Polinizador

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Uma mosca sirfídea (Eristalinus taeniops) polinizando uma flor de Hieracium sp.

Polinizador é um vetor animal - fator biótico - responsável pela transferência de pólen das anteras de uma flor masculina para o estigma de flores femininas, acidentalmente ou não, permitindo que aconteça a união do gameta masculino presente no grão de pólen com o gameta feminino do óvulo, processo conhecido como fecundação ou singamia. A consequência esperada é a produção de semente(s) fértil(eis).

A polinização realizada por vetor biótico, biofilia, é responsável por 80% de todos os tipos de polinização [1] , sendo muito importante para a agricultura e a biodiversidade.

Algumas espécies de plantas são generalistas, ou seja, apresentam flores preparadas para ser polinizadas por qualquer tipo de animal, assim como há animais capazes de recolher recursos da maior parte das flores. Mas a relação entre polinizadores e plantas pode alcançar níveis de especificidade surpreendentes. Relações muito específicas podem ser observadas em figueiras e orquídeas. O processo de polinização é, normalmente, acidental, resultado da movimentação do animal sobre a flor liberando o pólen sobre seu corpo.

Síndrome Floral[editar | editar código-fonte]

As plantas possuem características próprias que indicam o tipo de polinizador que atraem, conhecidas como Síndrome floral [2] :

Por exemplo, os pássaros visitam flores vermelhas com longos tubos estreitos e muito néctar, mas não são tão fortemente atraídos por flores largas, com pouco néctar e pólen, que são mais atraentes aos besouros. Quando essas características são alteradas experimentalmente, alterando cor, tamanho, orientação, a visitação dos polinizadores pode diminuir [3] [4] .

Tipos de Polinizadores[editar | editar código-fonte]

Abelha do gênero Lipotriches sp. polinizando flores.

A vasta maioria dos polinizadores pertence a um dos quatro maiores grupos de insetos: Hymenoptera (abelhas, vespas e formigas), Diptera (moscas e mosquitos), Lepidoptera (borboletas e mariposas) e Coleoptera (besouros); mas alguns insetos polinizadores pertencem a outras ordens. Finalmente, há vários pássaros, mamíferos que atuam como polinizadores, especialmente em regiões tropicais e até alguns répteis [5] e moluscos [6] .

Os seres humanos também são polinizadores em alguns casos de necessidade de intervenção humana para produção de, por exemplo, cucurbitáceas.

Abelhas[editar | editar código-fonte]

Os polinizadores mais reconhecidos são as várias espécies de abelhas, que são claramente adaptadas à polinização. As Abelhas são dispersores típicos e carregam carga eletrostática; ambos os recursos ajudam os grãos de pólen aderirem aos seus corpos. Além disso, possuem estruturas especializadas em transportar pólen que, na maioria das abelhas, assume a forma conhecida como escopa, que fica por trás da perna da maioria das abelhas e/ou no abdômen inferior (por exemplo, da família Megachilidae, composto de cerdas plumosas e espessas. Abelhas melíferas, zangões e outros componentes da colmeia não possuem escopa, mas a perna é alterada em uma estrutura chamada de corbícula, também conhecida como "Cesta de Pólen". A maioria das abelhas reúne néctar, fonte de energia concentrada, e pólen, grande fonte de proteínas, para alimentar suas larvas e, sem saber, transferir alguns entre as flores que estão trabalhando. Como as abelhas precisam de uma abundante e constante de pólen, às vezes concorrem com a fecundação das plantas, levando-as a desenvolverem uma grande adaptação morfológica ou química para impedir que as abelhas esgotem todo o pólen [7] . Na cultura do maracujá, as mamangabas são abelhas de vital importância para a produção de frutos [8] .

Vespa da espécie Ancistrocerus antilope.

Vespas[editar | editar código-fonte]

A diferença das larvas das abelhas com as das vespas, é porque estas últimas se alimentam principalmente de insetos e/ou aranhas. Contudo, as vespas também visitam muitas flores para sugar o néctar pelo seu valor energético, tanto as parasitas como as "verdadeiras" vespas como as das famílias Sphecidae e Vespidae. Há alguns exemplos de coadaptação, como as vespas especializadas que visitam as orquídeas do gênero Ophrys e aquelas em que a pequena fêmea penetra em um pequeno figo, cujo interior se encontram numerosas e diminutas flores, põe seus ovos em algumas das futuras sementes e visita ao outros frutos depositando o pólen trazido das já visitadas.

