Imigração italiana em Minas Gerais

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Navio com italianos no Porto de Santos (1907).

O estado de Minas Gerais foi um dos maiores receptores de imigrantes italianos no Brasil. De fato, apenas São Paulo e Rio Grande do Sul receberam quantidades maiores.[1]

Histórico[editar | editar código-fonte]

População italiana em Minas Gerais[2]
Ano Número
1920 42.943
1940 18.819
1950 11.704
1970 5.227

A imigração italiana para Minas Gerais está inserida no contexto que, a partir de finais do século XIX, ocasionou no movimento migratório de milhares de pessoas para o Brasil, sobretudo dentro da região Centro-Sul do País. No caso da vinda de italianos, o fenômeno está intimamente ligado ao fim do tráfico negreiro (Lei Eusébio de Queirós, de 1850) e à abolição da escravatura (Lei Áurea, de 1888). Desde meados do século XIX, com a proibição da entrada de novos cativos do Continente Africano, a carência de mão-de-obra que passou a se instalar no País fermentou o incentivo à vinda de um número cada vez maior de imigrantes europeus. Além disso, havia a fermentação de um plano, influenciado pelo racismo que pairava entre a elite nacional, de "branquear" o Brasil trazendo imigrantes da Europa.[3]

A Itália passava por grandes dificuldades sociais: miséria e desemprego, um processo industrial que acarretou na marginalização do trabalho e, sobretudo, crise no campo pela superpopulação e falta de terras. Logo após a Unificação Italiana de 1871, o país entrou em um grandioso processo migratório. Aqueles que tiveram o Brasil como destino (cerca de 1,5 milhão, no decorrer de setenta anos) foram encaminhados, em um primeiro momento, à Região Sul em um plano de colonização arquitetado pelo Império do Brasil. Em uma segunda e mais importante etapa, rumaram para os estados de São Paulo e de Minas Gerais para substituir os ex-escravos nas colheitas de café.[4] [5]

Os italianos foram o principal grupo de imigrantes a entrar no Brasil no final do século XIX. Segundo uma estimativa, no ano de 1900 viviam no Brasil 540 mil italianos, ou seja, 3,1% da população do País era nascida na Itália. Para o ano de 1902, o número de italianos teria saltado para 600 mil. O censo nacional de 1920 contabilizou 558.405 italianos (52% dos estrangeiros no Brasil, 71% concentrados no estado de São Paulo). O censo não contabilizou os filhos, netos e descendentes de italianos, pois qualquer pessoa nascida no Brasil era contada como brasileiro, independente de ser filho de estrangeiros.[6] O censo de 1940 inovou ao perguntar aos brasileiros se eles eram filhos de estrangeiros. Neste censo, 1.260.931 brasileiros disseram ser filhos de pai italiano, enquanto que 1.069.862 disseram ser filhos de mãe italiana.[7] Mas estes dados se mostram limitados, pois os netos, bisnetos e outros descendentes de estrangeiros não tiveram a sua origem familiar indagada, apenas os filhos.

Italianos em Minas Gerais[editar | editar código-fonte]

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

A província mineira era a mais populosa do Brasil e, supostamente, teria população suficiente para substituir os ex-escravos. De fato, a Província de Minas Gerais não sofreu grandes consequências com o processo de abolição da escravatura, pois contava com uma população enorme e já em 1887, às vésperas da Abolição, ainda contava com a presença de 191.952 escravos.[8] [9] Pesquisas feitas em áreas cafeeiras mostram que os ex-escravos não abandonaram as fazendas após a abolição e não foram completamente substituídos pelos imigrantes europeus. Muitas vezes continuavam a trabalhar nas mesmas fazendas ou se deslocavam para outras. As fazendas de café de São Carlos, interior de São Paulo, apesar do nítido predomínio de trabalhadores italianos, continuavam com número expressivo de trabalhadores brasileiros, incluindo negros e mulatos. Porém, é notório que os trabalhadores nacionais, em especial os negros e mulatos, após a abolição, sofreram preconceito por parte dos fazendeiros, que muitas vezes preferiam contratar imigrantes europeus do que os trabalhadores nacionais, associados à indolência e à preguiça. A promoção da imigração de europeus para o Brasil, além de ser um fator de atração de mão-de-obra, também estava tingido de elementos racistas, pois o trabalhador nacional era visto como inferior ao europeu.[10] Em 1892, o senador mineiro Melo Franco afirmou:[11]

O futuro de Minas só depende do aumento da população e de braços para o trabalho; e para a aquisição de

braços é que é preciso favorecer a introdução de colonos de raça europeia

Em decorrência desse tipo de mentalidade, Minas Gerais começa a receber imigrantes vindos da Itália sobretudo após 1888 (ano da abolição escravocrata).

O imigrante ideal[editar | editar código-fonte]

Em 1892, visando conhecer a realidade da lavoura, o governo mineiro enviou uma circular às Câmara Municipais, aos conselhos distritais e a diversos proprietários. A circular contava com questões sobre vários aspectos da economia mineira. Na pergunta sobre a nacionalidade de trabalhadores que preferiam, a que recebeu mais votos foi a chinesa. Os chineses possuíam ótima fama como trabalhadores e eram menos exigentes nos seus direitos, sendo bem mais submissos que os europeus, estes já bastante esclarecidos e, consequentemente, reivindicadores.[12] Embora fosse quase consenso que o chinês não era o melhor elemento a ser trazido para o país, ele era o preferido pois se via nele um elemento de fácil submissão, o que representava uma tentativa na perpetuação do sistema escravista. Em 1894, a Câmara Municipal de São João Nepomuceno chegou a conseguir do estado subsídios para a vinda de imigrantes chineses. Porém, o governo brasileiro dificultava a sua entrada no país, vez que apenas imigrantes europeus tinham direito à passagem subsidiada. Por fim, as dificuldades nas relações diplomáticas entre o Brasil e a China e o rompimento da guerra contra o Japão sepultaram as tentativas de atração do elemento chinês.[12]

