Leopardo-das-neves

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Leopardo-das-neves
Leopardo-das-neves
Estado de conservação
Espécie vulnerável
Vulnerável (IUCN 3.1) [1]
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Carnivora
Família: Felidae
Género: Panthera
Espécie: P. uncia
Nome binomial
Panthera uncia
( Schreber, 1775)
Distribuição geográfica
Mapa de distribuição do leopardo-das-neves. Ásia Central
Mapa de distribuição do leopardo-das-neves.
Ásia Central
Sinónimos
  • Uncia uncia
  • Felis uncia

O leopardo-das-neves (Panthera uncia) é um felino do gênero Panthera que habita as grandes altitudes da Ásia central. Apesar do nome, trata-se de uma espécie diferente do leopardo (Panthera pardus). Distribui-se principalmente pelo Tibete, Nepal, Índia, Paquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Butão.[2] Pouco se sabe a respeito desse animal, que é arredio e solitário, sendo raramente visto por seres humanos.[3] Em razão disso, os nativos da região chamam-no de "gato-fantasma".[4]

Taxonomia[editar | editar código-fonte]

Crânio de leopardo-das-neves na coleção do Museu Wiesbaden

Felis uncia foi o nome científico usado por Johann Christian Daniel von Schreber em 1777, quando descreveu o leopardo-das-neves baseado em descrição anterior de Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon, assumindo que o gato existia na Berbéria, na Pérsia, na Índia oriental e na China.[5] Uncia foi proposto por John Edward Gray em 1854, que agrupou os gatos asiáticos com caudas longas e espessas neste gênero.[6]

Felis irbis foi proposto por Christian Gottfried Ehrenberg em 1830, que descreveu a pele de uma fêmea de leopardo-das-neves coletada nas montanhas Altai na Sibéria. Ele afirmou que várias peles de leopardo tinham sido anteriormente identificadas erroneamente como leopardo-das-neves.[7] Felis uncioides foi proposto por Thomas Horsfield em 1855 para uma pele de leopardo-das-neves apresentada ao Museu da Companhia Britânica das Índias Orientais.[8]

Uncia uncia foi usado por Reginald Innes Pocock em 1930, quando ele revisou peles e ossadas de espécies do gênero Panthera presentes na Ásia. Ele também descreveu as diferenças morfológicas entre peles do leopardo (P. pardus) e do leopardo-das-neves.[9] Panthera baikalensis-romanii foi proposto por um cientista russo em 2000 para uma pele de leopardo-das-neves marrom-escura do distrito de Petrovsk-Zabaykalsky, no sul da região Transbaikal.[10]

Ela foi classificada por muito tempo no gênero monotípico Uncia.[11] Desde que estudos filogenéticos revelaram a relação com as espécies do gênero Panthera, é considerada um membro deste gênero.[12][13][14] Duas subespécies foram descritas com base em diferenças morfológicas, porém não havia nenhuma evidência genética entre as duas e a espécie passou a ser considerada monotípica.[15] Resultados de um estudo filogeográfico publicado em setembro de 2017 indicaram que deviam ser reconhecidas três subespécies: P. u. uncia nos países alcançados pelas Montanhas Pamir, P. u. uncioides nos Himalaias e Chinghai, e P. u. irbis na Mongólia.[16]

Dois possíveis cladogramas para a subfamília Pantherinae

Filogenia[editar | editar código-fonte]

Baseado em uma análise filogenética da sequência de ADN que incluiu os felídeos vivos, o leopardo-das-neves forma um grupo-irmão com o tigre. O tempo da divergência genética desse grupo é estimado de 4,62 até 1,82 milhões de anos.[12][17] O leopardo-das-neves e o tigre provavelmente divergiram entre 3,7 e 2,7 milhões de anos atrás.[13] Panthera se origina mais provavelmente no norte e no centro da Ásia. Panthera blytheae, encontrado em escavações no oeste de Ngari, no Tibete, é a espécie de Panthera mais antiga conhecida e as características do seu crânio são similares às do leopardo-das-neves.[18]

Um estudo de 2016 revelou que os genomas mitocondriais de leopardos-das-neves, leões e leopardos são mais similares entre si do que os genomas nucleares, indicando que os ancestrais dos leopardos-das-neves hibridizaram com os dos leões e leopardos em algum ponto da sua evolução.[19]

Distribuição[editar | editar código-fonte]

Os leopardos-das-neves estão distribuídos esparsa e descontinuamente pelas montanhas da Ásia Central, com uma população de tamanho desconhecido. Habitam zonas alpinas e subalpinas, sendo encontrados em áreas de 3000 a 4500 metros acima do nível do mar. Durante o verão, podem ser encontrados em altitudes superiores a 5000 metros. São encontrados do leste do Afeganistão e os Himalaias até o sul da Sibéria, Mongólia e oeste da China. Em lugares mais setentrionais, também vivem em elevações menores.

