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Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves

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Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves

 

1815 – 1825
 

Flag Brasão
Bandeira Brasão de armas
Hino nacional
Hymno Patriotico


Localização de Reino Unido de Portugal e Brasil
Localização de Reino Unido de Portugal e Brasil
Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e seus domínios ultramarinos
Continente Europa, América, África, Ásia e Oceania
Capital Rio de Janeiro
(1815–1821)
Lisboa
(1821-1822/1825)
Língua oficial Português
Religião Catolicismo
Governo Monarquia
Monarcas
 • 1815–1816 Maria I
 • 1816–1822 João VI
Legislatura Cortes
História
 • 16 de dezembro de 1815 Criação do Reino
 • 24 de agosto de 1820 Revolução liberal do Porto
 • 25 de abril de 1821 Retorno da Corte para Portugal
 • 23 de setembro de 1822 Aprovação da Constituição do Reino Unido
 • 7 de setembro de 1822 Independência do Brasil e fim das relações com Lisboa
 • 29 de agosto de 1825 Tratado Luso-Brasileiro
Área
 • 1820 8 307 438,298 (Brasil) 92,212 (Portugal) km2
População
 • 1820[1] est. 4 000 000 (Brasil) 3 000 000 (Portugal) 
Moeda Real

O Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves foi criado em 16 de dezembro de 1815, com a elevação do Estado do Brasil à condição de reino, no contexto da transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro.[2][3]

A sua criação integrou formalmente os domínios portugueses em uma única monarquia pluricontinental e constituiu uma resposta às transformações provocadas pelas Guerras Napoleónicas.[4]

O arranjo político entrou em crise após a Revolução liberal do Porto (1820), sendo dissolvido com a Independência do Brasil e o reconhecimento diplomático em 1825.[5]

Mapa do Brasil em 1821.

Formação

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A transferência da corte portuguesa para o Brasil em 1808, provocada pela invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas, deslocou o centro político da monarquia para o Rio de Janeiro e alterou profundamente a estrutura do Império português.[6][3]

A presença da corte na América implicou a criação de instituições administrativas, financeiras e culturais que até então existiam apenas na metrópole, como o Conselho de Estado, o Banco do Brasil, a Imprensa Régia e a Biblioteca Real. Essas medidas romperam com o estatuto colonial do Brasil e o integraram de forma mais direta à estrutura do Estado português.[7]

No plano econômico, a abertura dos portos às nações amigas em 1808 encerrou o exclusivo metropolitano e inseriu o Brasil no comércio internacional, especialmente na órbita britânica.[8]

A elevação do Brasil à categoria de reino em 1815 ocorreu nesse contexto de redefinição do Império português. A medida permitiu que a monarquia bragantina se apresentasse no Congresso de Viena como uma potência sediada em dois continentes, reforçando sua legitimidade internacional após as Guerras Napoleônicas.[9][10]

Além de seu significado diplomático, a criação do Reino Unido formalizou uma situação política já existente desde 1808, reconhecendo juridicamente a centralidade do Rio de Janeiro no governo da monarquia.[11]

A nova configuração, entretanto, produziu tensões crescentes com as elites portuguesas, que viam a transferência da corte e a elevação do Brasil como fatores de marginalização política e econômica de Portugal no interior do Império.[12]

Carta régia de 1815.

