Doença renal crônica

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Doença renal crônica
Classificação e recursos externos
CID-10 N18
CID-9 585 403
DiseasesDB 11288
MedlinePlus 000471
eMedicine article/238798
MeSH D007676
Star of life caution.svg Aviso médico

Doença renal crônica (português brasileiro) ou doença renal crónica (português europeu) é a presença de alterações da estrutura ou funções dos rins, com ou sem alteração da filtração glomerular, por um período maior que 3 meses e com implicações na saúde do indivíduo.1

Ateriormente utilizava-se o termo insuficiência renal crônica, definida como a perda da função dos rins de forma progressiva e irreversível.2 É comum usar a filtração glomerular como sinônimo de função renal, dessa forma a insuficiência renal crônica também era considerada como queda progressiva e irreversível da filtração glomerular, ou seja, da capacidade do rim de excretar substâncias do organismo.3 A filtração glomerular é mensurada através da taxa de filtração glomerular, sendo assim, a insuficiência renal crônica era sinônimo de redução da taxa de filtração glomerular.2 3 4

O termo doeça renal crônica é mais abrangente que insuficiência renal crônica, pois considera todos os pacientes com alguma lesão renal, independente da taxa de filtração glomerular. Por exemplo, considere um paciente com diabetes mellitus e lesão renal em fase inicial (microalbuminúria), porém sem alteração da taxa de filtração glomerular. Se classificarmos o paciente somente pela filtração glomerular, o mesmo não tem insuficiência renal crônica, pois a taxa de filtração glomerular ainda está normal. Entretanto, pode-se dizer que ele possui doença renal crônica (microalbuminúria devido ao diabetes), mas sem alteração da filtração glomerular, em outras palavras, o paciente tem lesão renal mas os rins ainda não estão "insuficientes".

Índice

Definições [editar]

Doença renal crônica [editar]

A Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) define doença renal crônica como a presença de alterações estruturais ou da função dos rins, por um período maior que 3 meses, e com implicações na saúde do indivíduo.1 Essa definição classifica como portadores de doença renal crônica aqueles pacientes que possuem alguma lesão renal independente da taxa de filtração glomerular, ou seja, pacientes com lesão renal mas sem perda da função dos rins também são considerados como portadores de doença renal crônica. Isso permite detectar pacientes em uma fase inicial da doença, possibilitando a prevenção para evitar a progressão para níveis mais avançados, como a falência renal.5

Antes de 2002 não havia consenso sobre a definição de doença renal crônica, dificultado estudos sobre a prevalência e prevenção.6 As diretrizes sobre doença renal crônica elaboradas a partir do ano de 2002 pela National Kidney Foundation,7 são internacionalmente adotadas e ajudaram a melhorar a prevenção e obtenção de dados sobre a doença renal crônica.8 9 10 11 12 13 14

Essas diretrizes são atualizadas periodicamente, sendo a última atualização feita pela Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO) e publicada em janeiro de 2013.15 KDIGO é uma fundação sem fins lucrativos, regida por um conselho internacional, administrada pela National Kidney Foundation e que tem a missão de melhorar os cuidados e prognóstico dos pacientes com doença renal.16

Falência renal [editar]

Pela definição da KDIGO, falência renal é a presença de taxa de filtração glomerular menor que 15 ml/min.1 Trata-se de um estágio mais avançado da doença renal crônica, onde a maioria dos pacientes já apresenta sinais e sintomas de uremia, com necessidade breve de iniciar alguma terapia renal substitutiva.17

Estágio final da doença renal crônica [editar]

Estágio final da doença renal crônica ou insuficiência renal crônica terminal é o termo usado para definir os pacientes com falência renal e já em tratamento por hemodiálise, diálise peritoneal ou transplante renal.17

Critérios [editar]

Considerando que doença renal crônica é a presença de alterações da estrutura ou função dos rins por um período maior que 3 meses, convém detalhar melhor quais são essas alterações. Alguns exames laboratoriais e de imagem são utilizados para investigar a presença de lesão renal, sendo por isso chamados de marcadores de lesão renal. São eles: dosagem da albuminúria, exame de urina, dosagem dos eletrólitos no sangue, exames de imagem (ultrassom, tomografia, ressonância magnética, angiografia, cintilografia), biópsia.18 Alterações em alguns desse exames pode estar relaciona a lesão renal, seja estrutural ou funcional.

Exemplos de condições que sugerem presença de lesão renal com alteração estrutural e/ou funcional dos rins:18


Diante disso, foram formulados os seguintes critérios para doença renal crônica:1

Critérios para doença renal crônica (pelo menos um dos abaixo por mais de 3 meses)
Marcador de lesão renal Albuminúria
Anormalidades no sedimento urinário
Distúrbios eletrolíticos e outras desordens devido a doença dos túbulos renais
Anormalidades detectadas por biópsia renal
Anormalidades detectadas por exames de imagem
Antecedente de transplante renal
Redução da taxa de filtração glomerular (TFG) TFG menor que 60 ml/min

A duração maior que 3 meses é um critério necessário para diferenciar doença renal crônica de lesão renal aguda, definida como um aumento repentino da creatinina sérica ou queda da diurese (menos que 0,5 ml/kg/h durante 6 horas).19