Características[editar | editar código-fonte]

Leopardo-das-neves escalando rochas

São animais que medem até 1,30 metro de comprimento (da ponta do focinho ao início da cauda), sem incluir a cauda, que chega a 1 metro de comprimento. Fêmeas podem pesar até 40 kg e machos até 55 kg, A sua altura varia entre 55 e 65 cm.[20] A coloração varia do cinza claro ao cinza escurecido, com as partes inferiores quase brancas. Todo o seu corpo é recoberto por rosetas e manchas escuras, e o pelo é bastante longo. A cabeça é relativamente pequena (desproporcional) em relação ao corpo.

Os filhotes (em média três por ninhada) nascem em abrigos nas rochas, após um período de gestação de aproximadamente 103 dias. Pesam ao nascer aproximadamente 450 g e abrem os olhos após sete dias. Começam a ingerir alimento sólido aos três meses de idade.

Alimentação[editar | editar código-fonte]

Leopardo-das-neves com uma marmota no Quirguistão

Estes animais são caçadores oportunistas, que podem predar desde um grande iaque (que pesa mais de 200 kg) até um pequeno veado almiscarado (que pesa somente 10 kg). Podem também predar aves como o faisão ou outros animais, como as marmotas, por exemplo. Trata-se de um animal pouco estudado, devido a seus hábitos reservados, à existência de poucos exemplares, a sua distribuição esparsa e às dificuldades das condições do seu hábitat.

Concorrentes[editar | editar código-fonte]

Apesar de o leopardo-das-neves ser um predador de topo de cadeia alimentar, possui alguma concorrência, como os lobos (Canis lupus). Apesar de não se encontrarem muito, quando o lobo invade a zona de caça do leopardo as duas espécies entram em conflito; ambos normalmente evitam combate, já que o leopardo é o animal dominante, mas quando confrontado por uma alcateia o leopardo foge. O urso também é uma ameaça séria e bem perigosa, sempre dominando os leopardos. Uma concorrência menos perigosa é a raposa-do-himalaia: sendo bem menor e mais fraca, quase não chega a ser concorrência, e sim uma presa.

Estado de conservação[editar | editar código-fonte]

A espécie possui de 4500 a 7500 espécimes na natureza e é alvo constante da caça clandestina.[21] Uma pesquisa da WCS descobriu mais espécimes nos arredores do Corredor Wakhan, no nordeste afegão.[21] É considerada Vulnerável na Lista Vermelha da IUCN. Há uma previsão que afirma que a espécie sofrerá um declínio populacional de 10% até 2040.

Folclore[editar | editar código-fonte]

Durante séculos, o leopardo-das-neves tem sido alvo de mistério e folclore. Muitos moradores dos vilarejos da Ásia Central acreditam que os leopardos-das-neves não comem a carne das suas presas, alimentando-se apenas do seu sangue; esta crendice se deve aos pequenos orifícios deixados pelos dentes caninos dos leopardos, quando estes sufocam suas vítimas, somado a exemplos do abandono (por algumas horas ou dias) de algumas presas abatidas, antes de retornar para se alimentar da mesma, e neste período de "abandono" os animais abatidos são visualizados pelos nativos.

