Anorexia nervosa

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Anorexia nervosa
Retrato de uma mulher em 1866 e 1870, antes e após o tratamento. Este é um dos primeiros casos publicados de anorexia nervosa.
Classificação e recursos externos
CID-10 F50.0-F50.1
CID-9 307.1
MedlinePlus 000362
MeSH D000856
Star of life caution.svg Aviso médico

A anorexia nervosa é uma disfunção alimentar, caracterizada por uma rígida e insuficiente dieta alimentar (caracterizando em baixo peso corporal) e estresse físico. A anorexia nervosa é uma doença complexa, envolvendo componentes psicológicos, fisiológicos e sociais. Uma pessoa com anorexia nervosa é chamada de anoréxica (português do Brasil) ou anorética (português de Portugal).

A anorexia nervosa afeta primariamente adolescentes, sendo cerca de 90% do sexo feminino[1] , sendo cerca de 40% dos casos entre adolescentes.[2] Cerca de 1 em cada 300 habitantes de países desenvolvidos já foram diagnosticados com anorexia.[3]

Causas[editar | editar código-fonte]

Episódios de anorexia costumam durar cerca de 1,7 anos e de 5 a 20% dos anoréxicos morrem em decorrência do transtorno, sendo que quanto mais longo o episódio e menor o IMC, maiores os riscos de morte.[4]
Em 2008 anorexígenos estavam entre os remédios mais usados no Brasil.[5]
Modelos, atrizes, cantoras, atletas e dançarinas são mais vulneráveis ao transtorno [6] Diversos casos de personalidades famosas vítimas de anorexia foram relatados nos últimos anos.[7]

No caso dos jovens adolescentes de ambos os sexos, poderá estar ligada a problemas de auto-imagem, dismorfia, dificuldade em ser aceito pelo grupo, ou em lidar com a sexualidade genital emergente, especialmente se houver um quadro neurótico (particularmente do tipo obsessivo-compulsivo) ou história de abuso sexual ou de bullying.

Tem sido enfatizada, em debates populares, a importância da mídia para o desenvolvimento de desordens como anorexia e bulimia, por alegadamente promover ela uma identificação da beleza com padrões físicos de magreza acentuada. Qualquer papel a ser exercido pela cultura de massa na promoção dessas desordens, no entanto, está ainda para ser demonstrado. Na busca da etiologia de perturbações da saúde mental, inclusive da anorexia nervosa, comumente são procuradas causas de ordem intrapsíquico, ambiental e genético.

Até agora, os seguintes fatos têm emergido na busca das causas desse transtorno:

Causas genéticas:

  • Estudos sobre desenvolvimento de transtornos alimentares envolvendo irmãs gêmeas têm sugerido um fundo genético para o desenvolvimento da anorexia.
  • Pais e mães de pacientes diagnosticadas com essa desordem possuem, relativamente a grupos de comparação da população não seleta, níveis mais elevados de perfeccionismo e preocupação com a forma física.

Características sociopsíquicas de anoréxicas:

  • Independentemente do subtipo de anorexia desenvolvida, restritiva ou purgativa, anoréxicas possuem, relativamente a pessoas saudáveis de sua idade e sexo, uma incidência maior de transtornos da ansiedade (especialmente o transtorno obsessivo-compulsivo) e do humor.
  • Níveis exageradamente elevados de perfeccionismo (busca por padrões de conquista e realizações notavelmente altos, necessidade de controle, intolerância a "falhas" ou "imperfeições") são comuns, e mesmo centrais, no desenvolvimento da anorexia. A presença dessa busca por padrões de perfeição transcende o desenvolvimento da doença, sendo anterior a ela e permanecendo em pacientes que já foram curadas da doença. Alguns estudos sugerem que, apesar de uma inteligência média na faixa regular, anoréxicas possuem níveis mais altos de performance escolar e envolvimento acadêmico, o que sugere que o perfeccionismo nelas presente não se limita a temas relacionados apenas com comida e forma corporal.
  • Outros traços obsessivos-compulsivos, além do perfeccionismo, são notados na infância de anoréxicas, principalmente inflexibilidade, forte adesão a regras estabelecidas, observação dos padrões mantidos por autoridades, etc.
  • Incidência de abuso físico ou sexual é mais elevada em grupos de anoréxicos; em um estudo efetivado na América do Norte, a presença de um histórico de abuso sexual na infância apresentou uma forte associação com o desenvolvimento de transtornos alimentares em grupos de homens homossexuais.