Estrutura político-administrativa

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A instalação da corte no Rio de Janeiro implicou a transposição para a América do aparato administrativo da monarquia portuguesa, preservando estruturas típicas do Antigo Regime e adaptando-as às novas condições de um centro político situado fora da Europa.[7]

O monarca passou a governar por meio dos órgãos tradicionais da administração central, como o Conselho de Estado, o Desembargo do Paço e a Mesa do Desembargo do Paço, responsáveis pela consulta política, pela justiça superior e pela administração do reino.[13]

A criação de tribunais e repartições no Rio de Janeiro, como a Casa da Suplicação do Brasil, o Erário Régio e o Conselho da Fazenda, conferiu autonomia administrativa ao espaço americano e reduziu a dependência institucional em relação a Lisboa.[14]

No plano financeiro, a fundação do Banco do Brasil em 1808 permitiu ao Estado ampliar sua capacidade de crédito e financiar a máquina administrativa e militar, constituindo um instrumento fundamental para a manutenção da corte na América.[15]

A administração também promoveu a reorganização do sistema de comunicação política e cultural por meio da criação da Imprensa Régia e da transferência da Biblioteca Real, que reforçaram o papel do Rio de Janeiro como centro de produção normativa e simbólica da monarquia.[3]

Nas províncias, manteve-se a estrutura baseada em governadores e capitães-generais, subordinados ao poder central, preservando a lógica administrativa do período colonial, ainda que sob um novo estatuto jurídico.[16]

Essa configuração resultou na formação de um Estado com sede americana, mas assentado em práticas políticas e administrativas herdadas da tradição luso-absolutista.[17]

A abertura dos portos em 1808 encerrou o exclusivo metropolitano e integrou o Brasil diretamente ao comércio internacional, redefinindo as bases econômicas do Império português.[18]

Os tratados firmados com a Grã-Bretanha em 1810 consolidaram a presença britânica na economia luso-brasileira ao estabelecer tarifas alfandegárias preferenciais para seus produtos, o que contribuiu para a expansão das importações e para o aumento da dependência comercial.[8][10]

A transferência da corte provocou uma forte expansão dos gastos públicos e estimulou setores ligados ao abastecimento da capital, às obras urbanas e ao fornecimento de bens e serviços para o aparato estatal e para a nobreza recém-instalada.[19]

No plano fiscal, a criação do Erário Régio no Rio de Janeiro e a reorganização da arrecadação permitiram maior centralização das receitas e o financiamento da máquina administrativa e militar da monarquia na América.[15]

A fundação do Banco do Brasil em 1808 ampliou a capacidade de crédito do Estado e viabilizou operações financeiras destinadas à manutenção da corte e à dinamização das atividades comerciais.[20]

A economia do Reino Unido manteve, entretanto, sua base na produção agroexportadora escravista, especialmente no açúcar, no algodão e, progressivamente, no café, cujas exportações cresceram ao longo das primeiras décadas do século XIX.[21]

Essas transformações deslocaram o eixo econômico do Império português para o Atlântico sul e reforçaram o papel do Brasil como principal espaço de geração de riqueza da monarquia.[22]

Relações internacionais

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A transferência da corte para o Rio de Janeiro reforçou a aliança histórica entre Portugal e a Grã-Bretanha, que garantiu a proteção naval da monarquia bragantina durante as Guerras Napoleônicas e assegurou a manutenção do Império português.[23][24]

Os tratados de 1810 formalizaram essa aproximação ao concederem tarifas alfandegárias preferenciais aos produtos britânicos e amplos direitos comerciais e jurídicos aos seus súditos nos domínios portugueses, inserindo a economia luso-brasileira na órbita do comércio britânico.[21][10]

No plano diplomático, a elevação do Brasil a reino em 1815 permitiu que a monarquia portuguesa participasse do Congresso de Viena como uma potência europeia com sede também na América, garantindo o reconhecimento internacional da nova configuração do Império.[9]

A política externa joanina também esteve marcada pela pressão britânica para a restrição do tráfico atlântico de escravos, resultando em compromissos diplomáticos que seriam retomados nas décadas seguintes.[25]

A partir de 1820, a crise entre Lisboa e o Rio de Janeiro adquiriu dimensão internacional, pois a manutenção da unidade do Império interessava às potências europeias, enquanto a separação poderia alterar o equilíbrio político e comercial no Atlântico.[26]

