Imigração espanhola no Brasil

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Espanha Hispano-brasileiro Brasil
Hispano brasileño
População total
Regiões com população significativa
São Paulo
Paraná
Minas Gerais
Rio de Janeiro
Bahia
Línguas
Português  · Espanhol  · Língua galega
Religiões
A maioria
Igreja Católica Apostólica Romana
Pentecostais
Neopentecostais
com minorias Judias
Grupos étnicos relacionados
Hispânicos · Portugueses

Hispano-brasileiro é um cidadão brasileiro que tenha ascendentes espanhóis. Também são consideradas hispano-brasileiras as pessoas nascidas na Espanha mas radicadas no Brasil.

Estima-se que haja quase vinte milhões de hispano-brasileiros, descendentes de uma enorme massa de imigrantes chegados ao Brasil entre 1870 e 1960. A primeira cidade fundada por colonos espanhóis na América Portuguesa foi Filipéia em 1585, durante a dinastia filipina (nessa altura os portugueses também passaram a ser espanhóis, como atesta o livro raízes das grandezas do Brasil).

Histórico[editar | editar código-fonte]

Imigração para o Brasil, por nacionalidade e períodos[1]
Nacionalidade Período Total
1884-1893 1894-1903 1904-1913 1914-1923 1924-1933 1934-1944 1945-1949 1950-1954 1955-1959
Alemães 22.778 6.698 33.859 29.339 61.723 N/D 5.188 12.204 4.633 176.422
Espanhóis 113.116 102.142 224.672 94.779 52.405 N/D 4.092 53.357 38.819 683.382
Italianos 510.533 537.784 196.521 86.320 70.177 N/D 15.312 59.785 31.263 1507.695
Japoneses - - 11.868 20.398 110.191 N/D 12 5.447 28.819 188.723
Portugueses 170.621 155.542 384.672 201.252 233.650 N/D 26.268 123.082 96.811 1391.898
Sírios e Libaneses 96 7.124 45.803 20.400 20.400 N/D N/A N/A N/A 189.727
Outros 66.524 42.820 109.222 51.493 164.586 N/D 29.552 84.851 47.599 596.647
Total 979.572 852.11 1006.617 503.981 713.132 N/D 92.412 338.726 247.944 4734.494

A grande imigração espanhola só começou em fins do século XIX, devido ao agravamento dos problemas socioeconômicos na Espanha.

A presença espanhola em terras brasileiras acontece desde o início da colonização do Brasil. Durante a União Ibérica, muitos espanhóis se estabeleceram no Brasil, particularmente em São Paulo. Como consequência, um grande número de brasileiros descende desses pioneiros, já que as famílias espanholas em questão participaram do fenômeno dos bandeirantes.[2]

Porém, só se pode falar de uma efetiva imigração organizada de espanhóis para o Brasil a partir do final do século XIX.

A imigração espanhola no Brasil é quase sempre ignorada ou tratada com obscuridade pela historiografia brasileira. De maneira geral, quando se fala em imigração no Brasil, destaca-se a imigração italiana, enquanto outros grupos de imigrantes, como os espanhóis, são tratados de forma pouco aprofundada.[3] Porém, no contexto da imigração no Brasil, os espanhóis figuravam como o terceiro maior contingente de imigrantes recebidos pelo Brasil, perdendo apenas para os italianos e os portugueses, e bem a frente dos alemães e japoneses. No estado de São Paulo, durante o período da grande imigração, os espanhóis superaram numericamente inclusive os próprios portugueses, ficando atrás apenas dos italianos. Apesar da enorme importância numérica, alguns historiadores salientam que os espanhóis são um grupo "invisível" ou "oculto" para a historiografia brasileira. A historiadora Marília Dalva Klaumann Cánovas acredita que a inexistência, a fragmentação e a dispersão das fontes e da documentação são alguns dos fatores responsáveis pela ausência de trabalhos sobre o imigrante espanhol no Brasil.[3]

Presença durante a colonização[editar | editar código-fonte]