Predisposição[editar | editar código-fonte]

No Brasil, cerca de 21-22% das mulheres entre 15 e 25 anos possuem sintomas, e consequentemente risco maior, de desenvolver anorexia. Dentre os principais sintomas identificados estão a recusa em se alimentar, insatisfação com o próprio corpo, atraso na menstruação, uso de diuréticos, laxantes, anorexígenos, eméticos, abuso de cigarro ou álcool, forçar vômito e preocupação obsessiva com a alimentação.[8]

Anorexia e bulimia[editar | editar código-fonte]

Uma pessoa anoréxica pode ser também bulímica.[9] A anorexia está mais associada a traços ansiosos e obsessivos como perfeccionismo, enquanto a bulimia está associada a traços depressivos e baixa auto-estima.[10]

Em Portugal, a prevalência foi de 4 em cada 1000 habitantes (0,4%), sendo mais comum aos 19 anos, mas com 12,5% da população apresentando mais de dois sintomas de anorexia e 7% possuindo uma auto-imagem corporal distorcida. Esse índice é menor que de outros países desenvolvidos, mas ainda bastante sério pelo alto risco de mortalidade (5 a 20%) desse transtorno.[11]

Sintomas[editar | editar código-fonte]

Diagnóstico[editar | editar código-fonte]

Durante os exames é importante descartar primeiro outras possíveis causas para perda de peso, como problemas endócrinos, intestinais ou outros transtornos psicológicos. Dentre os exames usados para diagnosticar a anorexia estão[12] :

  • Albumina
  • Exame de densidade óssea para verificar se há ossos finos (osteoporose)
  • Hemograma completo
  • Eletrocardiograma (ECG)
  • Eletrólitos
  • Testes de funcionamento dos rins
  • Testes da função hepática
  • Proteína total
  • Testes de funcionamento da tireoide
  • Urinálise

Além disso existem testes psicológicos associados a entrevistas com um psicólogo para identificar o caso e os transtornos associados.

Tratamento[editar | editar código-fonte]

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Deve-se ter duas vertentes, a não-farmacológica e a farmacológica. Entretanto deve-se ter em mente a importância de uma relação médico-paciente satisfatória,uma vez que a negação pelo paciente é muitas vezes presente. Dependendo da gravidade do paciente pode-se pensar em internação para restabelecimento da saúde. Correção de possíveis alterações metabólicas e um plano alimentar bem definido são fundamentais.

Tratamento farmacológico[editar | editar código-fonte]

A vocalista do The Carpenters, Karen Carpenter, faleceu subitamente em 1983 em decorrência da anorexia.

Medicamentos usados no tratamento da depressão e da ansiedade como fluoxetina e topiramato tem mostrado resultados moderados em transtornos alimentares, provavelmente por tratar os pensamentos obsessivos e compulsivos, baixa auto-estima, instabilidade e estresse que frequentemente estão associados ao quadro de anorexia. Outra opção é a olanzapina, remédio para transtorno bipolar pelo seu efeito como estabilizante de humor. [13]

Em relação a abordagem farmacológico tem-se utilizado principalmente os antidepressivos, mas que é uma área que carece de muitos resultados satisfatórios tendo em vista a multicausalidade da doença e a resistência dos pacientes. Dessa forma, é importante uma abordagem multidisciplinar, apoio da família e aderência do paciente. É comum os pacientes abandonarem os medicamentos que os façam reter líquidos e/ou aumentem o apetite, e esses são efeitos colaterais possíveis para grande parte dos remédios psiquiátricos. Antidepressivos e estabilizantes de humor podem também ter o efeito contrário, causando perda do apetite e de massa corporal, agravando ainda mais a anorexia ao invés de ajudar.

Mesmo sendo o tratamento medicamentoso da anorexia nervosa pouco eficiente, continua sendo útil para tratar os sintomas relacionados (ansiedade, pensamentos obsessivos e mau humor) e para prevenir recaídas.[14]

Psicoterapia[editar | editar código-fonte]

Dentre as psicoterapias mais eficientes estão a terapia cognitivo comportamental[15] [16] [17] e psicoterapia familiar[18] [19] .

