Ir para o conteúdo

Xucurus-cariris

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Xukuru-Kariri
População total
1471[1]
Regiões com população significativa
 Brasil (AL/BA)1471 (Siasi/Sesai)2014
Religiões
Animismo e Cristianismo
Etnia
Xukuru-Kariri

Os Xukurus-Kariris são um povo indígena oriundo do município brasileiro de Palmeira dos Índios, no estado de Alagoas. Em Palmeira, habitam a Terra Indígena Xucuru-Kariri e outros pontos nas redondezas, e em Minas Gerais, um pequeno grupo habita a Fazenda Boa Vista, situada no município de Caldas.

História

[editar | editar código]

Os Xukurus-Kariris geralmente são considerados o resultado da união de duas etnias distintas, Xukuru e Kariri, mas sua origem não é muito clara.[2][3] O mais antigo registro histórico produzido localmente em Palmeira sobre a origem deste povo foi composto pelo padre José de Maia Mello, pároco de Palmeira entre 1847 e 1899, que diz (grafia atualizada):

"No ano de 1740, desceram índios da Aldeia de Cimbres do alto sertão de Pernambuco, e se aldearam na Serra da Palmeira, e vieram outros da Aldeia do Colégio do Rio São Francisco desta Província (Alagoas). Estes da tribo Xukuru, e aqueles da tribo Kariri. Os Xukurus se aldearam à margem do pequeno ribeiro, Cafurna, entre terras da Fazenda Olhos d'Água do Accioly e a Serra da Palmeira, fizeram o nome do seu aldeamento o da sua tribo (Xukurus), que ainda hoje se conserva este nome, no lugar do seu aldeamento, e os Kariris, também, deram o nome do lugar onde se aldearam, Serra do Kariri, onde fizeram uma pequena igreja, de palha de palmeira".[4]
Povos indígenas em Alagoas

Essa tradição foi baseada em relatos orais colhidos na região e não é consensual, e há diversas tradições diferentes. Uma alega que os Xukurus foram os primeiros habitantes do lugar; outra que os Xukurus sempre foram Kariris, sendo Xukuru um apelido que significa "andarilho"; outra que os Kariris do Colégio estão ligados aos Xocós de Sergipe e Bahia; outra que o grupo do Colégio é da etnia Caeté; outra que os Kariris são um subgrupo ou aparentados dos Wakonãs, e segundo Darcy Ribeiro, os Kariris fazem parte de um grupo expulso da aldeia de Pedra Branca, perto de Amargosa, na Bahia.[5] Analisando as diferentes tradições, Wemerson Ferreira da Silva concluiu que essa diversidade põe em séria dúvida a ideia dos Xukurus-Kariris como uma entidade estável e bem caracterizada, e sua origem mais provavelmente deriva de uma multiplicidade de etnias e coletividades que se relacionaram e transformaram dinamicamente ao longo do tempo.[6]

Em 1758 foi promulgado o Diretório dos Índios, que orientou a política indigenista oficial por todo o resto do século XVIII, e embora revogado em 1798, permaneceu influente. Impunha o uso da língua portuguesa, incentivando casamentos interétnicos e o estabelecimento de colonos portugueses dentro dos aldeamentos, tendo o objetivo de assimilar os nativos na cultura portuguesa e transformar as aldeias em vilas.[7] Na década de 1770 foram catequizados pelo capuchinho Frei Domingos de São José, sendo fundada em 1773 uma capela dedicada ao Senhor Bom Jesus da Boa Morte ao sopé da Serra da Palmeira.[8] Em 1798 a capela já precisava ser ampliada, passando a ser dedicada a Nossa Senhora do Amparo, e ao mesmo tempo foi criada a paróquia.[9]

