Música da Bahia

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Música da Bahia
João Gilberto Assis Valente Daniela Mercury
Josué de Barros Ilê Aiyê Saulo, Banda Eva
Dorival Caymmi Moraes Moreira
Novos Baianos
Gal Costa Luiz Caldas Ivete Sangalo
Carnaval no Pelourinho

Bahia Uma amostra do universo musical baiano Bahia

Formas tradicionais
Media e atuações
Festivais musicais
Canções nacionalistas e patrióticas
Hino Hino da Bahia

A música da Bahia diz respeito à produção musical do estado brasileiro da Bahia, em suas diversas manifestações tanto típicas e ali originadas, quanto fruto de artistas baianos que se destacaram em outras terras e ritmos, bem como de artistas naturais de outros estados mas que ali vieram a basear sua carreira.

Dentre os gêneros musicais originados na Bahia, com marcada influência africana, estão desde o samba ao axé,[1] passando por criações locais como o trio elétrico e a guitarra baiana, a africanas tradicionais ali como o berimbau;[2][3] sua produção musical é marcada pelo pioneirismo com nomes como Xisto Bahia (primeiro disco gravado no país), Assis Valente (primeiro a compor uma música junina), Luís Caldas (criador do axé), passando por João Gilberto (a inaugurar a bossa nova), Gilberto Gil e Caetano Veloso (com o Tropicalismo) e Bob Joe no country/sertanejo, aos ritmos africanos como a batucada do Olodum, além de expoentes em vários outros gêneros como Waldick Soriano e Anísio Silva no brega, Dorival Caymmi (criador de "clássicos" como O Que É que a Baiana Tem?), Raul Seixas ou Pitty (no rock) e grupos musicais de grande sucesso como É o Tchan!, Timbalada, Novos Baianos, entre muitos outros.

Do século XVI ao XXI, a música na Bahia possui uma rica história em todos os ritmos e vertentes, mesclando influências e influenciando a produção artística e cultural brasileira. Mesmo a principal iniciativa de preservação memorial da música brasileira é fruto do trabalho do baiano Ricardo Cravo Albin.[4]

Primórdios da música no país, na Bahia[editar | editar código-fonte]

Desde o século XVI que a música erudita desempenhou um importante papel na vida sócio-cultural da Bahia, a partir do Recôncavo, onde se instalaram os primeiros povoadores da Colônia; isto se deu em razão das festas e eventos religiosos, bem como da profusão de irmandades.[5]

Em "Carta d'El Rey" de 4 de dezembro de 1551 foram criados os cargos de chantre e dois "moços do coro"; o primeiro chantre foi o capelão da , o clérigo Francisco de Vaccas, que faleceu dois anos depois; seguiu-se-lhe a 18 de maio de 1554, João Lopes que ocupou o chantrado até 1560, quando renunciou e assumiu Ruy Pimenta.[5] Nova Carta Régia de 15 de junho de 1559 criava a função de Mestre de Capela, sendo esta ocupada pelo músico Bartolomeu Pires; foram criados mais dois cargos de "moços do coro" e o de organista, sendo o primeiro destes o padre Pedro da Fonseca; atendia-se, assim, à necessidade de se executar um repertório polifônico; estas funções persistiram pelo século seguinte.[5]

Registros há que, na parte popular, afora esta origem voltada ao ensino religioso, era comum manter-se um negro ou mulato a servir nas bandas ou nas serenatas pela aristocracia colonial; em 1728 um viajante francês relatou que no Convento de Santa Clara do Desterro as monjas "...tocavam até mais não poder diversos instrumentos; desde a harpa até o pandeiro e se exercitavam na narração, tanto satírica quanto sentimental, das intrigas galantes dos oficiais da guarnição, dos quais alguns as cortejavam..."[5]

O padre Fernão Cardim descreveu os festejos natalinos da capital baiana de 1583: "Tivemos pelo Natal um devoto presépio na povoação, aonde algumas vezes nos ajuntávamos com boa e devota música, e o irmão Barnabé nos alegrava com seu berimbau".[2]

