Samaritanos

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Samaritanos no monte Gerizim

Os samaritanos são um pequeno grupo étnico-religioso aparentado aos judeus que habita nas cidades de Holon e Nablus situadas em Israel. Designam-se a si próprios como Shamerim o que significa "os observantes" (da Lei); desde há alguns anos os samaritanos tem vindo igualmente a usar o termo "israelita-samaritanos". Em hebraico moderno, os samaritanos são designados de שומרונים , os de Shomron, ou seja, os da Samaria.

A religião dos samaritanos baseia-se no Pentateuco, tal como o judaísmo. Contudo, ao contrário deste, o samaritanismo rejeita a importância religiosa de Jerusalém. Os samaritanos não possuem rabinos e não aceitam o Talmud dos judeus.

Os samaritanos não se consideram judeus, mas descendentes dos antigos habitantes do antigo reino de Israel (ou reino da Samaria). Os judeus ortodoxos consideram-nos por sua vez descendentes de populações estrangeiras, que adoptaram uma versão adulterada da religião hebraica; como tal, recusam-se a reconhecê-los como judeus ou até mesmo como descendentes dos antigos israelitas. O Estado de Israel reconhece-os como judeus.

Hoje eles são mais de 750 [1] . Seu idioma de uso comum é o hebraico moderno e o árabe palestino, enquanto para atos litúrgicos utilizam o hebraico samaritano.

Origem dos samaritanos[editar | editar código-fonte]

Por volta de 1000 a.C., os israelitas viviam nas terras altas situadas a oeste do rio Jordão, assim como numa área situada um pouco a leste deste rio, no actual território da Jordânia. Segundo a Bíblia, os israelitas dividiam-se em doze tribos, que alimentavam rivalidades mais ou menos intensas umas com as outras.

Ainda de acordo com a Bíblia, estas tribos teriam sido unificadas em cerca de 1000 a.C pelo rei Saul, que foi sucedido por David; este foi por sua vez sucedido pelo seu filho Salomão[2] .

Depois da morte de Salomão, em cerca de 930 a.C., dez tribos do norte separaram-se e formaram o reino de Israel, também conhecido como reino da Samaria, devido ao nome da cidade que se tornou a sua capital no século IX a.C. Este reino tornou-se vizinho e por vezes rival do reino do Sul, o reino de Judá.

Os dois reinos[editar | editar código-fonte]

Mapa político do Próximo Oriente em 800 a.C.

O reino de Israel e o reino de Judá definiram-se um com relação ao outro. Embora fizessem parte da mesma comunidade, encontravam-se em disputa no domínio territorial, político e religioso.

Num contexto em que a religião e a política não estão separadas, o controle da religião é um aspecto importante do poder. Assim, cada reino fixou os seus próprios lugares de culto. O do reino de Iehudá foi instalado em Jerusalém, enquanto que os do reino de Israel situavam-se em diversos pontos, encontrando-se os mais importantes nas extremidades norte e sul do reino, em Betel e em Dan. Nos primeiros séculos esta diversidade de templos não representou um problema e não gerou qualquer tipo de cisma. Saliente-se que antes do ano 1000 a.C. não existiam locais de culto permanentes, como mostra a Bíblia (o profeta Samuel, por exemplo, era sacerdote no santuário de Silo). O fenómeno estava relacionado com a ausência de uma centralização do poder inerente à vida das tribos.

De acordo com a Bíblia, as tribos do reino de Israel tinham uma inclinação para o pecado. Sobre os seus templos lança-se a acusação de estarem abertos aos ritos pagãos e de não serem verdadeiramente israelitas. Não é possível provar a realidade destas acusações, que de qualquer forma demonstram uma hostilidade da malchut Iehudá para com o malchut Israel.

Em 722 a.C. a saber o rei Salmaneser, os asírios conquistaram o reino de Israel, que transformaram numa província do seu império. O reino de Judá aceitou submeter-se à soberania dos assírios como estado vassalo, tendo por isso sobrevivido mais algum tempo. Restabeleceu a sua independência durante o reinado de Josias, tendo sido destruído pelos babilónios e a sua população deportada em 586-587 a.C.

Perspectiva judaica ortodoxa[editar | editar código-fonte]

De acordo com o II Livro de Reis, que se pensa ter sido redigido em meados do século VI a.C. (pelo menos cento e cinquenta anos após os acontecimentos), a população do reino de Israel foi deportada para outras regiões do Império Assírio como castigo pelos seus pecados. De seguida, esta população teria misteriosamente desaparecido (as "Dez Tribos perdidas de Israel").