A mediação britânica foi decisiva para o reconhecimento da independência do Brasil em 1825, tanto pela pressão diplomática exercida sobre Portugal quanto pela negociação dos termos financeiros do acordo, que incluíram a indenização paga pela nova monarquia americana.[27][22]

Cultura e vida cortesã

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A instalação da corte no Rio de Janeiro transformou a cidade no principal centro político e cultural da monarquia portuguesa, redefinindo seus espaços urbanos, suas formas de sociabilidade e suas hierarquias sociais.[28][29]

A presença do monarca e da nobreza implicou a reprodução, em território americano, das práticas cerimoniais e dos códigos de distinção característicos das cortes europeias, com ênfase na etiqueta, nas festas públicas, nas ordens honoríficas e na distribuição de mercês e títulos. Essas práticas estruturavam uma cultura política baseada na proximidade simbólica com o soberano e na visibilidade pública do poder régio.[30]

A vida cortesã estimulou a formação de uma nova elite política e administrativa, composta por nobres, altos funcionários, militares e negociantes ligados ao aparelho de Estado, que passou a disputar posições e prestígio no interior da monarquia. A concessão de honras e cargos tornou-se um instrumento central de integração das elites locais ao projeto imperial sediado na América.[31][32]

As cerimônias públicas — como aclamações, beija-mãos, procissões, aniversários régios e celebrações dinásticas — desempenharam papel fundamental na teatralização do poder monárquico, reforçando a sacralidade da figura do rei e a hierarquia social que sustentava o Antigo Regime nos trópicos. Esses rituais constituíam momentos privilegiados de comunicação política entre a monarquia e seus súditos.[33]

No plano cultural, a transferência da Biblioteca Real, a criação da Imprensa Régia, da Academia Real Militar, da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro favoreceram a circulação de conhecimentos científicos e artísticos e contribuíram para a institucionalização da cultura letrada na capital do Reino. A presença da Missão Artística Francesa introduziu novos padrões estéticos e acadêmicos na produção artística local.[3][34]

A cidade do Rio de Janeiro passou por um processo de reorganização espacial e simbólica, com a adaptação de edifícios para funções administrativas e palacianas, a abertura de novas vias, a melhoria das áreas centrais e a criação de espaços de representação do poder monárquico, como o Paço e seus arredores.[35]

Essas transformações consolidaram a centralidade política do Brasil no interior do Império e produziram uma cultura de corte que articulava elementos do Antigo Regime português com as condições sociais e escravistas da América, resultando em uma monarquia pluricontinental com sede americana e forte dimensão simbólica e ritual.[32]

Representações do poder monárquico

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A presença da corte na América implicou a construção de uma nova linguagem visual e cerimonial destinada a afirmar a legitimidade e a centralidade da monarquia no espaço atlântico. Retratos régios, cerimônias públicas, festas dinásticas e monumentos efêmeros constituíram instrumentos fundamentais de representação do poder.[36]

A aclamação de D. João VI no Rio de Janeiro, em 1818, foi um dos momentos culminantes desse processo, mobilizando complexa encenação simbólica que incluía cortejos, arquitetura efêmera, iluminação pública e participação das corporações civis e religiosas. Esses rituais tornavam visível a presença do soberano e reforçavam a hierarquia social e política da monarquia.[37][38]

A difusão de retratos oficiais do rei e dos membros da família real desempenhou papel central na construção da imagem pública do poder, permitindo a sua presença simbólica em diferentes regiões do Império. A iconografia régia articulava atributos tradicionais da realeza com elementos associados ao governo sediado na América, contribuindo para a redefinição da identidade da monarquia portuguesa.[39]

As festas públicas e celebrações cívico-religiosas funcionavam como espaços de negociação política e de integração das elites locais ao projeto imperial, ao mesmo tempo em que produziam uma pedagogia visual da ordem monárquica para a população.[40]