Século XVIII[editar | editar código-fonte]

Nos registros históricos que traz no seu romance "Sinhazinha", Afrânio Peixoto narra a viagem empreendida do alto sertão no começo do século XVIII por Timóteo Spínola que, indo visitar Portugal onde nascera, desfilou por Salvador, então a maior cidade das Américas, com uma banda de música composta por escravos e toda fardada – algo que nem a cidade colonial possuía na época, segundo ele.[6]

Em Salvador se produziu em 1759 a mais antiga obra musical erudita conhecida do Brasil, um "Recitativo e ária", de autor desconhecido e oferecida a José Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de Melo; nela se destacam o caráter laico e não religioso e, ainda, o fato de ser escrita em português, e não no latim então usado.[5] Em 1760 a cidade assistiu a uma duradoura comemoração pelo casamento da princesa Maria Francisca com seu tio, o príncipe D. Pedro, que durou por dois meses de comemorações públicas. Já no seu terceiro dia um relato registrou, com a grafia da época: "ao som de armoniosos instrumentos dançarão se alguas danças communs com toadas e modas da terra que bastantemente satisfizerão aos que contentes se achavão, neste universal espetaculo de gozo e prazer". Houve apresentação de óperas, serenatas, canto coral e muitas outras manifestações musicais durante esses dias, inclusive um carro alegórico sobre o qual havia "um coro de música... ao som de temperados instrumentos".[5]

Século XIX: guerras e música[editar | editar código-fonte]

Praça da Piedade, Salvador, começo do séc. XIX (Rugendas)

Relatos de viajantes como Maria Graham dão conta da participação dos negros na musicalidade baiana, no começo do século XIX; assim é que esta inglesa, testemunha das lutas pela Independência da Bahia (1821-1823), registrou: “os negros e mulatos são os melhores artífices e artistas. A orquestra da ópera é composta no mínimo de um terço de mulatos”.[7] Dança e música foram ainda presença na vida dos escravos; além dos batuques e lundus, muitos dos senhores os designavam para aprenderem a arte; também o canto era uma presença durante os trabalhos forçados, o que também foi registrado pelos visitantes estrangeiros.[7]

Nascido em 1807, Domingos da Rocha Viana viria a se tornar um dos grandes nomes da música baiana; principiou seu aprendizado na Guarda Nacional, e participou das lutas da Independência onde foi ferido em batalha perto do Engenho Mussurunga pelo que foi condecorado e adotou o nome do lugar como seu, passando a chamar-se Domingos Mussurunga;[nota 1] foi professor de música desde os vinte anos e um dos membros da "Academia de Música", entidade de breve duração (de 1830 a 1836) da qual também faziam parte Damião Barbosa de Araújo e José Pereira Rebouças; em 1837 participou da revolta da Sabinada, para a qual compôs o "Hino da Revolução", o que lhe rendeu a prisão e posterior absolvição; seu talento logo obteve reconhecimento na Corte, apresentando-se no Teatro São Pedro de Alcântara num concerto em que também mestres da "escola baiana" apresentaram aberturas sinfônicas.[8]

Mussurunga publicou em 1834, com o pseudônimo de "Artinha Mussurunga", um "Novo Compêndio de Música" - tornando-se assim um dos primeiros brasileiros a ter um livro de pedagogia musical; em 1841 compôs um Te Deum em homenagem à coroação de D. Pedro II e em 1846 sugeriu à assembleia da província a criação de um conservatório; além das obras sacras, compôs letra e música de dueto bufo "A Negra do Mungunzá", várias vezes encenado na capital baiana; deixou muitas modinhas, lundus, quadrilhas e valsas, sendo patrono da Cadeira 11 da Academia Brasileira de Música.[8]

Tinha a capital baiana em meados do século uma população superior a seiscentos mil habitantes, dos quais mais de quarenta por cento era de escravos, boa parcela destes era versado em música, tocando algum instrumento.[7]

Final do século XIX - o samba levado ao Rio de Janeiro[editar | editar código-fonte]

Xisto Bahia, o primeiro sucesso nacional.