Com a crescente penetração de colonos brancos na região de Palmeira, os indígenas foram sendo cada vez mais pressionados para abandoná-la.[10] Para garantir sua subsistência, em 1821 os indígenas apelaram à Junta Governativa de Alagoas para que lhes concedesse uma área reservada. Num ofício em que foram representados pelo Diretor dos Índios José Caetano Moreira e outros oficiais, foi declarado que ali viviam pacificamente há mais de 80 anos, mas se viam atacados violentamente e espoliados por posseiros com títulos fictícios, ficando impedidos de manter sua subsistência. Foi lembrado que leis do século XVII declaravam suas terras e fazendas livres e protegidas, e que não poderiam ser transferidos contra sua vontade, nem serem obrigados a pagar tributos. Solicitavam, por fim, para seu uso a demarcação de uma légua quadrada, correspondendo às terras que tradicionalmente habitavam. A petição foi atendida pela Junta em 22 de maio de 1822, quando foi passada ordem de demarcação, concluída e registrada em 9 de dezembro, com uma légua em torno da Igreja de Nossa Senhora do Amparo, mas ainda dependia de uma sentença judicial final, que não foi proferida.[11]

Os conflitos se intensificaram, e posseiros voltaram a reclamar as terras.[12] Neste meio tempo, para evitar mais perseguições, os indígenas passaram a adotar costumes civilizados e ocultar sua identidade, tornando-se "caboclos", o que levou a uma profunda descaracterização linguística e cultural.[10] Com a criação da Direção Geral dos Índios em 1845, a meta governamental passou a ser transformá-los em trabalhadores tutelados e virtualmente desprovidos de direitos. A população passou a ser sujeita a trabalho forçado em obras públicas e recrutada para servir em tropas militares, e muitas vezes submetida a maus tratos. Outros trabalharam em fazendas e engenhos particulares da região. A sentença judicial confirmando a demarcação de 1822 finalmente saiu em 17 de abril de 1861, e no ano seguinte um relatório produzido por Manuel Lourenço da Silveira listou sete aldeias Kariri e uma Xukuru na área, mas alegou que apenas uma tinha direito legítimo sobre as terras e que não se notava praticamente nenhuma diferença entre o caráter e os costumes indígenas em relação aos demais brasileiros. Com base neste relatório, pouco depois o governo declarou que já não havia verdadeiros indígenas na região, pois todos estavam civilizados. Em 1872 toda a colônia indígena foi extinta, e os indígenas deixaram de existir oficialmente.[13]

O governo provincial informou que após a extinção da colônia realizaria um levantamento de seus ocupantes para distribuição de lotes, mas isso nunca aconteceu.[14] Em 1874, com o território já considerado devoluto, a Câmara oficiou ao governo provincial solicitando sua doação ao município, pois "seria de grande vantagem para a prosperidade da localidade". No mesmo ano, a Câmara recebeu queixa de vários colonos contra o vereador Manuel Marques de Oliveira, que segundo eles "sem permissão de ninguém estava apossado das melhores terras do extinto aldeamento". A Lei 3348 de 20 de outubro de 1887 concedeu ao município o direito de "aforar e arrendar os terrenos da extinta Colônia de Índios", mas uma circular do Ministério da Fazenda de 4 de abril de 1888 suspendeu sua execução.[15]

Palmeira dos Índios em 2011

De toda forma, as terras tradicionais acabaram sendo ocupadas por terceiros. Com a elevação de Palmeira dos Índios à categoria de Cidade em 1889, o poder público voltou a cobrar foro sobre as terras da aldeia. Em 1894 o governador Gabino Besouro deu ao município o direito de arrecadar impostos sobre a área. A maior parte da população nativa abandonou as aldeias, passando a viver como trabalhadores mal pagos em fazendas e engenhos de açúcar da região. Muitos partiram para longe. Os que ficaram mantiveram a posse de minúsculos lotes de terra nas serras da Cafurna, do Coité, da Capela e da Boa Vista em volta da cidade, ou nos arrabaldes urbanos, vivendo na miséria, sendo perseguidos e discriminados.[16]

No início do século XX, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) identificou o grupo restante como "remanescentes indígenas". Estavam largamente aculturados, mas mantinham algumas tradições originais. Desde então os Xukurus-Kariris são considerados um povo emergente e lutam pela regularização das suas terras e pela recuperação da sua identidade.[10] Houve sempre muito trânsito de famílias e indivíduos entre as diferentes serras e outros locais em que habitam, e esses contatos contínuos entre os diferentes grupos possibilitaram a construção de um acervo comum de conhecimentos e memórias que é a base da sua reivindicação étnica e identitária, e possibilitaram também a mobilização para reivindicar a demarcação contemporânea de um território étnico.[17][18]

