Sabelianismo

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No cristianismo, sabelianismo (também conhecido como modalismo, patripassianismo, unicismo, monarquianismo modalista ou monarquianismo modal) é a crença não-trinitária de que o Deus Pai, Deus Filho e o Espírito Santo são diferentes "modos" ou "aspectos" de um Deus único percebido pelo crente ao invés de três pessoas distintas de Deus.

O termo sabelianismo deriva de Sabélio, um padre e teólogo do século III d.C. e defensor da tese. Ele foi um discípulo de Noeto, motivo pelo qual os seguidores desta crença são chamados nas fontes patrísticas de Noecianos. Já Tertuliano batizou-a de Patripassianismo.

Significado e origens[editar | editar código-fonte]

O sabelianismo histórico ensinava que Deus Pai era a única existência verdadeira de Deus, uma crença conhecida como Monarquianismo. Um autor descreveu o ensinamento de Sabélio assim: A verdadeira questão, portanto, se torna esta, o que constitui o que chamamos de 'pessoa' na Divindade? É original, substancial, essencial à própria divindade? Ou é parte dos desenvolvimentos e formas de aparecer que a Divindade criou para si para suas criaturas? A primeira opção, Sabélio negava. Esta última ele admitia completamente.[1]

Os modalistas afirmam que o único número atribuído a Deus na Bíblia é "Um" e que não existe nenhuma trindade inerente atribuída a Deus explicitamente nas Escrituras [2] . O número três nunca é mencionado na Bíblia com relação a Deus, e as duas únicas exceções possíveis são Mateus 28:16-20 (chamado de "Grande Comissão), 2 Coríntios 13:13 e o Comma Johanneum, que muitos consideram como uma passagem espúria interpoolada em 1 João 5:7, conhecida principalmente pela tradução do rei James e em algumas versões do Textus Receptus e que não é incluída na maior parte das versões críticas modernas[3] . Eles acreditavam que Deus teria três "faces" ou "máscaras" (em grego: πρόσωπα - prosopa; latim personae)[4] . Já os trinitários acreditam que os três membros da Trindade estavam presentes como seres aparentemente distintos no batismo de Jesus e acreditam que há outras evidências nas escrituras para a crença trinitária (veja Trinitarismo).

Modalismo tem sido principalmente associado com Sabélio, que ensinava uma forma dele em Roma no século III d.C. como um discípulo de Noeto e Práxeas[5] .

Hipólito de Roma conheceu Sabélio pessoalmente e o mencionou na Philosophumena e sabia que Sabélio não gostava da teologia trinitária, mas ainda assim atribuiu a heresia à Calisto e Noeto, mas não a Sabélio, que ele diz ter sido pervertido[6] . O sabelianismo foi adotado pelos cristãos da Cirenaica, a quem Demétrio, Patriarca de Alexandria escreveu cartas argumentando contra a crença [carece de fontes?].

Acredita-se também que o termo grego homoousia ou "consubstancial", que era o favorito de Atanásio de Alexandria na controvérsia ariana, foi de fato um termo proposto por Sabélio e, por isso, era utilizado com ressalvas pelos seguidores de Atanásio. A objeção ao termo era a de que ele não existe nas escrituras e tem uma "tendência sabeliana" [7] .

Derivação da filosofia grega[editar | editar código-fonte]

O Monarquianismo modal originou-se da influência filosofia grega pagã, incluindo as teses de Euclides e Aristóteles[8] , que baseavam a sua lógica no Monismo e nos argumentos aristotélicos sobre o conceito da energeia (energia) chamada metafísica[9] . Como o conceito que a ontologia (também chamada de metafísica) podia ser reduzida ou para uma única substância detectável (chamada de teoria da substância) ou um único ser (o conceito do Absoluto)[10] , a lógica aristotélica foi a forma com que, ontologicamente (via metafísica)[nota a], o filósofo helênico (pagão) Aristóteles pôde racionalizar para desconstruir a consciência humana, sua existência e o próprio ser para conseguir representar o seu ponto de vista da Mônade ou "unicidade" (unidade de todas as coisas), como unidade ou unicidade na "ideia" de Deus e a substância de Deus (ousia) como essência ou categoria universal acima do ser finito[11] .