Em 17 de junho 1872, Hilário Jovino Ferreira, pernambucano criado na Bahia, chega ao Rio de Janeiro e ali encontra um racho que o faz recordar dos bailes pastoris comuns em terras baianas, especialmente na capital onde culminavam com festejo no dia 6 de janeiro no bairro da Lapinha.[9] Hilário se juntava, na então capital do Império, ao grupo de baianos que iria forjar e expandir para todo o país uma cultura popular que mais tarde seria "um elemento identificador da nossa nacionalidade, o samba", no dizer de Lisboa Jr.[9]

Dentre estes precursores do samba no Rio do século XIX merece destaque a baiana Tia Ciata, oriunda do Recôncavo e iniciada no Terreiro da Casa Branca, que levou ao Rio de Janeiro o samba que se praticava na Bahia e, em sua casa, tiveram origem expressões típicas do samba carioca como "partido-alto" e "fundo de quintal".[1]

O primeiro grande nome nacional da música baiana é o de Xisto Bahia que, na segunda metade do século XIX e começo do seguinte apresenta-se não somente no estado natal, mas excursiona pelo Norte e Nordeste; não somente no teatro mostra seu talento, mas sobretudo nas modinhas e lundus, dentre os quais alcança grande sucesso "Ainda e Sempre", com versos do poeta caetiteense Plínio de Lima; foi sua mais famosa composição e sobre ela o historiador da música brasileira Guilherme Pereira de Melo registrou que é "...verdadeira epopeia de seu sentimento lírico, vê-se com que delicadeza ele percorria todas as gradações do sentimento melódico, ora majestoso nos graves, ora encantador nas modulações, ora sublime nas falsas, ora agindo num movimento patético, ora ainda extasiado numa firmata!", ressaltando que isto fazia "sem conhecer uma só regra de composição!"; esta canção alçou-o ao sucesso também no Sul.[9]

Assim como Xisto Bahia e Hilário Jovino, também levou para o Rio de Janeiro o jeito baiano de dançar e cantar Getúlio Marinho, que na capital baiana desfilava nos ranchos que percorriam suas ruas durante o carnaval.[9][nota 2] Ali, frequenta as casas das "tias baianas", da quais a mais importante foi a Tia Ciata; além desta havia Perciliana Maria Constança (que era mãe do João da Baiana), Amélia Silvana de Araújo (mãe de Donga), Carmen do Xibuca, Bibiana, dentre muitas outras que, caracterizadas de saia rodada, pano da costa, turbante e apetrechos, vendiam seus quitutes no centro e tinham grande respeito por serem mães e filhas-de-santo no terreiro de João Alabá, e foram ao redor de quem se firmou o ritmo que hoje é símbolo nacional brasileiro.[9]

Século XX: a Bahia no sul[editar | editar código-fonte]

Josué de Barros, violonista e compositor, foi quem descobriu Carmem Miranda; além disto, foi considerado o primeiro no país a excursionar pela Europa apresentando ali a música popular brasileira;[9] Barros foi, ainda, quem primeiro levou aos discos no ano de 1930 e anunciada como "batuque africano" uma canção contendo elementos do ijexá, intitulada "Babaô Miloquê", acompanhado da Orquestra Victor Brasileira regida por Pixinguinha, que também foi o arranjador.[11]

Hilário Marinho foi quem primeiro levou aos discos a religiosidade africana, também em 1930, numa gravação pioneira da qual participaram duas filhas-de-santo; suas canções foram gravadas por grandes nomes da música brasileira, a exemplo de Francisco Alves, Aurora Miranda, Henricão, Orlando Silva, Moreira da Silva, etc.; de sua autoria é uma das primeiras marchinhas juninas, sucesso na voz de Chico Alves: "Pula a Fogueira"[9]