A taxa de filtração glomerular (TFG) menor que 60 ml/min foi adotada como critério para doença renal crônica porque alguns pacientes podem ter TFG reduzida porém sem outro marcador de lesão renal, por exemplo, idosos, crianças, vegetarianos, pessoas submetidas a retirada cirúrgica de um rim, portadores de insuficiência cardíaca e cirrose hepática.20 Pessoas com TFG maior que 60 ml/min e sem marcador de lesão, não são, portanto, classificadas como portadores de doença renal crônica. Por outro lado, aqueles com TFG menor que 60 ml/min, com ou sem marcador de lesão renal presente, são classificados como portadores de doença renal crônica, uma vez que apresentam maior risco de desenvolver complicações secundárias ao problema renal.1

Classificação [editar]

A classificação da doença renal crônica é baseada na taxa de filtração glomeruçar (TFG) e albuminúria. São 5 estágios de acordo com a taxa de filtração glomerular e 3 estágios de acordo com a albuminúria, conforme a tabela abaixo:

Classificação da doença renal crônica1 Albuminúria
A1 A2 A3
Normal ou levemente aumentada Moderadamente aumentada Severamente aumentada
< 30 mg/dia 30 - 300 mg/dia > 300 mg/dia
TFG G1 Normal ou alta > 90 ml/min G1 A1 G1 A2 G1 A3
G2 Levemente reduzida 60 - 89 ml/min G2 A1 G2 A2 G2 A3
G3a Leve a moderadamente reduzida 45 - 59 ml/min G3a A1 G3a A2 G3a A3
G3b Moderada a severamente reduzida 30 - 44 ml/min G3b A1 G3b A2 G3b A3
G4 Severamente reduzida 15 - 29 ml/min G4 A1 G4 A2 G4 A3
G5 Falência renal < 15 ml/min G5 A1 G5 A2 G5 A3

Exemplos:

  1. Paciente com diabetes mellitus de longa data, taxa de filtração glomerular de 25 ml/min e albuminúria de 1500 mg/dia. A presença de taxa de filtração reduzida e albuminúria são critérios pra definir o paciente como portador de doença renal crônica. Já o estadiamento é G4 A3, conforme tabela acima.
  2. Paciente com rins policísticos, diagnosticado há 4 anos no exame de ultrassom de abdome, apresenta taxa de filtração glomerular de 80 ml/min e albuminúria de 10 mg/d. A presença de alteração estrutural do rim no exame de imagem, é critério para definir o paciente como portador de doença renal crônica. O estadiamento é G2 A1.

Essa classificação divide os pacientes em grupos de acordo com a gravidade da alteração renal, sendo os pacientes com taxa de filtração glomerular elevada e albuminúria baixa, pertencentes aos grupos com lesão mais amena e menor risco de complicações da doença renal crônica. Já os pacientes com taxa de filtração glomerular baixa e albuminúria elevada, têm alteração renal mais grave com maior risco de desenvolver complicações e necessidade de terapia de substituição renal.21 Pode ocorrer mudança de um estágio menos grave para um estágio mais avançado da doença, sendo esse fenômeno conhecido como progressão da doença renal crônica, sendo o estadiamento útil para orientar a equipe de saúde a traçar estratégias mais adequadas, no sentido de impedir a progressão da lesão renal.22

Causas [editar]

Principais causas de doença renal crônica com necessidade de terapia de substituição renal no Brasil23 , Portugal24 e Estados Unidos.25

São muitas as doenças que acometem os rins, podendo levar à doença renal crônica e prejuízo da função renal. Dados do censo de diálise, elaborado pela Sociedade Brasileira de Nefrologia em 2011,23 apontam a hipertensão arterial, o diabetes e as glomerulopatias, como as principais doenças que levam o paciente à insuficiência renal crônica terminal com necessidade de diálise no Brasil. Esse dados estão de acordo com as estatísticas de outros países, que confirmam essas doenças como os principais motivos que levam o paciente a necessitar de hemodiálise ou diálise peritoneal.25 24 26 É importante ressaltar que a hipertensão arterial e o diabetes são bastante prevalentes na população, o que torna indispensável o controle precoce dessas duas doenças, com finalidade de prevenir o aparecimento evolução da doença renal, reduzindo assim o risco do paciente necessitar de alguma terapia de substituição renal no futuro.

As principais condições que podem causar DRC estão descritas abaixo:3 27

Referências

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  3. a b c Draibe, S.A.; Ajzen, H. Doença renal crônica. In: Ajzen, H.; Schor, N. Guias de medicina ambulatorial e hospitalar da UNIFESP EPM - Nefrologia (em Português). 3 ed. São Paulo: Manole, 2011. 327-341 p. ISBN 978-85-204-3128-3
  4. Taraska, N.; Vijayan, A. Management of Chronic Kidney Disease. In: Cheng, S.; Vijayan, A. Nephrology Subspecialty Consult (em Inglês). 3 ed. Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2012. 292-309 p. ISBN 978-1-4511-1425-6
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  10. Abensur, H.; Yu, L.; Burdmann, E.A. (Novembro de 2012) "A Decade After the KDOQI CKD Guidelines: A Perspective From Brazil". Am J Kidney Dis 60: 738-739. DOI:10.1053/j.ajkd.2012.08.004. PMID 23067648.
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