A segunda nacionalidade mais bem quista na pesquisa foi a portuguesa. Em 1896, uma Agência Fiscal, subordinada à Superintendência, foi instalada em Lisboa, encarregada de fazer propaganda e atrair imigrantes portugueses para Minas Gerais. Porém, o governo português dificultou a atuação da Agência, que não conseguia baixar os preços das passagens de navio. Em consequência, foi inexpressiva a imigração portuguesa para Minas neste período. Os espanhóis, apesar de terem sido o segundo grupo em importância numérica em Minas, depois dos italianos, também nunca chegaram em grandes quantidades. O proprietário mineiro não tinha nenhum interesse no imigrante espanhol, pois este era considerado demasiadamente agressivo e exigente.[12]

Em 1896, a Superintendência entrou em contato com o cônsul-geral do Brasil em Estocolmo, visando atrair imigrantes da Suécia. Porém, as leis suecas impunham pesados ônus sobre agentes de emigração e o projeto foi abandonado. Em 1897, a título de experiência, Minas trouxe 173 imigrantes da Áustria. Porém, os austríacos eram exigentes demais, rejeitando o trabalho assalariado na lavoura de café e exigindo a colocação em núcleos coloniais. Em consequência, a Superintendência suspendeu a imigração desse país.[12]

A imigração alemã, por outro lado, era aceita e vista com bons olhos pelos mineiros. Porém, a legislação alemã era muito rigorosa e não admitia propaganda aberta à favor da emigração em seu território. Isso prejudicava qualquer tentativa de atração de imigrantes da Alemanha.[12]

Em consequência, o único grupo que imigrou em massa para Minas no último quartel do século XIX foi o italiano. Este se adaptava relativamente bem aos costumes do Brasil, era considerado excelente trabalhador, acostumando-se com certa facilidade ao sistema de parceria ou meação. Influenciada por São Paulo, onde a mão de obra na lavoura, quase que exclusivamente da Itália, dava bons frutos, recaiu também sobre o italiano a escolha de Minas Gerais, principalmente sobre o imigrante do Norte da Itália.[12]

Imigração pouco estimulada[editar | editar código-fonte]

A imigração para Minas Gerais não foi tão grande como para outros estados brasileiros. O problema da mão de obra no século XIX, que afetou outras províncias, não foi tão grave em Minas. Isto porque contava com a maior população escrava do Brasil e, com a decadência da mineração, a mão de obra cativa foi desviada para a agricultura, principalmente para a lavoura cafeeira da Zona da Mata. Foram raros os fazendeiros mineiros que imitaram o exemplo de São Paulo e atraíram trabalhadores livres estrangeiros para as suas propriedades. Enquanto São Paulo investia na introdução de imigrantes, em Minas predominou o escravo, com grande concentração nas áreas cafeeiras. Na época da Abolição da Escravatura, quando as fazendas de café de São Paulo já estavam cheias de imigrantes, em Minas ainda se apostava no trabalho escravo e o uso da mão de obra cativa continuou por alguns anos, mesmo após a abolição. Havia um desinteresse tanto do governo mineiro como dos proprietários de terra na atração de imigrantes. O apego à propriedade por parte dos políticos, em geral senhores de terras, era um dos obstáculos ao crescimento econômico do estado.[13]

Destinos dos italianos que imigraram para o Brasil[14]
Destinos Número de imigrantes recebidos
São Paulo 1,2 milhão
Rio Grande do Sul 100 mil
Minas Gerais 60 mil
Espírito Santo 25 mil
Santa Catarina 25 mil
Paraná 20 mil

Os fazendeiros de Minas, ao contrário dos de São Paulo, não se entusiasmaram com a ideia de importar trabalhadores europeus, por diversos fatores. Primeiramente, porque Minas Gerais contava com abundância de mão de obra (tinha a maior população do Brasil no século XIX) e também porque os fazendeiros mineiros ganhavam menos que os paulistas, o que provocou inclusive uma evasão deles para o estado vizinho. Embora Minas contasse com grandes áreas de terras devolutas, o governo nada fazia para ocupá-las. Pelo contrário, as oferecia aos políticos como moeda política, formando grandes latifúndios, principalmente nas áreas mais férteis onde se desenvolveram as plantações de café. Assim, nem os imigrantes nem os nacionais tinham facilidade de acesso à terra, embora os poucos núcleos coloniais que se desenvolveram no estado privilegiavam os estrangeiros.[13]

Até o ano de 1892, Minas investiu nos núcleos coloniais. Pouquíssimos prosperaram, onde havia colonos alemães, italianos e portugueses. Poucos imigrantes chegavam ao estado nesse período. Porém, de 1892 a 1907, o estado investiu pesado fazendo propaganda, sobretudo na Itália e depois em Portugal, visando trazer imigrantes para as lavouras de café e essa foi a época em que mais entraram imigrantes. Com a crise cafeeira, de 1907 a 1930, o crescimento imigratório em Minas se deveu quase que exclusivamente aos núcleos coloniais, mas foram poucos os estrangeiros que continuaram a chegar nesse período.[13]

Em Minas Gerais, os imigrantes se concentraram em apenas três regiões específicas: em Belo Horizonte, que havia sido recentemente inaugurada; no Sul de Minas e na Zona da Mata, regiões que concentravam as plantações de café e possuíam também alguns núcleos coloniais. Assim, os estrangeiros, trabalhando como assalariado ou colono, tiveram algum significado no meio rural de Minas. Por outro lado, seu papel foi insignificante para o processo de industrialização. De acordo com o censo de 1920, cerca de 68% das industrias em São Paulo pertenciam a italianos, enquanto que em Minas eram somente 7%.[13]

Embora Minas Gerais tenha criado inúmeras leis que incentivavam a imigração, elas apenas ficavam no papel, pois o governo pouco fazia para colocá-las em prática. Assim, a imigração foi tímida no estado. Entre 1894 e 1907, a Hospedaria Horta Barbosa registrou a entrada de 52.582 imigrantes em Minas, o auge da imigração no estado. Em comparação, de 1890 a 1899, entraram no estado de São Paulo 735.076 imigrantes.[13] [15] Apesar disso, Minas Gerais se posicionou entre os três estados que mais receberam italianos no Brasil. São Paulo foi, de longe, o estado que mais atraiu imigrantes, mais de 70% do total, recebendo doze vezes mais italianos que o segundo lugar, o Rio Grande do Sul. Minas Gerais apareceu em terceiro, a frente de Santa Catarina, Espírito Santo e Paraná.[14]

