Batalha de Tarawa

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Batalha de Tarawa
Guerra do Pacífico
Marines storm Tarawa.jpg
Data 20-23 de novembro de 1943
Local Atol de Tarawa, Ilhas Gilbert, Kiribati
Desfecho Vitória dos Estados Unidos
Combatentes
US flag 48 stars.svg Estados Unidos  Japão
Comandantes
US flag 48 stars.svg Julian C. Smith Japão Keiji Shibazaki  
Forças
35 mil soldados 3.000 soldados,
1.000 trabalhadores japoneses e 1.200 trabalhadores coreanos
Baixas
Fuzileiros americanos:
1.000 mortos
2.296 feridos
Marinha americana:
687 mortos
5.000 mortos (apenas 146 sobreviventes)
17 trabalhadores japoneses e 129 trabalhadores coreanos capturados

A Batalha de Tarawa ou de Taraua aconteceu durante a Guerra do Pacífico, na Segunda Guerra Mundial, entre 20 e 23 de novembro de 1943. Foi a segunda grande ação ofensiva terrestre dos Estados Unidos na guerra — após a Batalha de Guadalcanal e a subsequente retomada das Ilhas Salomão - e a primeira na região central do teatro do Oceano Pacífico.

Como todas as batalhas travadas entre Japoneses e Norte-Americanos, enfrentaram grande resistência japonesa. Os 4500 japoneses entrincheirados no atol, bem armados e preparados, lutaram praticamente até o último homem, causando mais de 3100 baixas aos americanos, o maior proporcionalmente ao total de soldados envolvidos, de toda a guerra.

Tarawa[editar | editar código-fonte]

Tarawa situa-se a 3.800 km a sudoeste de Pearl Harbor, 1.800Km a sudoeste de Truk, que era o principal baluarte japonês do Pacífico Central. O valor estratégico de Tarawa em 1943, resumia-se em sua localização. O QG da guarnição japonesa e local do único aeródromo existe naquele grupo de ilhas. Ao norte e a oeste havia bases japonesas nas Ilhas Marshall e das Carolinas, ao sul e leste estavam as ilhas dominadas pelo aliados, que guarneciam a linha vital de suprimentos que ia do Havai e Estados Unidos até o Pacífico Sul, Nova Zelândia e Austrália.[1] De maneira a conseguir bases em terra para apoio aéreo das operações aliadas no Pacífico central, nas Filipinas e contra o próprio território japonês, após as vitórias em Guadalcanal e outras ilhas das Ilhas Salomão, os Estados Unidos precisavam recuperar as Ilhas Marianas, ocupadas pelo exército japonês desde antes da guerra. Estas ilhas estavam fortemente defendidas e para que os ataques contra elas fossem bem sucedidos, seria necessário um apoio preparatório de bombardeios aéreos para diminuir a resistência e o poder de fogo local antes da ofensiva terrestre.

A terra mais próxima das Marianas, de onde poderiam partir estes aviões, eram as Ilhas Marshall, a nordeste de Guadalcanal. Caso este arquipélago fosse conquistado, seria mais fácil um assalto frontal às Marianas, mas as comunicações entre as Marshall e o Havaí estavam sendo cortadas e monitoradas pela guarnição japonesa instalada na pequena ilha de Betio, no lado oeste do atol de Tarawa, nas Ilhas Gilbert. Assim, para que a invasão das Marianas fosse possível, a ofensiva Aliada teria que começar mais a leste, em Tarawa.

Localização de Betio (sudoeste) no atol de Tarawa.

Os japoneses tinham bastante consciência de importância estratégica das Gilbert na guerra e tinham gastado bastante tempo e esforços na fortificação das ilhas. Tarawa estava ocupada por uma tropa de mais de quatro mil soldados da elite do corpo de fuzileiros navais japonês, tanques, canhões antiaéreos, sapadores e engenheiros do exército. Trincheiras ligavam todos os pontos da ilha, permitindo a movimentação de soldados rapidamente para qualquer ponto de defesa ameaçado e o comandante da guarnição, contra-almirante Keiji Shibazaki, proclamava que seriam necessários "um milhão de homens e cem anos para que Tarawa fosse conquistada".