Segundo o IBGE, "o balanço da presença espanhola no Brasil Colonial sugere uma importância bem maior do que o que se lhe tem atribuído".[4] O historiador Capistrano de Abreu, em seu clássico A História do Brasil, de 1883, chegou mesmo a afirmar que os espanhóis não tiveram nenhuma importância na formação histórica brasileira ou, se a tiveram, ela foi menor do que a dos franceses. Para o IBGE, "neste ponto, sem dúvida, o autor exagerou".[4] Durante o século XVI, os espanhóis acompanharam os portugueses durante suas expedições de reconhecimento e exploração do Brasil. Alguns dos marujos e soldados dessas expedições eram espanhóis e alguns deles ficaram no Brasil, tanto que Martim Afonso de Sousa encontrou espanhóis em sua expedição de 1531-1532 à colônia.[4]

"A presença espanhola no Brasil foi histórica e demograficamente densa no extremo-sul", como salienta o IBGE.[4] O pampa, região de fronteira que hoje corresponde a parte do Rio Grande do Sul, Uruguai e da Argentina, foi historicamente uma região de forte presença espanhola. Sendo o pampa uma paisagem física una, onde não havia barreiras naturais que impedissem a movimentação de pessoas (exceto o Rio Uruguai a oeste), havia naquela região uma constante convivência, pacífica ou não, de hispânicos e lusos.[5] Portanto, no período colonial, o perfil da região sulina era mais propriamente português-castelhano-indígena, do que português ou português-indígena apenas.[4]

Durante a União Ibérica (1580-1640), quando Portugal se uniu à Coroa Espanhola, expressivo número de súditos da Espanha se deslocaram para o Brasil. Em São Paulo, a sua presença chegou a ser notável. Porém, acabaram se assimilando no contexto daquela sociedade, muitas vezes casando-se com mulheres indígenas, como era a prática comum na época. A língua espanhola também não era transmitida aos descendentes. Alguns sobrenomes espanhóis ainda podem ser identificados, mas muitos foram aportuguesados ou são indistintos dos lusitanos.[5]

Imigração a partir do século XIX[editar | editar código-fonte]

Os espanhóis estavam entre os "imigrantes mais pobres" do Brasil. O índice de analfabetismo era altíssimo, superando largamente aquele encontrado entre italianos e portugueses. Eram atraídos para o Brasil muitas vezes por meio de propaganda enganosa feita pelos denominados ganchos, que eram agentes que andavam pela Espanha vendendo uma imagem positiva do Brasil com o intuito de atrair imigrantes.[3] No final do século XIX e no início do século XX, as fazendas de café de São Paulo funcionavam com a constante chegada de mão-de-obra barata oriunda da Itália. Mas, frequentemente, tinha-se que buscar outras fontes de trabalhadores em Portugal e na Espanha, sobretudo após a proibição da migração subsidiada pela Itália, em 1902, em decorrência das péssimas condições de trabalho a que eram submetidos esses italianos. Em 1910, a Espanha fez o mesmo, por meio de uma proibição da migração subsidiada para o Brasil. Porém, tal proibição não teve efeito, pois a migração clandestina via Gibraltar se intensificou, tanto que o ano de 1912 foi um auge da migração espanhola para o Brasil.[3]

Esses imigrantes espanhóis, paupérrimos, embarcavam para o Brasil enganados, muitas vezes acreditando que estavam indo para a Argentina, que era o principal país receptor de imigrantes da Espanha na época. Aliás, a Argentina sempre foi um problema para a política imigratória brasileira, pois era o destino preferencial de muitos estrangeiros. Assim, muitos imigrantes para lá se deslocavam após chegarem ao Brasil e perceberem que não havia boas perspectivas no País. "Na Argentina não ocorre como no Brasil, onde, além de oferecer graves inconvenientes para a saúde, os naturais têm ódio letal pelos estranhos" escreveu uma autoridade diplomática espanhola, em 1911.[3] Após a Proclamação da República, o governo brasileiro tinha como meta fazer o trabalho assalariado criar raízes no Brasil. O uso da mão-de-obra assalariada do imigrante europeu era um meio de se obter isso. Porém, após séculos de escravidão e com uma massa de homens livres pobres e agregados, até o governo brasileiro se demonstrava cético em relação à adoção de novos comportamentos e a uma mudança de mentalidade. Desta forma, o trabalhador no Brasil era submetido a condições péssimas de trabalho. Muitos imigrantes decepcionados com o Brasil também tinham vergonha de voltar para a Espanha, pois se sentiam humilhados de retornar mais pobres do que saíram. Assim, de 1887 a 1914, dos espanhóis que abandonaram oficialmente o estado de São Paulo, 65% voltou para a Espanha, enquanto que 30% rumou para a Argentina ou para o Uruguai, 4% para outras regiões brasileiras e 1% foi para os Estados Unidos. Porém, a maioria dos espanhóis não tinham condições financeiras de abandonar o estado, e buscavam ajuda no Consulado, candidatando-se a uma vaga de repatriação gratuita.[3]