Modalismo é a ideia de Deus como esta única substância ou ser chamado em grego de ousia (São João Damasceno dá a seguinte definição do valor conceitual dos dois termos em sua dialética: Ousia é a coisa que existe por si própria e que não precisa de mais nada para sua consistência. Novamente, ousia é tudo que 'subsiste' por si e que não tem sua existência em outra coisa.)[4] :pg. 51-55. Esta ousia que então emana sequencialmente várias realidades infinitas (hypostasis) e não-criadas. Sabélio foi um dos primeiros teólogos cristãos que aplicou este raciocínio metafísico pagão (lógica aristotélica) no Cristianismo. Ele tentou reduzir cada uma das hipóstases de Deus a simples "modos" da essência de Deus [4] :pg. 44-67, uma única essência ou ousia, removendo assim qualquer distinção entre as existências de deus e a essência de Deus[4] :pg. 44-67.

Posteriormente, estas realidades foram novamente representadas pelos filósofos não cristãos após o aparecimento do Cristianismo, como o neo-platonismo que as representou como se amalgamando e fundindo uma na outra. Para Plotino, a Mônade ou Um (o dynamus, dunamis, potencial, potentia) e o Díade (criador, energeia, ato) ambos emanam a Tríade, Trindade (Espírito ou Anima Mundi). Plotino então reconciliando Aristóteles e Platão em suas obras, as Enéadas. Plotino ensina ainda que a energia ou ato tem que ter força ou potencial para emanar[12] (dunamis ou potential definido como uma vitalidade indeterminada de acordo com A. H. Armstrong[13] ). Estas realidades se fundem em um mundo material (cosmos) ou Universo. Assim, Tomás de Aquino, em seu "Cinco Provas da Existência de Deus", inicia sua prova a partir de raciocínios de filósofos pagãos sobre a existência de um deus criador (demiurgo)[14]

Críticas históricas ao Sabelianismo[editar | editar código-fonte]

As nossas principais fontes para o monarquianismo inicial do tipo modal são Tertuliano (Adversus Praxean), Hipólito de Roma (Contra Noetum - fragmento) e a Philosophumena. Contra Noetum e a perdida Syntagma foram usadas por Epifânio de Salamina (Haer. 57 "Noecianos"), mas as fontes dele para o capítulo 62 (Sabelianos) são menos claras[15] . O maior crítico do sabelianismo foi Tertuliano, que o chamou de "Patripassianismo" em Adversus Praxeas (cap. I), das palavras latinas pater ("pai") e passio do verbo "sofrer", pois o movimento pregava que Deus Pai teria sofrido na cruz. É importante notar que as nossas únicas fontes que sobreviveram sobre o sabelianismo são de autoria de seus detratores. Acadêmicos hoje em dia não concordam sobre o quê exatamente Sabélio e Práxeas ensinaram. É fácil supor que Tertuliano e Hipólito tenham exagerado ou interpretado maliciosamente as opiniões de seus adversários[15] .

Tertuliano parece afirmar que a maioria dos crentes naquele tempo favoreciam o ponto de vista sabeliano da unicidade de Deus[16] . Epifânio de Salamina (Adv Haeres 62), por volta de 375, relata que os aderentes do sabelianismo ainda podem ser encontrados em grande quantidade, tanto na Mesopotâmia e em Roma[1] . O primeiro Primeiro Concílio de Constantinopla (381), no cânone VII, e o Terceiro Concílio de Constantinopla (680), no cânone XCV, declararam que o batismo de Sabélio era inválido, o que indica que a crença ainda existia na época[1] .