Referências

  1. McCarthy, T., Mallon, D., Jackson, R., Zahler, P. & McCarthy, K. (2017). Panthera uncia (em Inglês). IUCN 2017. Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN de 2017 . . Página visitada em 15 de setembro de 2017..
  2. Senso - Leopardo-das-neves(em inglês)
  3. Site Snow Leopard - Habitat(em inglês)
  4. «Rare Pictures: Snow Leopards Caught in Camera Trap». 25 de janeiro de 2014 
  5. Schreber, J. C. D. (1777). «Die Unze». Die Säugethiere in Abbildungen nach der Natur mit Beschreibungen (em alemão). Erlangen: Wolfgang Walther. pp. 386–387 
  6. Gray, J. E. (1854). «The ounces». Annals and Magazine of Natural History. 2 (em inglês). 14. p. 394 
  7. Ehrenberg, C. G. (1830). «Observations et données nouvelles sur le tigre du nord et la panthère du nord, recueillies dans le voyage de Sibérie fait par M.A. de Humboldt, en l'année 1829». Annales des sciences naturelles, Zoologie. 21. pp. 387–412 
  8. Horsfield, T. (1855). «Brief notices of several new or little-known species of Mammalia, lately discovered and collected in Nepal, by Brian Houghton Hodgson». The Annals and Magazine of Natural History: Including Zoology, Botany, and Geology. 2. 16. pp. 101−114. doi:10.1080/037454809495489 
  9. Pocock, R. I. (1930). «The panthers and ounces of Asia. Part II. The panthers of Kashmir, India, and Ceylon». Journal of the Bombay Natural History Society (em inglês). 34. pp. 307–336 
  10. Medvedev, D. G. (2000). «Morfologicheskie otlichiya irbisa iz Yuzhnogo Zabaikalia». Vestnik Irkutskoi Gosudarstvennoi Sel'skokhozyaistvennoi Akademyi [Proceedings of Irkutsk State Agricultural Academy]. 20. pp. 20–30 
  11. Wozencraft, W.C. (2005). Wilson, D.E.; Reeder, D.M. (eds.), ed. Mammal Species of the World 3 ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press. p. 548. ISBN 978-0-8018-8221-0. OCLC 62265494 
  12. a b Johnson, W. E.; Eizirik, E.; Pecon-Slattery, J.; Murphy, W. J.; Antunes, A.; Teeling, E.; O'Brien, S. J. (2006). «The late Miocene radiation of modern Felidae: a genetic assessment». Science. 311 (5757): 73–77. Bibcode:2006Sci...311...73J. PMID 16400146. doi:10.1126/science.1122277 
  13. a b Davis, B. W.; Li, G. & Murphy, W. J. (2010). «Supermatrix and species tree methods resolve phylogenetic relationships within the big cats, Panthera (Carnivora: Felidae)» (PDF). Molecular Phylogenetics and Evolution. 56 (1): 64–76. PMID 20138224. doi:10.1016/j.ympev.2010.01.036 
  14. Kitchener, A. C.; Driscoll, C. A. & Yamaguchi, N. (2016). «What is a Snow Leopard? Taxonomy, Morphology, and Phylogeny». In: McCarthy, T. & Mallon, D. Snow Leopards. Amsterdam, Boston, Heidelberg, London, New York: Academic Press. pp. 3–11. ISBN 9780128024966 
  15. Kitchener, A. C.; Breitenmoser-Würsten, C.; Eizirik, E.; Gentry, A.; Werdelin, L.; Wilting, A.; Yamaguchi, N.; Abramov, A. V.; Christiansen, P.; Driscoll, C.; Duckworth, J. W.; Johnson, W.; Luo, S.-J.; Meijaard, E.; O’Donoghue, P.; Sanderson, J.; Seymour, K.; Bruford, M.; Groves, C.; Hoffmann, M.; Nowell, K.; Timmons, Z. & Tobe, S. (2017). «A revised taxonomy of the Felidae: The final report of the Cat Classification Task Force of the IUCN Cat Specialist Group» (PDF). Cat News (Special Issue 11): 69 
  16. Janecka, J. E.; Zhang, Y.; Li, D.; Munkhtsog, B.; Bayaraa, M.; Galsandorj, N.; Wangchuk, T. R.; Karmacharya, D.; Li, J.; Lu, Z. & Uulu, K. Z. (2017). «Range-Wide Snow Leopard Phylogeography Supports Three Subspecies». Journal of Heredity. 108 (6): 597−607. PMID 28498961. doi:10.1093/jhered/esx044 
  17. Werdelin, L.; Yamaguchi, N.; Johnson, W. E.; O'Brien, S. J. (2010). «Phylogeny and evolution of cats (Felidae)». In: Macdonald, D. W.; Loveridge, A. J. Biology and Conservation of Wild Felids. Oxford, UK: Oxford University Press. pp. 59–82. ISBN 978-0-19-923445-5 
  18. Tseng, Z. J.; Wang, X.; Slater, G. J.; Takeuchi, G. T.; Li, Q.; Liu, J.; Xie, G. (2014). «Himalayan fossils of the oldest known pantherine establish ancient origin of big cats». Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences. 281 (1774): 20132686. PMC 3843846Acessível livremente. PMID 24225466. doi:10.1098/rspb.2013.2686 
  19. Li, G.; Davis, B. W.; Eizirik, E.; Murphy, W. J. (2016). «Phylogenomic evidence for ancient hybridization in the genomes of living cats (Felidae)». Genome Research. 26 (1): 1–11. PMC 4691742Acessível livremente. PMID 26518481. doi:10.1101/gr.186668.114 
  20. Características físicas(em inglês)
  21. a b «Boas notícias para duas espécies raras de leopardo». Scientific American Brasil. 27 de julho de 2011. Consultado em 27 de julho de 2011. [...] os esquivos leopardos-das-neves, que vivem no Afeganistão e também são alvo constante de caça clandestina. Pesquisas da Wildlife Conservation Society, ou WCS, descobriram uma população surpreendentemente saudável de raros leopardos-das-neves vivendo nos limites montanhosos do Corredor Wakhan, no nordeste do Afeganistão”. [...] “Trata-se de uma descoberta maravilhosa – demonstra que há esperança real para os leopardos-das-neves no Afeganistão”, conta Peter Zahler, vice-diretor do Programa da WCS. “Nosso objetivo agora é assegurar que esses magníficos animais tenham seu futuro garantido como parte primordial da herança da natureza no Afeganistão.” É difícil quantificar a população de leopardos da neve, porque o animal vive em regiões muito remotas, mas as estimativas variam de 4.500 a 7.500 animais espalhados de um lado a outro do Afeganistão e em 11 países vizinhos. O leopardo-das-neves estava entre os primeiros animais protegidos em conformidade com a lista de espécies ameaçadas do Afeganistão quando ela foi criada, em 2009. 

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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