Prognóstico[editar | editar código-fonte]

Mesmo com tratamento cerca de 30% dos pacientes voltam a desenvolver anorexia em menos de 5 anos. Mesmo nesses casos o tratamento é útil para melhorar a saúde geral de 76% dos pacientes.[20] Em 42 pesquisas, cerca de 6% dos pacientes com anorexia morreram antes da conclusão dos estudos em decorrência de problemas relacionados ao distúrbio alimentar como cardiotoxicidade. [21]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Jovem britânica deixa de ser obesa para ficar anoréxica, acessado em 27 de novembro de 2011
  2. Castro JM, Goldstein SJ. Eating attitudes and behaviors of pre- and post-pubertal females: clues to the etiology of eating disorders. Physiol Behav 1995; 58:15-23.
  3. Treasure J, Claudino AM, Zucker N (2010). "Eating disorders". Lancet 375 (9714): 583–93. doi:10.1016/S0140-6736(09)61748-7. PMID 19931176.
  4. http://www.webmd.com/mental-health/anorexia-nervosa/features/anorexia-body-neglected
  5. Mônica de Fátima Gontijo Carneiro; Augusto Afonso Guerra Júnior; Francisco de Assis Acurcio. Prescrição, dispensação e regulação do consumo de psicotrópicos anorexígenos em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(8):1763-1772, ago, 2008. Disponível em: http://www.scielosp.org/pdf/csp/v24n8/05.pdf
  6. American Psychiatry Association (APA). Practice Guideline for the Treatment of Patients with Eating Disorders Third Edition. Washington DC: APA Press, 2006;
  7. http://noticias.bol.uol.com.br/entretenimento/2011/04/11/famosas-e-modelos-apontadas-como-vitimas-de-anorexia.jhtm
  8. ALVES, Emilaura; VASCONCELOS, Francisco de Assis Guedes de; CALVO, Maria Cristina Marino and NEVES, Janaina das. Prevalência de sintomas de anorexia nervosa e insatisfação com a imagem corporal em adolescentes do sexo feminino do Município de Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. Cad. Saúde Pública [online]. 2008, vol.24, n.3 [cited 2013-01-05], pp. 503-512 . Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2008000300004&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0102-311X. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X2008000300004.
  9. Anorexia nervosa
  10. Yager and Anderson, "Anorexia Nervosa", "The New England Journal of Medicine", Nov 29th, 2012
  11. http://www.fcsh.unl.pt/cadeiras/ciberjornalismo/ciber2000/anorexia/prev.anorexia.htm
  12. http://www.minhavida.com.br/saude/temas/anorexia#.UOfkpG873to
  13. Bissada H, Tasca GA, Barber AM, Bradwejn J (2008). "Olanzapine in the treatment of low body weight and obsessive thinking in women with anorexia nervosa: a randomized, double-blind, placebo-controlled trial". The American Journal of Psychiatry 165 (10): 1281–8. doi:10.1176/appi.ajp.2008.07121900. PMID 18558642.
  14. Fábio Tapia Salzano, Táki Athanássios Cordás. Tratamento farmacológico de transtornos alimentares. http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol31/n4/188.html
  15. Pike KM, Walsh BT, Vitousek K, Wilson GT, Bauer J (2003). "Cognitive behavior therapy in the posthospitalization treatment of anorexia nervosa". The American Journal of Psychiatry 160 (11): 2046–9. doi:10.1176/appi.ajp.160.11.2046. PMID 14594754
  16. Bowers WA, Ansher LS (2008). "The effectiveness of cognitive behavioral therapy on changing eating disorder symptoms and psychopathology of 32 anorexia nervosa patients at hospital discharge and one year follow-up". Annals of Clinical Psychiatry 20 (2): 79–86. doi:10.1080/10401230802017068. PMID 18568579.
  17. Ball J, Mitchell P (2004). "A randomized controlled study of cognitive behavior therapy and behavioral family therapy for anorexia nervosa patients". Eating Disorders 12 (4): 303–14. doi:10.1080/10640260490521389. PMID 16864523.
  18. Eisler I, Dare C, Hodes M, Russell G, Dodge E, Le Grange D (2000). "Family therapy for adolescent anorexia nervosa: the results of a controlled comparison of two family interventions". Journal of Child Psychology and Psychiatry, and Allied Disciplines 41 (6): 727–36. doi:10.1111/1469-7610.00660. PMID 11039685.
  19. Lock J, le Grange D (2005). "Family-based treatment of eating disorders". The International Journal of Eating Disorders. 37 Suppl (S1): S64–7; discussion S87–9. doi:10.1002/eat.20122. PMID 15852323.
  20. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/(SICI)1098-108X(199712)22:4%3C339::AID-EAT1%3E3.0.CO;2-N/abstract
  21. http://ajp.psychiatryonline.org/article.aspx?articleID=171119

Ligações externas[editar | editar código-fonte]