Mata-Maroto

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São conhecidas como Mata-Maroto as lutas que se sucederam entre brasileiros e portugueses, em Salvador e em algumas vilas do Recôncavo e do sertão da então Província da Bahia, no contexto do Período Regencial, entre 1831 e 1840.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Luís Paulo de Araújo Bastos governava a Província da Bahia quando eclodiram, em Salvador, os motins de abril de 1831, que se seguiram à abdicação de D. Pedro I e ao seu retorno para a Europa onde desempenhou papel decisivo na Guerra Civil Portuguesa (1828-1834).

Aquele governador registrou, em ofícios datados de 11 de fevereiro e 17 de março de 1831, a sua apreensão por conta dos informes que relatavam tumultos "os quais deviam ter por fim o extermínio dos portugueses",[1]

Entre os populares havia o receio de que D. Pedro arquitetava a união dos dois reinos - o de Portugal e o do Brasil, em moldes ainda piores do que os que levaram às lutas de 1821 com o início das lutas pela Independência da Bahia, e que deixaram como resquício um permanente ressentimento entre brasileiros e portugueses.[2]

"Abrilada"[editar | editar código-fonte]

No dia 4 de abril registou-se o motim mais violento: o Presidente da Província foi deposto e destituído o Governador das Armas, que era de origem portuguesa, João Crisóstomo Calado. Pelas ruas gritava-se o mote que deu nome ao movimento: "Mata-maroto".[2] [nota 1] era como os baianos chamavam, em tom pejorativo, aos portugueses que, para chegar ao Brasil, tinham que atravessar o oceano.[1]

Cabe assinalar que na Bahia, onde os combates da Independência se estenderam de 1821 a 2 de julho de 1823, diversos incidentes envolvendo brasileiros e portugueses vinham ocorrendo dos anos de 1829 a 1831.[2]

Reação legalista[editar | editar código-fonte]

Assumiu interinamente a presidência da Província João Gonçalves Cezimbra que, objetivando apaziguar a situação, comprometeu-se em nomear apenas brasileiros para os comandos dos batalhões e a deportar aqueles que fossem partidários da reinstauração do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.[2]

Entretanto, um incidente provocou novas perseguições: o português Francisco Antônio de Sousa Paranhos assassinou o brasileiro Vítor Pinto de Castro, o que acarretou o recrudescimento da violência.[2]

Neste estado de coisas, foi nomeado como novo Comandante das Armas, o general Antero José Ferreira de Brito, que assegurou apoio às medidas adotadas pelo governante. Sentindo-se fortalecido, Cezimbra deixou de deportar os portugueses detidos; foi quando ocorreram levantes no Forte de São Pedro e nos quartéis da Mouraria e da Palma. O antilusitanismo inicial passou para as críticas à Monarquia e falou-se pela primeira vez em "federação", ideia que motivou o motim que se lhe seguiu, a Federação do Guanais.[2]

Interiorização[editar | editar código-fonte]

Muitos portugueses fugiram para o sertão. Em Caetité haviam sido acolhidos pelo intendente, Joaquim Venâncio Gomes de Azevedo, que lhes declarou: "Nada temeis, estais nos Estados Unidos do Brasil"[4] Isso não impediu, entretanto, que, num recrudescimento das lutas, vários portugueses houvessem perdido a vida, como ocorreu ao irmão do português Antônio José da Silva, que foi "cruelmente massacrado" enquanto que este escapou, refugiando-se num morro no distrito do Gentio (hoje Ceraíma, em Guanambi).[1]

Episódio curioso é narrado das perseguições em Caetité: numa feita foram mortos dois portugueses, cuja comunidade numerosa e influente refugiara-se na fazenda Lagoa do Coelho, sendo um deles abatido diante da Igreja de Santana, onde celebrava o padre Queiroz Osório: terminado o ofício, o vigário tocou com o pé no rosto do morto, declarando "Me cheira mal o sangue do maroto".[5]

Movimento oposto ocorreu em Rio de Contas: naquela vila a comunidade lusitana era bastante numerosa, atraída que fora pela exploração o ouro de aluvião que fizera a breve riqueza do lugar. Perseguidos, muitos deles mortos, uma grande parte fugiu para o Recôncavo, onde procuram meios de retornar à Europa e outra, mudando de nome para evitar o reconhecimento, refugia-se em Vila Velha, Paramirim e seu hoje distrito de Água Quente e, finalmente, para Caetité - datando desta época os estabelecimentos rurais feitos por portugueses.[6]

Notas

  1. Maroto era o termo usado por sua dupla acepção: como sinônimo de "marinheiro", e a de "tratante", "patife"[3]

Referências

  1. a b c Dário Teixeira Cotrim (1997). O Distrito de Paz do Gentio e a Historia Sucinta de sua Decadência. [S.l.]: A Penna Ltda., Montes Claros. pp. 71 e 82. CDD 932-2 
  2. a b c d e f Luís Henrique Dias Tavares (Salvador, 2006). História da Bahia. [S.l.]: Edufba/Edusp. pp. 259–261 (O Mata–Maroto). ISBN 85-232-0239-0  Verifique data em: |ano= (ajuda)
  3. Rubim Santos Leão de Aquino (1999). Sociedade brasileira: uma história. [S.l.]: Editora Record. pp. 480 e seg. ISBN 850105674X, 9788501056740 
  4. Helena Lima Santos (Brumado, 2ª ed., 1996). Caetité, Pequenina e Ilustre. [S.l.]: Tribuna do Sertão. 216 páginas  Verifique data em: |ano= (ajuda)
  5. Santos, Helena L., op. cit. págs. 48-50
  6. Mozart Tanajura (2003). História de Livramento: a terra e o homem. [S.l.]: SEC, Salvador. 53 páginas 
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