Os contratos[editar | editar código-fonte]

Oficialmente, a imigração subvencionada em Minas teve início em 1867 e durou até 1879. Em decorrência dos pífios resultados, foi abandonada e retomada na década de 1880 com a edição de várias leis e regulamentos. Para isso foi criado o Serviço de Imigração e Colonização, foi construída a Hospedaria de Imigrantes em Juiz de Fora e foi expedido o Regulamento 108, que criava a Inspetoria-Geral de Imigração em Juiz de Fora e estabelecia normas para o funcionamento da hospedaria e para a criação de núcleos coloniais.[16]

No dia 25 de maio de 1888, o governo mineiro firmou um contrato com a Associação Promotora de Imigração, sociedade particular formada por cafeicultores e empresários industriais da Zona da Mata, que se comprometia a trazer 30 mil imigrantes para Minas. Ficou acertado que a Associação traria, no primeiro ano (1888), oito mil imigrantes e, nos anos subsequentes (1889 e 1890), outros vinte e dois mil. Ademais, a Lei Provincial nº 3598, de 29 de agosto de 1888, autorizou a celebração de um contrato com Joaquim Machado Fagundes de Mello e Manoel Caetano de S. Lara para que trouxessem 25 mil imigrantes. A vinda de tantos imigrantes nesse curto período de tempo levou o estado a edificar a Hospedaria Horta Barbosa no município de Juiz de Fora, que servia para hospedar os imigrantes em trânsito.[16]

Os imigrantes dificilmente vinham espontaneamente para o estado, daí a necessidade da imigração subvencionada. Como exemplo, no ano de 1896 entraram 6.631 imigrantes, dos quais 6.376 foram subvencionados, ou seja, tiveram sua passagem de navio paga pelo governo. A predominância dos italianos já preocupava o governo, que pedia uma maior diversificação das nacionalidades. Os italianos que se dispunham a imigrar para Minas tinham que responder a uma relação de declarações, que visavam comprovar se tinham realmente a intenção de serem agricultores, o alvo da política imigratória. O governo se preocupava em manter o imigrante no estado, evitando que ele fosse seduzido a ir para outros lugares, como denúncias mostravam que estava acontecendo na própria Hospedaria. O estado estava gastando dinheiro subsidiando a passagem dos imigrantes e queria algo em troca. Portanto, se preocupava em encaminhar o imigrante para uma ocupação, caso contrário ele apenas serveria para engrossar a população de pobres nas vilas e cidades.[16]

O que as autoridades mineiras temiam era gastar dinheiro trazendo imigrantes que acabariam se entregando à mendicância. Em 1897, o Jornal do Comércio relatou um fato que ilustrava esse temor: a polícia foi chamada após uma briga de mendigos italianos causada pela divisão da esmola. A polícia se deparou com quarenta homens, mulheres e crianças italianos que dividiam a mesma casa, em Juiz de Fora, vivendo em situação precária. Para levar os indivíduos à delegacia, o subdelegado prometeu dar pão a todos, o que realmente fez. Essa cena degradante contrastava com outro relato do mesmo jornal, do mês de junho, sobre um grupo de italianos que trabalhava numa propriedade agrícola: "Vimos gente bela e forte, verdadeiros colonos, em sua maioria da província de Ferrara, onde a agricultura está mais adiantada, e os camponeses são sóbrios e robustos". Estes dois relatos tão diferentes mostram a diversidade das situações vividas pelos imigrantes italianos em Minas Gerais.[16]

A Superintendência[editar | editar código-fonte]

O decreto nº 612, de 6 de março de 1893, regulamentou a Lei nº 32. Representou um grande avanço na política imigratória mineira, vez que mudou sua estrutura administrativa. A partir desse momento, o aliciamento de imigrantes deixou de ser feito por meio de contratos no Brasil e passou-se a recrutá-los diretamente na Europa. Para esse fim, foi criada a Superintendência de Imigração na Europa. Minas Gerais foi o primeiro estado-membro a estabelecer no exterior uma repartição de tamanha importância.[12]

A Superintendência não era apenas um comissariado de imigração, mas também uma agência geral que intermediava relações comerciais e industriais entre Minas e a Europa. A sede da Superintendência foi fixada, inicialmente, em Gênova, pois já era da Itália de onde partia o principal fluxo migratório para Minas.[12]

A preocupação inicial da Superintendência foi a seleção dos imigrantes. Antes, quando vigoravam os contratos com particulares, a seleção ficava à critério dos interesses das empresas contratantes. Como elas recebiam propina sobre o número de indivíduos que traziam, apenas se importavam com a quantidade e não com a boa qualidade dos imigrantes que mandavam para Minas. De maneira geral, as companhias de imigração dispunham de agentes e subagentes, todos italianos, que recebiam diretamente os pedidos dos que queriam vir. Eles eram responsáveis por providenciar a documentação e a papelada que garantissem o embarque. Embora houvesse agentes e subagentes honestos, a maioria, no entanto, apenas se importava com a quantidade de imigrantes, pois ganhavam provisão sobre cada imigrante que mandassem. A regra era que o imigrante mal conhecesse o país para onde ia ou que partisse iludido quanto ao ponto de destino que verdadeiramente preferia ou aceitando aparentemente o destino que lhe era oferecido. Visando mudar esse cenário, o governo mineiro tomou a iniciativa de instalar uma repartição pública na Europa.[12]

A existência da Superintendência não foi fácil na Itália, devido sobretudo à burocracia. A lei italiana não permitia fazer as operações sem licença. Era necessário que o governo italiano reconhecesse os funcionários indicados pelo governo mineiro para atuarem no setor, assim como era exigido pagamento de pesados impostos proporcionais ao número de funcionários. A Superintendência não podia exercer diretamente as atividades de propaganda e seleção de imigrantes. Este papel era desempenhado exclusivamente por agentes e subagentes italianos, residentes no Reino.[12]