Formigas[editar | editar código-fonte]

Formigas em flor de Maracujá.
  • As formigas são insetos sociais que vivem em colônias; visitam flores frequentemente e sugam néctar. Porém muito poucas são polinizadoras; as operárias não têm asas para ir mais longe e raramente visitam plantas diferentes, somente em alguns casos de plantas rasteiras, como algumas euforbiáceas, para realizar a polinização cruzada.

Moscas[editar | editar código-fonte]

Mosca das Flores (Eristalinus aeneus).

Há muitas moscas e mosquitos que são polinizadores, especialmente as moscas da família Syrphidae. Visitam flores com a corola aberta, principalmente pelo néctar, mas também pelo pólen, com destauqe as fêmeas que precisam de proteína para a maturação de seus ovos. Não são bem adaptadas à polinização como as abelhas, nem tão velozes e com órgãos específicos para o transporte, mas conseguem polinizar em alguns casos. As moscas das famílias Empididae e Bombyliidae, especialmente estas últimas, têm uma longa probóscide que as permite chegar ao néctar de flores tubulares e profundas, sendo importantes polinizadoras de tais flores. Certas plantas estão adaptadas exclusivamente à polinização por moscas, atraindo-as com mutualismo, pois exalam odores e têm cor e aparência de carne podre, neste caso, Mosca-varejeira. Há outras flores que exalam cheiro de fungos, atraindo outro tipo de moscas. As flores do cacau são polinizadas por pequenas moscas da família Ceratopogonidae. Algumas moscas macho do gênero Bactrocera são polinizadores exclusivos de algumas orquídeas do gênero Bulbophyllum, que contêm um atrativo químico específico em sua fragância floral [9] [10] .

Borboletas e Mariposas[editar | editar código-fonte]

Borboleta em uma Verbenaceae.

Muitos lepidópteros são polinizadores, em geral, de flores tubulares, que são adaptadas ao aparato bucal dos mesmos. Seus órgãos bucais formam um longo tubo especializado para sugar o néctar das flores, haja vista que os indivíduos adultos não podem comer alimentos sólidos. Somente umas poucas espécies de mariposas podem também se alimentar de pólen, mas somente depois de dissolver seus nutrientes com o néctar e absorvê-los como líquidos. Algumas mariposas diurnas polinizam flores de plantas como Lonicera e Syringa. As mariposas noturnas polinizam flores que se abrem à noite, ao entardecer ou ao amanhecer, como plantas das famílias Convolvulaceae e Caryophyllaceae. As famílias de mariposas noturnas Noctuidae, Geometridae e Sphingidade contém muitas espécies polinizadoras. Espécies de mariposa, por exemplo a Tegeticula maculata, depositam deliberadamente grãos de pólen sobre o estigma das flores de Yucca para que, após a eclosão dos ovos no interior do ovário, suas larvas se alimentam das sementes do fruto [11] .

Besouros[editar | editar código-fonte]

Besouro Asclera ruficollis cheio de pólen.

Os besouros estão menos adaptados à polinizaçãodo que outros insetos, pois suas peças bucais são mastigatórias e não são adequadas para sugar néctar. Contudo, são importantes polinizadores de certas plantas, especialmente em regiões tropicais ou de clima quente e árido. às vezes, causam grandes danos às flores quando a visitam, porém óvulos de flores polinizadas por besouros são bem protegidos. Entre as plantas polinizadas por besouros estão as papoulas, magnólias e os nenúfares.

Outros insetos[editar | editar código-fonte]

Outras ordens de insetos, por exemplo Thysanoptera (tripes), também polinizam flores, mas o fazem muito raramente.

Beija-Flor da espécie Phaethornis longirostris em um Bastão-do-Imperador.

Moluscos[editar | editar código-fonte]

Conhecida como malacofilia, há polinização por vários tipos de lesmas que, ao comerem os estigmas o pólen adere ao seu corpo [12] .