O impacto negativo que os imigrantes tinham com o Brasil se dava imediatamente à chegada à lavoura cafeeira, ao perceberem que eram péssimas as condições de trabalho e que as remunerações eram baixas. Assim, esses imigrantes vagavam de fazenda em fazenda em busca de melhores salários, para poderem retornar à Espanha (o que poucos conseguiram) ou para acumularem capital com o objetivo de comprar um pedaço de terra. Muitos percebiam que era inútil permanecer no campo, e viam na cidade de São Paulo uma alternativa para tentar melhorar de condição, seja trabalhando na indústria como operários, ou na área de serviços.[3] A cidade de São Paulo foi o destino principal desses imigrantes desiludidos com as péssimas condições no campo. Eram imigrantes de diferentes nacionalidades que mudaram a composição étnica da cidade. Entre 1886-1890, os estrangeiros compunham apenas 22,1% da população da cidade. Em apenas três anos, os estrangeiros já representavam 54,7% da população de São Paulo. No recenseamento de 1920, São Paulo era uma "Babel" na qual viviam pessoas de 33 diferentes nacionalidades. Em direção à cidade de São Paulo afluía grande número de estrangeiros, que vagavam pela cidade à procura de emprego. Essa massa de desempregados vivia à cata de qualquer emprego que surgisse, para garantir sua sobrevivência. Esses milhares de estrangeiros desempregados, denominados "vagabundos" pelas autoridades brasileiras, vivendo na miséria, causavam desconforto na população nativa, tidos como uma ameaça à "ordem pública". Grande número de imigrantes estavam frequentemente envolvidos em crimes e delitos cometidos em São Paulo, além de viveram da mendicância.[3] Um relatório apresentado pelos Chefes da Polícia ao Presidente da Província salientava que "os espanhóis e os italianos deviam estar sempre sob as vistas da Polícia, pois eram peritos no vício". Só no ano de 1893, dos 368 inquéritos policiais em andamento na cidade de São Paulo, 268 eram por delitos cometidos por imigrantes. Em 1894, 4.487 pessoas foram presas em São Paulo, das quais 1903 eram italianas, 1346 brasileiras, 550 portuguesas e 357 espanholas.[3]

Integração no Brasil[editar | editar código-fonte]

A transição dos espanhóis de imigrantes paupérrimos para os estratos médios e altos da sociedade brasileira não teve um modelo típico. Alguns conseguiam acumular capital no campo e aplicavam na cidade em pequenos negócios. Outros se dedicavam à construção civil, trabalhavam na indústria ou como profissionais liberais. Eis que alguns imigrantes, que chegavam na penúria, depois de anos conseguiam ascender socialmente. O sonho de voltar para a Espanha era enterrado, a medida que os filhos nasciam no Brasil e que na terra de acolhimento conseguiam acumular capital suficiente para prover seu próprio sustento e de sua família.[3]

O Brasil como destino imigratório[editar | editar código-fonte]

No final do século XIX, com o desenvolvimento da tecnologia naval, milhares de pessoas saíram da Europa em busca de melhores condições de vida nas Américas. No caso da Espanha, a imensa maioria rumava para suas colônias ou ex-colônias, pelos laços históricos e culturais que mantinham e, por esse fato, os destinos preferidos dos imigrantes espanhóis eram a Argentina e Cuba. Entre 1882 e 1930, 3.297.312 espanhóis emigraram, dos quais 1.593.622 para a Argentina e 1.118.968 para Cuba. Para o Brasil imigraram 567.176 espanhóis no mesmo período.[6] Observa-se, portanto, que no Continente Americano apenas a Argentina e Cuba receberam mais imigrantes espanhóis que o Brasil no período em questão. Em meados do século XX, Cuba deixa de atrair imigrantes espanhóis e é substituída pela Venezuela que, ao lado do Brasil e da Argentina, são os únicos países americanos para os quais ainda havia uma migração de espanhóis. A partir da década de 1960 os espanhóis passaram a emigrar cada vez mais para outros países da Europa.[6]