Alfredo Celestino foi um cacique informal e pajé, e tendo o apoio da Igreja Católica, liderou a reivindicação pelo reconhecimento oficial dos Xukurus-Kariris como um povo indígena. O reconhecimento foi dado em 1952, sendo criado um Posto Indígena e adquirida a Fazenda Canto para sua instalação, a cerca de 6 km do centro de Palmeira dos Índios, mas o local foi uma escolha arbitrária do SPI, não tinha qualquer relação com a história dos Xukurus-Kariris, e com uma área de apenas 276 hectares, não era suficiente para o sustento de toda a população, que na época chegava a cerca de 500 pessoas. Outras áreas continuaram sendo reivindicadas, incluindo o seu antigo cemitério, local sagrado localizado na Mata da Cafurna.[19] Mesmo assim, a aquisição da fazenda foi importante para lhes dar uma base territorial definida, a partir da qual, segundo Wemerson da Silva, "se pôde construir, e efetivamente foi construído, o grupo étnico Xukuru-Kariri".[20]

Em 1970 sua situação continuava muito precária. A Fazenda Canto tem um relevo muito acidentado, pouca terra para agricultura e é atravessada por uma ferrovia. Havia uma casa de farinha artesanal, e a escola e a capela estavam se arruinando. Um pequeno açude tinha água imprópria para consumo. A água potável vinha da chuva, colhida em potes ou jarras. A alimentação básica consistia de feijão, farinha e milho. Não havia assistência médica regular, e casos de desnutrição e parasitoses eram comuns. Ali viviam 82 famílias, com quase 300 pessoas, todos agricultores e indigentes, miscigenados com brancos e negros. Muitos indígenas viviam fora da fazenda. Também já havia grupos de Fulniôs, Carijós e Pankararus.[21] Antônio Celestino, filho de Alfredo, foi cacique e liderou retomadas da Mata da Cafurna em 1979 e 1986, que foram reprimidas com violência.[22] Maninha Xukuru-Kariri, filha de Antônio, tornou-se uma liderança nacional, e liderou a terceira retomada da Cafurna em 1994, que devido à grande mobilização foi bem sucedida, sendo comprada pela Funai.[23] Em 2019 havia grupos aldeados na Fazenda Canto, Mata da Cafurna, Cafurna de Baixo, Serra do Amaro, Serra da Capela, Boqueirão, Macacos, Coité e Monte Alegre.[18] Segundo o Censo de 2022, havia cerca de mil indígenas e 1,5 mil não indígenas nas terras tradicionais.[24]

Vivem atualmente da agricultura familiar, voltada para a subsistência e para a comercialização regional, de algum extrativismo vegetal, da criação de animais domésticos de pequeno porte e venda de artesanato.[2] Nos últimos anos os indígenas têm se destacado pelas práticas agrícolas sustentáveis e livres de agrotóxicos, especialmente na Fazenda Canto, com significativa produção de batata, macaxeira, tomate, cenoura, pimentão, coentro, abóbora, frutas, feijão, milho e cebolinha, sendo incluídos na lista de doadores do Programa de Aquisição de Alimentos do governo federal, fornecendo mantimentos para cerca de 500 pessoas da Associação Comunitária Padre Cícero de Vila Nova, em Palmeira dos Índios, além de outras 195 pessoas cadastradas pelo Movimento Pró-Desenvolvimento Comunitário.[2][25]

A divulgação popular da sua história em livros didáticos e publicidade oficial contemporânea geralmente é superficial, distorcida e folclorizada, oculta a contribuição indígena para o crescimento de Palmeira dos Índios como trabalhadores, e os remete apenas a um papel de fundadores, e mesmo assim num caráter subalterno aos colonos brancos.[26]

