Mitologia guarani

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A mitologia tupi-guarani é o conjunto de narrativas sobre os deuses e espíritos dos diversos povos tupi-guaranis, antigos e atuais.[1] Juntamente com as cosmogonias (narrativas de criação do universo), as antropogonias (sobre a criação da humanidade) e os rituais, é parte das religiões destes povos.[2]

Cosmogonia: mito da criação[editar | editar código-fonte]

A figura primária na maioria das lendas guaranis da criação é Iamandu (ou Nhanderuvuçu ou Tupã), o Deus trovão e realizador de toda a criação. Com a ajuda da deusa lua Jaci (ou Araci), Tupã desceu à Terra num lugar descrito como um monte na região do Areguá, no Paraguai, e, deste local, criou tudo sobre a face da Terra, incluindo o oceano, florestas e animais. Também as estrelas foram colocadas no céu nesse momento.

Tupã, então, criou a humanidade (de acordo com a maioria dos mitos guaranis, eles foram, naturalmente, a primeira raça criada, com todas as outras civilizações nascidas deles) em uma cerimônia elaborada, formando estátuas de argila do homem e da mulher com uma mistura de vários elementos da natureza. Depois de soprar vida nas formas humanas, deixou-os com os espíritos do bem e do mal e partiu.

Antropogonia: primeiros humanos[editar | editar código-fonte]

Os humanos originais criados por Tupã eram Rupave e Sypave, nomes que significam "Pai dos povos" e "Mãe dos povos", respectivamente. O par teve três filhos e um grande número de filhas. O primeiro dos filhos foi Tumé Arandú, considerado o mais sábio dos homens e o grande profeta do povo guarani. O segundo filho foi Marangatu, um líder generoso e benevolente do seu povo, e pai de Kerana, a mãe dos sete monstros legendários do mito guarani. Seu terceiro filho foi Japeusá, que foi, desde o nascimento, considerado um mentiroso, ladrão e trapaceiro, sempre fazendo tudo ao contrário para confundir as pessoas e tirar vantagem delas. Ele, finalmente, cometeu suicídio, afogando-se, mas foi ressuscitado como um caranguejo, e, desde então, todos os caranguejos foram amaldiçoados para andar para trás como Japeusá.

Entre as filhas de Rupave e Sypave, estava Porâsý, notável por sacrificar sua própria vida para livrar o mundo de um dos sete monstros lendários, diminuindo seu poder (e portanto o poder do mal como um todo).

Crê-se que vários dos primeiros humanos ascenderam em suas mortes e se tornaram entidades menores.

Mitologia[editar | editar código-fonte]

Os sete monstros lendários[editar | editar código-fonte]

Pombero

Kerana, a bela filha de Marangatu, foi capturada pela personificação ou espírito do mau chamado Tau (em tupi antigo, Taúba ou Taubymana).[3] Juntos, eles tiveram sete filhos, que foram amaldiçoados pela grande deusa Arasy, e todos, exceto um, nasceram como monstros horríveis.

Os sete são considerados figuras primárias na mitologia guarani e, enquanto vários dos deuses menores ou até os humanos originais são esquecidos na tradição verbal de algumas áreas, estes sete são geralmente mantidos nas lendas. Alguns são considerados reais até mesmo em tempos modernos, em áreas rurais ou regiões indígenas. Os sete filhos de Tau e Kerana são, em ordem de nascimento:[4]

  • Teju Jagua, deus ou espírito das cavernas e frutas
  • Mboi Tu'i, deus dos cursos de água e criaturas aquáticas
  • Moñai, deus dos campos abertos. Foi derrotado pelo sacrifício de Porâsý
  • Jaci Jaterê, deus da sesta, único dos sete que não aparece como monstro
  • Kurupi, deus da sexualidade e fertilidade
  • Ao Ao, deus dos montes e montanhas
  • Luison, deus da morte e tudo relacionado a ela

Outros deuses ou figuras importantes[editar | editar código-fonte]

Religiões de outros povos[editar | editar código-fonte]

Entre os outros povos indígenas do Brasil, existem diversas outras mitologias e cosmogonias, características de cada povo, embora certos elementos sejam recorrentes entre elas:[22] mitologia dos jês,[23] dos tucanos,[24] dos caribes,[25] dos tupi-guarani antigos e atuais,[26] dos kainguangues,[27] dos bororos,[28] dos carajás,[29] dos arawak,[30] etc.