A ilha de Betio tem a forma de um longo e fino triângulo.A lagoa do atol fica na parte nordeste da ilha, e todo o litoral norte se estende pelas águas protegidas pela barreira de recifes do atol, enquanto o lados sul e oeste são margeados pelas águas profundas e revoltas do mar aberto. Um ataque quase certamente teria que ser realizado pela região da lagoa; para impedir isto, os japoneses ergueram um muro cruzando toda a lagoa e por trás dele instalaram dezenas de ninhos de metralhadoras. Um longo pier foi construído na ilha, permitindo que navios cargueiros pudessem ser descarregados fora da barra de recifes, em águas mais profundas, além de permitir que também ancorassem nas águas protegidas da lagoa.

A invasão[editar | editar código-fonte]

A força de invasão norte-americana era a maior, até aquele momento da guerra, a ser posta em operação contra um único objetivo. Faziam parte dela 17 porta-aviões, 12 encouraçados, 12 cruzadores, 66 destróieres e 36 navios de transporte, que carregavam cerca de 35 000 soldados da 2.ª Divisão dos Marines e da 27.ª Divisão de Infantaria do Exército.

As forças navais abriram fogo sobre Tarawa em 20 de novembro de 1943, despejando projéteis de alto calibre sobre a ilha por cerca de uma hora e meia, causando a destruição da maioria dos canhões japoneses de defesa do atol. Com uma largura de apenas algumas centenas de metros em alguns pontos, a ilha foi transformada numa paisagem lunar, antes mesmo que qualquer soldado americano pisasse nela. No começo da invasão terrestre, imaginava-se que após o bombardeio não haveria mais ninguém vivo em terra em condições de defendê-la. Nos próximos três dias mais de mil americanos mortos comprovariam o engano.

A batalha[editar | editar código-fonte]

Os marines iniciaram o ataque, como previsto, contra a lagoa de Betio as 9:00 de 20 de novembro, encontrando-se logo presos a uma barreira de recifes, devido à baixa da maré, que os planejadores da ação acreditavam estaria alta a estas horas. Ali, em dificuldades para transpô-la, receberam uma chuva de metralhadora dos japoneses — devidamente protegidos sob a terra durante o bombardeio naval — que causou as primeiras dezenas de mortes. Os primeiros barcos de assalto a atingi-la foram imediatamente pulverizados.

Restos de um tanque nas praias.

As tropas desceram dos barcos onde estavam sendo dizimadas e com água pelo pescoço avançaram para a praia sob o fogo da metralha. Alguns tratores anfíbios blindados conseguiram com dificuldade transpor a barreira de recifes, mas a maioria foi atingida e posta fora de ação pelo fogo japonês. Poucos deles alcançaram as praias até o fim do dia, onde desembarcaram um número muito pequeno de homens, que ficaram espremidos contra o muro de contenção da lagoa.

No outro lado da praia de desembarque, os tanques que conseguiam chegar à terra eram destruídos por fogo pesado ou por minas magnéticas escondidas na areia. No fim da tarde, reforços começaram a atingir Betio, permitindo que as primeiras levas de soldados se estabelecessem nas praias, sem, entretanto, conseguirem quebrar a primeira linha de defesa japonesa.

No segundo dia de batalha, na impossibilidade de ataque de certas unidades sem a perda considerável de efetivos, os comandantes em terra pediram novo ataque naval a Betio, que resultou na destruição das últimas armas pesadas japonesas do cinturão interior de defesa da ilha, permitindo que os invasores chegassem às proximidades do aeroporto. Ao fim do dia, com pesadas baixas, os fuzileiros havia tomado todo o lado oeste de Betio. A morte, em seu posto de comando, do almirante Keiji, serviu para dificultar ainda mais a comunicação na cadeia de comando japonesa.

Lança-chamas em ação em Tarawa

A batalha no terceiro dia, 22 de novembro, consistiu principalmente na consolidação da linha de frente conseguida pelos americanos e nos esforços japoneses para rechaçá-los. Os americanos fizeram algum progresso territorial com algumas baixas, até que novo reforço de batalhões de marines fez com que conseguissem passar à ofensiva, atingindo o lado leste do aeroporto e perseguindo os japoneses sobreviventes. Ao cair da noite, a resistência japonesa resumia-se a bolsões de homens lutando entre os dois lados da ilha ocupados pelas tropas americanas. Durante a noite, reorganizados, os japoneses preparam um contra-ataque, desmantelado pelo fogo pesado da artilharia desembarcada.