Aves[editar | editar código-fonte]

Entre as aves, os polinizadores mais comuns, principalmente na América Tropical, são os beija-flores, cujos bicos e línguas estão adaptados a beber o néctar das flores tubulares ou em forma de trombeta. Os melífagos da Austrália e Nova Zelândia e os pássaros-sol da África também são polinizadores.

Morcego nectarívoro da espécie Lichonycteris obscura.

Mamíferos[editar | editar código-fonte]

Os morcegos [13] são polinizadores de algumas flores que se abrem à noite, têm um forte aroma e produzem néctar abundante, por exemplo, muitos tipos de cactoss, paineiras e outras. Os morcegos mais especilizados em se alimentar de néctar geralmente têm poucos dentes e algumas espécies possuem uma língua extremamente comprida, o que ajuda a alcançar o fundo dos tubos florais [14] . Algumas plantas especializadas na polinização por morcegos têm até mesmo estruturas florais que ajudam na sua detecção através de ultrassons [15] . Outros mamíferos, tais como lêmures, macacos, marsupiais, répteis [16] e alguns roedores visitam flores e realizam polinização, todos na maior parte das vezes atraídos por algum recurso nutriticional disponível pelas flores.

Declínio Populacional e Conservação[editar | editar código-fonte]

Em outubro de 1998, o Ministério do Meio Ambiente do Brasil organizou na cidade de São Paulo um workshop internacional para propor as bases de uma iniciativa internacional sobre os Polinizadores e sua importância no apoio e manutenção da produtividade terrestre, assim como os desafios que enfrentam devido às alterações antrópicas [17] . Em 1999 a Convenção sobre Diversidade Biológica ratificou o documento deste workshop, a Declaração de São Paulo sobre Polinizadores. Por exemplo, o cafeeiro não depende de polinizadores naturais, mas a produção dos cafezais cercados de mata com abelhas nativas aumentou 15% em comparação com a de cultivados em áreas abertas, na Zona da Mata, de acordo com um estudo da Universidade Federal de Viçosa [18] . Também sabe-se que, estufas para produção de morangos com a presença de abelhas das espécies S. depilis e N. testaceicornis contribuem para o aumento de peso e para boa formação dos frutos [19] .

No Cerrado a manutenção do fluxo gênico entre espécies da flora depende da riqueza de polinizadores, assim como de dispersores de sementes [20] .

Galeria de Polinizadores[editar | editar código-fonte]