A Bíblia refere que povos estrangeiros foram transladados para habitar o território das populações deportadas. Estes estrangeiros teriam criado uma religião nova, que misturava elementos hebraicos e pagãos, e encontram-se na origem dos samaritanos[3] .

Perspectiva da História[editar | editar código-fonte]

Sargão II e um alto dignitário

Os arqueólogos recuperaram uma boa parte dos arquivos do Império Assírio. As crónicas assirias de Sargão II, o rei que venceu o reino de Israel, afirmam:

Cquote1.svg Cerquei e ocupei a cidade da Samaria, e levei comigo 27 280 dos seus habitantes como cativos. Tomei-lhes 50 carros, mas deixei-lhes o resto das suas coisas Cquote2.svg

Alguns tradutores não estão de acordo quanto ao significado exacto de "cidade de Samaria", considerando que o texto original não esclarece se se trata da cidade ou do Estado da Samaria.

Há no entanto um ponto em comum com o II Livro de Reis, a deportação dos Israelitas. Mas há também uma diferença importante: o número de deportados. Segundo o II Livro de Reis, toda ou quase toda a população foi deportada; segundo Sargão, foi apenas uma minoria. Os arqueólogos estimam que o reino da Samaria teria 200 000 pessoas, de acordo com as cidades e aldeias reencontradas. Sabe-se que ocorreu uma primeira deportação dez anos antes, quando o rei assírio Tiglat-Falasar III conquistou a Galileia. O total das duas deportações atinge cerca de 40 000 pessoas, ou seja apenas 20% do total dos habitantes, essencialmente a elite. Os historiadores acreditam que certos Israelitas do Norte teriam partido também como refugiados para o Reino de Juda.

A implantação de colonos estrangeiros é indicada várias vezes no resto do texto, mas a propósito de outras conquistas. Esta política de implantação era comum, e por conseguinte foi provavelmente também feita na Samaria, como o indica o II Livro de Reis. Na localidade de Gezer e nos seus arredores encontraram-se textos cuneiformes do século VII a.C. contendo nomes babilónicos. A transladação de populações estrangeiras na Samaria (pelo menos em certas zonas), encontra-se assim atestada. Contudo, a arqueologia revela que este repovoamento está longe de ter sido maciço. As cerâmicas, inscrições, aldeias, etc.... mostram uma continuidade com o período anterior. O Livro de Jeremias afirma que 150 anos após a queda do reino do Norte, os Israelitas do Norte apresentaram oferendas no templo de Jerusalém.

Perspectiva dos samaritanos[editar | editar código-fonte]

De acordo com o seu livro de Crónicas (Sefer ha-Yamim), os samaritanos consideram-se como descendentes das tribos de Efraim e de Manassés (duas tribos procedentes da Tribo de José) que viviam no reino de Israel antes da sua destruição em 722 a.C.. Esta visão está bastante próxima dos estudos da maior parte dos historiadores.

Os samaritanos afirmam ainda que foram os judeus a se separar deles quando da transferência da Arca da Aliança no século XI a.C.. De acordo com a segunda das suas sete crónicas, foi o profeta Elias a causar o cisma quando estabeleceu em Siló um santuário que visava substituir o santuário do Monte Gerizim.

Datação da ruptura[editar | editar código-fonte]

Ciro II e os hebreus. Iluminura de Jean Fouquet, c. de 1470-75

Em 586 a.C., o reino de Judá cai perante o inimigo, e uma parte da sua população é deportada para a Babilônia. Após a libertação dos exilados por Ciro II em 537 a.C., estes decidem reconstruir o templo de Jerusalém. O samaritanos oferecem então a sua ajuda, mas esta é rejeitada, tal como descreve o Livro de Esdras.

Se tiver como referência o Livro de Esdras, a ruptura religiosa entre judeus e samaritanos teria ocorrido depois de 500 a.C. Porém, dado que há incertezas quanto à data de redacção dos textos, conteúdo e aplicação do mesmos, subsistem dúvidas. Alguns estudiosos consideram que a ruptura ocorreu após o retorno de Neemias em 445 a.C.; o começo da história samaritana propriamente dita situar-se-ia no começo da época helenística, com a construção de um templo rival ao de Jerusalém, no monte Gerizim, em Siquém (actual Nablus).