Nesse contexto, a cultura visual e cerimonial da corte não apenas reproduzia modelos europeus, mas também incorporava elementos próprios da sociedade americana, marcada pela escravidão e pela diversidade social, resultando em formas específicas de representação do poder monárquico nos trópicos.[41]

Impacto no Brasil

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A elevação do Brasil à condição de reino e a instalação da corte no Rio de Janeiro provocaram transformações estruturais que contribuíram para a formação do Estado imperial brasileiro. A transferência do centro decisório da monarquia para a América implicou a criação de órgãos administrativos, judiciais, militares e culturais que passaram a constituir a base do aparelho estatal do Império após 1822.[29][42]

A instalação de instituições como o Conselho de Estado, a Casa da Suplicação do Brasil, o Erário Régio, o Banco do Brasil e a Imprensa Régia promoveu a centralização político-administrativa no Rio de Janeiro e consolidou a cidade como capital do novo Estado independente.[7][3]

No plano territorial, a presença da corte reforçou a integração das capitanias e províncias sob um centro político comum, contribuindo para a manutenção da unidade do antigo Estado do Brasil no momento da independência, em contraste com o processo de fragmentação observado na América Hispânica.[43]

A abertura dos portos e a elevação do Brasil a reino alteraram a posição da América portuguesa na economia atlântica, permitindo a formação de uma elite mercantil e burocrática diretamente vinculada ao Estado e interessada na preservação da unidade política e territorial.[18]

No campo político, a experiência da monarquia sediada na América favoreceu a elaboração de projetos de autonomia e representação que seriam fundamentais para o processo de independência e para a organização do regime imperial, incluindo a adoção de uma monarquia constitucional e a manutenção de estruturas administrativas centralizadas.[44]

A cultura política formada nesse período, baseada na mediação entre o poder monárquico, as elites provinciais e os interesses locais, tornou-se um dos elementos característicos do Estado imperial brasileiro ao longo do século XIX.[31]

A permanência da corte e das instituições no Rio de Janeiro após 1822 garantiu a continuidade administrativa entre o período joanino e o Império do Brasil, permitindo que a independência ocorresse com menor ruptura institucional e assegurando a construção de um Estado nacional territorialmente unificado.[45]

Impacto em Portugal

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A permanência da corte na América provocou profundas transformações na vida política e econômica portuguesa, ao deslocar o centro do poder para o Rio de Janeiro e reduzir Lisboa à condição de sede administrativa secundária do Império. Essa inversão da hierarquia imperial afetou diretamente os grupos mercantis e burocráticos metropolitanos, tradicionalmente dependentes da mediação do Estado para a manutenção de seus privilégios.[46][47]

No plano econômico, a abertura dos portos brasileiros ao comércio internacional e os tratados firmados com a Grã-Bretanha em 1810 enfraqueceram o exclusivo comercial metropolitano e contribuíram para a crise das atividades mercantis portuguesas, que perderam o controle sobre o principal mercado do Império.[48]

A ausência do rei e da corte agravou a instabilidade política interna, marcada pela presença de tropas britânicas, pela atuação do governo regencial e pela dificuldade de afirmação de uma autoridade legítima em território português. Esse contexto favoreceu a difusão de projetos reformistas e constitucionais entre os grupos letrados e militares.[49]

A Revolução liberal do Porto, em 1820, expressou a reação das elites metropolitanas à perda de centralidade política e econômica de Portugal no interior da monarquia. O movimento defendia o retorno do rei, a convocação das Cortes e a reorganização do Império com base em um modelo constitucional que restabelecesse a primazia política de Lisboa.[50]

No plano simbólico, a elevação do Brasil a reino e a instalação da capital no Rio de Janeiro foram percebidas por amplos setores portugueses como sinais da “americanização” da monarquia e da marginalização do reino europeu, o que intensificou o sentimento de crise e a defesa de uma redefinição do pacto imperial.[51]

O processo constitucional iniciado em 1820 buscou reverter essa situação por meio da centralização das decisões nas Cortes de Lisboa e da tentativa de recolonização administrativa do Brasil, o que acabou por acelerar a ruptura política entre as duas partes da monarquia.[52]

A independência do Brasil, reconhecida em 1825, consolidou a perda do principal território do Império e marcou a transição de Portugal para a condição de potência europeia de dimensão reduzida, com impactos duradouros em sua economia, em sua estrutura política e em sua inserção no sistema internacional do século XIX.[53]

Sessão das Cortes de Lisboa.