Veja também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Sílvia Castro (03 de maio de 2010). Biologia da Polinização: To bee or not to bee? Biologia I (II) Universidade de Coimbra. Visitado em 30 de outubro de 2011.
  2. Fægri, K. and L. van der Pijl. 1979. The principles of pollination ecology. Oxford: Pergamon.
  3. Fulton M, Hodges SA. 1999. Floral isolation between Aquilegia formosa and A. pubescens. Proceedings of the Royal Society of London, Series B 266: 2247–2252.
  4. Hodges SA, Whittall JB, Fulton M, Yang JY. 2002. Genetics of floral traits influencing reproductive isolation between Aquilegia formosa and A. pubescens. American Naturalist 159: S51–S60.
  5. Scott Norris (23 de abril de 2007). Gecko Pollinators Help "Save" Rare Flower National Geographic News National Geographic. Visitado em 30 de outubro de 2011.
  6. Čepička, I., Kolář, F., Synek, P. (2007): Mutualismus, vzájemně prospěšná symbióza. Přípravný text - biologická olympiáda 2007-2008, NIDM ČR, Praha
  7. Fernando Hirschy (adaptado) (09 de março de 2011). Flores usam pólen contra abelhas gananciosas Notícias Agrosoft Brasil. Visitado em 30 de outubro de 2011.
  8. SEAGRI-BA. Cultura - Maracujá Produtos Secretaria de Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária do Estado da Bahia. Visitado em 30 de outubro de 2011.
  9. Tan, K.H.& R. Nishida. 2005. Synomone or Kairomone? - Bulbophyllum apertum (Orchidaceae) flower releases raspberry ketone to attract Bactrocera fruit flies. Journal of Chemical Ecology. 31(3): 509-519.
  10. Tan, K.H.& R. Nishida. 2007. Zingerone in the floral synomone of Bulbophyllum baileyi (Orchidaceae) attracts Bactrocera fruit flies during pollination. Biochemical Systematics & Ecology 35: 334-341.
  11. Raquel Patro. Iuca-mansa (Yucca filamentosa) Listão de Plantas Jardineiro.net. Visitado em 30 de outubro de 2011.
  12. Čepička, I., Kolář, F., Synek, P. (2007): Mutualismus, vzájemně prospěšná symbióza. Přípravný text - biologická olympiáda 2007-2008, NIDM ČR, Praha
  13. Dobat K, Holle TP. 1985. Blüten und Fledermäuse: Bestäubung durch Fledermäuse und Flughunde (Chiropterophilie). Frankfurt am Main: W. Kramer & Co. Druckerei.
  14. Muchhala N. 2006. Nectar bat stows huge tongue in its rib cage. Nature 444:701-702.
  15. Simon R, Holderied MW, Koch CU, von Helversen O. 2011. Floral Acoustics: Conspicuous Echoes of a Dish-Shaped Leaf Attract Bat Pollinators. Science 333(6042):631-633.
  16. Olesen, J. M. & A. Valido. 2003. Lizards as pollinators and seed dispersers: an island phenomenon. Trends in Ecology and Evolution 18: 177-181.
  17. Breno Magalhães Freitas (30 de outubro de 2004). ALÉM DA APICULTURA E DO MEL – O BRASIL DESCOBRE AS ABELHAS E A POLINIZAÇÃO Sapiência nº. 03, ano II FAPEPI. Visitado em 30 de outubro de 2011.
  18. Carlos Fioravanti (maio de 2010). As asas dos alimentos Ciência Pesquisa FAPESP On-line. Visitado em 30 de outubro de 2011.
  19. Malagodi-Braga et al. (novembro de 2004). Abelhas sem ferrão e Polinização Resúmenes II Encuentro Colombiano sobre Abejas Silvestres. Visitado em 30 de outubro de 2011.
  20. Biologia Reprodutiva de Plantas Herbáceo-Arbustivas de uma Área de Campo Sujo de Cerrado. Ana Angélica Almeida Barbosa e Marlies Sazima, in:Cerrado. Ecologia e Flora. EMBRAPA 2008, págs. 291-318

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Sprengel, C K. Das entdeckte Geheimnis der Natur im Bau und in der Befruchtung der Blumen. Berlin, 1793.
  • Fægri, K, and L. van der Pijl. The Principles of Pollination Ecology. New York: Pergamon Press, 1979.
  • Percival, Mary S. Floral Biology. New York: Pergamon Press, 1965.
  • Real, Leslie. Pollination Biology. New York: Academic Press, 1983.
  • Sihag, R.C. Pollination Biology: Environmental Factors and Pollination. Hisar: Rajendra Scientific Publishers,1995.
  • Sihag, R.C. Pollination Biology: Pollination, Plant Reproduction and Crop Seed Production. Hisar: Rajendra Scientific Publishers, 1995.
  • Sihag, R.C. Pollination Biology: Basic and Applied Principles. Hisar: Rajendra Scientific Publishers, 1997.
  • Barth, F. (1985) Insects and Flowers. The Biology of a Partnership. Princeton University Press. Princeton, NJ. ISBN 0-691-08368-1
  • Faegri, K. and L van der Pijl (1979) The principles of pollination ecology. Pergamon Press: Oxford. ISBN 0-08-021338-3
  • Meeuse, B. & Morris, S. (1984) The Sex Life of Flowers. The Rainbird Publishing Group ltd. London. ISBN 0-87196-907-6
  • Proctor, M., Yeo, P. & Lack, A. (1996). The Natural History of Pollination. Timber Press, Portland, OR. ISBN 0-88192-352-4
  • Almeida Barbosa, A. A. & Sazima, M. (2008). Biologia Reprodutiva de Plantas Herbáceo-Arbustivas de uma Área de Campo Sujo de Cerrado, in:CERRADO. Ecologia e Flora, volume 1. EMBRAPA, Brasília, DF. ISBN 978-85-7383-397-3

Ligações externas[editar | editar código-fonte]