Ademais, o setor intelectual da sociedade italiana era contrário à imigração. Escritores italianos pintavam com cores sombrias a imigração, sobretudo para o Brasil. A oposição também vinha da Igreja Católica. Se a emigração espontânea não era aceita, a artificial ou provocada era condenada.[12]

A primeira medida tomada pela Superintendência foi esclarecer publicamente as vantagens de se imigrar para Minas Gerais. Isso se deu por meio de constantes publicações em periódicos italianos, mostrando as riquezas naturais, o clima ameno, as vantagens e proteções da lei aos estrangeiros que quisessem fixar-se em Minas. A Superintendência passou a controlar e fiscalizar diretamente a emigração.[12]

Novamente, a preocupação com a seleção do imigrante se tornava essencial. Assim que chegou a Gênova, David Campista, diretor da Superintendência, suspendeu toda e qualquer expedição de indivíduos solteiros, temeroso com a exportação de "elementos perigosos" para Minas Gerais. Era uma tentativa de impedir que indivíduos que a segurança pública italiana tentava afastar da pátria fossem mandados para Minas. Apesar de todo aparato para detectar os imigrantes suspeitos de serem criminosos ou subversivos (anarquistas, socialistas, ladrões profissionais etc) sua fiscalização não era fácil. Estes, assim que chegavam a Minas, tinham o hábito de mudar de nome, acarretando em transtornos para as autoridades brasileiras.[12]

O primeiro grande benefício obtido pela Superintendência foi conseguir baixar o valor das passagens de navio. Por meio de um acordo com a companhia de imigração "La Veloce", o preço fixado foi o mais baixo em matéria de emigração para o Brasil. Outra vantagem do acordo foi a utilização dos vapores da linha do Rio da Prata, que eram melhores do que os destinados ao Brasil, na rota para o Rio de Janeiro. Uma terceira vantagem foi a exclusão dos imigrantes do Sul da Itália, exclusão esta que não existia nos outros estados brasileiros. Isso se mostrou vantajoso, pois os meridionais não se adaptavam bem ao trabalho agrícola.[12]

O fator mais importante consistia na liberdade de ação do serviço, com expedições feitas em datas fixadas, por meio de linhas regularmente estabelecidas e não ao acaso da carga existente. Os resultados foram animadores: em 1895, foram introduzidos 5.507 imigrantes em Minas. Com a mudança de orientação, em 1896 esse número saltou para 17.441. Entre 1894 e 1901, 75 vapores, num total de 213 viagens, transportaram para Minas 47.096 italianos. Porém, a existência da Superintendência foi rápida: o governo mineiro, entrando num processo de retração financeira, se viu obrigado a encerrar as atividades, em 1898.[12]

Os núcleos coloniais[editar | editar código-fonte]

As colônias agrícolas formadas por italianos não tiveram grande relevância no contexto imigratório de Minas Gerais, ao contrário do que ocorreu nos estados sulinos. Em 1898, a colônia de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, contava, sozinha, com a expressiva população de 25 mil pessoas, quase todos italianos.[17] Por outro lado, em 1900, em todo o estado de Minas Gerais as colônias abrigavam apenas 2.882 pessoas. Os núcleos coloniais eram áreas agrícolas nas quais os imigrantes viviam como pequenos proprietários. Esses núcleos apenas prosperaram nas regiões onde não havia plantações de café, como nos estados do Sul e mesmo no vizinho estado do Espírito Santo. Nas regiões cafeeiras, como São Paulo e Minas, as terras disponíveis à colonização eram marginais e escassas e o fluxo migratório era preferencialmente destinado às plantações de café, uma vez que os cafeicultores, que detinham grande poder político e econômico na República Velha, faziam pressão para que o governo fornecesse grande número de trabalhadores para as suas propriedades.[17]

Em 1894, existiam quatro núcleos coloniais mantidos pelo estado em Minas, nos quais viviam 1.920 indivíduos, sendo 1.360 estrangeiros, além de um núcleo particular, o Ferreira Alves, em São João Nepomuceno, que contava com 250 pessoas. A Lei nº 150 de 1896 autorizou a criação de seis novos núcleos, o que permitiu a demarcação de lotes no subúrbio da capital. As colônias visavam a fixação do imigrante ao solo e também, em Belo Horizonte, visavam dar um destino final para a parcela da mão de obra italiana que foi atraída para construir a capital, no período de 1895-1897. Em 1900, os núcleos estavam "em franca prosperidade", e abarcavam uma população de 2.882 indivíduos. Em 1902, existiam oito núcleos coloniais no estado, sendo cinco em Belo Horizonte.[16]

A partir do final do século XIX a corrente imigratória italiana no estado, que antes ia maciçamente para as fazendas de café, passou a ser desviada para os núcleos coloniais. Em 1912 o número de colônias em Minas havia crescido para doze, nas quais viviam 4.725 indivíduos. Ademais, havia dois núcleos federais com 1.487 pessoas, totalizando 6.612 colonos. Nesse ano, o governo mineiro anunciou que havia feito um contrato visando a vinda de 4 mil famílias de agricultores, de diferentes nacionalidades europeias.[16]

As colônias em Minas não eram formadas apenas por estrangeiros, sendo bastante significativa a presença de brasileiros nelas. Embora, em alguns casos, houvesse a preponderância numérica de imigrantes, nunca houve a formação de colônias fechadas, pois nenhuma era constituída exclusivamente por estrangeiros.[16]

Em 1898, existiam quatro núcleos coloniais povoados por italianos em Minas Gerais mantidos pelo Estado: Rodrigo Silva, nas proximidades de Barbacena; Maria Custódia, no município de Sabará; Barreiros, nas proximidades de Belo Horizonte; e São João del-Rei. Estas colônias na capital mineira deram origem, mais tarde, a bairros como Carlos Prates, Santa Tereza, Barro Preto e Savassi. Entre 1894 e 1897, Minas recebeu 61.259 imigrantes, dos quais cinquenta mil eram italianos.[18] Muitos desses imigrantes, após chegarem ao Brasil, eram encaminhados para a Hospedaria Horta Barbosa, hospedaria de imigrantes em Juiz de Fora, onde aguardavam uma proposta de trabalho. Hoje no local se localiza o Segundo Batalhão da Polícia Militar.