Outras[editar | editar código-fonte]

  • Em 225, Hipólito de Roma citou-os sob o nome de "Noecianos" em sua obra Refutação de todas as heresias: E alguns deles concordam com a heresia dos Noecianos e afirma que o próprio Pai é o Filho e que Ele é que foi gerado e sofreu e morreu. Sobre estes, eu voltarei para oferecer uma explicação de maneira mais exata, pois esta heresia deles já deu motivo para muitas maldades.[17] .
  • Dionísio de Roma escreveu uma obra chamada "Contra os Sabelianos", na qual ele afirma:"Na verdade seria justo lutar contra aqueles que, ao dividir e rasgar a monarquia, que é o mais augusto dos anúncios da Igreja de Deus em, como se fossem três poderes e distintas substâncias (hipóstases) e três divindades, destruindo-a. Pois eu ouvi que alguns que pregam e ensinam a palavra de Deus entre vocês professam esta opinião, que de fato é, por assim dizer, diametralmente oposta à opinião de Sabélio. Pois ele blasfema ao dizer que o próprio Filho é o Pai e vice-versa."[18]
  • Tertuliano também escreveu uma obra inteira contra os sabelianos, chamada "Contra Práxeas", onde ele defende ferozmente o trinitarismo, contrapondo suas ideias às de Práxeas, a quem ele faz a seguinte afirmação: "Não, mas você de fato blasfema, pois você alega não somente que o Pai morreu, msa que Ele morreu a morte na cruz. Pois amaldiçoados são os que são enforcados numa árvore - uma maldição que, seguindo a Lei, é compatível com o Filho (no sentido de que Cristo foi feito uma maldição para nós, mas certamente não o Pai); mas como, porém, você converte Cristo no Pai, você também é culpado de blasfêmia contra o Pai."[19]

Influências[editar | editar código-fonte]

Tanto Michael Servetus quanto Emanuel Swedenborg tem sido interpretados como sendo proponentes do modalismo. Ambos descreveram deus como sendo "Uma Pessoa Divina", Jesus Cristo, que tem uma "Alma Divina de Amor", "Mente Divina de Verdade" e "Corpo Divino de Atividade". Jesus, por um processo de união de sua forma humana com o Divino, se tornou inteiramente um com sua alma divina do Pai a ponto de não haver mais distinção de personalidade[20] .

Pentecostais do Nome de Jesus[editar | editar código-fonte]

Os Pentecostais do Nome de Jesus ensinam que o Pai (um ser divino) está unido com Jesus (um homem) como o Filho de Deus. Porém, há diferenças significativas com o modalismo sabeliano, pois eles rejeitam o sequencialismo modal e aceitam completamente a crença de que a humanidade do Filho foi criada (e não é eterna), que foi o homem Jesus que nasceu, foi crucificado e ressuscitou.

Esta denominação cristã acredita portanto que o Cristo (Messias) foi "Filho" apenas quando se tornou humano na terra (encarnando como o homem Jesus), mas que era o Pai antes de ser feito homem. Eles se referem ao Pai como "Espírito" e ao Filho como "Carne". Mas eles acreditam que Jesus e o Pai era essencialmente uma pessoa operando como diferentes "manifestações". Eles rejeitam ainda a doutrina da Trindade como sendo "pagã" e não prescrita na Bíblia e acreditam na "doutrina do Nome de Jesus" no que diz respeito aos batismos. Eles são frequentemente referidos como "modalistas" ou "sabelianos" ou "Só Jesus".