A Revolução liberal do Porto, iniciada em 1820, teve como um de seus principais objetivos restabelecer Lisboa como centro político da monarquia e reorganizar o Império português segundo os princípios do constitucionalismo. O movimento expressava a reação das elites metropolitanas à perda de centralidade ocorrida após a transferência da corte para o Rio de Janeiro e à crise econômica decorrente do fim do exclusivo comercial sobre o Brasil.[26][48]

A convocação das Cortes e a exigência do retorno de D. João VI a Portugal marcaram o início de um processo de redefinição das relações entre as diferentes partes do Reino Unido. O rei regressou a Lisboa em 1821, deixando no Rio de Janeiro o príncipe D. Pedro como regente.[54]

As Cortes passaram a adotar medidas que visavam subordinar o Brasil diretamente ao governo português, entre as quais a extinção de tribunais criados no período joanino, a determinação do retorno do príncipe regente e a transformação das províncias brasileiras em unidades administrativas autônomas subordinadas a Lisboa. Essas decisões implicavam, na prática, a reversão do processo de centralização política ocorrido desde 1808.[55]

A política das Cortes provocou forte reação das elites políticas e administrativas sediadas no Rio de Janeiro e em outras províncias, que viam nas reformas uma tentativa de recolonização e a perda das posições conquistadas ao longo do período joanino. A defesa da permanência de D. Pedro no Brasil, consagrada no episódio do Dia do Fico, em janeiro de 1822, tornou-se um marco da ruptura entre os projetos políticos luso e brasileiro.[56]

Ao mesmo tempo, a crise revelou a existência de diferentes projetos de organização do Império. Enquanto as Cortes defendiam a centralização política em Lisboa, setores das elites brasileiras propunham a manutenção de uma monarquia pluricontinental com centros decisórios distintos ou a autonomia política do Brasil sob a autoridade do príncipe regente.[57]

A crescente radicalização do conflito levou à formação de governos provinciais autônomos, à mobilização de forças militares e à ruptura institucional entre o Rio de Janeiro e Lisboa. Esse processo culminou na declaração de independência em setembro de 1822, encerrando a experiência do Reino Unido na prática.[58]

Dissolução

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A permanência do príncipe regente D. Pedro no Brasil após as determinações das Cortes de Lisboa representou a ruptura decisiva do arranjo político do Reino Unido. O episódio do Dia do Fico, em janeiro de 1822, marcou a formação de um centro de poder autônomo no Rio de Janeiro e a transferência da lealdade política das elites locais para o príncipe regente.[59][56]

Ao longo de 1822, medidas como a convocação do Conselho de Procuradores-Gerais das Províncias do Brasil, a criação de ministérios próprios e a determinação de que as ordens provenientes de Lisboa só seriam executadas com o cumpra-se do príncipe consolidaram a separação administrativa entre as duas partes da monarquia.[57]

A Independência do Brasil, proclamada em 7 de setembro de 1822, encerrou na prática o Reino Unido, embora diversas províncias — como Bahia, Maranhão, Grão-Pará e a Cisplatina — tenham permanecido sob controle português por algum tempo, dando origem à Guerra da Independência do Brasil.[58]

A coroação de D. Pedro como Imperador do Brasil em dezembro de 1822 e a outorga da Constituição brasileira de 1824 estruturaram juridicamente o novo Estado, que manteve grande parte do aparelho administrativo e das práticas políticas herdadas do período joanino.[60]