Em Belo Horizonte[editar | editar código-fonte]

A presença de italianos em Belo Horizonte remonta ao início da construção da capital. O engenheiro chefe da Comissão Construtora da Nova Capital, Francisco Bicalho, juntamente com o governo do estado, impulsionou a vinda de imigrantes para Belo Horizonte, a partir de 1895. A construção da cidade demandou um exército de operários para a edificação da infraestrutura e dos edifícios públicos e a imigração foi o recurso utilizado por Bicalho para sanar o problema da mão de obra. Uma hospedaria de imigrantes foi erguida às margens do ribeirão Arrudas para receber os trabalhadores. Entre janeiro de 1896 e maio de 1897, passaram pela hospedaria 1.543 indivíduos. Os imigrantes vinham diretamente da Itália ou eram aliciados na Hospedaria Horta Barbosa, de Juiz de Fora.[16]

A imigração italiana para a capital inicia-se com a atração de operários italianos para a sua construção e, depois, continua com a formação da zona colonial composta por cinco colônias ao redor da cidade. Essas colônias formavam o "cinturão verde" para o abastecimento do município, como previsto na Comissão Construtora da Nova Capital. As colônias serviam como forma de povoamento do entorno da capital, como solução para o seu abastecimento e como forma de diversificação da economia. A primeira colônia, Barreiro, foi criada em 1895, mas não vingou e foi abolida em 1899. Outras duas colônias foram criadas em 1896 e implantadas em 1898, sendo Carlos Prates e Córrego da Mata (depois denominada Américo Werneck). As outras três foram criadas em 1899, sendo Afonso Pena, Bias Fortes e Adalberto Ferraz.[16]

A população da zona colonial, que em 1900 contava com 1.137 pessoas, entre brasileiros e imigrantes (sobretudo italianos), se reduziu pela metade em 1904 (625 pessoas), voltando a crescer e atingindo a população de 1.162 indivíduos em 1910. Formavam uma parte significativa da população de Belo Horizonte, haja vista que em 1900 viviam na capital 13 mil pessoas, 17 mil em 1905 e 40 mil em 1912. Assim, a porcentagem da população da zona colonial na capital variou de 8% de todos os habitantes da cidade, em 1900, a 4%, em 1905. Os italianos sempre estiveram como o grupo imigrante mais numeroso em Belo Horizonte. Em 1905, 75% dos estrangeiros na cidade eram dessa nacionalidade e, em 1920, 61%. Portugueses e espanhóis vinham a seguir. É relevante destacar que a nacionalidade mais presente nas colônias foi a brasileira: em 1903, os nacionais compunham 47,5% dos habitantes da zona colonial e, em 1910, 45%. A seguir, vinham os italianos: 37,2% em 1903 e 39,4% em 1910.[16]

Em 1905, 13,8% da população de Belo Horizonte era composta por estrangeiros, sendo que 4% da população total do município se encontrava na zona colonial. Isso mostra que grande parte da população imigrante da capital vivia fora das colônias. A partir dessa data, a população imigrante passou a declinar, pois o fluxo de estrangeiros em Minas foi curto e menos significativo que em outros estados brasileiros. Assim, em 1920, os imigrantes já haviam se reduzido para 8,1% dos habitantes da capital, num total de 4,5 mil indivíduos.[16]

Fazendas de café[editar | editar código-fonte]

Dos italianos que entraram em Minas em 1895 e 1897-1901, 71,7% se dirigiram para as fazendas de café, 12,4% para os centros urbanos, 1,6% para os núcleos coloniais, de 13,5% não se soube o paradeiro e 0,8% faleceu nas hospedarias. Apesar do amplo predomínio do destino rural desses imigrantes, em pouco tempo a tendência foi se invertendo. A situação nas fazendas de café mineiras eram árduas, pois predominava o sistema de parceria com o dono das terras e, muitas vezes, os italianos se viam obrigados a vender para o próprio fazendeiro sua parcela da colheita, que lhes pagava preço inferior ao de mercado. Também, a produção cafeeira não era constante, pois variava de preço e dependia da demanda internacional e era dificilmente substituível por outros produtos agrícolas. Desta forma, muitos dos italianos abandonavam Minas Gerais após um período nas fazendas, muitos deles voltavam para a Itália ou se deslocavam para o Rio de Janeiro ou para São Paulo. Entre aqueles que não abandonaram o estado, muitos se deslocavam para os centros urbanos, pois em 1913 estima-se que 30% dos italianos em Minas já habitavam zonas urbanas, exercendo atividades predominantemente comerciais (gêneros alimentícios, tecidos) ou como operários na indústria, ou no artesanato e construção civil.

Para o ano de 1896, estima-se que viviam 25 mil italianos no estado de Minas Gerais. Este número salta para 55 mil em 1900, caindo para 50 mil em 1910. O censo de 1920 contabilizou 42.843 italianos, caindo para 18.819 no censo de 1940.

Entrada de italianos no Brasil por períodos [19]
Período 1884-1893 1894-1903 1904-1913 1914-1923 1924-1933 1934-1944 1945-1949 1950-1954 1955-1959 Total
Quantidade 510.533 537.784 196.521 86.320 70.177 N/D 15.312 59.785 31.263 1.507.695
Entrada de italianos em Minas Gerais [6]
1894 1895 1896 1897 1898 1899 1900 1901
4.410 6.422 18.999 17.303 2.111 650 21 41