A madrugada do quarto dia de combates assistiria ao último e desesperado ato japonês de conter a invasão, apesar de mais da metade do atol já se encontrar em mãos americanas. Um grande contingente de soldados arremeteu contra as linhas americanas e ao fim do combate, cerca de 300 corpos jaziam no solo, a maioria deles abatido por fogo de artilharia.

Nos dias seguintes, as tropas americanas destruíram o resto da resistência na ilhota vizinha de Bairiki, para onde os sobreviventes tinham escapado e ainda lutavam.

Baixas[editar | editar código-fonte]

Defesa de Tarawa

Ao fim dos combates em Tarawa, apenas 1 oficial, 16 soldados e 129 trabalhadores escravos coreanos se renderam aos americanos, de um total de mais de 4500 soldados que defendiam a ilha no início da invasão, todos mortos num combate até o último homem.

Entre as tropas americanas, 1001 mortos e 2296 feridos apenas entre os marines, atestam a violência dos combates e a resistência desesperada dos defensores. As forças dos Estados Unidos eram sete vezes maiores e mesmo assim os japoneses foram capazes de infligir um alto grau de perda em vidas entre os invasores, o que não esperado pelos comandantes da ação.

As perdas em Tarawa causaram grande reação entre a opinião pública americana, que não entendia como tantos soldados morreram apenas para conseguir conquistar uma pequena ilha no meio do nada no Oceano Pacífico, o que mostrava as dificuldades que os Aliados teriam pela frente em sua missão de derrotar o Japão.

Corpos de soldados americanos mortos numa praia de Tarawa.

Anos mais tarde o General Holland Smith (Holland McTyeire "Howlin' Mad" Smith ) em seu livro publicado em 1949, "Coral and Brass", afirmou que Tarawa "...foi um erro, que Betio era uma ilha muito pequena para ser alvo de um ataque frontal, que havia necessidade de maior apoio naval e de bombardeio, que era essencial uma melhor cooperação destas fontes." Mas baseado neste contexto, a doutrina dos Fuzileiros Navais sobre um assalto anfíbio resistiu a prova. Anos mais tarde, os historiadores da Seção de História do Corpo de Fuzileiros Navais escreveriam:

"Tinha de haver uma Tarawa, era inevitável que isto ocorresse no momento em que a doutrina não submetida a testes, enfrentasse uma prova de vulto no campo de batalha. Um preço muito alto por uns poucos metros de coral". Mas muitos ensinamentos proveram desta batalha, por exemplo: os rádios, que deixaram de funcionar em Tarawa devido a imersão em água salgada, passaram a ser fabricados à prova de água, melhoraram-se as comunicações navio-navio e navio-embarcações. Os homens-rãs, nasceram realmente em Tarawa; mais tarde, treinados para remoção de obstáculos de praia e reconhecimento de áreas de desembarque, as equipes e demolições submarina, se tornariam parte integrante da técnica anfíbia. Outras doutrinas foram criadas, baseadas neste assalto, principalmente na gestão de suprimentos.

Os assaltos contra as Marianas (Ilhas Marianas), Palau e Iwo Jima só não foram mais dispendiosos em vidas humanas, caso não tivessem aproveitados os ensinamentos colhidos em Tarawa. As grandes perdas, causadas por uma resistência desesperada e pela dificuldade de coordenação das operações anfíbias combinadas na ilha, serviriam de grande lição e experiência aos americanos, que delas se utilizariam mais tarde, no desembarque em outros atóis do Pacífico e principalmente dois anos depois, nos planejamentos para a Batalha de Iwo Jima.

Referências

  1. Henry I. Shaw - Tarawa - Nasce uma legenda, Editora Renes,1978
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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Baldwin, Hanson. Batalhas Ganhas e Perdidas, Bibliex - 1978
  • Henry I. Shaw - Tarawa - Nasce uma legenda, Editora Renes,1978
  • François D'Orcival - Os Marines, Editora Ulisseia Ltda- 1974
  • Coleção 70º Aniversário da 2ª Guerra Mundial- Abril Coleções (2009), Fasc. 15- Pag. 101 a 127.