Porém, não é certo que Sabélio tenha ensinado um modalismo dispensacional ou ensinado o que hoje é a doutrina do Pentecostalismo do Nome de Jesus uma vez que todas as suas obras se perderam.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c Views of Sabellius (em inglês) The Biblical Repository and Classical Review, American Biblical Repository. Visitado em 12/02/2011.
  2. Moss, C. B. The Christian Faith: An Introduction to Dogmatic Theology (em inglês). Londres: The Chaucer Press, 1943.
  3. Veja por exemplo Metzger, Bruce M. A Textual Commentary on the Greek New Testament [TCGNT], 2nd Edition (em inglês). Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1994. 647-649 pp.
  4. a b c d Vladimir Lossky. [1] The Mystical Theology of the Eastern Church] (em inglês). [S.l.]: SVS Press, 1997. ISBN 0-913836-31-1. :pg. 51-55. Também editora James Clarke & Co Ltd (1991), ISBN 0-227-67919-9.
  5. Latourette, Kenneth S. A History of Christianity: Revised Edition: Beginnings to 1500 (em inglês). [S.l.]: HarperCollins, 1975. 144-146 pp. vol. Volume I. ISBN 0060649526, 9780060649524.
  6. Hipólito de Roma. Refutação de todas as heresias: Conduct of Callistus and Zephyrinus in the Matter of Noetianism; Avowed Opinion of Zephyrinus Concerning Jesus Christ; Disapproval of Hippolytus; As a Contemporaneous Event, Hippolytus Competent to Explain It. (em inglês). [S.l.: s.n.]. Capítulo 6. vol. IX.
  7. John Henry Cardinal Newmann. Select Treatises of St. Athanasius: In Controversy With the Arians (em inglês). [S.l.]: Longmans, Green, and Co., 1911. rodapé, p. 124 pp.
  8. Hipólito afirma que eles discutiram as escrituras de forma silogística. Euclides, Aristóteles e Teofrasto tinham a admiração deles, sendo que Galeno era por eles adorado. Wikisource-logo.svg "Monarchians" na edição de 1913 da Catholic Encyclopedia (em inglês)., uma publicação agora em domínio público.
  9. Hastings, James. Encyclopedia of Religion and Ethics (em inglês). [S.l.: s.n.]. Capítulo 14. 535 pp. ISBN 978-0-7661-3690-8.
  10. Aristotle's Logic (em inglês) Stanford Encyclopedia of Philosophy. Visitado em 12/02/2011.
  11. Bradshaw, David. Aristotle East and West (em inglês). [S.l.]: Cambridge University Press, 2004. Capítulo Epilogue. 263-277 pp. ISBN 978-0-521-82865-9.
  12. Hancock, Curtis L. Negative Theology in Gnosticism and Neoplatonism (em inglês). [S.l.: s.n.].
  13. Manchester, Peter. The Noetic Triad in Plotinus, Marius Victorinus, and Augustine (em inglês). [S.l.: s.n.].
  14. Tomás de Aquino. Razões na Prova da Existência de Deus: Deus e suas criaturas (em inglês). [S.l.: s.n.]. Capítulo 13. , onde ele diz "Nós iremos colocar priemiro as razões pelas quais Aristóteles procede em sua prova da existência de Deus pelas considerações que se seguem.".
  15. a b Wikisource-logo.svg "Monarchians" na edição de 1913 da Catholic Encyclopedia (em inglês)., uma publicação agora em domínio público.
  16. Tertuliano. Contra Práxeas: Sundry Popular Fears and Prejudices. The Doctrine of the Trinity in Unity Rescued from These Misapprehensions (em inglês). [S.l.: s.n.]. Capítulo 3.
  17. Hipólito de Roma. Refutação de todas as heresias: The Montanists; Priscilla and Maximilla Their Prophetesses; Some of Them Noetians. (em inglês). [S.l.: s.n.]. Capítulo 12. vol. VIII.
  18. Dionísio de Roma. Contra os Sabelianos (em inglês). [S.l.: s.n.]. Capítulo I.1.
  19. Tertuliano. Contra Práxeas: It Was Christ that Died. The Father is Incapable of Suffering Either Solely or with Another. Blasphemous Conclusions Spring from Praxeas' Premises. (em inglês). [S.l.: s.n.]. Capítulo 29. vol. I.
  20. Dibb, Andrew M.T. Servetus, Swedenborg and the Nature of God (em inglês). Lanham, Maryland: University Press of America Inc, 2005.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • Sabelianismo (em inglês) Encyclopædia Britannica. Visitado em 12/02/2011.