A partir de 1887, por pressão dos fazendeiros, o governo mineiro passa a incentivar a imigração italiana devido à questão da mão-de-obra. O estado bancava a passagem dos imigrantes de navio, mas após a chegada ao Brasil eles tinham que reembolsar dois terços da passagem e os próprios fazendeiros eram movidos a contribuir. Essa situação era pouco atrativa para os imigrantes e Minas não conseguia concorrer com o vizinho estado de São Paulo, que dispendia grande quantia de dinheiro pagando a passagem dos imigrantes. Portanto, em 1893, o próprio estado de Minas passou a ficar encarregado de pagar a passagem integral de navio e, a partir de então, verifica-se um enorme crescimento do fluxo migratório para o estado. Contratos com particulares foram estipulados para garantir um fluxo contínuo de imigrantes. Em 1894 foi criada a Superintendência de Emigração na Europa, escritório este que tinha o objetivo de fazer propaganda na Itália para atrair imigrantes ao estado. A emigração em massa para Minas, porém, durou apenas até 1897, pois dificuldades financeiras obrigaram o estado a suspender a emigração subvencionada. A partir de então, a entrada de italianos cai drasticamente e os poucos que ainda entravam eram na maior parte atraídos por parentes já fixados no estado.[6] No ano de 1895, Minas recebeu apenas 4% dos imigrantes que entraram no Brasil, elevando-se para 14% em 1896 e a 12% em 1897, auge da imigração no estado. A partir de então, o estado fica fora dos destinos principais de imigrantes no Brasil. Os italianos aparecem sempre em primeiro lugar entre os imigrantes entrados no estado. Em um distante segundo lugar figuram os espanhóis, e em terceiro os portugueses.[9]

Perfil do imigrado em Minas[editar | editar código-fonte]

A maioria dos italianos vieram para Minas Gerais para trabalhar em fazendas de café.

O perfil do imigrante italiano não se diferiu muito do "modelo paulista". Houve um predomínio da imigração subsidiada para a lavoura, principalmente a cafeeira, presença majoritária de indivíduos que chegavam em famílias, provenientes de zonas rurais italianas, com destino sobretudo para fazendas de particulares e, minoritariamente, para núcleos coloniais.[20]

O imigrante italiano normalmente vinha para Minas Gerais acompanhado de sua família (com uma média de 3 a 7 pessoas). Houve um ligeiro predomínio de homens e de pessoas solteiras (55,1%), seguidas por casadas (43,3%). O restante era viúvo. Ao contrário do que sucedeu no resto do País, onde predominou o imigrante miserável e analfabeto, o italiano nas Gerais era melhor instruído e mais rico. O italiano permanecia uma média de dez anos no campo e depois migrava para os centros urbanos, como Belo Horizonte e Juiz de Fora, em busca de melhores condições.[9]

Regiões de origem[editar | editar código-fonte]

A emigração italiana para o Brasil incluiu pessoas de diversas regiões da Itália, o mesmo se deu em Minas Gerais. Analisando os imigrantes que chegaram a Leopoldina, na zona da mata mineira, verificou-se que vieram de catorze regiões diferentes da Itália: Lombardia, Friuli-Venezia Giulia, Vêneto, Piemonte, Emília-Romanha, Toscana, Úmbria, Marche, Abruzzo, Campânia, Basilicata, Calábria, Sicilia e Sardenha.[21]

A região de origem do imigrante italiano tinha relevância no contexto emigratório. Com raras exceções, o fazendeiro mineiro não gostava de receber pessoas do Sul da Itália, porque, em sua maioria, não eram agricultores. Os italianos vindos do Sul eram, em grande parte, operários e, embora tenham tido importância na construção da nova Capital, Belo Horizonte, não serviam bem para o trabalho agrícola. Além disso, os italianos meridionais gozavam de certa má fama entre os fazendeiros do Brasil, pois eram considerados agressivos demais. Assim, a presença de elementos da Itália Meridional não era desejável, sendo os italianos do Norte, agricultores, os mais requisitados.[12]

Porém, no período em que os contratos de introdução de imigrantes eram realizados no Brasil, havia pouco empenho dos contratantes na escolha dos imigrantes, visto que eram pagos pela quantidade de pessoas que traziam e não pela sua qualidade. Em consequência, os agentes e subagentes de emigração, interessados apenas no maior número possível de imigrantes, continuavam a lotar os navios com imigrantes do Sul da Itália.[12] Todavia, com o estabelecimento da Superintendência, o governo mineiro passou a recrutar imigrantes diretamente na Itália e suspendeu a participação dos sulistas. Desta forma, apenas imigrantes da Itália Setentrional passaram a ser direcionados para o estado. Esta regra, porém, foi flexibilizada a partir de 1894, com a abertura exclusiva da imigração da Sardenha para Minas. Além de bons agricultores, os sardos não possuíam ligações de parentesco e amizade em outros estados do Brasil, fato que coibia o seu abandono do território mineiro.[12]

Com base numa pesquisa que analisou as 183 personalidades italianas que dão nome a ruas e logradouros de Belo Horizonte, achou-se que 18,03% eram originários do Vêneto; Emilia-Romagna, Lazio e Lombardia tiveram 11,48% cada, Campania e Toscana com 10,38% cada, Calábria com 9,29%, Piemonte com 7,65%, Trentino com 2,18%, Abruzzo, Marche e Sicília com 1,64% cada, Basilicata e Puglia com 1,09% cada e Sardenha com 0,55%. Os dados mostram a grande diversidade das origens dos imigrantes italianos em Minas Gerais embora, como na maior parte do Brasil, o Vêneto despontou como a região com maior presença.[22]

Províncias de origem dos imigrantes entrados em São João del-Rei (1888) [23]
Província Quantidade
Bolonha (Emília-Romagna) 203
Ferrara (Emília-Romagna) 200
Verona (Vêneto) 126
Rovigo (Vêneto) 16
Ravenna (Emília-Romagna) 12
Mântua (Lombardia) 12
Vincenza (Vêneto) 8
Veneza (Vêneto) 7
Cosenza (Calábria) 5
Total 639

Os dados sobre as províncias de origem dos imigrantes que chegaram ao município de São João del-Rei, no ano de 1888, mostram que praticamente todos eram originários do Norte da Itália, especialmente das províncias de Bolonha, Ferrara e Verona. Dos 639 imigrantes entrados naquele ano, 415 eram procedentes da região da Emília-Romagna, ou seja, 65% do total. O resto provinha sobretudo da região do Vêneto e alguns poucos da Lombardia e da Calábria. Devido à supremacia de emilianos, mais tarde o núcleo colonial passou a ser conhecido como "colônia Bolonha - Ferrara".[23]