História dos samaritanos após a separação[editar | editar código-fonte]

Os samaritanos mantiveram uma população relativamente numerosa no norte da Palestina: estima-se o seu número em várias centenas de milhares até ao século VI; alguns autores apontam um valor de 1,2 milhões nos séculos IV e V. No entanto, nunca foram um povo independente, tendo passado pelo controle dos impérios que sucederam ao império assírio.

Relações com o reino selêucida[editar | editar código-fonte]

O reino selêucida foi um reino de cultura helenística governado por uma dinastia de origem macedónia, que resultou da divisão do império de Alexandre, o Grande. Embora de início tivesse uma extensão territorial considerável, em pouco tempo restringiu-se à região da Síria-Palestina. O reino afirmou fortemente a cultura grega, o que num primeiro momento não representou um problema para os judeus e samaritanos que viviam na Palestina. A situação alterou-se durante o reinado de Antíoco VI Epifânio (175-163 a.C.), que lança uma campanha de helenização forçada das populações do seu reino. A decisão de em 168 a.C. consagrar o Templo de Jerusalém a Zeus obteve a aprovação de alguns judeus, gerando a revolta de outros, liderados pelos Macabeus.

Segundo o Livro dos Macabeus, tropas samaritanas teriam se unido em 166 a.C. ao exército selêucida para combater os judeus durante a revolta dos Macabeus. No domínio da religião, os samaritanos teriam também aceitado transformar o templo do monte Gerizim num templo helenístico.

No entanto, esta aliança política com os selêucidas não deixou rastro nos samaritanos quando o domínio selêucida terminou. É portanto possível que tenha sido uma aliança política sem conteúdo religioso, embora esta aceitação reforce a acusação de paganismo que já se encontrava presente no Livro dos Reis.

Relações com os judeus da Antiguidade[editar | editar código-fonte]

As relações com os judeus foram em geral negativas durante toda a Antiguidade. Existia entre eles um ódio recíproco. Depois do sucesso da revolta judaica contra os selêucidas, o novo reino dos Hasmoneus, governado por João Hircano I conquista Siquém e destrói o templo do Monte Gerizim (108 a.C.).

Os samaritanos tornam-se súditos de um Estado que não os considera como judeus. Contudo, Flávio Josefo refere que até à época do procurador romano de Coponius (6-8 d.C.), o Templo de Jerusalém encontrava-se aberto aos samaritanos.

Depois da conquista romana de 63 a.C. a Samaria conheceu várias reorganizações administrativas. Em 30 a.C. Augusto acrescenta-a ao reino de Herodes, o Grande. Em seguida, a província da Samaria e as cidades da costa são enquadradas na província romana da Síria (ou da Fenícia, conforme as épocas), escapando ao poder judeu. O Império Romano era tolerante para com as religiões dos povos conquistados[carece de fontes?].

Relações com o Império Romano[editar | editar código-fonte]

A chegada do Império Romano à região em 63 a.C. permitiu aos samaritanos libertarem-se progressivamente dos judeus. Mas as relações com este império foram por vezes conflituosas[carece de fontes?].

Durante o levante judaico de 67-73, o imperador Vespasiano temeu assistir a uma aliança dos samaritanos com os judeus. Segundo Flávio Josefo, Vespasiano teria enviado tropas contra os samaritanos, que foram cercados; apesar de terem ficado sem água e de lhes ter sido oferecida a rendição, os samaritanos resistiram e foram executados.

No reinado de Adriano (de 117 a 138), os judeus e os samaritanos foram castigados com a proibição de celebrarem o shabat e as festas, bem como de praticarem a circuncisão e os banhos rituais. As crônicas samaritanas atribuem a Adriano a destruição de todos os seus livros sagrados, com excepção do Pentateuco e da genealogia dos sacerdotes.

Relações com o Império Bizantino[editar | editar código-fonte]

O Império Romano dividiu-se definitivamente em 395. A partir desta data, haveria um Império Romano do Ocidente, que desaparece em 476, e um Império Bizantino. O Império Bizantino tentaria converter pela força certas minorias (cristãs ou não) à sua forma de cristianismo.

Assim, o imperador Zenão I lança-se de ataque aos judeus e aos samaritanos. Durante o seu reinado o templo dos samaritanos foi destruído pela segunda vez e desta feita de forma definitiva, não tendo sido reconstruído.