Commons
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Referências

  1. Lopes (1994), p. 80; Grasso (1980), p. 145.
  2. Grasso (1980), p. 29, 145.
  3. Navarro (2013), p. 468.
  4. Colmán (1937); Micó (1980).
  5. Ferreira (1986), p. 62.
  6. Navarro (2013), p. 531.
  7. Navarro (2013), p. 190.
  8. Munduruku (2005), p. 12.
  9. Navarro (2013), p. 254.
  10. Navarro (2013), p. 254.
  11. Navarro (2013), p. 254.
  12. Navarro (2013), p. 267.
  13. Cascudo (2012), p. 283.
  14. Navarro (2013), p. 302.
  15. Navarro (2013), p. 163.
  16. Munduruku (2005), p. 19.
  17. Wilkinson (2002), p. 104.
  18. Navarro (2013), p. 468.
  19. Navarro (2013), p. 468.
  20. Solari (2010), p. 52.
  21. Navarro (2013), p. 131.
  22. Lopes (1994), p. 75.
  23. Lopes (1994), p. 75; Grasso (1980), p. 114.
  24. Lopes (1994), p. 78.
  25. Lopes (1994), p. 79; Grasso (1980), p. 175.
  26. Lopes (1994), p. 80; Grasso (1980), p. 145.
  27. Grasso (1980), p. 101.
  28. Grasso (1980), p. 107.
  29. Grasso (1980), p. 129.
  30. Grasso (1980), p. 165.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Global, 2012. link. [1. ed., 1947.]
  • CLASTRES, Hélène. Terra sem mal, o profetismo tupi-guarani. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1978
  • COLMÁN, Narciso Ramón (Rosicrán). Nande Ypy Kuéra (Nuestros antepasados). San Lorenzo, Editorial Guaraní, 1937. [1. ed., 1929.] Internet Archive.
  • FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
  • GRASSO, Dick Edgar Ibarra. Cosmogonía y mitología indígena americana. Buenos Aires: Ed. Kier 1980. link.
  • LADEIRA, Maria Inês. O caminhar sob a luz: território mbya à beira do oceano. SP: UNESP, 2007 Google Livros.
  • LOPES, A. S. Mitos e cosmologias indígenas no Brasil: breve introdução. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (org.). Índios no Brasil. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto, 1994. link.
  • MÉTRAUX, Alfred. A religião dos tupinambás e suas relações com as das demais tribos tupi-guaranis. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1950. link.
  • MICÓ, Tomás L. Leyendas y mitos del Paraguay. Asunción: T.L Micó, 1980. link.
  • MUNDURUKU, D. Contos indígenas brasileiros. 2. ed. São Paulo: Global, 2005
  • NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013.
  • PISSOLATO, Elizabeth. A duração da pessoa: mobilidade, parentesco e xamanismo mbya (guarani). SP: UNESP; RJ: ISA, NuTI, 2007. Google Livros.
  • POPYGUÁ, Timóteo Verá Tupã. A terra uma só (Yvy Rupa). São Paulo: Hedra, 2016
  • SOLARI, P. Ymaguaré Mokôi po ha mbohapy. 2. ed. Paraty: Associação Artítico Cultural Nhandeva, 2010.
  • WILKINSON, P. O livro ilustrado da mitologia: lendas e história fabulosas sobre grandes heróis e deuses do mundo inteiro. 2. ed. Tradução de Beth Vieira. São Paulo: Publifolha, 2002

Ver também[editar | editar código-fonte]