Grande parte dos imigrantes italianos em Minas Gerais vieram da região da Emília-Romagna. No final do século XIX, essa região enfrentava uma grave crise financeira, com alta taxa de desocupação no meio rural. Muitos braccianti, como eram chamados os camponeses sem terra que tinham que trabalhar em propriedades de terceiros, ficaram sem trabalho e passaram a viver de doações do governo. É neste momento que os estados de São Paulo e de Minas Gerais entraram em ação, fazendo uma agressiva propaganda na região, visando persuadir esses camponeses destituídos de posses a imigrarem para o Brasil e aumentarem os braços para as lavouras de café. Em algumas regiões da província de Bolonha, Minas Gerais conseguiu até ultrapassar São Paulo e atraiu mais imigrantes, como da região do Valle dell'Idice. A passagem de navio gratuita e as promessas de ganharem salário três vezes maior do que na Itália e de poderem se tornar proprietários de terra serviam como atrativo para as pessoas da região.[24]

Quem imigrava eram sobretudo os trabalhadores agrícolas, na maior parte analfabetos, seguidos de pedreiros e artesões. Eram sobretudo homens de idades entre 16 e 50 anos, enquanto a presença de mulheres sozinhas era muita rara, sendo que estas imigravam em núcleos familiares, normalmente acompanhadas do esposo e dos filhos. Alguns imigrantes prosperaram em Minas Gerais, outros não tiveram a mesma sorte e viveram situações desagradáveis. Como exemplo, a história de Paolina Neri. O seu marido, Guglielmo Minghetti, imigrou em 1895 para Angustura, distrito de Além Paraíba, na Zona da Mata Mineira. Ali, trabalhava numa plantação de café e, no ano seguinte, chamou a esposa e as três filhas para se juntarem a ele. Para Paolina, foi uma jornada aventurosa. Na primeira tentativa, acompanhada da sua irmã, Ada, não conseguiu embarcar no navio, pois este ficou em quarentena após uma epidemia de cólera. Todos os passageiros foram mandados de volta para casa. Meses depois, tentou novamente, junto com as filhas, sem a companhia da irmã, que desistiu de imigrar. Após uma viagem fatigosa, chegou ao porto de Santos, onde foi recebida pelo marido. Pouco tempo após a chegada à Minas Gerais, o esposo contraiu febre amarela e morreu em poucas semanas, deixando a mulher sozinha com as três filhas menores. Paolina decidiu retornar para a Itália e, em 1897, já estava registrada novamente em Budrio. No porto de Gênova, em frente à estátua de Cristóvão Colombo, Paolina Neri exclamou, em dialeto bolonhês: "Cristoforo Colombo, azidant a té e a quant t'è dscuert la Merica!" ("Cristóvão Colombo, maldito seja você e quando você descobriu a América!"). Paolina Neri passaria o resto da vida sem comentar sobre a sua "aventura" brasileira.[24]

A região italiana que destinou seu fluxo migratório preferencialmente para Minas Gerais foi a ilha da Sardenha. Esta região contribuiu muito pouco com a imigração para o Brasil, com a exceção dos anos de 1896 e 1897, quando saíram da ilha em direção ao Brasil 5.200 pessoas. Isto ocorreu após agentes de imigração terem percorrido sistematicamente a região, uma vez que aumentavam as denúncias contra a emigração subsidiada no continente e o isolamento da ilha contribuía com o menor conhecimento dessas denúncias, facilitando o aliciamento de imigrantes. Os sardos foram encaminhados sobretudo para Minas, mas poucos fincaram raízes no estado, pois a maioria regressou para a Itália em dois anos.[6]

Regiões de destino[editar | editar código-fonte]

Em Minas Gerais, a distribuição dos imigrantes foi muito concentrada. Os estrangeiros se fixaram quase que exclusivamente na parte Sul do estado, na Zona da Mata e na capital. O Sul de Minas, pelo menos até a Primeira República, poderia ser considerado um enclave paulista. As ligações entre as cidades menores do sul mineiro com municípios de São Paulo eram intensas, podendo considerá-las parte da rede paulista de militância política. A Zona da Mata também era muito parecida com o estado de São Paulo nos planos social e econômico, embora suas relações fossem mais fortes com o estado do Rio de Janeiro e com a Capital Federal. Já a capital, Belo Horizonte, configurava um centro em expansão, onde a presença de trabalhadores italianos foi fundamental para a sua construção.[20]

As relações entre as várias comunidades italianas que se espalharam por essas três regiões mineiras eram muito frágeis. Essas comunidades estavam mais voltadas para o centro paulista, reforçando a ideia da construção de uma linha étnica italiana. A área central era o estado de São Paulo, sendo que diversas regiões ou centros satélites a ela estavam ligados, sendo que o Sul de Minas poderia ser efetivamente considerado como parte integral da própria área paulista.[20]

Porém, a experiência italiana em Minas se diferiu da paulista no aspecto de que, na primeira, os imigrantes mais rapidamente abandonaram o meio rural e partiram para os centros urbanos. Enquanto que em São Paulo havia a presença de outras nacionalidades imigrantes, essas eram praticamente ausentes em Minas pois, no meio urbano, os estrangeiros eram maciçamente italianos, não havendo qualquer tipo de competição com outros imigrantes, o que deve ter favorecido a sua integração.[20]

Em Minas, a configuração dos centros urbanos era mais modesta e a própria dinâmica imigratória contribuiu para que os imigrantes italianos estivessem mais bem representados entre os trabalhadores urbanos mais qualificados, diferente de São Paulo, onde a maioria dos italianos integrava a parcela de trabalhadores desqualificados.[20]

Identidade étnica[editar | editar código-fonte]

Essa diversidade de origens dos imigrantes refletia-se na própria identidade étnica que eles tinham. Não se pode falar de um grupo étnico italiano no Brasil no início da imigração, pois a Itália era um Estado recém-unificado, e os próprios imigrantes, assim que chegavam ao Brasil, tendiam a se identificar mais como pessoas oriundas de uma certa região italiana do que como sendo italianos. Os camponeses e outros extratos inferiores da sociedade italiana (que compunham o grosso dos imigrantes) pouco participaram do processo de unificação do País em finais do século XIX, e a sua consciência de grupo não ia além da área em que viviam. Os brasileiros, porém, desconheciam essas diferenças regionais na Itália e não faziam distinções entre os italianos. Portanto, quando chegavam ao Brasil, os imigrantes ainda tendiam a se identificar como pertencentes a um grupo regional da Península Itálica, porém, através do contato com brasileiros, que não distinguiam esses grupos e tratavam todos como sendo apenas italianos, a identidade regional foi enfraquecendo, sendo substituída por uma identidade nacional italiana.[25]