Sob a condução de um líder carismático e messiânico, chamado Juliano ben Sabar (ou ben Sahir), os samaritanos revoltaram-se em 529. Com a ajuda dos gassânidas (árabes cristãos), o imperador Justiniano I esmaga a revolta. Dezenas de milhares de samaritanos foram mortos ou vendidas como escravos. Outros converteram-se, sem dúvida como maneira de escapar à repressão. De uma população de pelo menos centenas de milhares de pessoas, passa-se rapidamente a uma pequena população. O Império Bizantino foi o responsável pela transformação dos samaritanos de um povo que ocupava uma região onde se desenvolveu a uma minoria submetida[carece de fontes?].

Relações com o islão[editar | editar código-fonte]

Boas de início, as relações entre os samaritanos e os poderes islâmicos não foram contudo sempre perfeitas. Algumas fontes referem-se à destruição de lugares de culto judaicos e samaritanos no século IX. Os Mamelucos teriam destruído lugares de culto samaritanos no século XIV. As relações com os Otomanos foram bastante más, excepto no período final do império. Durante esta era, muitas famílias samaritanas mudaram de religião; várias famílias prestigiadas de Nablus, como as famílias Shakhsheer, Yaish e Maslamany, que eram samaritanas, aderiram ao islão nesta época. Em 1596, o sumo sacerdote Pinhas VII foi obrigado a se exilar em Damasco, onde se contavam apenas 132 samaritanos.

Em 1841 os ulemas de Nablus acusaram os samaritanos de serem pagãos, o que desencorajava certos muçulmanos a incluí-los na sociedade islâmica. Esta crise foi resolvida graças à intervenção do grão-rabino da Palestina que emitiu um documento no qual atestava que os samaritanos eram um ramo dos filhos de Israel.

No fim século XIX, o samaritanos obtiveram o reconhecimento jurídico das autoridades otomanas através do sistema Millet.

No século XX, os viajantes descrevem a pequena população samaritana como miserável, composta por comerciantes e alfaiates.

Observação importante: O Alcorão relata que os samaritanos ja existiam na época do Exodo. Ver em Sura 20:85-99.

Época moderna[editar | editar código-fonte]

Na segunda metade século XIX, os samaritanos não ultrapassavam 120 pessoas, passando para 146 em 1917. O seu futuro mostra-se assombrado pela consanguinidade, pela pobreza e pelas conversões. Os observadores da época prediziam frequentemente o seu desaparecimento próximo.

Depois da instalação do Mandato Britânico na Palestina (1922), as relações dos samaritanos com os sionistas foram cordiais. Os sionistas, judeus seculares, interessam-se pouco pelas disputas religiosas e reconhecem sem dificuldades os samaritanos como judeus[carece de fontes?].

Hoje a população samaritana é estimada em cerca de 670 pessoas (2005), que vivem no monte Gerizim e em Holon, comunidade essa criada pelo segundo presidente de Israel, Yitzhak Ben-Zvi, em 1954 .

Devido a sua resistência a aceitar convertidos, a comunidade samaritana tem sido reduzida grandemente, além de enfrentar enfermidades genéticas. Apenas em tempos recentes foi aceito que homens da comunidade se casem com mulheres judias não-samaritanas.

A religião dos samaritanos[editar | editar código-fonte]

À semelhança do judaísmo, os samaritanos conheceram disputas religiosas, que são mal conhecidas. Hoje em dia existe na religião samaritana apenas uma corrente religiosa.

Textos sagrados[editar | editar código-fonte]

Samaritano e Torá samaritana

Os samaritanos aceitam apenas a autoridade do Pentateuco. Rejeitam os outros livros da Bíblia judaica, assim como a tradição oral (Talmud). O Pentateuco dos samaritanos é escrito em hebraico samaritano com recurso ao alfabeto samaritano, uma variante do antigo alfabeto paleo-hebraico abandonado pelos judeus.

Para além da questão linguística, existem diferenças entre as duas versões do Pentateuco. A mais importante está relacionada com a atribuição ao monte Gerizim do estatuto de local mais sagrado em vez de Jerusalém. Os Dez Mandamentos da Torá samaritana integram como décimo mandamento o respeito do Monte Gerazim como centro do culto. As duas versões dos Dez Mandamentos existentes na Bíblia (no Livro do Êxodo e Deuteronômio), encontram-se entre os samaritanos uniformizadas.