O que realmente contribuiu para haver uma migração em massa de espanhóis para o Brasil foi o fato de o governo brasileiro subvencionar a passagem de navio. Viajar com a passagem gratuita era muito vantajoso, pois não era fácil bancar uma viagem imigratória. Assim, pode-se concluir que os espanhóis que emigraram para o Brasil estavam entre os mais pobres, aqueles que não tinham condições de comprar uma passagem para ir para a Argentina, Cuba ou para o Uruguai.[6] Isso se evidencia comparando-se as taxas de analfabetismo entre os espanhóis na Argentina e no Brasil. Na Argentina, a porcentagem de imigrantes espanhóis alfabetizados era mais elevada do que no Brasil. Embora o fato de falarem a mesma língua tenha contribuído para uma alfabetização após chegarem a Argentina, também pode-se concluir que o imigrante espanhol na Argentina tinha mais capital do que aquele no Brasil.[6]

Os galegos na cidade e os andaluzes no campo[editar | editar código-fonte]

Os primeiros espanhóis chegaram ao Brasil na década de 1880. Até o final do século XIX, houve um grande fluxo de galegos, que se fixaram principalmente em centros urbanos brasileiros de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Devido à grande semelhança entre galegos e portugueses, aqueles eram muitas vezes confundidos com estes.

No começo do século XX passaram a predominar os andaluzes. Com a decadência da imigração italiana no Brasil, os espanhóis foram atraídos aos milhares para o Brasil a fim de substituir a mão-de-obra italiana no café.

Formou-se rapidamente uma comunidade espanhola de operários, trabalhando nas nascentes indústrias brasileiras. Cerca de 78% dos espanhóis ficaram concentrados no estado de São Paulo. Estima-se que, entre 1884 e 1959, mais de 680 mil espanhóis imigraram para o Brasil. Apenas os portugueses e italianos chegaram em maior número.

A Guerra Civil Espanhola formou um novo fluxo de imigrantes que fugiram para o Brasil. O crescimento da economia espanhola após a guerra fez o número de imigrantes cair e passou a ser pouco significativa.

Perfil dos imigrantes[editar | editar código-fonte]

A imigração espanhola para o Brasil foi um movimento migratório familiar. Ao contrário do que sucedeu na vizinha Argentina, onde a maior parte dos imigrantes espanhóis eram homens que chegavam sozinhos, para o Brasil foi direcionada uma migração de grupos familiares. Isso se explica pelo fato de que grande parte dos imigrantes tiveram suas passagens de navio subvencionadas pelo governo brasileiro, que dava preferência por atrair famílias ao invés de indivíduos avulsos.[7] Assim, a imigração espanhola para o Brasil se diferenciava muito da imigração portuguesa. Dos estrangeiros que deram entrada no porto de Santos entre 1908 e 1936, apenas 18,4% dos espanhóis chegaram avulsos (sem família). Em comparação, 53,4% dos portugueses chegaram sozinhos e 42,3% dos italianos também o fizeram. O contingente de crianças entre os imigrantes espanhóis também era especialmente grande. Neste período, 31,4% dos espanhóis que entraram por Santos tinham menos de 12 anos de idade, a maior taxa entre todos os imigrantes. Em comparação, entre os portugueses 18,9% tinham menos de 12 anos, e entre os italianos essas crianças eram 21,8% dos que entraram. Em relação às taxas de analfabetismo, os espanhóis lideravam: 65,1% dos espanhóis maiores de 7 anos de idade eram analfabetos, comparado a 51,8% dos portugueses, 31,6% dos italianos, 9,9% dos japoneses e somente 3,9% dos alemães.[8]

Regiões de origem dos imigrantes[editar | editar código-fonte]

Essa imigração é composta quase que exclusivamente por famílias de camponeses, emigração de desterro e dezenraizamento definitivo, por parte da gente que, seduzida por passagens gratuitas, se submetem a uma vida dura e pobre, quase sempre nas fazendas
trecho do texto dos Boletines de la Inspección de Emigración.[6] 1927

Cerca de metade dos imigrantes espanhóis vieram da região da Andaluzia, no Sul da Espanha. Também foram expressivos os fluxos oriundos da Galiza e de Castela e Leão.