Apesar da separação de facto, Portugal continuou a considerar o Brasil parte integrante da monarquia até 1825. O reconhecimento da independência ocorreu por meio do Tratado do Rio de Janeiro, resultado de negociações diplomáticas mediadas pela Grã-Bretanha. Pelo acordo, D. João VI reconheceu o Brasil como Estado soberano, assumiu o título honorífico de imperador titular e recebeu uma indenização financeira.[5]

A solução diplomática preservou a continuidade dinástica da Casa de Bragança nas duas monarquias e encerrou juridicamente a experiência do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, que se desagregou em dois Estados independentes, embora politicamente vinculados por relações dinásticas e comerciais ao longo do século XIX.[61]

Dimensão territorial

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O Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves integrava os domínios portugueses na Europa, América, África e Ásia, configurando uma monarquia pluricontinental cuja extensão territorial figurava entre as maiores estruturas políticas do início do século XIX.[4]

Na Europa, o núcleo metropolitano correspondia ao território do Reino de Portugal e dos Algarves, que mantinha a primazia jurídica e simbólica da monarquia.[62]

Na América, o Reino do Brasil constituía o principal espaço econômico e demográfico do Império, concentrando a maior parte da população, da produção e das receitas fiscais.[2]

Na África, os domínios portugueses incluíam áreas costeiras e entrepostos comerciais em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné e São Tomé e Príncipe, articulados sobretudo ao tráfico atlântico de escravizados e ao comércio marítimo.[63]

Na Ásia, Portugal conservava enclaves estratégicos como Goa, Damão, Diu, Macau e Timor, cuja importância residia principalmente no controle de rotas comerciais e na presença diplomática no Índico e no mar da China.[64]

Apesar de sua vasta extensão, o Império apresentava forte desigualdade interna, com diferentes graus de integração administrativa e econômica entre seus territórios, sendo o Brasil o centro dinâmico da monarquia após 1808.[21]

Essa configuração territorial conferia ao Reino Unido o caráter de uma monarquia atlântica com projeção global, mas marcada por assimetrias estruturais entre suas diversas partes.[4]

Nome Reinado
Maria I 1815–1816
João VI 1816–1822

Historiografia

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A historiografia tem interpretado o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves como uma experiência singular de reorganização da monarquia portuguesa no contexto das transformações do mundo atlântico no início do século XIX. Uma das linhas de interpretação enfatiza a transferência da corte e a elevação do Brasil a reino como parte de um projeto de construção de uma monarquia pluricontinental com sede na América, capaz de preservar a integridade do Império diante das crises provocadas pelas Guerras Napoleónicas.[65]

Nessa perspectiva, o período joanino é compreendido como o momento de formação de um novo centro político e administrativo no Rio de Janeiro, responsável pela criação das bases institucionais que garantiriam a continuidade da monarquia após a independência do Brasil. A centralização administrativa, a integração das elites locais e a constituição de uma cultura política de corte são vistas como elementos fundamentais desse processo.[66]

Outra linha interpretativa destaca o impacto da experiência do Reino Unido nas disputas políticas entre os diferentes projetos de reorganização do Império português. A Revolução liberal do Porto e a atuação das Cortes são analisadas como tentativas de subordinar novamente o Brasil ao centro metropolitano e de implementar um modelo constitucional centralizado, o que teria provocado a reação das elites sediadas no Rio de Janeiro e acelerado o processo de independência.[67]

Essa abordagem enfatiza a existência de projetos políticos concorrentes no interior da monarquia, incluindo propostas de manutenção de uma monarquia pluricontinental com centros decisórios distintos, de autonomia do Reino do Brasil no interior do Império e de recolonização administrativa a partir de Lisboa.[68]