Antonio Lopes de Amorim Diniz, conhecido como "Duque", foi dançarino e compositor que rompeu preconceitos contra o maxixe, ritmo contra o qual se erguera escandalizado seu conterrâneo de Salvador Ruy Barbosa quando a então primeira-dama do país, Nair de Tefé, levara em 1914 ao Palácio do Catete a pianista Chiquinha Gonzaga, proferindo na tribuna do Senado discurso onde qualificava o maxixe como "a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras da música de Wagner...", refletindo todo o preconceito com que as elites do país tratavam a música popular; já em 1909 o dentista Duque, após abandonar a profissão para viver como artista, partira a Paris junto a Josué de Barros e Artur de Castro; enquanto esses dois desistem da empreitada, Duque monta um estúdio de dança na capital francesa, imprimindo ao maxixe passos parecidos ao tango; logo fica conhecido e faz par com várias dançarinas de sucesso, como Arlette Dorgère até ter em Gaby Deslys sua parceira e a se apresentar não apenas nas principais casas de espetáculo parisienses, mas diante de reis, como Jorge V e do Papa Pio X - fazendo o maxixe a dança da moda na Europa; em 1915, um ano após a fala de Ruy ao Senado, Duque e sua parceira excursionam pela América do Sul, a começar pelo Rio de Janeiro; ali, convence o magnata Arnaldo Guinle a patrocinar o grupo Oito Batutas de Pixinguinha para que, como ele, levassem à Europa os ritmos populares brasileiros. Dentre suas composições de maior sucesso está o maxixe "Cristo Nasceu na Bahia", em parceria com Sebastião Cirino, interpretada por Dalva Espindola (irmão de Aracy Cortes).[9]

Tropicalismo[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Tropicália
Tropicalistas baianos
Gilberto Gil Maria Bethania
Caetano Veloso Tom Zé
Capinam Gal Costa

"Meu caminho pelo mundo, eu mesmo traço
A Bahia já me deu régua e compasso"

Gilberto Gil, Aquele Abraço[nota 3]

Enquanto a política brasileira vivencia momentos de grande agitação na década de 1960 com a renúncia de Jânio Quadros, movimentos populares e golpe militar, a vida cultural baiana fervilha com a influência da contracultura, o psicodelismo e Beatles, fazendo surgir movimentos como Cinema Novo e a própria Bossa Nova.[12]

Caetano Veloso, então estudante, liderava um grupo formado por sua irmã Maria Bethânia, Gal Costa e Tom Zé; em junho de 1964 eles se apresentam com o show "Nós, Por Exemplo" na inauguração do Teatro Vila Velha em Salvador, alcançando grande sucesso; Gilberto Gil, estudante de administração, conhecera Caetano no final de 1963 mas, formado como primeiro da turma em administração, vai trabalhar numa multinacional em São Paulo; ele se junta ao restante num show de 1965, mas é somente em 1967 que Gil, Caetano, Tom Zé, o maestro Rogério Duprat e os poetas Torquato Neto e Capinam dão início ao movimento tropicalista.[12]

Os artistas baianos ganham projeção nacional; assumindo a condição subdesenvolvida do país, reinterpretam a influência estrangeira sob "uma ótica antropofágica" no dizer do crítico Fred de Góes, e fazem um "questionamento de costumes e comportamentos que ultrapassa a própria música", segundo o mesmo autor.[12] Em 1968 Gil e Caetano são presos e, libertados, voltam para Salvador, partindo para o exílio em Londres no ano seguinte,[12] arrefecendo o movimento que há pouco iniciaram.