Imigração espanhola no Brasil - Porcentagem por região [1]
Região 1893-1902 1903-1912 1913-1922
Andaluzia 43,6% 53% 50%
Aragão 0,8% 2,0% 1,4%
Astúrias 1,1% 0,4% 0,7%
Baleares 0,2% 0,4% 0,3%
País Basco 2,9% 1,0% 1,0%
Ilhas Canárias 2,0% 0,7% 0,3%
Cantabria 0,3% 0,1% 0,2%
Castela e Leão 10,4% 12% 10,6%
Castela-Mancha 1,1% 1,2% 3,0%
Catalunha 6,9% 2,3% 1,8%
Estremadura 0,7% 1,2% 6,2%
Galiza 22,6% 14,5% 10,3%
Madrid 1,9% 0,7% 0,7%
Múrcia 0,7% 5,2% 8,5%
Navarra 1,3% 2,0% 0,9%
Valencia 2,1% 1,9% 1,8%
Rioja 0,7% 0,6% 0,9%
Outras 0,7% 0,8% 1,4%

A imigração espanhola para o Brasil foi tímida durante quase todo o século XIX. Os poucos que chegavam eram sobretudo galegos, homens sozinhos que emigravam por conta própria e se fixavam nos centros urbanos brasileiros. Um perfil imigratório até então bastante similar ao dos vizinhos portugueses.[6] [9] A vinda de imigrantes da Espanha para o Brasil foi, portanto, um movimento migratório tardio, que só se intensificou a partir da década de 1890, quando o governo brasileiro passou a despender grande quantia de dinheiro subsidiando a passagem de famílias espanholas com destino às zonas cafeeiras de São Paulo. A imigração subvencionada funcionou sobretudo na Andaluzia, região com grande número de camponeses pobres. No porto de Gibraltar funcionavam duas agências encarregadas de fazer propaganda e recrutar imigrantes. Muitos espanhóis emigravam utilizando portos alheios, no caso das pessoas do Norte e Centro o porto de Leixões e o porto de Lisboa, e no caso dos sulistas o porto de Gibraltar.[6] Na região da Andaluzia formou-se um verdadeiro mecanismo de propaganda e recrutamento de imigrantes, onde muitos eram ludibriados, acontecendo "uma sucessão de explorações e amoralidades". Seduzidos pelos ganchos, emissários enviados às províncias com o intuito de persuadir as pessoas a emigrarem para o Brasil, "sempre com o chamariz da passagem gratuita e com base numa propaganda persistente, repetitiva e sugestiva", esses ganchos conseguiam convencer milhares de pessoas a emigrar, o que não era difícil, haja vista o grande número de pessoas que viviam na penúria naquela região espanhola. Essas famílias eram levadas até o município de San Roque, de barco ou de trem. De lá, tinham que caminhar por cerca de três horas até chegar à região de La Línea de la Concepción, e de lá cruzavam o estreito de Gibraltar para pegar um navio que os levaria para uma vida nova no Brasil. [6]

A imprensa espanhola frequentemente fazia denúncias desse tráfico de pessoas para o Brasil, tanto que o Consejo Superior de Emigración tentou deter esse fluxo com várias medidas. Em 1910, proibiu a imigração subsidiada de espanhóis para o Brasil. Em 1912, por Ordem Real, as atividades dos ganchos foram proibidas e, em 1914, criou o departamento de inspeção de emigração em Gibraltar e tribunais em La Línea e em Algeciras. Por fim, em 1924, a lei de emigração estabeleceu pena de prisão para quem estivesse envolvido com agências de emigração, com recrutamento, propaganda e expedição de passagens ou reservas de viagem.[6]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
  2. http://buratto.org/paulistana/
  3. a b c d e f g h i j Marília Dalva Klaumann Cánovas. IMIGRANTES ESPANHÓIS NA PAULICÉIA. [S.l.]: EDUSP, 2010. 600–600 pp.
  4. a b c d e http://www.ibge.gov.br/brasil500/index2.html
  5. a b Fernando A. Novais. História da Vida Privada no Brasil. [S.l.]: Companhia das Letras, 1997. 523–523 pp.
  6. a b c d e f g h i FAUSTO, Boris. Fazer a América: a imigração em massa para a América Latina.
  7. http://www.unizar.es/eueez/cahe/bsa.pdf
  8. http://www.unizar.es/eueez/cahe/volpiscott.pdf
  9. A integração social e económica dos imigrantes portugueses no Brasil nos finais do século xix e no século xx