URSAL

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
A América Latina, região do globo que supostamente constituiria a URSAL.

URSAL (acrônimo para União das Republiquetas Socialistas da América Latina[1] ou União das Repúblicas Socialistas da América Latina) é um termo criado em tom jocoso pela socióloga brasileira Maria Lúcia Victor Barbosa, em 2001,[2] para ironizar as críticas feitas por políticos e intelectuais de esquerda à Área de Livre Comércio das Américas, liderada pelos Estados Unidos.[1][3] Posteriormente a expressão foi tomada a sério por Olavo de Carvalho[4] e por eleitores da extrema-direita brasileira, ressurgindo no YouTube e em outras mídias como uma teoria da conspiração relacionada a um suposto plano de integração latino-americana engendrado pelo Foro de São Paulo.[5][6][7]

Em tom de denúncia, o acrônimo foi retomado em 2018, pelo deputado federal e candidato à presidência, Cabo Daciolo, em referência a uma conspiração em curso para acabar com as soberanias nacionais no continente.[3] Daciolo referiu-se à URSAL quando interrogou Ciro Gomes[8][9] durante o primeiro debate entre candidatos da eleição presidencial brasileira de 2018, veiculado pela TV Band em 9 de agosto. Segundo ele, a URSAL seria uma federação de países da América Latina e do Caribe com características de um grande bloco de repúblicas socialistas.[10][11][7] Na sequência o episódio repercutiu na imprensa brasileira e estrangeira, e ensejou numerosas manifestações nas redes sociais, sobretudo em tom de deboche.[12][13]

Detalhes das origens

Ativistas conservadores, tais como Olavo de Carvalho, ajudaram a difundir a teoria da URSAL.[5][6]

Na imprensa brasileira, o termo URSAL apareceu pela primeira vez em 9 de dezembro de 2001 no artigo "Os Companheiros", da socióloga e professora da Universidade Estadual de Londrina, Maria Lúcia Victor Barbosa, no qual criticava a negativa de governantes latino-americanos em participar da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), proposta por Bill Clinton, sob o argumento de que a mesma significaria o "fim da integração latino-americana", como dito por Lula.[1] Originalmente, URSAL era o acrônimo de União das Republiquetas Socialistas da América Latina[1] e denotava sarcasmo.[3]

O termo foi tomado a sério por Olavo de Carvalho, em artigo de 2006 publicado no Diário do Comércio. Nesta ocasião ele atribuiu um novo sentido ao acrônimo: União das Repúblicas Socialistas da América Latina.[4][14] Já em 2018 afirmou que URSAL é um termo genérico, não uma denominação oficial, que se referiria a um plano comunista de integração continental. Segundo ele, "a existência do plano comunista de integração continental é o fato mais abundantemente documentado das últimas décadas", ligando-a no plano prático à UNASUL.[15]

Esse novo conceito ressurgiu amplificado no Youtube, onde vídeos criados por apoiadores da extrema-direita e canais cristãos reproduziram e aumentarem a teoria, misturando-o com o conceito de Patria Grande. O canal evangélico Alerta Cristã defende que a URSAL seria a segunda de três fases para constituir uma nação comunista e anti-cristã na América Latina. Segundo o think tank Digital Forensic Research Lab do Atlantic Council, os algoritmos do Youtube desempenharam um papel importante para a difusão da ideia, uma vez que sugeria conteúdo semelhante a quem assistisse um vídeo sobre a URSAL.[5][6]

As menções à URSAL começam a ter algum destaque já antes das manifestações de 2013 e nas eleições de 2014. Cresceram em 2015 tendo seu primeiro pico em 2016, durante as votações do impeachment de Dilma Rousseff.[16]

Um site com domínio próprio, intitulado Dossiê URSAL e hospedado no Dreamhost.com, um serviço que protege a identidade de seu dono, foi criado em abril de 2015, segundo informações de WHOIS.[17] Compilou várias ligações ao YouTube e à imprensa brasileira, detalhando a suposta criação do bloco.[18]

Em vídeo de 2018 publicado no Youtube depois do debate presidencial, Olavo de Carvalho gabou-se de haver denunciado doze anos antes os planos da URSAL e reafirma que se tratava de um órgão do Foro de São Paulo.[5][19]

Durante a eleição presidencial no Brasil em 2018, mensagens foram compartilhadas nas redes sociais acusando a URSAL de adulterar urnas eletrônicas para prejudicar o candidato Jair Bolsonaro. O Projeto Comprova analisou as acusações e confirmou que não haveria qualquer plano nesse sentido e que o autor da mensagem incorrera em diversos erros em relação ao processo eleitoral brasileiro.[20]

Debate dos candidatos à presidência no Brasil em 2018

Cabo Daciolo trouxe a teoria à tona em debate de candidatos à presidência em 2018.