Resumindo a importância do movimento na música, Celso Favaretto assinalou: "Pode-se dizer que o Tropicalismo realizou no Brasil a autonomia da canção, estabelecendo-a como um objeto enfim reconhecível como verdadeiramente artístico (...) Reinterpretar Lupicínio Rodrigues, Ary Barroso, Orlando Silva, Lucho Gatica, Beatles, Roberto Carlos, Paul Anka; utilizar-se de colagens, livres associações, procedimentos pop eletrônicos, cinematográficos e de encenação; misturá-los fazendo perder a identidade, tudo fazia parte de uma experiência radical da geração dos 60".[13]

Trio, carnaval e micareta[editar | editar código-fonte]

"E o frevo que é de pernambucano, ui, ui, ui, ui / Ganhou ao chegar na Bahia, ai, ai, ai, ai / Um toque, um sotaque baiano, ui, ui, ui, ui / Pintou uma nova energia, ai, ai, ai, ai (...) É o frevo, é o trio, é o povo / É o povo, é o frevo, é o trio / Sempre junto fazendo o mais novo / Carnaval do Brasil."
(Moraes Moreira, "Vassourinha Elétrica").

Na década de 1970 o cantor Moraes Moreira rompeu com a tradição dos trios elétricos exclusivamente instrumentais, inaugurando a figura do "cantor de trio", que iria revolucionar a história musical baiana e criar todo um mercado novo".[14]

Micareta, uma invenção baiana[editar | editar código-fonte]

A “micareta” é uma invenção tipicamente baiana; hoje chamada de “carnaval fora de época”, esse modelo de festa momesca foi “exportado” para outros locais a partir da década de 1980, mantendo um formato que privilegia a festa de carnaval soteropolitana, com blocos e trio elétrico.[15]

Sua matriz original coincidia com a festa francesa Mi-carème ("meio da quaresma", em livre tradução) que ocorria na mesma data de outra festividade popular lusa, a Serração da Velha e que, como o carnaval, tinha sua realização variável conforme a data da Páscoa católica; no começo do século XX os comerciantes de Salvador, preocupados com a diminuição das festas carnavalescas, introduziram a Mi-carème na cidade, para ocorrer após o jejum pascoal, num único dia, tendo seu primeiro registo em 1914, organizado pelo clube Fantoches da Euterpe e com adesão de vários outros grupos carnavalescos como blocos, cordões, afoxés, etc.[15]

A ideia desse carnaval além da data tradicional já bem cedo foi copiada em cidades do interior, a primeira delas Jacobina, e com registros antigos em Vitória da Conquista, vindo entretanto a florescer em Feira de Santana, considerada por muitos como o “berço” da micareta. O termo “micareta” em si surgiu na capital baiana por meio de um concurso realizado na década de 1930, escolhido entre várias alternativas: “Refolia, Micareta, Carnavalito, Arlequinada, 1° Festa Outonal, Mascarada, Bicarnaval, Precarême, Brincadeira e Remate”, onde o neologismo vencera por três votos.[15]

Realizado em muitas cidades baianas, o carnaval fora de época segue a matriz do carnaval baiano, ocorrendo em várias partes do Brasil (a exemplo do Carnatal de Natal, da Micarande de Campina Grande, Marafolia de São Luís entre muitas outras), levando a fórmula “bloco de trio” originada na Bahia.[15]

"Explosão do Axé"[editar | editar código-fonte]

O entendimento comum é de que o axé surgiu da mescla ocorrida entre o frevo originário de Pernambuco, a guitarra baiana e os tambores africanos prevalece; estes últimos resultam do legado das religiões de origem africana, com seus Orixás.[16] O termo axé music, entretanto, guarda origem pejorativa, havendo sido utilizada a primeira vez pelo jornalista do sul Hagamenon Brito para rotular a música que surgia na Bahia no final da década de 1980.[14] Também o rótulo dado a esse tipo de música que tornou-se sucesso internacional – "música baiana" – procurava regionalizar algo que transcendia a compreensão do resto do país (não se fala no período, por exemplo, em "música mineira", "carioca" ou "paulista"); ao lado disto era taxada como "música de péssima qualidade".[14]

Grupo Olodum deu fama mundial à "música do gueto" de Salvador.