Imigração italiana para o Brasil (1876-1920)[26]
Região de Origem Número de Imigrantes Região de Origem Número de Imigrantes
Vêneto 365.710 Sicília 44.390
Campânia 166.080 Piemonte 40.336
Calábria 113.155 Puglia 34.833
Lombardia 105.973 Marche 25.074
Abruzzo-Molise 93.020 Lácio 15.982
Toscana 81.056 Úmbria 11.818
Emília-Romagna 59.877 Ligúria 9.328
Basilicata 52.888 Sardenha 6.113
Total : 1.243.633

Casamentos e padrões de miscigenação[editar | editar código-fonte]

Os dados sobre casamentos de italianos em Belo Horizonte mostram que, inicialmente, eram altos os níveis de endogamia dessa comunidade, com uma alta tendência de italianos casarem entre si. No final do século XIX, 74% dos noivos e 95% das noivas casavam com pessoas nascidas na Itália. Esta tendência, porém, foi se dissipando com o decorrer dos anos. Duas décadas depois, apenas 20% dos noivos e 62% das noivas se casavam com compatriotas. Os dados mostram que, desde o início, a comunidade italiana em Belo Horizonte estava relativamente aberta a casamentos com brasileiros ou com imigrantes não italianos, tendência esta que foi se alargando com o decorrer dos anos. O ambiente urbano contribuía para isso, pois nas cidades os imigrantes estavam menos propensos a se fecharem dentro do seu grupo étnico. Ademais, a chegada de novos imigrantes cai drasticamente logo no início do século XX, diminuindo as oportunidades de casamento com outros italianos, o que também contribuiu para a menor incidência de prática de endogamia.[27]

Contribuição italiana para Minas Gerais[editar | editar código-fonte]

Os mineiros descendentes dos cerca de cinqüenta mil italianos que imigraram para as Minas Gerais em fins do século XIX rondam, atualmente, o número de 1,5 milhão, em torno de 7,5% da população do estado. A maior concentração de ítalo-mineiros se dá em Belo Horizonte, no Sul do estado e na Zona da Mata.[28] Os imigrantes e seus descendentes contribuíram ativamente para o desenvolvimento da agricultura, urbanização, da indústria, do comércio e da identidade cultural do estado, inclusive sendo fundadores do Cruzeiro Esporte Clube, antigo Palestra Itália, um dos maiores times de futebol da América do Sul. E em Betim, outra contibuição italiana: uma fábrica da montadora de automóveis Fiat está situada no município vizinho a Belo Horizonte, uma das maiores e mais importantes da empresa fora da Itália.

Galeria de mineiros descendentes de italianos[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. http://www.mre.gov.br/cdbrasil/itamaraty/web/port/consnac/imigra/italiano/index.htm
  2. O papel da migração internacional na evolução da população brasileira (1872 a 1972) (em portuguese) (2008). Página visitada em 2008-07-08.
  3. http://www.culturabrasil.pro.br/abolicao.htm
  4. http://quartacoloniaitaliana.vilabol.uol.com.br/causas_imigracao.html
  5. http://www.mre.gov.br/cdbrasil/itamaraty/web/port/consnac/imigra/apresent/
  6. a b c d Do Outro Lado do Atlântico - Um Século de Imigração Italiana no Brasil
  7. IBGE.Brazilian Census of 1940.
  8. http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/povoamento/index.html
  9. a b c http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/anais/pdf/2002/GT_His_ST4_Botelho_texto.pdf
  10. http://books.google.com.br/books?id=h3tvA1hKFz8C&pg=PA57&lpg=PA57&dq=o+brasil+n%C3%A3o+precisava+imigrantes+negros&source=bl&ots=CqPufBz4aJ&sig=a81QR0TveEhb5DKfq2h2bhGcODQ&hl=pt-BR&ei=JTyqTaepAuaF0QG105T5CA&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=6&ved=0CDoQ6AEwBQ#v=onepage&q=o%20brasil%20n%C3%A3o%20precisava%20imigrantes%20negros&f=false
  11. [1]
  12. a b c d e f g h i j k l m n o p q r MONTEIRO, Norma de Góes.. Imigração e Colonização em Minas Gerais (1889-1930). [S.l.]: Itatiaia Limitada, 1973. -–- p.
  13. a b c d e O Imigrante Português em Belo Horizonte (em portuguese) (2003). Página visitada em 2012-21-07.
  14. a b http://www.labomidia.ufsc.br/Santin/Col_italiana/7_Caminhos_da_ImigracaoItaliana_No_RS-cronicas_21_a_30.pdf
  15. Entrada de imigrantes em São Paulo http://www.scielo.br/img/revistas/eaa/v24n3/a06img02.gif
  16. a b c d e f g h i j k Sob o céu de outra pátria (em portuguese) (2009). Página visitada em 2012-25-06.
  17. Erro de citação: Tag <ref> inválida; não foi fornecido texto para as refs chamadas racial
  18. http://www.cultura.mg.gov.br/?task=interna&sec=5&cat=18&con=790&all_not=y
  19. Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE
  20. a b c d e Biondi, Luigi (2000). "Uma olhar comparativo". Acessado em 20 de julho de 2011.
  21. italianos Barbacena
  22. http://www.ponteentreculturas.com.br/revista/ Revista da Imigração Italiana em Minas
  23. a b Ser italiano em São João del-Rei (em portuguese) (2009). Página visitada em 2012-21-07.
  24. a b SERVETTI, Lorenza. Trenta giorni di nave a vapore - Storie d’emigrazione dalla Valle dell’Idice (1880-1912). Editoria Costa, 2010.
  25. Espaços de ressignificação da identidade italiana na Província de Minas Gerais
  26. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Região de Origem dos Imigrantes Italianos.
  27. [2]
  28. http://www.italiaoggi.com.br/migrazioni/noticias/migra_20061020a.htm