Terra Indígena Xukuru-Kariri

[editar | editar código]

Há décadas os indígenas reivindicam a demarcação oficial das suas terras. O processo de demarcação tem sido complicado e as terras continuam disputadas, em uma região marcada por um histórico de violência.[2] Depois da aquisição da Fazenda Canto, em 1988 foi iniciado um primeiro estudo para a demarcação oficial da Terra Indígena Xukuru-Kariri, pretendendo delimitar uma légua em quadro tendo como centro a Igreja Matriz de Palmeira, mas por incluir toda a zona urbana de Palmeira, o processo foi considerado inviável e não avançou. Em 1995 o Ministério Público propôs a revisão da área, excluindo a área urbana do município. O relatório técnico antropológico foi completado mas a delimitação não foi feita. No entanto, para acomodar famílias expulsas da Fazenda Canto, a Funai adquiriu algumas glebas, dando origem aos aldeamentos de Boqueirão e parte da Serra da Capela. Em 1997 foi constituído um novo grupo de trabalho para fazer uma nova delimitação, propondo uma área de 16.136 hectares, mas a maior parte dela não tinha relação com a história dos Xukurus-Kariris, e assim o processo novamente não foi concluído. Outro grupo de trabalho foi constituído em 2003, mas apresentou uma proposta muito semelhante à de 1997, que foi rejeitada pelo Ministério Público.[18][27]

A morosidade do processo demarcatório acirrou o conflito fundiário, e para enfrentar a forte oposição, os indígenas buscaram apoio de diversas entidades, como o Ministério Público Federal, o Conselho Indigenista Missionário, a Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo, a Associação Nacional de Ação Indigenista, a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, associações de defesa dos direitos humanos, movimentos sociais e sindicatos locais. Em resposta à mobilização, a Funai reativou os estudos, mas apresentou uma delimitação de apenas 450 hectares, que foi rejeitada. Enquanto isso, indígenas recebiam ameaças de morte e a imprensa lançava uma intensa campanha contra a demarcação, recheada de notícias falsas e distorcidas, e eram acionados vereadores e parlamentares para pressionar o Ministério da Justiça para que não aprovasse a demarcação. Um projeto de lei na Câmara Municipal de Palmeira dos Índios chegou a propor a mudança do nome da cidade para "Palmeira", subtraindo o complemento "dos Índios". Neste período os indígenas ocuparam várias vezes a sede da Funai em Maceió exigindo o atendimento das suas demandas, e iniciaram retomadas das fazendas Paraíso das Águas e Buenos Aires, que foram revertidas. Outra tentativa de demarcação foi feita em 2008, delimitando 7.073 hectares onde havia 463 propriedades privadas, gerando grande controvérsia e novas ameaças de morte contra as lideranças indígenas, pois muitos proprietários eram figuras influentes do município, incluindo vereadores, ex-prefeitos e latifundiários.[27]

A proposta que acabou prevalecendo reduziu mais um pouco a área delimitada, compreendendo 6.927 hectares, declarados de posse permanente da comunidade indígena pela Portaria n° 4.033 de 14 de dezembro de 2010. A demarcação física foi concluída em 2013.[24][25] É uma enorme diferença em relação à primeira demarcação de 1822, que tinha cerca de 40 mil hectares. Depois disso o processo parou novamente, mas os indígenas continuaram mobilizados e ocorreram outros conflitos.[27] Os Xukurus-Kariris vivem efetivamente em apenas 1,5 mil hectares, e todo o restante está ocupado por posseiros.[25] Os posseiros geralmente ocupam as áreas mais planas e férteis. Toda a TI está muito desmatada e tem reduzida biodiversidade pelo longo período de ocupação e exploração ilegal, mas mantém alguns dos últimos remanescentes florestais do município.[2]

A Prefeitura de Palmeira dos Índios também cedeu ilegalmente parte da Terra Indígena para a construção de dois empreendimentos, um deles um Distrito Industrial e outro um Parque Aquático com cerca de 30 mil metros quadrados e direitos de exploração concedidos à iniciativa privada. Ambos estavam com as obras já em progresso em julho de 2024. A Funai notificou o Poder Público municipal da ilegalidade, mas os avisos foram ignorados.[25] Em agosto a Justiça determinou a paralisação das obras e proibiu a implementação de qualquer outro empreendimento privado dentro da TI.[28]