Contribuíram para o sucesso do ritmo além das fronteiras do estado dois fatores: a gravação junto a artistas estrangeiros, como o grupo Olodum que gravou com Paul Simon em seu álbum The Rhythm of the Saints ou Margareth Menezes que cantou com David Byrne; além disto recordes de vendas foram alcançados, como o de Carlinhos Brown e sua banda Acordes Verdes que venderam em um ano três milhões de CDs, e Daniela Mercury em 1993 com a venda de 1,2 milhão de cópias superando o cantor de maior vendagem da época, Roberto Carlos.[17]

O axé, para além de ser um gênero, é todo um movimento musical que demonstra o resultado da fusão do samba-reggae, do ijexá do candomblé e da batucada dos blocos-afro com as bandas de trio elétrico, constituindo um grande polo criativo; encontram um mercado consumidor no próprio estado, e na própria Bahia se tornam sucesso de vendagem; teve seu marco inicial com a canção "Fricote", de Luiz Caldas e Paulinho Camafeu (uma mistura do ijexá com o frevo elétrico).[14]

A produção musical se incrementa com a instalação, por Wesley Rangel, do "estúdio WR"; embora os maiores músicos tenham sido levados ao restante do país por grandes gravadoras, praticamente todos tiveram passagem ali; toda uma produção gravita em torno do ritmo a ponto de se falar na existência de uma "indústria do axé".[14]

Além de Caldas, despontam para o resto do país Sarajane e Daniela Mercury com "O Canto da Cidade", levando aos brasileiros a dança sensual e a música ruidosa que "enchem os olhos e os ouvidos" do país, ocupando espaço nos programas de televisão.[14]

Do Ara Ketu e Olodum que vieram dos blocos afro e dos guetos, a Daniela Mercury e Ivete Sangalo, a música se tornou o grande produto cultural de Salvador e da Bahia.[14]

Festivais, shows e premiações[editar | editar código-fonte]

Desde 2015 a prefeitura de Salvador realiza o Prêmio Caymmi de Música, destinado a reconhecer os artistas que mais se destacaram no biênio entre sua escolha e a data da premiação; sua edição de 2017 prestou homenagem aos cinquenta anos do Tropicalismo.[18]

Outros festivais

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • The Berimbau: Soul of Brazilian Music, Eric A. Galm (Univ. Press of Mississippi, 2010)
  • Cancioneiro da Bahia, Dorival Caymmi (Livraria Martins, 1967)
  • Compositores e Intérpretes Baianos: de Xisto Bahia a Dorival Caymmi, Luiz Américo Lisboa Júnior (Via Litterarum/Editus, Ilhéus, 2006).
  • Guia da Música Popular da Bahia, Zé Ricardo Machado (2018, 302 pág.)
  • História da Música Brasileira: dos primórdios ao início do século XX, B. Kiefer (Editora Movimento, 1976)
  • A Trama dos Tambores: a música afro-pop de Salvador, Goli Guerreiro (editora 34, 2000)

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Notas

  1. A maioria das fontes mantém a grafia antiga do nome: "Moçurunga"; aqui, entretanto, fez-se a atualização ortográfica.
  2. Algumas fontes dão, entretanto, que o nascimento de Marinho se dera em algum lugar do estado de Pernambuco; uma delas, o Dicionário Cravo Albin, chega à contradição maior de informar que nascera em "1873 - Pernambuco", e que se mudara para a Corte no ano anterior: "Chegou ao Rio de Janeiro já adulto, em 1872".[10] Independentemente da naturalidade do compositor, foi na Bahia que este aprendeu a música e, dali, a levou para a então capital do país.
  3. Canção composta por Gil, no exílio em Londres.[12]