Para os samaritanos, aquilo que os judeus chamam de primeiro mandamento ("Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão") é apenas uma apresentação que Deus faz de si próprio; assim, o primeiro mandamento dos samaritanos é o segundo mandamento dos judeus ("Não terás outros deuses diante de mim"). Segundo os samaritanos os judeus fizeram da apresentação de Deus o primeiro mandamento depois de terem retirado como décimo mandamento o dever de considerar o monte Gerizim como local de culto.

As crianças são iniciadas no estudo da Torá quando tem quatro ou cinco anos. Quando a criança leu a Torá por completo tem lugar uma cerimónia especial; atingir este objectivo pode variar segundo a criança, pelo que a cerimónia pode ocorrer entre os seis e os dez anos.

Doutrinas[editar | editar código-fonte]

O "credo" samaritano baseia-se nos cinco seguintes pontos:

  1. Unidade e unicidade de Deus.
  2. O único profeta é Moisés.
  3. O Pentateuco é o único livro inspirado
  4. O monte Gerizim é o único lugar escolhido por Deus para situar um santuário, sede da sua santidade (segundo Dt 11:29 e 27:4, sendo que nesta última os samaritanos lêem Gerizim em vez de Ebal).
  5. A ressurreição dos mortos ocorrerá antes do Juízo Final.

Os samaritanos aguardam o aparecimento do Messias, o Taheb, que será semelhante a Moisés. Ele viverá cento e dez ou cento e vinte anos e fundará um reino que durará vários séculos.

Festas religiosas[editar | editar código-fonte]

O calendário samaritano baseia-se no calendário judaico, tendo sofrido alterações durante os períodos bizantino e árabe. Pode recorrer a duas eras, contando os anos desde a criação do mundo ou desde o ano em que os Israelitas entraram na Terra Prometida. Os meses são designados recorrendo-se a nomes ordinais ("primeiro", "segundo", etc...), embora também se possam os nomes judaicos e árabes.

Os cálculos do calendário e dos dias das festas são feitos pelos sacerdotes. Duas vezes por ano o sumo sacerdote samaritano distribui o calendário para o período de seis meses que se segue. Nestas duas ocasiões cada homem samaritano paga ao sumo sacerdote uma quantia de dinheiro (em alusão ao meio siclo de Êxodo 30:11-16)

Os samaritanos celebram sete festas religiosas: Pessach (Páscoa), Massot (a Festa dos Pães Ázimos), Shavuot, a Festa do Sétimo Mês, Yom Kippur, Sucot e Shemini Aseret (festa do último dia de Sucot). Três destas festas implicam a realização de uma peregrinação ao Monte Gerizim.

A principal festa religiosa dos samaritanos é a Páscoa. Ao contrário dos judeus, os samaritanos conservaram a tradição do sacrifício do cordeiro pascal, seguindo as regras que se encontram consignada no capítulo 12 do Livro do Êxodo.

O sacrifício é realizado no monte Gerizim, embora no passado tenha sido celebrado nas povoações samaritanas. Durante o sacrifício o sumo sacerdote lê as passagens do Êxodo associadas ao dever religioso. O abate dos animais ocorre no preciso momento em que o sumo sacerdote lê o texto do Êxodo 12:6.

Outras práticas[editar | editar código-fonte]

Para além destas crenças e festas, os samaritanos procuram seguir estas práticas:

  1. Viver perto do Monte Gerizim (o que é posto em causa com a instalação de uma parte da comunidade em Israel).
  2. Participação obrigatória de toda a comunidade no sacrifício da Páscoa.
  3. Observância do Shabat.
  4. Respeito pelas regras de pureza descritas na Torá. Neste sentido, os samaritanos ainda seguem as regras do Levítico abandonadas pelos judeus, como a obrigação da mulher se isolar da comunidade durante o período da menstruação ou depois de ter dado à luz.

Os samaritanos utilizam mezuzot mais grossas que as mezuzot judaicas, mas recusam o uso dos tefilin.

A menorá é considerada pelos samaritanos como o seu símbolo nacional. A estrela de David, pelo contrário, não é por eles usada, já que se trata de um símbolo especificamente judeu que não é mencionado na Bíblia.

A circuncisão das crianças do sexo masculino é feita no oitavo dia.