Esperava-se que a homologação e registro em cartório da Terra Indígena ocorresse em 2024, mas não ocorreu. O presidente Lula disse que "nós queremos o melhor para os indígenas e para os produtores rurais, mas se tiver gente que grilou terra, nós precisamos de uma solução negociada ou então entrar na Justiça para tirar eles. Não podemos assinar hoje e amanhã sair uma decisão da Justiça na direção contrária. A frustração seria maior". A ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, visitou a Ti para explicar os motivos da recusa, alegando que existem muitas forças contrárias impedindo o processo de avançar.[25] Em outubro de 2025 a Funai ainda estava fazendo o levantamento das benfeitorias realizadas pelos não indígenas passíveis de indenização e o cadastro dos posseiros para reassentamento em outro local.[24]

A pressão indígena pela homologação e desintrusão de posseiros é contraposta por um ativo movimento anti-indígena em Palmeira dos Índios, formado por lideranças políticas locais, posseiros, empresários e produtores rurais, que organizam marchas e manifestações públicas, assédio de indígenas e promovem a violência. Segundo reportagem de novembro de 2025 de Raíssa Ebrahim, a violência escalou nas semanas precedentes e a cidade "virou palco de ameaças, constrangimentos, agressões e fake news por causa do processo de homologação da Terra Índigena Xukuru-Kariri". Servidores da Funai receberam ameaças e a escola foi alvejada por tiros. "A comunidade indígena relata que os constrangimentos são diários".[28]

Fazenda Boa Vista

[editar | editar código]

Após conflitos com a família Celestino, instalada na Fazenda Canto, em 1987, com o apoio da Funai, um grupo liderado por membros da família Sátiro se mudou para Ibotirama, na Bahia. A sua tradição diz que habitaram também na vizinha Muquém do São Francisco, mas não há evidências sólidas disso, embora seja certo que estabeleceram boas relações com os Kiriris que lá viviam. Neste período o líder Zezinho Sátiro Xuruku-Kariri recebeu um convite dos Kiriris de Mirandela para viverem com eles, que foi recusado porque desejavam uma terra exclusiva, a fim de evitar possíveis conflitos. Dali partiram para a Fazenda Pedrosa, no povoado de Quixabá, no município baiano de Nova Glória, onde viveram por dezoito anos.[29]

Surgiram conflitos com os locais, e assim se transferiram para o distrito de Guarda dos Ferreiros, em São Gotardo, Minas Gerais. Ali ficam poucos anos, vivendo na zona urbana, e após reivindicações por terra, em 2001 a Funai lhes destinou o território do antigo Posto Agropecuário do município de Caldas, em Minas Gerais, que estava abandonado e passou a ser conhecido como Fazenda Boa Vista.[29][30] O grupo era então constituído por um número incerto de pessoas: segundo a Prefeitura, eram 35, e segundo a imprensa da época, 54.[31][30] A Fazenda Boa Vista também recebeu um grupo de Kiriris oriundo de Muquém do São Francisco, que permaneceram ali até que divergências entre os líderes fizeram com que se mudassem para um outro território em Rio Verde em 2017.[29]

A instalação na Fazenda Boa Vista foi difícil. A Funai concedia um auxílio mensal de 1.750 reais para cada pessoa, mas viviam maltrapilhos, havia poucas casas disponíveis, todas em mau estado, e o clima da região é diferente daquele a que estavam habituados, complicando as suas práticas agrícolas. Com o auxílio da Diocese de Pouso Alegre e da PUC-Minas, conseguiram construir mais habitações e melhorar as existentes. Em 2013 uma tempestade destruiu muitas casas. Em 2019 um projeto de extensão da universidade deu auxílio para a construção de um pavilhão para processamento da mandioca e produção de farinha. Já havia uma escola, mas a situação do aldeamento ainda era precária.[30]