Parte da historiografia também interpreta o Reino Unido como elemento decisivo para a manutenção da unidade territorial do Brasil após a independência, ao fornecer as estruturas administrativas e a experiência política que permitiram a organização de um Estado monárquico centralizado, em contraste com os processos de fragmentação observados na América Hispânica.[69][70]

Em uma perspectiva mais ampla, o período tem sido analisado como momento de transição entre o Antigo Regime português e as monarquias constitucionais do século XIX, no qual se articulam práticas políticas tradicionais, cultura de corte e novos projetos de representação e soberania.[71]

A experiência do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves foi decisiva para a formação do Estado imperial brasileiro, ao transferir para a América o centro político da monarquia e criar as estruturas administrativas, militares, judiciais e culturais que seriam mantidas após a independência. A permanência dessas instituições garantiu a continuidade do aparelho estatal e permitiu que a ruptura com Portugal ocorresse com relativa estabilidade institucional.[72][45]

A centralização política no Rio de Janeiro e a integração das elites provinciais ao projeto monárquico contribuíram para a manutenção da unidade territorial do antigo Estado do Brasil, em contraste com o processo de fragmentação verificado na América Hispânica. A monarquia constitucional brasileira herdou, assim, uma cultura política marcada pela mediação entre o poder central e os interesses regionais.[73][74]

No plano dinástico, a continuidade da Casa de Bragança nas duas monarquias preservou vínculos políticos e simbólicos entre Brasil e Portugal ao longo do século XIX, mesmo após a separação formal. Esse elemento contribuiu para a manutenção de relações diplomáticas e comerciais relativamente estáveis entre os dois Estados.[75]

Para Portugal, o fim do Reino Unido significou a redefinição de sua posição no sistema internacional, com a perda do principal território do Império e a transição para um Estado europeu de dimensão reduzida, marcado por conflitos entre liberalismo e absolutismo nas décadas seguintes.[53]

Em uma perspectiva mais ampla, o Reino Unido constituiu uma das respostas possíveis à crise das monarquias ibéricas no contexto das revoluções atlânticas, representando uma tentativa de reorganização imperial baseada na elevação política de uma colônia à condição de reino e na criação de uma monarquia pluricontinental. A sua dissolução marcou o fim do modelo de império luso-brasileiro e a emergência de novos Estados nacionais no espaço atlântico.[4]

A cultura política, as práticas administrativas e a centralidade do Rio de Janeiro herdadas desse período continuaram a influenciar a organização do Estado brasileiro ao longo do século XIX, especialmente durante o Segundo Reinado, quando se consolidou um modelo de monarquia constitucional centralizada com forte presença burocrática e capacidade de mediação regional.[76]

Ver também

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Referências

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Bibliografia

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  • Arruda, José Jobson de Andrade (1980). O Brasil no comércio colonial. São Paulo: Ática 
  • Bethell, Leslie (1989). The Cambridge History of Latin America – vol. 3. Cambridge: Cambridge University Press 
  • Bethencourt, Francisco; Curto, Diogo Ramada (2007). Portuguese Oceanic Expansion, 1400–1800. Cambridge: Cambridge University Press 
  • Lustosa, Isabel (2006). D. Pedro I. São Paulo: Companhia das Letras 
  • Malerba, Jurandir (2000). A corte no exílio. São Paulo: Companhia das Letras 
  • Manchester, Alan K. (1973). British Pre-eminence in Brazil. Chapel Hill: University of North Carolina Press 
  • Neves, Lúcia Maria Bastos Pereira das (2003). Corcundas e constitucionais. Rio de Janeiro: Revan 
  • Pedreira, Jorge; Costa, Fernando Dores (2008). D. João VI. Lisboa: Círculo de Leitores 
  • Schwarcz, Lilia Moritz (1998). As barbas do imperador. São Paulo: Companhia das Letras 
  • Vainfas, Ronaldo (2002). Dicionário do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Objetiva. ISBN 9788573024418 

Ligações externas

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