A visão cristã sobre os samaritanos[editar | editar código-fonte]

O surgimento do cristianismo se deu em uma época de conflito entre judeus e samaritanos, e o ministério apostólico os englobou em sua obra missionária (por exemplo João 4:5-42 e Atos 8:4-19). Jesus, por exemplo, usou esta diferença religiosa para enfatizar o amor ao próximo na história do "Bom samaritano" (Lucas 10:25-37).

Os samaritanos hoje[editar | editar código-fonte]

Localização das duas cidades onde vivem os samaritanos

Um estudo de 2003 produzido pela comunidade samaritana estima o seu número em 654 pessoas, das quais 346 (179 homens e 167 mulheres) vivem em Holon em Israel e 308 (165 homens e 143 mulheres) em Nablus na Cisjordânia. A natalidade é média, implicando um crescimento demográfico lento: 2,2 a 2,3 filhos por família. Este crescimento moderado deve-se em parte ao facto dos samaritanos se casarem numa idade avançada, quando comparada com outros grupos; a idade média do casamento corresponde aos 31, 3 para os homens 24,6 para as mulheres. Refira-se que o número de samaritanos em 1969 era de 414 pessoas.

Depois da guerra de 1948 a fronteira com a Jordânia encerrou-se, rompendo os laços entre os dois ramos da comunidade. Entre 1951 e 1967 o rei da Jordânia autorizou os samaritanos de Israel a viajar a Nablus na Cisjordânia (que na época encontrava-se ocupada pela Jordânia) uma vez por ano, para a festa da Páscoa. Esta separação foi mal vivida por uma comunidade pequena, que já se encontrava em risco de desaparição.

Os samaritanos de Nablus[editar | editar código-fonte]

Samaritanos no monte Gerizim

Os samaritanos de Nablus vivem quase todos num bairro da cidade há vários séculos.

O rei Hussein da Jordânia comprou terras perto do monte Gerizim, que entregou à comunidade samaritana, que as utilizou para construir uma aldeia de nome Kiryat Luza. Esta localidade é o centro espiritual da comunidade, encontrando-se nela a residência do sumo sacerdote.

Os samaritanos da Cisjordânia utilizam a língua árabe na sua vida quotidiana; como língua litúrgica usam o hebraico samaritano.

Depois da Guerra dos Seis Dias, a administração militar israelita da Cisjordânia, sob pressão da comunidade samaritana de Israel, colocou em prática uma política favorável aos samaritanos de Nablus. Apesar de terem beneficiado desta política, os samaritanos tiveram o cuidado de não apareceram como traidores aos olhos dos palestinianos, desempenhando por vezes um papel de intermediários entre a população de Nablus e o exército israelita.

Os samaritanos de Holon[editar | editar código-fonte]

A partir de 1905, várias famílias samaritanas instalaram-se na zona costeira da Palestina, em Jafa, sob a direcção de Abraham ben Marhiv Tsedaka. Este procurou que a comunidade saísse do seu isolamento geográfico, abrindo-a às novas oportunidades económicas.

Outros samaritanos instalam-se em Israel em 1951 no quadro de um programa de reunificação de famílias aprovado pela Jordânia e Israel.

Em 1955 várias famílias samaritanas que procuravam trabalho instalam-se em Holon, a sul de Tel Aviv, num bairro criado com a ajuda do antigo presidente israelita Yitzhak Ben-Zvi e de Yefet b. Avraham Tsedaka, líder do samaritanos residentes fora de Nablus.

Progressivamente este número aumentou, contando-se cerca de 350 pessoas em 2005. Os samaritanos de Holon habitam em torno do seu local de culto, a rua Ben Amram, num grupo de casas situada ao longo da artéria principal da cidade. O nível de vida e a escolaridade dos samaritanos de Israel é superior ao dos samaritanos da Cisjordânia. Encontram-se integrados na sociedade israelita, apesar de preservarem às suas especificidades religiosas. Na sua vida quotidiana falam o hebraico, recorrendo ao hebraico samaritano para a liturgia. Prestam serviço militar no exército israelita, com excepção dos samaritanos oriundos das famílias sacerdotais. Foi a comunidade de Holon que fundou em 1969 o A. B. - The Samaritan News, o primeiro jornal da comunidade samaritana.