Em 2021 a Prefeitura de Caldas celebrou os 20 anos da chegada dos Xucurus-Kariris com uma festa. A população havia crescido para 143 pessoas, e a Fazenda Boa Vista contava com escola, quadra de esportes, posto de saúde e programas de assistência governamentais.[31]

Ver também

[editar | editar código]

Referências

  1. «Quadro Geral dos Povos». Instituto Socioambiental. Consultado em 2 de setembro de 2017
  2. 1 2 3 4 5 Paiva, Vera Olinda Sena et alii. "Agroecologia na TI Xukuru-Kariri". In: Boletim Informativo da Coordenação Geral de Gestão Ambiental da Funai, 2019 (5)
  3. "Xukuru-Kariri". Instituto Socioambiental, 2013-2018
  4. Apud Antunes, Clóvis. Wakona-Kariri-Xukuru: Aspectos Sócio-Antropológicos dos Remanescentes Indígenas de Alagoas. Universidade Federal de Alagoas, 1973, p. 45
  5. Antunes, pp. 19-23
  6. Silva, Wemerson Ferreira da. "É de família, é tradição": território e organização social entre os Xukuru-Kariri no agreste alagoano. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2020, p. 51
  7. Silva (Wemerson), p. 32
  8. Antunes, p. 25
  9. Silva (Wemerson), p. 31
  10. 1 2 3 Silva, Ana Valéria dos Santos. Entre invisibilidade e protagonismo: participação política de Maninha Xukuru Kariri no movimento indígena (1966-2006). Universidade Federal de Alagoas, 2024, pp. 19-20
  11. Antunes, pp. 58-63
  12. Antunes, pp. 63-69
  13. Silva (Wemerson), pp. 33-36
  14. Silva (Wemerson), p. 44
  15. Antunes, pp. 53-55
  16. Silva (Wemerson), pp. 38; 45-50
  17. Silva (Wemerson), p. 52
  18. 1 2 3 Viegas, Maria Ester Ferreira da Silva. "Terra Indígena Xukuru-Kariri: avanços e recuos". In: Diversitas Journal, 2019; 4 (3): 848–867
  19. Silva (Ana), pp. 21-26
  20. Silva (Wemerson), p. 61
  21. Antunes, pp. 73-83
  22. Silva (Ana), pp. 25-26
  23. Silva (Wemerson), pp. 70-71
  24. 1 2 3 "Funai avança em processo de regularização fundiária na Terra Indígena Xukuru-Kariri, em Alagoas". Ministério dos Povos Indígenas, 15 de outubro de 2025
  25. 1 2 3 4 5 "Obras de Parque Aquático seguem na Terra Indígena Xukuru Kariri mesmo após avisos de ilegalidade do projeto", Conselho Indigenista Missionário, 31 de julho de 2024
  26. Silva (Wemerson), pp. 39-42
  27. 1 2 3 Mapa de Conflitos. "AL – Ameaças de morte, associadas ao coronelismo midiático e político são enfrentados pelos Xukuri-Kariri em Palmeira dos Índios. Território Indígena foi finalmente demarcado pela Funai, mas aguarda sanção presidencial". Fiocruz, 24 de agosto de 2013
  28. 1 2 Ebrahim, Raíssa. "O movimento anti-indígena em Palmeira dos Índios". Nexo Jornal, 25 de novembro de 2025
  29. 1 2 3 Bort Júnior, João Roberto & Henrique, Fernanda Borges. "Cada um em seu lugar. Domínios territoriais Xucuru-Kariri e Kiriri". In: Revista de Antropologia, 2020; 3 (3)
  30. 1 2 3 Bort Júnior, João Roberto. "Casa de farinha na aldeia xucuru-kariri em Caldas (Minas Gerais/Brasil): notas a partir de uma pesquisa etnográfica e um projeto de extensão". In: Interfaces - Revista de Extensão da UFMG, 2021; 9 (2)
  31. 1 2 "20 anos da etnia indígena Xucuru Kariri em Caldas". Prefeitura de Caldas, 20 de março de 2021