Raposa-do-campo

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Como ler uma infocaixa de taxonomiaRaposa-do-campo
Lycalopex vetulus Carlos Henrique 2.jpeg
Estado de conservação
Quase ameaçada
Quase ameaçada [1]
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Carnivora
Família: Canidae
Género: Lycalopex
Espécie: L. vetulus
Nome binomial
Lycalopex vetulus
(Lund, 1842)
Distribuição geográfica
distribuição
distribuição
Sinónimos
  • Pseudalopex vetulus[2]

A raposa-do-campo (Lycalopex vetulus), também conhecida como raposinha-do-campo, é um canídeo endêmico do Brasil, que habita que habita os campos e cerrados em uma área de distribuição que inclui o Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e São Paulo, partes do Tocantins, Bahia, e uma pequena área entre Piauí, Ceará e Paraíba.[1] Também é chamada de cachorro-de-dentes-pequenos, graxaim-de-dentes-pequenos, raposa-brasileira ou jaguapitanga.[3][4]

Apesar de seu nome, elas não são raposas verdadeiras (gênero Vulpes), sendo pertecentes ao gênero Lycalopex (graxains), um gênero de canídeos relacionados mais aos lobos-guará, cachorros-do-mato e cachorros-vinagre. Se assemelham a raposas devido à evolução convergente.

Distribuição e habitat[editar | editar código-fonte]

A raposa-do-campo é endêmica do Brasil e sua distribuição geográfica está associada aos limites do ecossistema do Cerrado, em uma faixa de altitude de 90–1.100 m.[5] No entanto, também pode ser encontrada em zonas de transição, incluindo habitats abertos no Pantanal. A ocorrência da raposa-do-campo em áreas da Mata Atlântica está em uma matriz de pastagens antrópicas, intercaladas regionalmente por remanescentes de floresta semi-decídua e pequenas manchas de Cerrado.[6]

A extensão atual estende-se do nordeste e oeste do São Paulo ao norte do Piauí, passando pelos estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, Tocantins, Bahia e provavelmente áreas abertas das regiões do sul do Maranhão e estados de Rondônia.[7]

Descrição[editar | editar código-fonte]

Lycalopex vetulus

As raposas são pequenas, com focinho curto, dentes pequenos, pelagem curta e membros delgados. Sua pele é de cor acinzentada, com uma parte inferior do corpo creme ou fulva. A cauda é preta na ponta com uma listra escura marcada ao longo da superfície superior, que em animais machos pode se estender ao longo das costas até a nuca. As orelhas e patas são levemente avermelhadas e a mandíbula inferior é preta.[8] Alguns indivíduos melanísticos também foram relatados.[5]

As raposas têm um crânio pequeno, com carniceiros reduzidos e molares largos. É pequena para uma raposa, pesando apenas 3–4 kg, com cabeça e comprimento do corpo de 58–72 cm e cauda de 25–36 cm.[5][9] Junto com sua forma esguia, o tamanho pequeno da raposa velha torna-o um animal ágil e de corrida rápida, enquanto seus dentes relativamente fracos o adaptam para se alimentar de invertebrados, ao invés de presas maiores.

Comportamento e dieta[editar | editar código-fonte]

A raposa-do-campo é onívora, utilizando cupins como a base de sua alimentação, além de besouros, gafanhotos e, conforme a disponibilidade no ambiente e a estação, frutos silvestres e exóticos, pequenos mamíferos, lagartos, cobras, anuros e aves.[1][8] Os cupins do gênero Syntermes são sua principal fonte de alimento e são encontrados em cerca de 89,5% de suas fezes.[9]

É um animal muito atento e percebe tudo o que ocorre ao seu redor. A visão, a audição e o olfato são bastante desenvolvidos. A raposa-do-campo é mais ativa à noite, com um padrão de atividade crepuscular-noturno. Ocorre em simpatria com outros canídeos brasileiros como o cachorro-do-mato e o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus).[7][5] As raposas-do-campo são solitárias e tímidas, mas defendem agressivamente seus filhotes.[9]

Exemplar domesticado.

Reprodução[editar | editar código-fonte]

As raposas-do-campo são monogâmicas, formando pares reprodutivos durante a estação de acasalamento que permanecem juntos durante a criação dos filhotes.[7] O período de gestação é de cerca de 50 dias, após o qual a fêmea dá à luz uma ninhada de 1 a 5 filhotes, frequentemente nascidos entre julho e agosto. Raposas vivas costumam usar tocas de tatu abandonadas para criar seus filhotes,[9][8] e torna-se muito feroz quando precisa defender a prole.