Organização e relações com Israel[editar | editar código-fonte]

Do ponto de vista religioso, os samaritanos são dirigidos por um sumo sacerdote que reside em Nablus. Os sacerdotes afirmam-se descendentes da tribo sacerdotal de Levi. Depois da guerra de 1967, as duas comunidades (a de Nablus e de Holon) criaram cada um conselho de sete membros eleitos. Estes conselhos encarregam-se dos assuntos civis da comunidade e servem de interlocutores com as autoridades israelitas e palestinianas.

No plano familiar, os samaritanos organizam-se em oito "casas" patriarcais, das quais quatro derivam de um "casa" original, os Danafis, originária de Damasco; duas outras casas são oriundas da "casa" Marchiv, cujas origens estão em Gaza e Sarafend. As oito "casas" são Dom Kaplanski (a casa sacerdotal), Tsedaka Hatsafari, Altif Danafi, Marchiv Marchivi, Sassoni-Sirrawi Danafi, Yehoshua Marchivi, Meshallema Danafi e Shalabi Danafi. As duas últimas tem uma existência residual, dado que não contavam com nenhuma pessoa em 2003. A pertença a uma destas "casas" é transmitida pelo pai. Segundo os samaritanos, estas "casas" estão ligadas a uma das antigas tribos de Israel. Tal como acontece em outras sociedades tradicionais, os mais velhos desempenham um papel fundamental, embora não possuam nenhum poder oficial.

A maioria dos casamentos é feita no seio da mesma "casa", o que não contribui para melhorar os problemas de consanguinidade que a comunidade conhece.

Os samaritanos são reconhecidos como judeus pelo Estado de Israel, encontrando-se abrangidos pelo "lei do retorno" que concede a cidadania israelita de forma automática. Os bilhetes de identidade dos samaritanos de Israel classificam-nos como "judeus samaritanos" ou simplesmente "judeus". No entanto, os samaritanos não são reconhecidos como judeus pelo rabinato ortodoxo de Israel. As relações com os judeus ultra-ortodoxos são particularmente más, já que os primeiros os rejeitam completamente. Em 1992 foi mesmo proposto retirar aos Samaritanos a possibilidade de beneficiarem da lei do retorno, sob pressão do Shas, partido ultraortodoxo, mas o Tribunal Supremo de Israel confirmou em 1994 o estatuto de judeus dos Samaritanos.

Saliente-se que os próprios samaritanos não se consideram propriamente judeus (descendentes dos habitantes do reino de Judá), mas antes como Israelitas descendentes dos habitantes do reino da Samaria. Para os samaritanos, os judeus seriam outro ramo do povo israelita.

Problemas de consanguinidade[editar | editar código-fonte]

Jovens Samaritanos em 2006

Os problemas oriundos da consanguinidade são comuns entre os samaritanos. Hoje em dia, antes de terem filhos muitos casais samaritanos submetem-se a exames genéticos no hospital israelita Tel HaShomer. Desde a década de 20 do século XX que os samaritanos admitem a entrada de mulheres judias na comunidade, como forma de resolver este problema. Contudo, estas uniões levantam problemas para ambas as partes: o rabinato de Israel, que possui o monopólio sobre o casamento no país, é contra as uniões com samaritanos, enquanto que para os samaritanos a uniões podem gerar a dissolução no meio judaico. Estes casamentos são por isso raros. Em 2003 encontravam-se recenseados 14 casamentos mistos.

Numa nova tentativa de solucionar a situação, Eleazar ben Tsedaka, sumo sacerdote dos samaritanos desde 2004, emitiu uma directiva que autoriza os homens da sua comunidade a casar com mulheres oriundas de qualquer meio religioso, desde que estas se convertam à fé samaritana antes do casamento.

Notas e referências

  1. [1]
  2. Para alguns historiadores, como Israel Finkelstein e Neil Asher Silberman, o reino unificado de Saul, David e Salomão não passa de um mito. Estes autores apontam o facto dos arquivos dos Estados da região não falarem em qualquer momento deste reino; defendem em vez disso a existência de dois reinos formados por volta do século X a.C.
  3. II Reis 17:41

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • CROWN, Alan-David; FAU, Jean-François - Les Samaritains rescapés de 2700 ans d'Histoire. Paris: Maisonneuve & Larose, 2001. ISBN 2-7068-1535-3
  • POLIAKOV, Léon; FIRMIN, Gilles - Les Samaritains. Éditions du Seuil, 1991. ISBN 2-02-012156-5