Referências

  1. a b Jairo Gonçalves; Rafaela Ribeiro (29 de março de 2012). «Músicas guardam história dos 463 anos de Salvador». G1. Consultado em 1 de dezembro de 2018. Cópia arquivada em 1 de dezembro de 2018 
  2. a b Luís da Câmara Cascudo. Berimbau (verbete). Dicionário do Folclore Brasileiro 19ª ed. [S.l.]: Ediouro. 157 páginas. ISBN 8500800070 
  3. FRUNGILLO, Mário D. (2003). Dicionário de percussão. [S.l.]: Editora UNESP. p. 39. 425 páginas. ISBN 8571394482. Consultado em 29 de setembro de 2010 
  4. Lígia Diogo. «Instituto Cultural Cravo Albin: Um recanto – também on line – para o passado, o presente e o futuro da MPB». Revista Ciberlegenda. UFF. Consultado em 1 de dezembro de 2018. Cópia arquivada em 1 de dezembro de 2018 
  5. a b c d e f Régis Duprat (1965). «A Música na Bahia Colonial». USP. Consultado em 1 de dezembro de 2018. Cópia arquivada em 1 de dezembro de 2018 
  6. Afrânio Peixoto. Sinhazinha. [S.l.]: Ediouro. ISBN 8500406879 
  7. a b c Luciano Cardôso (14 de novembro de 2008). «Música na base social da Bahia oitocentista - I». Overmundo. Consultado em 24 de março de 2019. Cópia arquivada em 24 de março de 2019 
  8. a b Institucional. «Domingos Moçurunga». Academia Brasileira de Música. Consultado em 24 de março de 2019. Cópia arquivada em 27 de março de 2016 
  9. a b c d e f g h Luiz Américo Lisboa Júnior (2006). Compositores e Intérpretes Baianos: de Xisto Bahia a Dorival Caymmi. [S.l.]: Via Litterarum/Editus. 371 páginas. ISBN 859849324-4 
  10. «Hilário Jovino Ferreira». Dicionário Cravo Albin. Consultado em 27 de março de 2019. Cópia arquivada em 28 de março de 2019 
  11. Alberto T. Ikeda (2016). «O ijexá no Brasil: rítmica dos deuses nos terreiros, nas ruas e palcos da música popular». Revista USP, São Paulo, n. 111, p. 21-36. Consultado em 25 de março de 2019. Cópia arquivada em 25 de março de 2019 
  12. a b c d e Fred de Góes (1982). Gilberto Gil. Col: Literatura Comentada. [S.l.]: Abril. 112 páginas. Colaboração de Lauro Góes e Nelson Motta. 
  13. Marcos Napolitano; Mariana Martins Villaça (1998). «Tropicalismo: As Relíquias do Brasil em Debate». Rev. bras. Hist. vol. 18 n. 35 São Paulo. Consultado em 23 de março de 2019. Cópia arquivada em 23 de março de 2019 
  14. a b c d e f g Ianá Souza Pereira (2010). «Axé-Axé: o megafenômeno baiano» (PDF). Revista África e Africanidades - Ano 2 - n. 8, ISSN 1983-2354. Consultado em 23 de março de 2019. Cópia arquivada em 23 de março de 2019 
  15. a b c d Clarissa Valadares Xavier; Carlos Eduardo Santos Maia (6 de março de 2009). «Vira Virou a Micareta Emplacou» (PDF). UFG. Consultado em 29 de julho de 2019. Cópia arquivada em 29 de julho de 2019 
  16. Fernando de Jesus Rodrigues (2006). «Os Ritmistas e a Cidade: sobre o processo de formação da música baiana contemporânea orientada para a diversão» (PDF). UNB. Consultado em 29 de novembro de 2018. Cópia arquivada (PDF) em 20 de julho de 2018 
  17. Bill Hinchberger (1999). Bahia Music Story. The Brazil Reader: History, Culture, Politics. Durham: Duke University Press. ISBN 9780822322900. Consultado em 29 de novembro de 2018 
  18. Mauro Ferreira (19 de agosto de 2017). «2º 'Prêmio Caymmi de Música' laureia a diversa cena alternativa da Bahia». G1. Consultado em 30 de novembro de 2018. Cópia arquivada em 30 de novembro de 2018