Observações diretas relatam interações sociais entre os membros do grupo familiar (macho, fêmea e prole sazonal), com contato mais intenso entre machos e fêmeas durante os primeiros quatro meses de vida da prole. Diferente de outras espécies de canídeos, os machos são responsáveis por levar comida e pajear filhotes, além de defender o grupo de possíveis agressores, enquanto a fêmea passa as noites se alimentando e amamentando os pequenos entre intervalos que podem durar horas.[10] A dispersão juvenil ocorre entre nove e dez meses de idade, quando começam a estabelecer seus próprios territórios.[1]

Conservação[editar | editar código-fonte]

Raposinha-do-campo

As raposas-do-campo são endêmicas do Cerrado brasileiro, que está sob forte pressão antrópica e com menos de 20% de sua área original intacta. É uma espécie pouco conhecida e pouco estudada. O número estimado de indivíduos maduros é 9.840–19.200.[1] As maiores ameaças à conservação da raposa-do-campo são a fragmentação e destruição de seu hábitat, e outros efeitos negativos diretos e indiretos causados pela ação humana, como atropelamentos, doenças, retaliação à suspeita de predação de aves domésticas e alta mortalidade de filhotes/juvenis, especialmente em regiões desprotegidas.[1] O declínio populacional deve, em uma estimativa conservadora, ter sido de pelo menos 30% nos últimos 15 anos.[7]

Outras ameaças são os ataques por cães domésticos e a perseguição direta pelo homem, em virtude da percepção errônea de que as raposas-do-campo atacam animais domésticos, principalmente galinhas, apesar de aves domésticas serem pouco frequentes ou ausentes na dieta da espécie.[7] Quase 50% das mortes desses animais fora de unidades de conservação são de causa humana.[10] A raposa-do-campo é classificada como espécie quase ameaçada na Lista Vermelha da IUCN.[1] Na lista nacional, a espécie é classificada como Vulnerável.[11]

Até onde se sabe a espécie só ocorre em território brasileiro, não havendo populações em países vizinhos.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d e f g Lemos, F.G., Azevedo, F.C., Paula, R.C. & Dalponte, J.C. (2020). «Lycalopex vetulus». Lista Vermelha da IUCN de espécies ameaçadas da UICN e.T6926A87695615 (em inglês). ISSN 2307-8235. Consultado em 30 de outubro de 2020 
  2. Rocha, E. C.; Silva, E.; Feio, R. N.; Martins, S. V.; Lessa, G. (2008). «Densidade populacional de raposa-do-campo». Iheringia. Zoologia. 98 (1). ISSN 1678-4766. doi:10.1590/S0073-47212008000100011. Consultado em 19 de julho de 2010 
  3. Wozencraft, W.C. (2005). Wilson, D.E.; Reeder, D.M. (eds.), ed. Mammal Species of the World 3 ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press. ISBN 978-0-8018-8221-0. OCLC 62265494 
  4. Ferreira, Rafael (28 de novembro de 2013). «Acorda, Raposa!». ((o))eco. Consultado em 30 de outubro de 2020 
  5. a b c d Julio C., Dalponte (25 de novembro de 2009). «Lycalopex vetulus (Carnivora: Canidae)». Mammalian Species. 847: 1–7. doi:10.1644/847.1/2600889. Consultado em 30 de outubro de 2020 publicação de acesso livre - leitura gratuita
  6. Dalponte, J.C., Oliveira, J.S. and Lacerda, A.C.R. (2018). «Occurrence of Lycalopex vetulus (Carnivora, Canidae) in the Cerrado-Amazon forest ecotone and Pantanal». Acta Zoológica Platense. 18: 1–10 
  7. a b c d e Lemos, F. G.;; de Azevedo, F. C.;; Beisiegel, B. M. (2013). «Avaliação do risco de extinção da raposa-do-campo, Lycalopex vetulus» (PDF). Biodiversidade Brasileira. Avaliação do Estado de Conservação dos Carnívoros. 3 (1): 160-171. Consultado em 30 de outubro de 2020 – via ICMBIO 
  8. a b c IPC. «Raposinha-di-campo». Instituto Pró-Carnívoros. Consultado em 30 de outubro de 2020 
  9. a b c d Olson, Erik. «Lycalopex vetulus». Animal Diversity Web. Consultado em 30 de outubro de 2020 
  10. a b «UFG alerta sobre risco de extinção da raposa-do-campo». UFG. 11 de julho de 2017 
  11. Vandré Fonseca (16 de julho de 2017). «Ser humano provoca metade das mortes de raposas-do-campo». ((o))eco. Consultado em 30 de outubro de 2020 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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