No dia 9 de agosto, o candidato à presidência pelo Patriota, Cabo Daciolo,[21] durante o debate na Rede Bandeirantes,[22] questionou o candidato pelo PDT, Ciro Gomes:

"O senhor é um dos fundadores do Foro de São Paulo. O que pode falar sobre o Plano URSAL? Tem algo a dizer para a nação brasileira?"[23]

O candidato Ciro Gomes, por sua vez, respondeu que não é fundador do Foro de São Paulo e que desconhecia o assunto, gerando risos na plateia.[23]

O fato gerou a partir do dia seguinte uma avalanche de memes nas redes sociais, que tratavam o tema com humor.[12] No Twitter, o termo URSAL permaneceu nos trending topics durante todo o dia.[12] Levou também à criação de memes, páginas, eventos e grupos específicos para apoiar a criação da URSAL no Facebook, que aglutinaram centenas de seguidores.[24] No dia 11 de agosto de 2018, o verbete sobre a URSAL foi o mais visualizado da Wikipédia Lusófona.[25] Foi também o 4º termo mais pesquisado por brasileiros no Google em 2018 na categoria "O que é?".[26]

Ver também

Referências

  1. a b c d Barbosa, Maria Lucia Victor (8 de dezembro de 2001). «Os companheiros». Folha de Londrina. Folha Opinião. Consultado em 14 de dezembro de 2018 
  2. Gonzo, Amauri (14 de agosto de 2018). «Tudo que sabemos sobre a URSAL». Vice. Consultado em 10 de dezembro de 2018 
  3. a b c Perotti, Denise (13 de agosto de 2018). «Crítica do PT, socióloga diz que inventou Ursal em 2001 como ironia.». Folha de S. Paulo. Consultado em 10 de dezembro de 2018 
  4. a b Erro de citação: Código <ref> inválido; não foi fornecido texto para as refs de nome inventores
  5. a b c d Bandeira, Luiza (30 de agosto de 2018). «#ElectionWatch: URSAL, Illuminati, and Brazil's YouTube Subculture». Digital Forensic Research Lab. Atlantic Council. Consultado em 1 de setembro de 2018 
  6. a b c Zaremba, Júlia (30 de agosto de 2018). «YouTube ajudou a amplificar teoria da Ursal, diz relatório». Folha de S.Paulo. Consultado em 10 de dezembro de 2018 
  7. a b Betim, Felipe (16 de agosto de 2018). «La URSAL: una teoría de la conspiración que llegó al debate político de Brasil» (em espanhol). El País. Caderno Verne. Consultado em 10 de dezembro de 2018 
  8. «Paraná Pesquisas: Após viralizar com URSAL, Daciolo ultrapassa Meirelles, Boulos e Amoêdo». Revista Fórum. 15 de agosto de 2018. Consultado em 10 de dezembro de 2018 
  9. Umpieres, Rodrigo Tolotti (21 de agosto de 2018). «Cabo Daciolo pode ter um papel mais importante do que parece na eleição, diz Financial Times». InfoMoney. Consultado em 10 de dezembro de 2018 
  10. Corrêa, Marcello (10 de agosto de 2018). «Citada por Cabo Daciolo, Ursal seria 5ª maior economia do mundo.». O Globo. Consultado em 10 de dezembro de 2018 
  11. «Cabo Daciolo, Plano Ursal e teoria da conspiração provocam avalanche de memes». Revista Fórum. 10 de agosto de 2018. Consultado em 10 de dezembro de 2018 
  12. a b c «Internautas fazem graça com a 'Ursal' citada por Cabo Daciolo em debate». Correio Braziliense. 10 de agosto de 2018 
  13. Leahy, Joe. «A rightwing maverick lights up Brazil's presidential campaign». Financial Times (em inglês). Seção Opinion Brazil. Consultado em 31 de agosto de 2018. (pede subscrição (ajuda)) 
  14. Nogueira, Kiko (10 de agosto de 2018). «Em 2006, Olavo de Carvalho, mentor intelectual de Bolsonaro, já alertava o mundo para o perigo da URSAL». Diário do Centro do Mundo. Consultado em 10 de dezembro de 2018 
  15. Carvalho, Olavo de (13 de agosto de 2018). «URSAL». Consultado em 13 de agosto de 2018 
  16. Lacerda, Marina (13 de agosto de 2018). «Fake news da "URSAL" é uma síntese do pensamento de extrema-direita no Brasil». Socialista Morena. Consultado em 11 de dezembro de 2018 
  17. «Termo Ursal foi criado como brincadeira e agora alimenta teorias conspiratórias». Estadão Verifica. 17 de agosto de 2018. Consultado em 10 de dezembro de 2018 
  18. «Dossiê URSAL». www.dossieursal.com. Consultado em 11 de agosto de 2018 
  19. Carvalho, Olavo de (12 de agosto de 2018), Olavo de Carvalho - URSAL, doze anos depois, Youtube, Canal Olavo de Carvalho, consultado em 2 de setembro de 2018 
  20. «Ursal não existe e, portanto, não armou esquema para manipular urnas». Estadão Verifica. 18 de outubro de 2018. Consultado em 10 de dezembro de 2018 
  21. Gabriel, Ruan de Sousa (15 de agosto de 2018). «O cânone literário da Ursal». Época. Consultado em 10 de dezembro de 2018 
  22. Carbonari, Pâmela (13 de agosto de 2018). «O que é a Ursal? Ela existe de verdade?». Gazeta do Povo. Consultado em 10 de dezembro de 2018 
  23. a b «Ciro Gomes: O que Foro de São Paulo e Ursal têm a ver com o candidato». HuffPost. 10 de agosto de 2018. Consultado em 13 de agosto de 2018 
  24. Gonçalves, Julia de Souza Borba; Souza, Lucas Eduardo Silveira de (26 de agosto de 2018). «Ursal e a ignorância sobre política externa». Outras Palavras. Consultado em 10 de dezembro de 2018 
  25. «Análise de páginas mais vistas». tools.wmflabs.org. Consultado em 1 de setembro de 2018 
  26. Ventura, Felipe (12 de dezembro de 2018). «Google revela as buscas mais populares no Brasil em 2018». tecnoblog. Consultado em 20 de dezembro de 2018 

Ligações externas