para escrever o nheengatu com base no alfabeto latino e segundo as regras do português, usando-se grafias como "nh"; "c"; "ç", "ce", "ci"; "que", "qui"; "h" mudo; "n" em fim de sílaba como marca de nasalisação; "u" e "i" usados indistintamente como vogais e semivogais; etc.

Mais recentemente pesquisadores da língua e os próprios falantes têm buscado usar convenções ortográficas mais adaptadas à fonologia da língua, menos vinculadas às convenções portuguesas. Essas convenções tendem a incluir o uso de til sobre as vogais "e", "i" e "u"; o uso de "k" em lugar de "c" e "qu"; o uso de "s" simples em lugar de "ç", "ce", "ci" ou "ss"; o uso de "y" e "w" para representar semivogais; o uso de "y" próximo à vogal nasal em lugar de "nh"; o uso de consoantes simples próximo a vogal nasal em vez de encontros consonantais "mb", "nd", "ng", "nt"; redução da acentuação tônica; etc.

Amostras de texto[editar | editar código-fonte]

Pedro Luiz Sympson, 1876
A! xé ánga, hu emoté i Iára. / Xé abú iu hu rori ána Tupã recé xá ceiépi. / Maá recé hu senú i miaçúa suhi apipe abasáua: / ahé recé upáem miraitá hu senecáre iché aié pepasáua. / Maá recé Tupã hu munha iché áramau páem maá turuçusáua, / i r'ira puranga eté. / Y ahé icatusáua xé hu muçaim ramé, r'ira péaca upáem r'iapéaca ramé, maá haé aitá hu sequéié.
Pe. Afonso Casanovas, 2006
Aikwé paá yepé tetama puranga waá yepé ipawa wasú rimbiwa upé. Kwa paá, wakaraitá retama. Muíri akayú, paá, kurasí ara ramé, kwá uakaraitá aywã ta usú tawatá apekatú rupí. Muíri viaje, tausú rundé, aintá aría waimí uyupuí aitá piripiriaka suikiri waá irũ, ti arã tausaã yumasí tauwatá pukusawa.
Eduardo de Almeida Navarro, 2011
1910 ramé, mairamé aé uriku 23 akaiú, aé uiupiru ana uuatá-uatá Amazônia rupi, upitá mími musapíri akaiú pukusaua. Aé ukunheséri ana siía mira upurungitá uaá nheengatu, asuí aé umunhã nheengarisaua-itá marandua-itá irũmu Barbosa Rodrigues umupinima ana uaá Poranduba Amazonense resé.
Aline da Cruz, 2011
A partir di kui te, penhe nunka mais pesu pekuntai aitekua yane nheenga. Yande kuri, mira ita, yasu yakuntai. Ixe kuri asu akuntai perupi. Ixe kua mira. Ixe asu akuntai perupi. Penhe kuri tiã pesu pekuntai. Pepuderi kuri penheengari yalegrairã yane felisidaderã.
Trecho do livro Yasú Yapurũgitá Yẽgatú, 2014
Se mãya uyutima nãnã kupixawa upé. Nãnã purãga yaú arama yawẽtu asuí purãga mĩgaú arama yuiri. Aikué siya nãnã nũgaraita. Purãga usemu mamé iwí yumunaniwa praya irũmu.
Roger Manuel López Yusuino (nheengatu venezuelano), 2013
Tukana aé yepé virá purangava asoi orikú bando ipinima sava, ogustari oyengari kuemaite asoi osemo ara ramé osikari arama ombaó vasaí iyá. Tukana yepé virá porangava yambaó arama asoi avasemo aé kaáope asoi garapé rimbiva ropí.

Comparação com o tupi antigo[editar | editar código-fonte]

Tomando como exemplo os pronomes pessoais, veja-se uma comparação entre o tupi antigo e o nheengatu:

Tupi Antigo Nheengatu Português
xe, ixé se, ixé eu
ne/nde, endé ne, indé tu
i, a'e (singular) i, aé ele, ela
oré nós (exclusivo);
îandé yané, yandé nós (inclusivo);
pe, peẽ pe, penhẽ vós
a'e, i (plural) i/ta, aintá eles, elas

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b "Nheengatu", Etnólogo, http://www.ethnologue.com/show_language.asp?code=yrl .
  2. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p.1 192, 1 727.
  3. NAVARRO, E. A. Método moderno de tupi antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos. 3ª edição. São Paulo. Global. 2005. p. 13.
  4. NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p. 537.
  5. NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p. XVIII.
  6. NAVARRO, E. A. Método moderno de tupi antigo: a língua do Brasil dos primeiros séculos. 3ª edição. São Paulo. Global. 2005. p. 13.
  7. Supermanual do escoteiro mirim. São Paulo. Abril. 1979. p. 357.
  8. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p.1 192.
  9. Supermanual do escoteiro mirim. São Paulo. Abril. 1979. p. 357.
  10. "Línguas", Habilidades, RPG ficção, http://rpg_ficcao.sites.uol.com.br/Habilidades/Lingua01.htm .
  11. https://bdigital.sib.uc.pt/bg3/UCBG-Ms-81/UCBG-Ms-81_item1/index.html
  12. NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p. 537.
  13. NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo. Global. 2013. p. 537.
  14. Supermanual do escoteiro mirim. São Paulo. Abril. 1979. p. 357.
  15. Martin, Flávia; Moreno, Vitor, "Na Babel brasileira, português é 2ª língua", Folha de S. Paulo, http://treinamento.folhasp.com.br/linguasdobrasil/saogabriel.html, visitado em 30 de outubro de 2012 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • NAVARRO, Eduardo de Almeida (2011), Curso de língua geral (nheengatu ou tupi moderno) – A língua das origens da civilização amazônica, São Paulo: Edição do autor, ISBN 978-85-912620-0-7 . 112 pp.
  • Sympson, Pedro Luís, Gramática da língua brasileira: brasílica, tupi ou nheengatu .
  • Casasnovas, Padre A (2006), Noções de língua geral ou nheengatu (2ª ed.), Manaus: UFAM; Faculdade Salesiana Dom Bosco ,

Ligações externas[editar | editar código-fonte]